NADA FICA SEM RESPOSTA
ELISA MASSELLI

O livro conta a histria de Mrcia, uma alta executiva que sempre conseguiu tudo o que quis, no se importando com os meios usados nem com as pessoas que foram deixadas 
pelo caminho, entre elas sua me, pela qual sentia vergonha e averso indescritvel. Mrcia usou de toda artimanha para ter o que julgava ser seu por direito, at 
se envolver com foras desconhecidas. Essas foras podem nos ensinar que existe uma Lei Maior que nos comanda. E, apesar de todas as dvidas, saberemos que Nada 
fica sem resposta.

RELEMBRANDO O PASSADO

Mrcia entrou na sala de escritrio com o corao batendo descompassado. Estava feliz: havia sido promovida mais uma vez. Olhou  sua volta e, sorrindo, pensou: 
Quantas vezes sonhei com este dia... Sentou-se confortavelmente em uma enorme cadeira em frente a uma grande mesa e continuou pensando: Sempre soube que este dia 
chegaria, mas, mesmo assim, no sei explicar a emoo que estou sentindo. S de pensar que agora, do primeiro escalo da empresa, estou ocupando o terceiro, fico 
muito feliz, mas ainda no totalmente. S ficarei mesmo muito feliz quando estiver ocupando o primeiro. Desde muito nova sonhei com uma vida profissional triunfante. 
Lutei e estudei muito para isso. Domino quatro idiomas perfeitamente. Sei que algumas vezes no tive escrpulos para afastar quem estivesse em meu caminho. Sempre 
fiz e farei qualquer coisa para alcanar meu objetivo. Diante daquela mesa, sentindo-se vitoriosa, comeou a relembrar seu passado. Meu pai era operrio em uma tecelagem. 
Ganhava o suficiente para comprar alimentos e pagar o aluguel. Meu irmo, seis anos mais novo, vivia como eu, sem brinquedos ou passeios, muito menos, roupas novas. 
As roupas que usvamos eram doadas  minha me por patroas para as quais, todos os dias da semana, fazia faxina. Levantou-se e caminhou at uma janela de onde tinha 
uma bela vista da cidade. Abriu as cortinas, olhou para fora e a luz do sol entrou, iluminando o ambiente. Voltou-se e tornou a contemplar aquela sala que por muito 
tempo fora sua meta. Finalmente, estou nesta sala e esta mesa agora  minha. No foi difcil chegar at aqui. Alis, como tudo em minha vida, bastou apenas eu desejar 
algo para que acontecesse. Tornou a ver-se novamente criana e imediatamente se lembrou de como era sua vida: Minha me levantava muito cedo, preparava o almoo 
que eu deveria aquecer. Eu e meu irmo comamos e voltvamos a brincar. Todos os dias, ela saa s seis da manh e voltava l pelas sete da noite. Mesmo assim, o 
que ela e meu pai ganhavam no era suficiente para dar luxo  famlia. Enquanto criana, no entendia bem o que significava dinheiro ou posio, brincava com outras 
crianas que tinham a mesma vida de pobreza. Tudo era normal em minha vida, mas,  medida que fui crescendo, e j na escola, percebi que havia diferenas. Algumas 
das crianas vinham trazidas por seus pais, em carros bonitos. Suas roupas eram perfeitas; as minhas, por serem doadas, eram grandes ou apertadas. Quantas vezes 
chorei para no ir  escola por no ter roupas novas e bonitas. Nessas horas minha me sempre dizia: - Minha filha, no se preocupe com isso. So apenas roupas. 
Voc no vale pelo que veste, mas por quem . Estude o mais que puder e, assim, poder um dia ter tudo que deseja. Procure sempre ser boa, que Deus lhe dar tudo 
de que precisar para ser feliz. Eu no entendia aquilo e perguntava:
- Como a senhora pode dizer que, se eu for boa, Deus me dar tudo, mame? Ser que existe mesmo um Deus? Que Ele d tudo que a gente precisa? A senhora  uma pessoa 
que vive ajudando todo mundo, mas mora aqui neste lugar e tem de trabalhar muito. Se Deus realmente existe, no lhe deu tudo que precisava para ser feliz. 
- Como no? Tenho tudo de que preciso para ser feliz. Ele me deu um companheiro a quem amo e por quem sou amada; deu-me voc e seu irmo, que completam minha felicidade 
e so as coisas mais preciosas que algum poderia querer. Ele me deu sade e tambm trabalho, para dele tirar nosso sustento. De que mais preciso? O que voc deve 
fazer  estudar e ter uma boa profisso. 
Eu no entendia muito bem o que ela dizia, mas gostava muito de estudar. Estudava muito e aprendia com facilidade, por isso, era sempre a primeira da classe. Recebia 
muitos elogios e medalhas. Aquilo me tornava superior aos outros alunos. Sentia-me feliz, porque, mesmo no tendo dinheiro nem roupas novas, eu era notada por minha 
inteligncia. Sempre que chegava a casa trazendo no peito uma medalha, minha me, orgulhosa, me abraava e dizia:
- Estou feliz por voc. Sei que, se continuar assim, ter da vida tudo o que sonhar e desejar.
Sempre que me dizia essas coisas ou me abraava, eu ficava preocupada e pensava: no sei por que no consigo acreditar em suas palavras. No sei por que, quando 
ouo minhas amigas dizerem que gostam muito de suas mes, eu no consigo sentir esse amor. S sei de uma coisa: detesto esta pobreza, esta casa. Principalmente, 
esta me! Quando crescer, vou fugir para bem longe dela e de tudo aqui. Quando completei doze anos, j era uma mocinha. A foi que, realmente, percebi a diferena 
entre mim e algumas de minhas amigas: elas no me convidavam para sair ou ao menos ir at suas casas. Sabiam que eu no tinha boas roupas para acompanh-las. Aos 
poucos, fui me isolando e odiando todas elas. Pensava: Um dia serei muito rica. Terei todas as roupas que quiser e irei morar em um lindo lugar. Uma noite, estvamos 
em casa esperando meu pai chegar do trabalho para o jantar. Ele chegava todos os dias pontualmente s oito horas. Minha me chegava antes. Enquanto ela preparava 
o jantar, eu e meu irmo tomvamos banho e fazamos  lio de casa. Naquela noite, j eram nove horas e ele no havia chegado. Notei que minha me comeara a ficar 
nervosa: 
- Deve ter acontecido algo com ele... no costuma chegar fora de seu horrio. 
Eu e meu irmo tambm comeamos a ficar preocupados. Ela nos fez jantar e nos colocou na cama. Por sermos crianas e aps termos passado o dia inteiro brincando, 
logo adormecemos. No sei a que horas acordei ouvindo minha me falar com algum e, em seguida, comear a chorar. Levantei-me e fui ver o que estava acontecendo. 
Cheguei ao momento em que um policial dizia:
- Sinto muito, mas ele no resistiu. O motorista fugiu sem prestar socorro, mas ns o encontraremos.
Minha me, chorando, desesperada, perguntou:
- Onde ele est? Preciso v-lo!
- Est no Instituto Mdico Legal. Posso lev-la at l. A senhora precisar reconhecer o corpo.
- Obrigada, quero sim. S vou ver minhas crianas, pedir para minha vizinha ficar com elas e irei em seguida. 
Ela estava indo para nosso quarto quando me viu ali parada. Ajoelhou-se e abraou-me, dizendo: 
- Mrcia, tenho de sair. Papai sofreu um acidente. Vou pedir para Cida ficar com vocs. Volte a dormir. 
Sem entender o que estava acontecendo, perguntei: 
- Por que a senhora est chorando? 
- S estou assustada, no se preocupe. Volte a dormir. Amanh, explicarei tudo. 
Eu estava com sono. Achei melhor seguir seu conselho e voltar para a cama. Pela manh, acordei com vozes que vinham da cozinha. Levantei para ver o que estava acontecendo. 
Muitas pessoas estavam com minha me, que chorava sem parar e dizia: - Meu Deus! Sei que tenho de me conformar, s no sei como farei para viver sem ele. Que ser 
de todos ns? Minhas crianas so to pequenas... O que vou fazer? Fiquei assustada ao ouvir aquilo e com todo aquele movimento de pessoas, algumas chorando tambm. 
Queria ir at minha me, mas no conseguia. No sabia o que havia acontecido, mas sentia ser algo muito grave. Nunca tinha ouvido falar em morte, muito menos dentro 
de minha famlia. Comecei a chorar. Quando minha me percebeu minha presena, imediatamente enxugou as lgrimas e abraou-me, dizendo: 
- Sei que est assustada com tudo isso, Mrcia. Precisa saber que papai partiu e nunca  mais vai voltar. Estamos os trs sozinhos. 
Chorando por v-la chorar, perguntei: 
- Para onde ele foi mame?
- Foi para o cu, para junto de Deus.
- Deus? Que Deus? Aquele que levou meu pai? No acredito em Deus, nem na senhora. Quero ver meu pai.
- No fale assim, minha filha. Deus sempre sabe o que faz. Seu pai vir logo mais aqui para casa e poder lhe dar o ltimo adeus.
Sa dali e voltei para o meu quarto. Deitei-me na cama e parei de chorar. Sentia muito dio de tudo e de todos. Meu pai nunca fora de falar muito. Fazia horas extras 
todos os dias para complementar o salrio, vivia sempre cansado e preocupado. Embora no o conhecesse muito bem e tambm no gostasse dele, sentia que o preferia 
 minha me. Ela, sim, eu detestava. Algumas horas depois, ele chegou. Ao v-lo naquele caixo, cercado por flores, meu corao se apertou. S a percebi que havia 
perdido algum que fora um protetor, algum que realmente se preocupava com meu bem-estar. Diante do caixo, meu dio por Deus aumentou. Falei baixinho:
- Deus, est me ouvindo? No sei se existe, mas se existir deve saber que o odeio e que nunca, nunca em minha vida vou lhe fazer um pedido, qualquer que seja. 
Muitas pessoas vieram. Minha me, embora no tivesse muito dinheiro, sempre ajudava as pessoas que tinham menos. Passava os fins de semana costurando e reformando 
roupas para dar aos pobres. Eu a odiava mais ainda por isso. Acreditava que, em vez de ficar ali fazendo aquilo, deveria preocupar-se em comprar roupas novas para 
seus filhos e levar-nos para passear. Fiquei alguns minutos diante do caixo, depois fui para o quarto e no sa mais, nem mesmo para ir at o cemitrio. Mais tarde, 
minha me voltou acompanhada por vrias amigas. Ficaram um bom tempo conversando. Aps sarem, ela bateu  porta do quarto. No respondi. Ela abriu a porta e entrou. 
Eu estava deitada, com o rosto embaixo das cobertas. Ela descobriu meu rosto e passou a mo por meus cabelos, dizendo:
- Mrcia, minha filha, posso imaginar como est se sentindo. Agora, est tudo terminado, pode sair. 
- No quero sair. Vou ficar aqui trancada para sempre. No sabe o que sinto. No quero falar nunca mais com a senhora ou com qualquer outra pessoa. 
Ela no insistiu. Beijou minha testa e voltou para a cozinha. Estava triste, mas era uma mulher muito forte. Embora eu no gostasse dela, nunca deixei de reconhecer 
essa virtude. Dois dias depois, ela voltou a trabalhar. A partir de ento, viveramos somente de seu salrio; portanto, as coisas se tornariam muito mais difceis. 
Aos poucos fui ficando cansada do quarto e comecei a sair. Ela no dizia nada, apenas me olhava com os olhos tristes. Quando a vi aps muitos dias, percebi que estava 
muito abatida e que seus olhos estavam vermelhos de chorar, mas nem assim consegui acreditar que estivesse sofrendo. Eu mesma no entendia por qu. Ela sempre fora 
uma me boa e dedicada, mas eu no a suportava, achava que ela mentia constantemente. At seus carinhos me pareciam mentirosos e fingidos. Mrcia, naquele momento, 
sabendo que estava conseguindo tudo com o que sonhara, sorriu ao lembrar-se de seu passado. O interfone tocou. Ela voltou  realidade. Balanou a cabea, como querendo 
afastar aqueles pensamentos. Atendeu:
- Dona Mrcia, o doutor Fernando pede sua presena. 
- Est bem. Irei em seguida. Desligou o aparelho e continuou pensando: No h motivo para pensar em tudo que se passou em minha vida. Hoje, sou uma mulher realizada 
profissionalmente. Tenho um timo salrio, com o qual posso comprar tudo com o que sempre sonhei e muito mais. Nunca sofri para conseguir nada. Tudo foi sempre muito 
fcil em minha vida. As coisas foram acontecendo. Quando assim no foi, corri atrs e fiz acontecer. No importa o que tive de fazer, ou quantas pessoas tive de 
afastar para chegar at aqui. O importante  que cheguei onde estou e irei mais longe ainda. 
Levantou-se, passou a mo pelos cabelos, arrumou a saia. Aprendeu com dona Leonor a vestir-se muito bem. Sabia como uma executiva devia vestir-se e comportar-se. 
Encaminhou-se  sala do doutor Fernando, seu superior, pensando: No tenho motivos para no gostar dele, mas est em meu caminho. Ser o prximo que terei de afastar. 
Embora me trate muito bem, no posso confiar. Preciso estar sempre alerta para no ser enganada. Entrou na sala. Ele estava sentado em uma cadeira atrs da mesa. 
Ela, sorrindo, falou:
- Bom-dia, doutor Fernando, est precisando de meus servios?
- No, s queria cumpriment-la por sua promoo. Quero dizer-lhe que estou feliz, pois sei que juntos faremos um bom trabalho. Confio em voc inteiramente. 
- Obrigada, senhor. Pode ter certeza de que farei sempre o melhor para a empresa. E estarei a seu dispor para tudo de que precisar. Sei que, com essa promoo, minhas 
obrigaes aumentaro, mas no me preocupo. O senhor me conhece e sabe muito bem que no tenho medo do trabalho. Estarei aqui sempre que for necessrio. 
- Tem mostrado, durante todos estes anos, que  competente e responsvel, por isso no me preocupo.  tarde, teremos uma reunio com a diretoria. Precisamos mostrar 
a eles os avanos de nosso departamento. Poderia providenciar os documentos necessrios?
- Pode ficar tranqilo. Na hora estar tudo pronto. 
Mrcia saiu da sala com um sorriso irnico no rosto e pensando: Terei de imaginar um meio de afast-lo. Ainda no sei o que farei, nem de que maneira. Mas, com certeza, 
como das outras vezes, pensarei em algo. Voltou para sua sala, sentou-se e comeou a olhar alguns papis. Sabia ser importante ter tudo sob seu controle. No confiando 
em ningum, no delegava poderes e por isso trabalhava muito. Era importante ter todos os documentos prontos na hora da reunio. O interfone tocou. Ela atendeu: 
- Dona Mrcia,  o senhor Osvaldo.  
- Est bem, pode passar a ligao. Al.
- Mrcia. Como est? 
- Com muito trabalho, mas estou bem. Vamos nos encontrar para o almoo?
- No, por isso estou ligando. Tenho um compromisso. Conversaremos  noite em sua casa.
- No sei a que horas vou sair daqui, mas volte a ligar  tarde para combinarmos. 
- Est bem. Tenho algo importante para lhe falar.
- O que ? Parece preocupado.
- Falaremos  noite. Tomei uma deciso e precisamos ter uma conversa sria.
- Deciso? Que deciso?
- Falaremos  noite. O assunto  muito srio mesmo. No pode ser discutido por telefone. Teremos de conversar pessoalmente.
- Est bem, vou esperar at a noite - conformou-se Mrcia, desligando o telefone em seguida.
Ela sentiu que algo de grave estava se passando. Preocupada, pensou: A voz dele estava estranha e no me tratou como de costume. Senti at certa frieza. Que ter 
acontecido? Mas agora no posso desviar minha ateno, tenho de preparar os documentos para a reunio. Voltou a seus afazeres. Como sempre, o trabalho era mais importante 
que tudo em sua vida. Ele lhe proporcionou tudo o que possua. Alm do mais, ela sabia que s por meio dele poderia continuar levando a mesma vida de agora. O simples 
pensamento de que pudesse ficar sem emprego, o que resultaria em voltar a passar por toda a misria que j vivenciara, trazia-lhe momentos de desespero. Preparou 
os documentos e na hora certa estava na sala do doutor Fernando. Antevira todas as perguntas que poderiam ser feitas e para cada uma teve uma resposta. Eram quase 
seis horas quando voltou para sua sala. A reunio, como sempre, foi muito boa. Consegui, mais uma vez, impressionar a todos. Foi assim que cresci dentro da empresa, 
mostrando meu trabalho e minha capacidade. Sentada novamente  sua mesa, tornou a sentir aquele bem estar de quem havia triunfado. Voltou a lembrar-se de sua infncia. 
Mais ou menos dois meses aps a morte de me pai, minha me chegou muito alegre e falando: 
- Voc conhece dona Leonor? Ela est precisando de algum para auxili-la. O apartamento  pequeno, ser mais para lhe fazer companhia. Falei com ela a seu respeito. 
Pediu que eu a levasse at l. 
Ao ouvir aquilo, senti medo. Embora no gostasse de viver naquela casa e com minha me, era o nico lugar que conhecia e, apesar de tudo, ela era minha me. Respondi:
- Mame... no quero ir... tenho medo...
- No precisa ter medo, Mrcia. Ser muito bom ir morar com ela. Voc sabe da dificuldade que tenho para aliment-la e vesti-la bem. Ela me disse que, se gostar 
de voc, poder ajud-la com os estudos, e isso no momento  o mais importante. Sabe que me ser muito difcil ficar longe de voc, mas preciso pensar em seu futuro. 
Morando comigo, no conseguir nada. Alm do mais, voc poder nos visitar sempre que quiser. 
Aquelas palavras me acalmaram, embora eu no estivesse entendendo muito bem tudo o que ela dizia.
- Est bem, mame, eu vou. S no quero que minhas amigas saibam que sou uma domstica.
- No deveria se preocupar com isso. As verdadeiras amizades no se importam com as roupas ou com o trabalho que se tm. Alm do mais, ser domstica no  vergonha. 
 um trabalho como outro qualquer. Se elas realmente gostam de voc, continuaro gostando. Mas, se preferir se vai sentir-se melhor, elas no precisam saber. Quando 
perguntarem, posso dizer que foi morar com uma tia.
Ao ouvi-la, fiquei pensando: No posso dizer a ela que na verdade no tenho amigas. So diferentes, no querem minha companhia. Mas no faz mal... um dia terei muito 
mais que elas. Embora assustada, sabia que, indo embora, poderia comer bem e, principalmente, ficar longe de minha me. Era o que mais queria, no a suportava.
- Eu vou. S que, se no gostar, posso voltar? 
- Claro que pode. Esta  sua casa, e eu sou sua me. Estarei sempre aqui e pronta para acolh-la a qualquer momento. S estou permitindo que v porque sei que ser 
melhor para seu futuro, mas sou e continuarei sendo para sempre sua me. Eu a amo muito e continuarei amando. 
Eu ouvia minha me dizer aquelas coisas, mas em meu corao nada sentia. Ela nada representava para mim. Era como se fosse uma completa estranha. Pensando na boa 
vida que poderia ter, resolvi ir.
- Est bem, mame, eu vou, mas estou com muito medo. 
- No precisa ter medo, Mrcia. Vai ver como ali ser muito feliz.
No dia seguinte, ela me acordou bem cedo:
- Hoje  o dia em que trabalho na casa de dona Leonor. Combinei com ela que levaria voc para que pudesse te conhecer. Arrumei suas roupas, esto a nessa sacola. 
Sinto que hoje ser o incio de uma nova vida para voc. Olhei para o lado em que ela apontava. Em uma sacola de feira, estavam todas as minhas roupas. Alm de serem 
poucas, haviam sido usadas por outras pessoas. Naquele momento, senti vontade de conhecer dona Leonor, porque nada poderia ser pior que aquela vida que eu levava. 
Troquei de roupa e arrumei-me da melhor maneira possvel. Ao chegar ao apartamento de dona Leonor, fiquei encantada com o tamanho dele e com os mveis. Minha me 
dissera que no era grande, mas eu nunca tinha visto uma casa ou apartamento com aquelas dimenses. Seguindo minha me, chegamos a uma sala, ampla. Sentada em uma 
poltrona, estava uma mulher que parecia ser muito alta, com os cabelos brancos e grandes culos. Ela ficou me olhando por alguns minutos sem dizer nada. Eu estava 
com muito medo. Ela parecia ser muito brava. Abaixei minha cabea. Ela levantou meu queixo para poder olhar bem dentro de meus olhos.
- Menina, voc  muito bonita, s tem de aprender uma coisa: nunca deve abaixar sua cabea e, principalmente, seus olhos, quando estiver com medo. Ao contrrio: 
deve olhar tudo e todos de frente. Gostei de seu modo. Vai ficar aqui morando comigo. Sinto que tenho muito para lhe ensinar, vai depender s de sua vontade de querer 
aprender.
Olhei para minha me, que sorria. Voltei meu olhar para dona Leonor, que esperava uma resposta.
- Quero muito aprender a ser uma moa educada. Se me ensinar, vai ver como sou inteligente e que aprendo logo. 
No notei expresso alguma em seu rosto. Ela apenas disse:
- Veremos... volto a repetir que s depender de voc.
Dona Leonor tinha perto de setenta anos. Morava sozinha. Seus filhos vinham visit-la muito raramente. Possuidora de incalculvel riqueza se recusava a ir morar 
com qualquer um deles. O apartamento era pequeno, por isso o trabalho no era pesado. Eu seria para ela uma companhia. O trabalho pesado, como a faxina e a lavagem 
de roupas, sempre foi e continuaria sendo feito por minha me, duas vezes por semana. A princpio, senti um pouco de medo da velha senhora, mas com o passar dos 
dias percebi, que apesar de suas manias, era uma pessoa muito culta, com quem poderia aprender muito. Fazia o possvel para que ela no tivesse motivo para reclamar. 
Fui conhecendo e atendendo a todos os seus desejos. Ela, por sua vez, tambm aprendeu a gostar de mim. Conversvamos muito. Ela falava sobre seu tempo de juventude, 
das festas e at dos namorados. Eu me encantava com tudo que ela contava e com as fotografias que mostrava. Por meio delas conheci belos sales de festas e pessoas 
muito bem vestidas. Conheci tambm pases de todo o mundo, por onde ela viajara. Vi pela primeira vez a neve em uma foto tirada em Paris, junto  torre Eiffel.  
noite, em meu quarto, sonhava com aqueles lugares e jurava que algum dia iria conhec-los. Eu havia estudado somente o primrio, dona Leonor, uma manh, me disse: 
- Mrcia, voc j est comigo h algum tempo. Percebi que realmente  muito inteligente e que se for ajudada poder ter um futuro brilhante. Estive pensando e, se 
quiser voc poder continuar seus estudos. 
Aquelas palavras me soaram como msica. Era o que eu mais queria. Emocionada, respondi:
- Gosto muito de estudar. Fiquei muito triste quando no pude continuar meus estudos. Mas como poderei estudar? Agora estou trabalhando.
- No se preocupe com isso. Sabe muito bem que gosto de dormir todas as tardes. Vamos encontrar uma escola na qual voc possa estudar exatamente nesse horrio. Assim, 
eu estarei dormindo e no precisarei de sua companhia. Fiquei muito feliz. Sabia que para ter dinheiro teria de trabalhar e ganhar bem, mas sabia tambm que para 
isso teria de estudar. Dona Leonor era a nica que poderia fazer com que aquele sonho se concretizasse. Ela foi  nica pessoa, das que eu havia conhecido at ento, 
que me inspirara confiana, em quem eu sabia poder confiar. Ensinou-me tudo: boas maneiras  mesa, como andar, como me vestir, me deu bons livros para ler e me instruir. 
Dizia sempre:
- Uma pessoa com educao e cultura pode se apresentar em qualquer lugar, que ser sempre muito bem recebida.
Mrcia estava assim presa em suas recordaes quando o telefone tocou. Era Osvaldo novamente:
- Mrcia, que bom que a encontrei. No poderei ir a seu apartamento  noite, como combinamos. Estou tendo alguns problemas, mas assim que puder volto a te telefonar. 
- Que est acontecendo, Osvaldo? Voc est estranho. Durante todos estes anos que estamos juntos, nunca deixou de ir  minha casa em uma quarta-feira. No quer me 
dizer o que est havendo? 
- No, ainda no, mas logo mais lhe direi. Tenha uma boa noite. 
Desligou em seguida, sem dar tempo para que ela dissesse qualquer coisa. No estou entendendo o que est acontecendo. Pareceu que ele estava com muita pressa em 
desligar. Estou preocupada, mas preciso voltar ao meu trabalho. Mrcia pensou, assim que ele desligou o telefone. Trabalhou o resto do dia e, quando percebeu, j 
eram oito horas. Guardou todo o material de trabalho em seu lugar, arrumou-se e saiu. Dirigiu seu carro sem prestar muita ateno s coisas ao seu redor. Entrou 
no suntuoso prdio em que morava. Estacionou o carro na garagem, tomou o elevador e foi para a cobertura. Abriu a porta. O apartamento era luxuoso. Percorreu uma 
imensa sala de visitas, que era separada da sala de jantar por uma parede cercada de folhagens e orqudeas, tendo ao centro incrustado nela um aqurio com peixes 
ornamentais. Sentou-se em um sof e, como fazia todos os dias, ficou olhando para tudo. Sorriu, pensando: Adoro tudo que h neste apartamento. Os mveis, a tapearia 
e os quadros foram comprados com a orientao de um decorador. Tudo  realmente de muito bom gosto. Daqui onde estou sentada, posso ver a porta de vidro, em duas 
folhas, que d para a piscina. L tambm mandei fazer um belo jardim, e a piscina  toda ladeada por plantas ornamentais. Levantou-se, abriu a porta de vidro e foi 
para fora. A noite estava clara. Dali podia ver quase toda a cidade. Continuou pensando: Sinto orgulho de tudo que consegui. Este apartamento  realmente um sonho. 
Sinto muito mais orgulho quando me lembro de onde vim. Aquela menina pobre de outrora hoje  rica e poderosa. Sentou-se em uma cadeira junto a uma pequena mesa, 
onde tomava refrigerantes quando fazia calor. Ficou l por um bom tempo, admirando tudo o que havia conseguido. Levantou-se, foi at seu quarto, que ficava no andar 
superior, onde havia mais dois dormitrios. No quarto, olhou para uma enorme cama de madeira macia com detalhes de ouro. A parede, pintada de um amarelo bem clarinho, 
contrastava com o preto dos mveis. Um espelho enorme, estrategicamente colocado, dava a impresso de que o quarto parecia maior do que na realidade. Entrou no banheiro 
e abriu a torneira para que a banheira enchesse. L, pensou: J que Osvaldo no vir, vou aproveitar para tomar um banho de imerso. Sempre me faz muito bem. Enquanto 
a banheira enchia, foi at a cozinha. Antes, passou pela sala de jantar. A mesa estava colocada com todo o requinte. No forno, sua comida estava preparada, bastando 
apenas que ela a aquecesse. Sua empregada, Marluce, vinha todos os dias, mas no dormia ali. Mrcia no gostava de ter algum dividindo com ela aquele espao que 
era s seu. Olhou tudo com ateno para ver se nada estava fora do lugar. Sorriu, pensando: Como sempre, est tudo certo. Marluce sabe que sou exigente. Est comigo 
h muitos anos. No comeo, tive de ter muita pacincia para ensin-la, mas valeu a pena. Hoje ela  excelente. No consigo imaginar-me sem ela para cuidar da casa 
e de tudo aqui. Voltou para o banheiro. A banheira estava cheia. Colocou sais, apertou um boto, a gua comeou a se movimentar, formando uma espuma perfumada. Tirou 
as roupas, entrou na banheira e mergulhou na espuma. Ajeitou a cabea, fechou os olhos e por alguns minutos no pensou em nada, a no ser no bem-estar que estava 
sentindo. Ficou assim por um bom tempo. De repente, lembrou-se de Osvaldo: O que estar acontecendo com ele? Faz seis anos que estamos juntos e no consigo lembrar-me 
de uma quarta-feira em que ele no me tenha visitado em que no samos ou apenas ficamos aqui em casa nos amando. Esticou as pernas e levantou os braos. Em seguida 
ajeitou novamente a cabea, fechou os olhos e lembrou-se de sua promoo e do tempo em que morou com dona Leonor. Um ms aps minha mudana para sua casa, dona Leonor 
me pediu que pegasse todas as minhas roupas e as colocasse na mesma sacola em que eu as trouxera. Quando minha me chegou, ela disse:
- Estava esperando sua chegada. Estou saindo com Mrcia para comprar algumas roupas para ela. Pode pegar esta sacola e levar com voc; sei que encontrar algum 
que poder us-las.
Minha me me olhou sorrindo e disse:
- Muito obrigada por tudo que est fazendo por minha filha. Encontrarei, sim, quem precise destas roupas.
Samos, e ela comprou tudo de que eu precisava. Chegamos a casa carregando muitos pacotes. Assim que cheguei, corri para o meu quarto - sim, agora eu tinha um quarto 
s meu. Ao abrir os pacotes, no acreditava que tudo aquilo era meu. Finalmente tinha roupas novas! E eram todas minhas! Comecei a experimentar todas. Ia tirando 
e colocando uma a uma. Estava assim, distrada, quando minha me entrou no quarto.
- Mrcia, estou indo embora. Vejo que est feliz: finalmente tem roupas s suas. Sempre te disse que, se fosse boa, Deus lhe daria tudo de que precisasse.
- Que Deus? Aquele que levou meu pai embora? Aquele que permite que a senhora continue vivendo naquele lugar horrvel? No foi Deus quem me deu. Foi dona Leonor. 
Ela  meu Deus. - Respondi irritada.
Ela ficou calada, apenas me mandou um beijo com a ponta dos dedos. Eu a vi ir embora. Nada senti apenas um grande alvio por no a ter mais em minha presena. Coloquei 
um dos vestidos de que mais gostei e entrei na sala, sorrindo. Dona Leonor arregalou os olhos, fazendo de conta que algum muito importante estava entrando.
- Voc est muito bonita. Tem o porte de uma princesa. Vai muito longe nesta vida.
Estudei muito, fui sempre  primeira da classe, o que fez com que ela se orgulhasse de mim e sentisse prazer em pagar meus estudos. Formei-me no segundo grau com 
louvor e na faculdade do mesmo modo. Quando faltavam alguns dias para minha formatura, dona Leonor me disse:
- O dia de sua formatura est chegando. Estou muito feliz, porque voc foi uma excelente aluna, alm de ter aprendido tudo que lhe ensinei. Hoje  uma moa educada, 
culta e com boas maneiras. Est se formando com louvor. Estou muito orgulhosa. Sabe que a considero uma filha que, durante todos estes anos que est morando comigo, 
s me trouxe felicidade. Agradeo a Deus a oportunidade de t-la conhecido.  
Eu no sabia o porqu, mas amava aquela velha senhora. Durante todo o tempo que estive a seu lado, senti nela uma segurana como nunca havia encontrado. Percebia 
que ela realmente me amava e que no me trairia nunca. Instintivamente me ajoelhei e beijei suas mos.
- Ter encontrado a senhora  que foi a suprema felicidade de minha vida. Eu, sim, sou quem tem de lhe agradecer por toda a felicidade que me proporcionou. Tudo que 
sou hoje devo  sua bondade e ao seu amor. Estou feliz por estar lhe dando toda essa alegria. Obrigada por tudo.
Nos primeiros anos de nossa convivncia, ela se mostrara severa, mas agora, aps tanto tempo, eu reconhecia nela uma pessoa sentimental. Ela levantou minha cabea, 
que estava em seu colo, olhou bem no fundo de meus olhos e disse:
- Ns duas ganhamos com nosso encontro. Voc se tomou uma moa preparada para a vida; eu encontrei um motivo para continuar vivendo. Mas deixemos para l toda essa 
conversa. O que quero, mesmo,  que no dia da festa voc esteja bem bonita. Vamos sair e comprar um belo vestido. Estive pensando que sua me tambm deve estar muito 
orgulhosa, por isso a levaremos conosco e compraremos roupas para ela e para seu irmo.
Aquelas palavras me atingiram como flechas. Embora minha me, durante todo o tempo em que estive ao lado de dona Leonor, tivesse acompanhado todos os meus estudos, 
pois continuava cuidando do servio da casa, eu no queria que ela fosse  minha formatura. Naquele dia, mais do que nunca, eu sabia que ela no tinha uma boa educao. 
Que era pobre e sem classe. Fiz com que todos os meus colegas pensassem que eu era sobrinha de dona Leonor e, portanto, pertencia a uma famlia muito rica. Se minha 
me fosse ao baile, eu teria de apresent-la a meus amigos, e isso eu no suportaria. Tive de pensar rpido e disse:
- J falei com ela a esse respeito. Ela disse que est muito feliz, mas no quer comparecer. Disse que no se sentiria bem no meio de todas aquelas pessoas. Disse 
ainda que lhe pedisse para no tocar no assunto com ela, porque, se assim o fizer, ela ser obrigada a ir, o que a deixaria muito infeliz.
- Estou estranhando essa atitude dela. Se voc fosse minha filha, eu gostaria muito que todos soubessem disso. Mas, se acha que ela se sentir melhor, no tocarei 
no assunto. No quero constrang-la. Gosto muito dela, por todo o tempo de trabalho e por todo o esforo que sempre fez para cuidar dos filhos.
Estou agora me vendo receber o diploma de administrao de empresas. Sentia que com ele todas as portas se abririam. Dona Leonor ficou muito feliz. Quando isso aconteceu, 
ela j estava com quase oitenta anos, mas gozava de perfeita sade. Foi  minha formatura, e, atendendo a meu pedido, no comentou nada com minha me. Tambm no 
contei, porque no queria que ela ou meu irmo fossem at l; no saberiam comportar-se, e todos que os vissem imaginariam logo que se tratava de pessoas humildes 
e sem educao. Eu decidi que, daquele dia em diante, seria outra pessoa. Resolvi esquecer o passado, esquecer, tambm, que um dia pertencera quela famlia e fora 
uma menina pobre. Sabia que com aquele diploma poderia conquistar tudo o que quisesse. Poderia ser outra pessoa e o seria. Alis... seria no. Sou! Minha me e meu 
irmo? Onde e como ser que esto? Nunca mais os vi ou soube deles. A ltima vez, que os encontrei foi no dia em que dona Leonor morreu. Relembrar isso me traz muita 
tristeza. Certa noite, algumas semanas aps minha formatura, eu estava na sala lendo um livro. Dona Leonor aproximou-se. Passou a mo em meus cabelos, como sempre 
fazia. Levantei os olhos, e ela beijou minha testa. Sentou-se a meu lado e disse:
- Agora j est formada. Est na hora de comear a trabalhar para aprender a exercer sua profisso. Pedirei a um amigo meu que a aceite em sua empresa. Que acha 
disso? 
- Adoraria. Na faculdade, aprendi muita teoria, mas sei que  preciso adquirir prtica.
- Sendo assim, amanh mesmo ligarei para ele e falarei a seu respeito.
- Obrigada. A senhora  realmente uma me, e a melhor que poderia existir.
- No sou sua me, mas quero-a como se fosse. Voc tem uma me maravilhosa, nunca se esquea disso. - fez uma pausa e levantou-se, dizendo:
- Estou um pouco cansada. Vou me deitar. Boa-noite. Deu-me outro beijo, desta vez em meu rosto.
- Gosto muito de voc. Desde que a conheci s me trouxe alegria.
- Tambm gosto muito da senhora. Boa-noite.
Fiquei mais um pouco na sala, depois fui para o quarto. Estava dormindo quando ouvi um barulho que vinha do quarto dela. Levantei-me e fui correndo at l. Entrei 
e encontrei-a cada perto da cama. Desesperada, tentei fazer com que falasse comigo, mas foi intil: no reagiu a meus apelos. Peguei o telefone e chamei um de seus 
filhos. Ele, de sua casa, telefonou para um hospital. Antes que ele chegasse, uma ambulncia j viera e a levara. Acompanhei-a, mas de nada adiantou: antes de chegarmos 
ao hospital, ela faleceu. Na banheira, Mrcia abriu os olhos; pelo canto deles, duas lgrimas corriam. Pegou uma toalha que estava ao alcance de suas mos e enxugou 
as lgrimas. Sempre que pensava em dona Leonor, sentia uma dor muito grande e uma saudade imensa. Minha me foi uma das primeiras pessoas a chegar ao velrio. Ela 
tambm tinha por dona Leonor uma amizade profunda. Percebeu que eu estava muito triste. Aproximou-se de mim e abraou-me.
- Mrcia, sei que est muito triste, mas ela foi uma mulher feliz, cumpriu direito suas obrigaes e volta para junto de Deus vitoriosa. Isso no  fcil.
Olhei para aquela mulher que nada representava em minha vida, por quem eu no tinha nenhum sentimento, mas eu estava triste demais para dizer alguma coisa. Apenas 
fiquei ali, chorando em seus braos. Assisti ao enterro, presenciado por muitas pessoas. Minha me quis levar-me para sua casa, mas recusei. No sabia mais onde 
morava, pois nunca fui visit-la, mas imaginava que deveria ser em um lugar horrvel como aquele do qual sa um dia. Voltei para a casa de dona Leonor. Aquela era 
minha casa, ali estava tudo que era meu, alm das boas lembranas. Minha me me acompanhou. L chegando, disse:
- Sei que gostava muito dela e que at a julgava ser mais sua me do que eu, mas agora ela foi embora. Voc no poder mais ficar nesta casa. Sei que est formada, 
e tem agora uma profisso, podendo continuar sua vida sozinha, mas, se quiser ou precisar, nunca esquea que sou sua me e que estarei sempre esperando por voc.
- Ficarei aqui at que os filhos dela venham conversar comigo. Enquanto isso vou procurar um emprego, no sei ainda o que vai acontecer com minha vida. Se precisar 
da senhora, entrarei em contato.
- Estarei sempre de braos abertos, Mrcia.
Ela foi embora e vi-me ali sozinha naquela casa, que agora se tornara ainda maior. Percorri todos os cmodos, fui at o quarto de dona Leonor. Sentei-me e fiquei 
pensando nela ensinando-me e, s vezes, brigando por eu no fazer direito aquilo que me ensinava. Relembrei as noites que dormi com ela ali naquela cama. Eu estava 
sentindo um vazio profundo. Sentia como se tudo tivesse acabado. Aps a missa de stimo dia, o filho mais velho de dona Leonor chegou junto a mim e disse:
- Mrcia, sei o quanto gostava de minha me. Quero que v conosco at minha casa; eu e meus irmos temos de conversar com voc.
- Imagino o que querem falar comigo, mas no se preocupem: estarei me mudando amanh.
- Por favor, venha conosco.
- Est bem. Se julgar ser necessrio, irei. Acompanhei-os, imaginando que teria de deixar aquele apartamento em que fora to feliz. Meu corao estava apertado, 
mas sabia que no haveria outra soluo. Assim que chegamos, ele me mostrou uma cadeira que havia em uma sala.  mesa, todos nos sentamos. Os outros filhos de dona 
Leonor me olhavam de uma maneira que eu no conseguia entender. O filho mais velho foi quem iniciou a conversa:
- Bem Mrcia pedi que viesse at aqui porque temos algo para lhe comunicar.
Procurei antecipar-me:
- Como lhe disse, no precisam preocupar-se. Gostava muito de sua me, mas sei que ela foi embora, e por isso no vou poder permanecer mais no apartamento que agora 
pertence a vocs.
-  justamente sobre o apartamento que queremos conversar com voc. Sabemos que gostava muito de mame. Sabemos que foi para ela uma companhia e, mais ainda, um 
motivo de orgulho. Ela sabia que estava velha e que a qualquer momento morreria. Por isso, j faz algum tempo, falou conosco, dizendo que no queria deix-la sem 
nada. Sabia que, alm de termos muitos bens, todos estamos financeiramente tranqilos. Ela pediu que assinssemos uma escritura, passando um de nossos apartamentos 
para seu nome. E que aquelas jias que esto no quarto, dentro da caixa forrada com veludo preto, fossem dadas a voc, alm de uma quantia em dinheiro.
Fiquei abismada ao ouvir aquilo. Com toda a sinceridade, disse:
- No acredito no que est me dizendo. Ela nunca falou nada a esse respeito... Eu nunca pensei... Apenas a amava como se fosse minha me... Apenas isso, no sei 
se posso aceitar.
- Sabemos que nunca pensou s que voc no s pode como deve aceitar. Nossa me foi uma grande mulher. Se acreditar em voc, temos certeza de que sabia o que estava 
fazendo. No se preocupe: temos muito, isso no nos far falta. O apartamento, as jias e o dinheiro so seus. Aqui esto os documentos. 
Ao pegar aqueles papis em minhas mos, fiquei sem saber o que fazer, mas ele falou de uma maneira que no me deixou alternativa. Apenas agradeci. Fomos, todos juntos, 
almoar. Mrcia sentiu frio. Estava ali por muito tempo e a gua comeou a esfriar. Levantou-se, ligou o chuveiro bem quente e ficou ali por mais algum tempo, apenas 
deixando a gua cair por seu corpo. Aquela gua quente lhe fez um bem enorme. Saiu do banheiro enrolada em uma toalha e foi para a cozinha. Ligou o forno e enquanto 
a comida estava sendo aquecida, foi para seu quarto, vestiu um pijama, ligou o televisor e se deitou. Estava cansada, havia trabalhado muito naquele dia, mas o banho 
fora reconfortador. Deitada, tentou prestar ateno ao filme que estava comeando, mas no conseguia: seu passado voltava com muita fora a seu pensamento. Por que 
isso agora? Por que esse sentimento de culpa? Por que esse sentimento de tristeza, quando deveria estar feliz por ter conseguido tanto em to pouco tempo? Pouco 
tempo? No... No foi to pouco tempo assim. Estou com trinta e quatro anos... A comida j deve estar quente. No estou com fome, mas preciso comer algo. Voltou 
para a cozinha, abriu o forno e retirou um pedao de carne assada. Levou para a sala de jantar. Na mesa havia uma travessa com salada de folhas e legumes, ela s 
precisava temperar. Sentou-se, comeu um pouco, mas realmente no estava com fome. Levantou-se e foi para seu quarto. Tentou dormir, mas no conseguiu. Alguma coisa 
a atormentava, no sabia o que era. Levantou-se e foi para a sala. Sentou-se em uma poltrona, ligou o outro televisor que ali havia. No conseguiu acompanhar o filme. 
Mudou os canais, e nada. Sem sono, foi para a cozinha. Faria um ch e tomaria um comprimido, talvez assim conseguisse dormir. Pegou o ch e alguns biscoitos. Ao 
voltar para o quarto, sentiu um arrepio percorrendo todo o seu corpo. Lembrou-se de sua me, pois, quando isso acontecia, dizia:
- A morte passou por aqui.
Continuou andando, mas algo a estava incomodando, mas o qu? Por qu? Mudou o canal do televisor. O mesmo filme que havia comeado continuava. Entrou a msica caracterstica 
de edio extraordinria. Ela parou para ver o que havia acontecido. Um reprter anunciou um incndio em uma favela. Havia muita correria, o fogo estava alto. Pessoas 
sendo entrevistadas choravam por haverem perdido tudo. Ela ficou olhando. Uma senhora, com os cabelos brancos, estava agora falando:
 - Quando voltei do trabalho, encontrei tudo em chamas! No consigo encontrar minha netinha! No sei onde ela est! Por favor, me ajudem!
Ao ver aquela senhora, Mrcia estremeceu, falando em voz alta:
- Minha me? Que est fazendo ali? 
Nunca poderia imaginar que morasse em uma favela. Est mais velha, com os cabelos brancos, mas  minha me. Quando fui morar com dona Leonor, eles viviam em uma 
casa pequena, um quarto-e-sala. O que ser que aconteceu? Quem ser essa neta? De quem est falando? Preciso ir at l. Foi at o armrio abarrotado de roupas, escolheu 
uma, vestiu-se rapidamente. Procurou as chaves do carro. Ia saindo, quando parou, pensando: No posso ir. Talvez algum amigo ou conhecido me veja e descubra que 
um dia pertenci quele lugar. Ou pior: ir me condenar por ter abandonado minha famlia. No, no posso. Ningum pode saber de minha origem. Isso certamente seria 
usado por meus inimigos. Voltou para seu quarto, tirou as roupas e voltou a se deitar. Em seu corao, sentia vontade de ir at l, mas sua ambio e seu medo de 
ser reconhecida eram maiores que tudo. O passado voltou, com mais fora: Aps aquele almoo, voltei para o apartamento. Assim que entrei, comecei a percorrer tudo 
novamente, mas agora com um sentimento de felicidade indescritvel. Aps alguns dias, percebi que aquele apartamento era muito grande, o que fazia com que minha 
solido fosse maior. Resolvi que o alugaria e com o dinheiro poderia alugar um menor, onde no sentisse tanto a solido e a falta de dona Leonor. Assim fiz. No 
dei meu novo endereo para minha me. Eu era, agora, adulta e, com o dinheiro que recebi como herana, sabia que poderia continuar vivendo sem ela e meu irmo. Nunca 
procurei saber como e de que modo viviam. Durante esse tempo todo, fiz questo de esquec-los. Quando pensava neles, rapidamente espantava os pensamentos, desviando 
minha ateno para o trabalho. Nunca imaginei que ela estivesse em uma situao como essa. Que vou fazer? No conseguia esquecer nem dormir. Virou-se de um lado 
para o outro na cama. Sentiu sede, levantou-se novamente, foi at a cozinha. Ligou o televisor para ver se havia mais alguma notcia. No esto, mais, falando sobre 
o incndio. Como ser que ela est? Por que essa preocupao agora? No tenho nada a ver com sua vida. Sempre foi e continua sendo uma estranha. Nunca acreditei 
naquele amor que dizia dedicar-me. Estranho... que h comigo, que me faz ter tanta dificuldade em acreditar ou confiar em algum? Por que sou assim? Em seu pensamento 
surgiu uma imagem: uma moa magra, plida, que lhe sorria timidamente. Ficou sorrindo ao lembrar de quando a conheceu. Mesmo morando com dona Leonor e tendo uma 
vida farta, nunca tive amigas. Na escola, e depois na faculdade, eu conversava com todas as pessoas, mas, assim que saa da aula, voltava para casa sozinha; nunca 
tive amigas ou confidentes. S Luciana... com ela foi diferente... estou me lembrando daquele dia em que estava na biblioteca procurando um livro de portugus. Sempre 
tive facilidade para aprender, mas com o portugus tinha um pouco de dificuldade. Estava sentada consultando um livro quando percebi que algum me observava. Desviei 
meu olhar e vi uma mocinha que me olhava insistentemente. Quando percebeu que a notei, ela, meio sem saber o que fazer, desviou o olhar. Apenas sorri e voltei minha 
ateno para o livro que estava lendo. Mesmo distrada com a leitura, sentia que ela continuava me olhando. Aquilo foi me deixando muito nervosa. Levantei os olhos 
em direo a ela e disse:
- Est querendo me dizer alguma coisa?
Ela, um pouco assustada, sorriu. Levantou-se e veio at a mesa onde eu estava.
- Desculpe, mas preciso falar com voc, sim. Sei que  a primeira aluna da classe. Cheguei h pouco  escola, no conheo ningum e gostaria que me passasse as aulas 
que tiveram at agora e que me ajudasse nos estudos... E, se possvel, que fosse minha amiga. Olhei com mais ateno para ela. At que era bonitinha, porm muito 
sem graa. Seus cabelos eram compridos, mas sem corte. Suas roupas, estranhas. Olhei em seus olhos e percebi que era uma menina muito triste. Respondi:
- Como disse, sou a primeira da classe. Mas, para manter essa posio, tenho de estudar muito, por isso no tenho tempo para ensinar, ou para amizades.
- Por favor! Perdi minha me quando tinha sete anos. Meu pai ficou muito triste com a morte dela e me mandou para um colgio de freiras. Estive l o tempo todo, 
s sa agora. No conheo ningum e tenho dificuldade para fazer amizade.
- Dificuldade? Chegou com muita facilidade at aqui. Ela sorriu e continuou:
- Voc  to bonita e se veste to bem. Gostaria que me ajudasse. Dinheiro no  problema: meu pai  um empresrio, tem muito dinheiro.
Ao ouvir aquilo, no mesmo instante comecei a ver a situao de maneira diferente. Tendo uma amiga com um pai empresrio, talvez fosse um bom comeo para meu futuro 
profissional. Pensei rpido e falei:
- Olhando bem para voc, vejo que  muito bonita. Vou falar com minha tia, ela poder ajud-la. Mas agora preciso continuar estudando, estou tendo algumas dificuldades. 
Amanh volto a falar com voc.
Ela foi embora sorrindo e continuei com minha leitura.  noite, conversei com dona Leonor a respeito dela. Como sempre, ela me ouviu. Sorrindo, falou:
- Pela primeira vez estou vendo-a interessada em outra moa, querendo uma amizade. Isso me deixa muito feliz. Traga essa menina at aqui, vamos ver o que posso fazer 
por ela.
- Sei que pode e far muito.
No dia seguinte, voltei a falar com ela:
- Conversei ontem com minha tia e ela quer conhec-la. Pode ter certeza de que vai transform-la. Mas como  seu nome?
- Meu nome  Luciana. Obrigada por tudo.
Aps o trmino da aula, levei-a para minha casa. Dona Leonor, ao v-la, disse:
- Voc  muito bonita, mas, realmente, precisa de uma reforma geral. Neste fim de semana, se quiser, poderemos ir a um cabeleireiro e a algumas lojas. Na prxima 
segunda-feira, ser uma nova aluna que chegar  escola.
- A senhora acredita nisso?
- Acredito e vou lhe mostrar.
Realmente, foi isso o que aconteceu. No sbado, ela chegou  casa acompanhada por um motorista. Fomos juntas fazer tudo que dona Leonor planejara: primeiro a um 
cabeleireiro; depois, a vrias lojas. Luciana, a cada movimento, ficava mais feliz. No fim da tarde, ela j era outra pessoa. Olhava-se no espelho e, sorrindo, dizia:
- Estou mesmo muito bonita. Meu pai no vai me reconhecer.
No sei por que, mas eu tambm estava feliz por v-la daquela maneira. Olhando bem para ela, disse: 
- Realmente est muito bonita. Estou at com inveja. 
Rimos muito. Daquele dia em diante, vagarosamente foi nascendo entre ns uma grande amizade. Comeamos a sair juntas para o teatro, cinema e festas. Dona Leonor 
ficou feliz por finalmente eu ter uma amiga de minha idade e por Luciana ser uma menina muito amvel, por quem ela se apaixonou. Comecei a freqentar sua casa. Sempre 
fui muito bem recebida por seu pai e sua madrasta. Seu pai, desde que perdera a esposa quando Luciana nasceu nunca mais se interessou por outra pessoa, muito menos 
quis se casar. Quando Luciana fez sete anos, mandou que fosse estudar em um timo colgio de freiras. Conheceu Vilma, por quem se apaixonou. Ela aceitou casar-se 
com ele, desde que mandasse buscar Luciana no colgio e a trouxesse para viver com eles. Ela era uma pessoa especial. Luciana e ela se davam muito bem. Em uma das 
festas que freqentamos, Luciana conheceu Valter. Ele pertencia a uma famlia da alta sociedade. Comearam a namorar e dois anos depois estavam casados. Sempre pensei 
que, com o casamento, nossa amizade mudaria, mas no mudou. Embora no nos vejamos mais com a mesma freqncia, continuamos amigas. Ela est muito feliz no casamento, 
tem dois filhos maravilhosos, que adoro. Sempre nos telefonamos e quando possvel nos visitamos. Durante toda a minha vida, depois de dona Leonor, Luciana foi  
nica pessoa em quem confiei. Este novo apartamento, embora fosse menor que o anterior, ainda era muito grande. Eu sentia muita falta de dona Leonor, de nossas conversas, 
das noites que dormia em sua cama. Fiquei muito triste, sem vontade de sair ou conversar. Sempre que Luciana ligava para saber como eu estava, arrumava uma desculpa. 
Certa tarde, a campainha tocou. Atendi, pensando ser o sndico do prdio, o nico com quem conversava. Enganei-me: era Luciana, que entrou sem pedir licena.
- Desculpe se no liguei avisando que viria, mas, se assim tivesse feito, voc arrumaria uma desculpa e desligaria como fez vrias vezes. Que voc tem? Est com 
uma aparncia horrvel!
- Estou bem, s um pouco triste, mas logo ficarei bem.
- No est bem coisa nenhuma. Est pssima. Acredito que esteja precisando fazer algo. Se continuar assim, em breve vai ficar louca. Vou falar com papai e pedir 
a ele que a empregue na empresa. Ele gosta muito de voc e sabe que  competente. Que acha?
Fiquei sem saber o que dizer. Aquilo tinha sido o que sempre desejei desde que a conheci. Mas, aps ter me tornado realmente sua amiga, nunca tive coragem de tocar 
no assunto. E, agora, mais uma vez a sorte agia a meu favor. Luciana estava me oferecendo  oportunidade. Por intermdio dela comecei a trabalhar como recepcionista 
na empresa de seu pai. Embora tivesse um diploma, eu no possua experincia, por isso tive de me conformar com esse posto, mas sabia que seria por pouco tempo. 
Estava determinada a vencer e venceria, custasse o que custasse. Venci!

CARTER SUSPEITO

Embora estivesse relembrando seu passado, Mrcia no conseguia esquecer o presente, a imagem de sua me morando naquela favela. Sabia que precisava e podia ajud-la, 
mas no conseguia. Era mais forte que ela. Novamente, afastou seus pensamentos e voltou a lembrar-se de como havia conseguido vencer: Trabalhava no departamento 
de vendas. Comecei a perceber que os vendedores ganhavam muito. Fiz o possvel e o impossvel para me tomar uma vendedora. Sendo muito eficiente em meu trabalho, 
sempre fiz questo de que os outros o notassem. Havia um vendedor; seu nome: Farias. Percebi que ele era o melhor vendedor da empresa. Um dia, na hora do almoo, 
aproximei-me:
- Senhor Farias, posso almoar em sua companhia?
- Claro que pode. Almoar com uma bela moa como voc s pode trazer-me muito prazer. Mas tenho uma condio: nada de  senhor . Somos companheiros de trabalho. 
Esse senhor me torna muito velho.
- Tem razo. Somos companheiros, e voc nem  to velho.
Fomos ao restaurante da empresa. Sentamos e comeamos a comer e conversar. Fiz tudo para me mostrar o mais agradvel possvel. Conversamos sobre muitas coisas, nada 
relacionado com o trabalho. Daquele dia em diante, comeamos a almoar todos os dias. Eu ia mostrando a ele que era verstil e que tinha muita vontade de aprender. 
Ele, aos poucos, foi confiando em minha amizade. Contava coisas sobre a esposa e os filhos:
- Eu os adoro, so tudo em minha vida. Tenho uma famlia perfeita. Eles tambm me adoram e respeitam. Jamais faria algo que os pudesse magoar ou que fizesse com 
que seu respeito terminasse.
- Pode se considerar uma pessoa feliz por ter uma famlia. Eu, ao contrrio, s tinha minha tia, e ela faleceu. Hoje, sou sozinha no mundo.
- Entendo... deve ser muito triste ser sozinho. No sei o que faria sem minha famlia...
Em um desses almoos, tomei coragem e, olhando bem dentro de seus olhos, como dona Leonor me havia ensinado, disse: 
- Farias, tenho algo para lhe pedir. No sei qual ser sua reao. Preciso de sua ajuda, mas, se no puder, no se preocupe: continuaremos amigos como sempre, nada 
mudar.
Ele arregalou os olhos e, sorrindo, disse:
- Meu Deus do cu! O que ser que essa moa bonita est querendo? Fale, e se puder ajudarei com prazer.
Falei rpido, quase sem parar:
- Sabe que trabalho na recepo. Meu salrio  pequeno. Sabe tambm que vivo sozinha. Por isso, gostaria de me tornar uma vendedora. Sei que tenho capacidade, s 
preciso aprender. Voc, se quiser, pode me levar junto para visitar seus clientes. Tenho certeza de que aprenderei tudo rapidamente.
Em pouco tempo, consegui sair com Farias para aprender a fazer vendas. Ele me ensinou tudo a respeito. Eu estava sempre alegre, sorridente e prestativa, o tipo de 
pessoa que, por sua atitude solcita, se torna em pouco tempo amiga e confidente. Logo mostrei minha capacidade como vendedora. Ele foi cada vez mais confiando em 
minha amizade. Fez confidencias que nunca havia feito para ningum. Eu apenas ouvia, sem dar opinio. Aps alguns meses, ele percebeu que eu poderia ter minha prpria 
clientela. Veio at minha mesa e, sorrindo, disse: - J est pronta. Pode comear com sua prpria clientela. Vou lhe dar uma rea que no tenho tempo para atender, 
um pouco distante do centro. Sei que tem capacidade para atend-la toda e com perfeio. Fiquei muito feliz. Sabia que aquele seria s o comeo. Apesar de ter pegado 
uma rea distante e difcil, consegui vrios clientes novos. Farias falou com meus superiores, elogiando meu trabalho e meu modo de ser. Eles comearam a prestar 
ateno em meu trabalho e me admiravam. Trabalhei durante dois anos como vendedora daquela clientela que ficava longe. Meu salrio aumentou, mas eu ainda no estava 
contente, queria a rea que era de Farias. Sabia que ele, por sua eficincia durante tantos anos, havia conquistado o respeito e a valorizao de seu trabalho. Todos 
os vendedores se espelhavam nele. Ele me ensinou tudo o que sabia, mas eu precisava pensar em uma maneira de tir-lo de meu caminho sem que as pessoas desconfiassem 
que fora eu. Enquanto pensava, sem perceber, adormeceu. Sonhou com um lugar escuro e vazio, sentiu muito medo. Acordou suando e com o corao disparando. Voltou 
a dormir, mas sua noite foi quase toda de pesadelos. Pela manh, acordou com olheiras profundas, seu corpo todo doa apesar de seu colcho e travesseiro serem confortveis. 
Escolheu a roupa que vestiria, foi para o banheiro, tomou banho, vestiu-se. Enquanto fazia sua maquiagem, tornou a lembrar-se de sua me, mas logo a tirou do pensamento. 
Estava atrasada e nunca, desde o primeiro dia que comeou a trabalhar, chegara atrasada. Saiu. No rdio do carro ouviu uma reprter que estava na favela. Dizia que 
o fogo havia destrudo tudo. Duas pessoas haviam morrido, uma delas era uma criana. Os demais moradores estavam desabrigados, sem ter para onde ir. Ao ouvir aquilo, 
sentiu um aperto no corao. Como minha me pode estar em uma situao como aquela em que a vi? E meu irmo, onde estar? Quem ser a neta de quem ela falou? Preciso 
ajud-los, porm minha vida de hoje no permite que faam parte dela. No posso ter meu nome misturado ao deles, mas, embora no os queira por perto, no posso negar 
que so de meu sangue, que ela, de uma maneira ou de outra,  minha me. Mudou de estao, aquele assunto a incomodava. Comeou a ouvir msica. Cantarolava junto 
para tentar esquecer a figura de sua me envelhecida e maltratada. Quando chegou ao escritrio, a recepcionista lhe disse:
- Dona Mrcia, a senhora j soube?
- Soube o qu?
- O doutor Fernando passou mal durante a noite. Est no hospital e parece que seu estado  grave.
Assustada, perguntou:
- Tem certeza do que est dizendo? No est brincando?
- Claro que no! Acha que eu brincaria com um assunto como esse?
- Vou verificar.
Entrou em sua sala e ligou para a residncia do doutor Fernando. A empregada confirmou:
- Aconteceu mesmo, ontem  noite ele teve um princpio de enfarte. Parece que no est nada bem.
Ela desligou o telefone. Ainda com o aparelho na mo, pensou: Com ele fora de meu caminho, poderei mostrar, mais ainda, minhas qualidades, mas preciso disfarar. 
Ningum pode perceber o que estou sentindo realmente. Quando consegui afastar Farias, recebi toda a sua clientela. Aps trs anos, recebi uma promoo, depois outra, 
e hoje estou neste cargo privilegiado. Um dia, jurei que seria a presidente. Hoje, est faltando pouco. Com Fernando fora do caminho, est cada vez mais perto o 
dia de realizar meu sonho. Sempre soube que tinha muita sorte, mas isto  demais. Foi para sua sala, sabia que logo o vice-presidente a chamaria. Aconteceu meia 
hora depois:
- Mrcia, como voc sabe, Fernando vai ficar alguns dias ausente. Estamos todos tristes, mas a empresa no pode parar. Tenho certeza de que poder ficar  frente 
de tudo at que ele retome suas funes.
- Como o senhor, estou tambm condoda. Tenho certeza de que logo ele voltar. Mas at l no se preocupe: terei tudo sob controle.
- Sei disso. Fernando sempre elogiou sua competncia.
- Obrigada, senhor. No se preocupe.
Com um sorriso, saiu. Entrou em sua sala, estalando os dedos de felicidade. Tudo sempre deu certo em minha vida. Tenho muita sorte mesmo. Quando ela no vem, dou 
um jeito e fao acontecer. Sentou-se, pegou alguns papis e comeou a ler. Lembrou-se de Osvaldo, que at agora no havia telefonado, e j estava quase na hora do 
almoo. Telefonou para seu escritrio. A secretria, depois de algum tempo, disse:
- Ele no pode atender, est em uma reunio.
Mrcia j conhecia aquela artimanha. Ela mesma, quando no queria falar com algum, dizia estar em reunio. Preocupada, pensou: Por que ele faria isso? No, no... 
deve estar mesmo em uma reunio. Ficou no escritrio o resto do dia, sem pensar em nada alm do trabalho.Quase seis horas da tarde, voltou a lembrar-se de Osvaldo: 
Osvaldo no me ligou o dia inteiro... algo muito grave deve estar acontecendo. Voltou a telefonar, mas a secretria mais uma vez no passou a ligao, dizendo que 
ele j havia ido embora. No estou gostando disso. Talvez seja melhor acreditar que ele esteja mesmo com algum problema e logo me contar tudo. Na realidade, eu 
no o amo, estou com ele apenas para ter com quem sair e algum que me realize sexualmente. Em minha vida no h lugar para o amor, minha carreira sempre esteve 
e estar em primeiro lugar. Conheci outros antes dele, apenas passaram por minha vida, sem deixar saudade. Passei muitas noites ao lado de algum de cujo nome no 
lembrava no dia seguinte e que no via nunca mais. Nunca quis me prender a ningum, precisava estar com a vida tranqila para fazer um bom trabalho e, com certeza, 
um homem s atrapalharia. Ouvi histrias de amigas que sofriam muito com esse negcio de amor. Eu nunca quis me arriscar, por isso sempre me contentei com algumas 
aventuras e nada mais. Com Osvaldo, foi diferente. Conhecemo-nos em um restaurante... O interfone tocou. Ela atendeu:
- Est aqui um fornecedor. Disse a ele que, enquanto o doutor Fernando estiver ausente, a senhora estar respondendo por ele. Posso mand-lo entrar?
- Espere cinco minutos, em seguida mande-o entrar.
- Sim, farei isso.
Mrcia levantou-se da cadeira em que estava sentada, foi at o banheiro, lavou as mos, arrumou o cabelo. Estava pronta. Sabia que o trabalho teria de ser bem feito. 
Precisava receber muito bem o fornecedor e conseguir bons preos.  Recebeu o rapaz com um sorriso. Meia hora depois, ele saa da sala sorrindo, com um pedido muito 
grande e elogiando Mrcia para a secretria. Mrcia, por sua vez, estava tambm esfuziante em sua sala. Quase gritou. Consegui! Consegui um grande desconto no oramento 
aprovado por Fernando. Isto, com certeza, ser mais um ponto a meu favor. Esqueceu completamente sua me e seu irmo. Agora, s queria que seus superiores a comparassem 
com Fernando. Quando ele voltar, se voltar ter de explicar esse desconto que consegui. Logo estarei ocupando seu lugar. Percebeu que j era tarde. Lembrou-se novamente 
de Osvaldo. O dia j est terminando, e ele no me telefonou. No vou me preocupar; com certeza ele ter uma boa explicao. Estou lembrando, agora, aquele dia em 
que almoava em um restaurante aqui perto. O garom, ao levar uma bandeja, tropeou e derramou um prato de espaguete em cima de Osvaldo, que estava sentado em uma 
mesa prxima  minha. Suas costas ficaram sujas de molho vermelho. Ele se levantou muito irritado e, nervoso, perguntou ao garom:
- Que  isso? No v por onde anda?
- Desculpe senhor, no entendo como isso aconteceu.
- No entende? No entende? Eu  que no sei como vou trabalhar o resto do dia.
O gerente aproximou-se, dizendo:
- Desculpe senhor, mas isso no voltar a acontecer. No precisa pagar a conta. Mandarei o garom embora agora mesmo.
Ele olhou para o lado em que eu estava. Sem conseguir me conter, comecei a rir. Ele, embora nervoso, comeou a rir tambm da situao em que se encontrava. O gerente, 
muito nervoso, disse para o garom:
- Pode sair daqui imediatamente. Est despedido.
Osvaldo, tirando alguns fios de macarro que continuavam em sua camisa, ainda rindo muito, falou:
- No precisa fazer isso. S tenho de arrumar outra camisa para poder trabalhar.
Eu, ainda rindo muito, disse:
- E outro palet, pois esse que est nas costas da cadeira est todo sujo  tambm.
Ele olhou para o palet. No suportou e comeou a gargalhar. Todos os freqentadores seguiram seu exemplo. O gerente, assustado com toda aquela reao, ficou sem 
saber o que fazer.
- Se o senhor quiser, poderemos lhe arrumar uma camisa e um palet.
Aps rir muito, ele olhou para mim, dizendo:
- Que devo fazer?
Fui tomada de surpresa, mas mesmo assim, respondi:
- Acredito que deva ir a uma loja e providenciar roupas novas.
- E quanto ao garom?
- Tenho certeza de que no fez por querer. Alm do mais, a comida aqui neste restaurante  muito boa. No vale a pena brigar e procurar outro.
Ele olhou para o gerente.
- Tudo bem, vamos esquecer tudo isso. A senhorita tem razo. A comida daqui  muito boa. S preciso de uma camisa. Pode mesmo arranjar?
- Se no se incomodar, posso lhe dar uma camisa de garom.
- Se no h outra escolha, que seja.
Osvaldo acompanhou o gerente. Fiquei ali e continuei comendo. Ele voltou pouco depois, vestido com uma camisa branca. Pediu licena e sentou-se a meu lado. O gerente 
prontificou-se em trazer o que ele quisesse comer. Almoamos juntos. Desde aquele dia, passamos a nos encontrar sempre na hora do almoo, comeando assim uma amizade. 
Essa amizade foi crescendo e em uma tarde ele me acompanhou at minha casa e ali naquele ambiente acolhedor comeamos a nos beijar e acabamos na cama. Desse dia 
em diante, nasceu algo entre ns e at agora estamos juntos, cada um respeitando o espao do outro. Nunca tivemos problemas. Sempre soube que ele era casado, mas, 
como eu no queria um marido, aquilo no me incomodava. Almovamos juntos todos os dias. Algumas vezes na semana, aps o trabalho, ele ia at minha casa, ficava 
algumas horas e ia embora.  Mas s quartas-feiras era sagrado: saamos, jantvamos fora e ele ficava at a madrugada. Assim j se passaram quase sete anos. Por todo 
esse tempo que estamos juntos, sempre sendo amigos e confidentes,  que estou estranhando sua atitude. Afastou os pensamentos e resolveu que no iria para casa. 
No dia anterior, no se sentiu muito bem ali. Ver sua me no televisor fez com que se lembrasse de seu passado e no gostava de faz-lo. Jantaria fora, s depois 
iria embora. Precisava pensar em tudo o que estava acontecendo. Por mais que quisesse, no conseguia esquecer a figura de sua me em toda aquela misria. Preciso 
descobrir uma maneira de ajud-la sem que para isso seja preciso aparecer e compartilhar de sua companhia. No entendo por que sinto essa rejeio por ela. No  
normal. Se contasse a algum, com certeza me recriminariam, porm esse sentimento  mais forte que eu. Nunca senti nada por ela. Convivi o tempo que fui obrigada, 
mas agora no! Ela que fique bem longe da minha vida! Parou o carro em frente a um restaurante famoso por sua boa comida. O manobrista aproximou-se, ela lhe entregou 
o carro e entrou. O gerente veio receb-la na porta e mostrou-lhe vrios lugares que estavam vagos. Ela escolheu uma mesa que ficava em um canto um pouco isolado. 
Sempre que estava sozinha, preferia um lugar mais discreto, assim evitava olhares de homens tambm desacompanhados. Sentou-se, folheou o menu e fez seu pedido. Ficou 
esperando enquanto bebericava um refrigerante. Olhou  sua volta e pela primeira vez no se sentiu bem por estar sozinha. Vrios casais com crianas tambm freqentavam 
o local. Olhando um jovem casal sentado  sua frente, notou o esforo que a moa fazia para alimentar um beb sentado em uma cadeira alta. O marido, a seu lado, 
carinhosamente a ajudava. Os dois riam de cada gracinha que a criana fazia. Olhando aquela cena, pensou: Tenho hoje tudo que desejei e posso ter tudo que desejar, 
mas ter valido a pena? Estou aqui neste restaurante de luxo, sozinha, com trinta e quatro anos, no tenho marido nem filhos... ser que agi certo? Claro que agi. 
De que me adiantaria ter um homem a meu lado e um bando de crianas para me dar trabalho? Devo estar carente nestes dias. Estou pensando em coisas que nunca foram 
alvo de minhas preocupaes. Minha me tinha um marido e dois filhos e uma vida infeliz. Pior ainda est hoje. De que adiantou tanto sacrifcio? De que adiantou 
ter tido filhos? No! Recuso-me a continuar pensando nisso! Minha vida est muito boa da maneira como est! Pensava assim, quando olhou para a porta e viu um casal 
entrando com duas crianas. Sentiu um aperto no corao, ao mesmo tempo em que ficava vermelha de dio. Era Osvaldo, acompanhado da esposa, que ela conhecia por 
foto e as crianas, uma de oito anos e outra de mais ou menos quatro anos. Nervosa, pensou: Que estou vendo aqui? A primeira  a menina, que eu sabia de sua existncia, 
mas e o menino? Ele nunca disse que tinha outro filho. Ao contrrio: dizia sempre que seu casamento era s de aparncia, que no tocava na mulher havia muito tempo 
e que entre eles no havia mais nada. Disse que o desinteresse aconteceu logo aps o nascimento da menina. Por que ele mentiu? Por que est me evitando! Osvaldo, 
sorrindo para a esposa, puxou a cadeira para que ela se sentasse. Assim que ela se sentou, beijou seus cabelos e foi ajudar as crianas. Mrcia acompanhava tudo 
sem acreditar no que estava vendo. Ele sempre mentiu? Parece muito apaixonado. No existe desinteresse. Ao contrrio... em seus rostos pode-se ver muita felicidade. 
Sentiu o sangue subir. A raiva estava estampada em seu rosto. Assim que ele se sentou, ficou de frente para ela, que o estava matando com os olhos. O olhar foi to 
forte e penetrante que ele, sem saber por que, olhou em sua direo. Ao v-la, ficou branco como cera. No sabia o que fazer. Sua esposa nada percebeu, pois estava 
atendendo ao filho menor, perguntando-lhe o que queria beber. Mrcia, completamente descontrolada, levantou-se. Ele, com medo de que ela fizesse um escndalo, comeou 
a tremer. Ela passou por ele e saiu sem nada dizer ou fazer. Ele, finalmente, serenou e comeou a conversar com a esposa. Sabia que a situao era grave, mas naquele 
momento era a nica coisa que poderia fazer. Do lado de fora, Mrcia pediu seu carro. O garom que havia tirado o pedido veio atrs dela. 
- Senhorita, aconteceu algum problema? Foi feita alguma coisa que a desagradou?
- No... desculpe... no estou me sentindo muito bem. Tirou uma nota da carteira e deu a ele, que agradeceu e voltou para dentro. O manobrista trouxe seu carro, 
ela entrou e saiu em disparada. Seu corpo todo tremia de raiva e dio. Falava em voz alta:
- Ele est me evitando. Eu, tola, pensando que estava com algum problema. Problema nada! Est  muito feliz com a esposinha e aquelas crianas idiotas.

FORAS DESCONHECIDAS

Chegou ao prdio e estacionou o carro. Subiu at seu apartamento, abriu a porta e entrou correndo sem olhar para nada, s querendo arrumar um modo de se vingar. 
Seu corpo tremia. No o amo, mas ele nunca poderia ter feito isso comigo. Quem pensa que  para me tratar assim? No me conhece. Se conhecesse, no se atreveria. 
Mentiroso! Canalha! Ver do que sou capaz! Nunca em sua vida havia sido to humilhada. Ela, a poderosa, que conseguiu tudo que sempre quis, estava ali sendo enganada. 
Nunca poderia admitir. Com raiva, foi at o bar, pegou uma garrafa de vinho e comeou a beber sem parar. No estava acostumada a bebidas alcolicas e logo sentiu 
que suas pernas estavam amolecendo e sua cabea ficando vazia. S via em sua frente  figura dele, todo carinhoso com a esposa e os filhos. Falava em voz alta:
- Canalha! No tinha intimidades com a esposa. No a amava. Ele s tinha a menina, como foi que aquele menino nasceu? 
Tomou quase toda a garrafa. Com muita dificuldade, foi at o quarto e deitou-se vestida do modo que chegara. Ao deitar-se, sentiu a cama balanar como se estivesse 
em um navio. Comeou a rir daquele movimento e segurou-se com medo de cair. Nunca havia bebido tanto e to depressa, por isso para ela, aquela situao era estranha. 
Ria e chorava de raiva. Lembrou-se novamente de sua me, e a, sim, chorou muito. Adormeceu sem perceber. Sonhou com coisas boas e ruins misturadas. Estava em um 
lugar muito escuro e frio e ao mesmo tempo em outro quente e com muita luz. Encontrou no sonho muitas pessoas que no conhecia. Quando acordou, pela manh, j passava 
das onze horas. Pela primeira vez estava muito atrasada e chegaria tarde ao trabalho. O telefone tocou e ela sentiu uma forte dor de cabea com o barulho. Com muito 
custo, atendeu. Era sua secretria.
- Bom-dia, dona Mrcia, sou eu. Liguei para saber se aconteceu alguma coisa. A senhora no chegou para a reunio e estamos todos preocupados.
Ela se sentou melhor na cama e pensou: A reunio? Como fui me esquecer! Respirou fundo e disse:
- No passei bem  noite e acordei s agora. Estou com muita dor de cabea, no vou trabalhar hoje. Vou at o mdico ver o que est acontecendo. Avise a todos, por 
favor.
- Est bem. No precisa se preocupar. Cuide-se. Espero que no seja nada srio.
- No deve ser. Talvez uma gripe, estou com um pouco de febre. Mas no se preocupe. Cuide de tudo em minha ausncia.
Desligou o telefone. Sua cabea parecia que ia estourar. Foi at o banheiro, colocou a banheira para encher. Enquanto a banheira enchia, desceu. Queria ir para fora, 
ver como estava o dia, a piscina e tambm olhar a cidade. Quando voltava para o quarto, ouviu vozes que vinham da cozinha. Dirigiu-se at l. Era sua empregada, 
que conversava com outra pessoa.
- Pois , menina. A mulher  boa mesmo. Ela fala tudo que est se passando com a gente. Depende do trabalho. Ela faz o bem, mas se precisar faz o mal, tambm.
- Tem certeza de que  verdade, Francisca?
- Claro que tenho. Ela me falou tudo de Valtinho: o jeito que ele  e por que no consegue emprego. Ela  boa mesmo. Rita foi l e conseguiu separar Rui da mulher 
dele, e ele est com ela agora.
- No acredito!  verdade mesmo?
Ao ouvir aquilo, Mrcia entrou na cozinha.
- Bom-dia. Posso saber do que esto falando?
Sua empregada, ao v-la em casa, ficou desconcertada, no sabia como se desculpar por estar com uma pessoa estranha acompanhando-a. Sabia que Mrcia no gostava 
disso.
- Dona Mrcia, a senhora no foi trabalhar? Esta  minha amiga, Francisca. Ela veio me ajudar, porque preciso ir ao mdico. Sabe como : mdico pblico, no se pode 
perder a hora.  
 - Est bem, Marluce, no se preocupe. Ouvi alguma coisa sobre uma mulher que faz trabalhos para ajudar em nossos problemas. Que mulher  essa? Onde ela mora?
- No liga, no, dona Mrcia. Isso  histria de Francisca. No tem o que falar e fica falando bestagem.
Francisca, recm-chegada do Nordeste, era humilde, mas muito falante. Retrucou:
- Bestagem, nada, dona. A mulher  boa mesmo. Descobre tudo, at o que a gente est pensando.
- Tudo isso que ouvi que ela fez  verdade mesmo?
- Claro que  dona. Ela faz qualquer coisa que a gente quiser.
- Onde ela mora?
- Mora l pelos lados de So Miguel.
- Como fao para falar com ela?
- Tem de marcar hora. Ela atende muita gente.
- Como fao para marcar hora?
Francisca olhou para Marluce, que fez um sinal com a cabea dizendo que no, mas ela se fez de desentendida e continuou:
- Quer saber mesmo a verdade, dona? Hoje a gente no vai a nenhum mdico, no. A gente vai  at a casa da mulher. A gente marcou hora com ela j faz um tempo. 
Se a dona quiser, pode ir junto. Quem sabe ela atende  senhora tambm!
Marluce empalideceu. Ficou com medo da reao de Mrcia.
- Est bem, vou com vocs. A que horas precisam estar l?
- s quatro da tarde. Por isso vim ajudar Marluce. Seno, no ia dar tempo.
- Vou sair um pouco e l pelas duas horas estarei de volta. 
Retirou-se da cozinha. Foi para o banheiro, tomou um banho, vestiu-se e saiu sem rumo. No tinha para onde ir. No estava acostumada a ter os dias livres. Andou 
por vrias ruas. Resolveu ir at uma loja comprar algumas roupas. Precisava fazer algo para que o tempo passasse. Almoou no restaurante aonde ia sempre com Osvaldo. 
Ele, naquele dia, no estava l, o que a deixou mais nervosa ainda. Se o encontrasse, talvez me desse uma explicao. Quem sabe aconteceu algo que o fez tomar essa 
atitude. Preciso encontrar um modo para falar com ele. Mas como farei? Ele no me telefona, nem atende os meus telefonemas. Estava ansiosa para conhecer a tal vidente. 
Enquanto dirigia rumo a seu apartamento, ia pensando: Como ser essa mulher? Nunca fui a um lugar como esse. Alis, nunca fui a lugares voltados a coisas espirituais, 
nem mesmo segui uma religio. No acredito em religio, qualquer que seja. s vezes chego a pensar: ser que existe realmente um Deus? s duas da tarde, voltou, 
abriu a porta e entrou na sala. Tudo, como sempre, estava em ordem. Foi at a cozinha e l estavam as duas terminando de preparar o jantar. Francisca acabara de 
colocar verduras e legumes em uma travessa. Quando Mrcia chegasse,  noite, teria s de temperar. Marluce estava terminando de lavar a loua. Mrcia perguntou:
- J terminaram?
- Quase tudo, dona Mrcia.
- Est bem, Marluce. Vou tomar um banho e trocar de roupa. Logo estarei pronta e poderemos ir.
Tomou um banho rpido. Colocou uma roupa simples. Enquanto se trocava, ia pensando: Devo estar louca, para ir a um lugar como esse. Bem, no custa nada. Ser s 
por curiosidade. Quem sabe eu consiga descobrir o que realmente est acontecendo? Preciso ir bem simples. Ouvi dizer que essas pessoas cobram muito caro por qualquer 
servio. Se ela descobrir que tenho dinheiro, vai querer me explorar. Foi at a cozinha. As duas estavam prontas e esperando. Foram juntas para a garagem. Mrcia, 
querendo evitar constrangimento no elevador, pois empregados no podiam descer pelo social, pediu a elas que fossem na frente. Ela desceria em seguida.  Quando chegou 
 garagem, as duas estavam encostadas no carro, esperando. Embora Mrcia usasse um carro da empresa, de ltimo tipo, possua um veculo prprio, um modelo esporte, 
muito bonito. Ela trocava de carro todos os anos. Com o antigo como entrada e uma pequena diferena, estava sempre com o carro do ano. Olhando para as duas, falou:
- Vamos ao carro pequeno. O da empresa no pode ser usado para assuntos particulares.
Elas no entendiam aquelas coisas. O que queriam mesmo era andar naquele carro, o que nunca pensaram que um dia poderia acontecer. Entraram e Mrcia saiu dirigindo. 
Pegaram a Marginal e, assim que apareceu a placa de So Miguel, Francisca disse:
- A senhora pode entrar a. E seguir sempre em frente. Mrcia no falou nada durante o trajeto. As duas iam conversando, apreciando a paisagem que todos os dias 
viam, mas de dentro de um nibus. Para elas, agora, de dentro do carro tudo parecia diferente. Mrcia dirigiu muito tempo por uma estrada reta, no prestou ateno 
ao nome. Em determinado momento, Francisca falou:
- A senhora pode entrar  esquerda no prximo farol. Mrcia foi seguindo as instrues. Desde que saram da Marginal, ela percebeu que o bairro comeou a mudar de 
aparncia, mas agora a mudana era maior: as casas e pessoas eram muito pobres. Sentiu um arrepio no corpo, enquanto pensava: No posso acreditar que um dia morei 
em um bairro como este, com tanta pobreza, tanta sujeira... Quanto mais andavam, mais pobre o bairro ia ficando. Havia muitas crianas brincando nas caladas, alheias 
 pobreza em que viviam. Em certo momento, Francisca falou:
- A casa dela fica no fim desta rua. 
Mrcia parou o carro, falando:
- Ento vamos a p. No quero que ela veja meu carro. Marluce e Francisca no entenderam o porqu daquilo, mas ela era a patroa, devia saber o que estava fazendo. 
Desceram e as trs caminharam a p. Andaram dois quarteires. Durante a caminhada, Mrcia sentiu um mau cheiro terrvel. Vinha de um pequeno crrego que passava 
por ali. Pela rua, corria uma gua de aparncia muito feia. Mrcia ia pensando: Este cheiro  caracterstico de pobreza. Esse esgoto correndo pela rua... no sei 
como as crianas no ficam doentes. Quantas vezes, como elas esto fazendo agora, tambm no brinquei com os ps descalos, pisando em guas como essa? Ainda bem 
que, um dia, consegui me livrar de tudo isso... Pararam em frente a uma casa. Francisca bateu palmas ao porto. Uma senhora saiu  janela:
- Pois no.
- Viemos falar com dona Durvalina.
-  l nos fundos, podem entrar.
Francisca entrou na frente e as duas a seguiram por um corredor muito comprido. Havia muitas portas e janelas. Nas portas havia nmeros, dando a impresso de que 
ali moravam muitas famlias. Mrcia fazia um esforo enorme para no sair dali correndo. Tudo aquilo fazia com que se lembrasse de sua infncia, que ela h muito 
tempo fazia questo de esquecer. Finalmente, chegaram ao fundo do quintal. Havia ali mais uma porta e uma janela. Francisca bateu  porta. Uma voz respondeu: 
- Pode entrar. 
Entraram. Mrcia sentiu um mal-estar terrvel. Um quarto escuro, apenas iluminado por algumas velas. Em um canto, estava uma mulher fumando charuto e sentada no 
cho. Ao lado dela, uma garrafa de cachaa. Mrcia entrou e, ao ver aquilo, deu um passo para trs. Seu primeiro impulso foi de fugir. Nunca estivera em um lugar 
como aquele. Sentiu muito medo. Segurou Marluce pelo brao e, sem nada dizer, comeou a sair. A mulher deu uma gargalhada estridente e falou:
- Para onde a moa vai? Est fugindo do qu? No precisa ter medo. No fao mal a ningum. A no ser que me pea e pague. No trabalho de graa. 
Mrcia estancou. No sabia se entrava de vez ou se saa. Seu corao batia forte. Falou:
- Desculpe, mas no estou acostumada. Nunca vim a um lugar como este, nem nada parecido. Estou com medo.
A mulher soltou outra gargalhada, falando:
- Medo de mim? J lhe disse que no precisa ter medo. Se veio at aqui,  porque precisa de ajuda, e vejo que posso ajudar. Chegue mais perto e fique de joelhos 
para que eu possa ver seu rosto.
Um pouco receosa, mas puxada por Francisca, Mrcia aproximou-se e ajoelhou-se. A mulher pegou suas mos, que tremiam muito, olhou bem dentro de seus olhos e falou:
- A moa precisa mesmo de minha ajuda... muito mais do que imagina. Vou pedir pras outras duas moas esperarem l fora. O que tenho para falar  s com a moa aqui.
As duas entenderam e saram. Mrcia tentou se levantar, queria sair dali tambm, mas a mulher segurou-a forte, no permitindo. Uma fora estranha fez com que ficasse 
ali parada, sem poder se mexer. O medo e o horror tomaram conta dela. Depois que as duas saram, a mulher, olhando bem nos olhos de Mrcia, continuou:
- A moa veio at aqui porque quer prender um homem do seu lado pra sempre...
Ao ouvir aquilo, Mrcia estremeceu e perguntou:
- Como sabe? Quem lhe contou?
- Sei isso e muito mais. Sei que esse homem j tem famlia e est muito feliz agora.
- No pode ser ele no pode estar feliz. Ele no pode me abandonar. Foi por isso mesmo que vim at aqui. O que pode fazer para me ajudar?
- Pra ajudar a moa? Pra ajudar mesmo?
-  para me ajudar. Para isso estou aqui.  
- Se for pra ajudar a moa, s posso dizer: se levante e v embora. Pense na sua vida, em tudo que conseguiu at hoje, nas pessoas que prejudicou e nas que abandonou. 
Tambm posso dizer que fique, vamos fazer um trabalho pra esse homem no querer outra mulher que no seja a moa. Mas assim no sei se vou ajudar. 
Ao ouvir aquilo, Mrcia viu sua vida toda passar por sua cabea em questo de segundos. Ficou mais impressionada ainda.
- No sei como descobriu e se descobriu alguma coisa a meu respeito, mas a nica coisa que me interessa  ter esse homem para mim e para sempre. Pode mesmo fazer 
isso?
- Sim, mas tudo tem um preo. A moa est disposta a pagar?
Mrcia lembrou-se das histrias que ouvira a respeito de explorao por pessoas como aquela e respondeu:
- No tenho muito dinheiro, mas se estiver a meu alcance, eu pago. Quanto ? O que vai fazer?
- Vou fazer quatro bonecos. Em dois deles vou colocar o nome do homem; em outro, o nome da moa; e, no ltimo, o nome da mulher dele. A moa vai me trazer trs metros 
de fita preta e trs metros de fita branca. Com a fita preta vou amarrar o boneco com o nome dele junto com o boneco da mulher dele. No meio dos dois, nas partes 
de baixo, vou colocar uma agulha; e na parte de cima, no lugar da cara, um pedao de carne podre. Cada vez que os dois quiserem fazer amor, as partes de baixo vo 
doer e o cheiro das bocas vai ser muito ruim, e eles nunca mais vo conseguir.
Mrcia acompanhava cada palavra da mulher e, em seu pensamento, ia visualizando a cena. Delirava de alegria ao ver os dois tentando se amar, sem, contudo, conseguir. 
Com os olhos faiscando, perguntou:
- Tem certeza de que dar certo? Tudo isso acontecer mesmo? Ele vai sentir nojo dela?
- Vai, sim, moa. Ele no vai conseguir chegar perto dela.
- E com os outros bonecos? O que vai fazer?  
- Vou amarrar com a fita branca. Nas partes de baixo vou colocar uma pimenta e nas partes de cima vou colocar um perfume. Cada vez que ele pensar na moa, as partes 
de baixo vo deixar ele louco de vontade de ficar com a moa. Quando estiverem juntos, o perfume vai deixar ele completamente louco de amor e de desejo.
Mrcia continuava antevendo a cena em seu pensamento. Sentia todo o amor dele, amor para o qual ela nunca deu muita importncia, mas que agora ela queria e precisava.
-  s isso que quero. Foi para isso que vim at aqui. Quero ele assim, me desejando e me querendo cada vez mais. Quero que ele deteste e sinta nojo da mulher. Mas 
 s o que preciso fazer? To fcil assim? Eu mesma posso amarrar os bonecos. Eu mesma posso fazer isso.
- No pode, no, moa. Alm de tudo isso, existe muita reza que a moa no sabe fazer.
- Est bem. Sei que preciso pagar. Quanto ?
- Pra meu cavalo so cinco mil. Para mim so sete garrafas de marafo, sete charutos e sete velas pretas, que a moa tem de levar na encruzilhada.
- Cinco mil?  muito dinheiro!
- Sei que pra moa o dinheiro vale muito, mas sei tambm que a moa tem como pagar, por isso  moa  que vai escolher.
Mrcia pensou um pouco: Cinco mil  muito dinheiro. Mas, realmente, eu tenho e no vai me fazer falta. Se ela conseguir mesmo, vai valer a pena.
- Est bem, eu pago. Pode fazer e, se der certo, dou outro tanto.
- Moa, isso no pode ser feito assim. Eu dei o preo de meu cavalo e o meu, mas no falei ainda do preo que vai ser cobrado l de cima. No falei porque no sei 
qual vai ser. Isso  l com eles... mas posso dizer que vai ser bem alto.
Mrcia entendeu o que ela quis dizer, mas para ela, naquele momento, nada importava a no ser ter Osvaldo para sempre. Na realidade, no era t-lo para sempre, mas 
no permitir que ele a trocasse por outra, mesmo essa outra sendo sua verdadeira esposa. Olhou para a mulher e falou:
- No me importa o que tenha de pagar. Quero que tudo o que me prometeu acontea. Se conseguir realmente fazer isso acontecer, no tem preo. Pagarei o que pedir.
- A moa sabe com quem est falando?
- Sei. Com a senhora, dona Durvalina.
- No, ela  meu cavalo. A moa est falando com um Exu. A moa sabe o que  um Exu?
- No, no sei.
- Sei que a moa no sabe. Sei tambm que no est pensando bem naquilo que est pedindo. Por isso vou contar o que  um Exu.
Mrcia estava sendo sincera: ela realmente nada sabia sobre aquilo. Durante toda a sua vida, s pensou em estudar e trabalhar, nunca se interessou por outros assuntos 
que no fossem esses. Por isso, sentiu at uma pequena curiosidade.
- Gostaria de saber algo sobre isso. Nunca me preocupei, mas agora estou um pouco curiosa.
- Por causa da curiosidade e vingana  que muita maldade  feita. Moa deixa isso tudo pra l. Volte para sua vida. Ela tem sido muito boa pra moa.
Mrcia no entendia por que aquela mulher, ao mesmo tempo em que lhe pedia dinheiro por um trabalho que ela nem sabia o que era, lhe dizia aquelas coisas.
- Estou mesmo curiosa. Se vou pagar, preciso saber do que se trata.
A mulher bebeu um pouco de cachaa na prpria garrafa e jogou uma baforada de charuto sobre Mrcia. Pausada e calmamente, continuou falando:
- Exu  um esprito escravo, tem de fazer tudo que mandam pra ele fazer. Ele pode fazer o bem e o mal; pra ele no tem escolha. Todo Exu sabe que, em um lugar que 
ele no sabe onde , existe uma escada que ele pode subir ou descer. Se a moa vem e pede pra fazer o bem pra algum ou pra moa mesma, sei que subo um degrau dessa 
escada; mas, se a moa pede pra fazer o mal, deso dez degraus. A moa est pedindo pra fazer o mal para uma famlia inteira. Se a moa quiser mesmo, vou ter de 
fazer e vou descer dez degraus. Por isso, vou ficar muito triste com a moa. Ainda por isso tenho de avisar: todo bem e todo mal tm sempre cinqenta por cento de 
volta. A moa faz o que quiser, mas tem de saber que cinqenta por cento vo voltar pra ela mesma de bem ou de mal. Se a moa esquecer tudo isso que est querendo 
e for embora, vai fazer um bem pra moa mesma e vai receber cinqenta por cento de bem; mas, se quiser fazer o mal para essa famlia, vai receber cinqenta por cento 
de mal, que fez, de volta. E mais cinqenta por cento por me ter feito descer dez degraus da escada. No final de tudo, a moa vai receber de volta cem por cento. 
Mrcia ficou impressionada pelo modo como aquela mulher falava. S agora, acostumada com a escurido, podia ver melhor seu rosto. Era uma mulher jovem ainda, mas 
seu rosto estava crispado, dando a ela a impresso de ser muito velha. Sua voz, embora no chegasse a ser, parecia de homem. Pensou um pouco e falou:
- Se tudo o que est falando  verdade, no estou entendendo muito bem, mas sinto que estou correndo um grande risco. Acho melhor esquecer e ir embora. No vale 
a pena arriscar.
- A moa  que sabe. Estou aqui pra fazer o que a moa quiser. S falei essas coisas porque sei que a moa ia fazer inocente, mas se a moa quiser, pode voltar. 
Eu fao. A moa tem uma nota de dinheiro a? No precisa ser de valor grande... uma nota qualquer.
Mrcia, desconfiada, abriu a bolsa e tirou a nota de menor valor que possua e entregou-a para a mulher. Esta pegou a nota, enrolou-a e abriu-a vrias vezes, soltando 
sobre ela baforadas de seu charuto. Depois a dobrou e a devolveu a Mrcia, dizendo:
- A moa vai andar pela rua e vai encontrar uma pessoa muito pobre. D essa nota para ela e se puder d mais alguma coisa. Estou fazendo isso para mostrar que tudo 
que falei  verdade.
Ainda um pouco desconfiada, Mrcia pegou a nota e colocou a na bolsa, pensando: Seria uma prova se este lugar no fosse to pobre, mas, aqui por perto, deve haver 
muitas pessoas pobres, mesmo assim, vou ver. A mulher deu uma gargalhada e jogou mais uma baforada de charuto na direo de Mrcia.
- Agora a moa pode ir embora. Pense bem em tudo que falei. Se quiser, pode voltar. Vou ficar aqui at que um dia encontre a tal escada. No precisa marcar consulta, 
viu moa?
Mrcia levantou-se e deixou perto de dona Durvalina uma nota de cinqenta, que sabia ser o preo da consulta. Saiu. L fora as duas a esperavam ansiosas. Mrcia 
saiu com o rosto crispado; aquelas ltimas palavras da mulher realmente tinham tocado fundo em seu corao. Francisca levantou-se e entrou no quarto escuro. Mrcia 
sentou-se no banco que ficou vago. Marluce quis perguntar alguma coisa, mas no se atreveu, apenas ficou olhando a expresso da patroa. Francisca ficou com dona 
Durvalina por meia hora, depois Marluce entrou. Mrcia nada dizia. Francisca sentou-se ao lado dela. Ficou calada por um tempo, mas no agentou muito:
- Ento, o que achou? Gostou? Ela sabe tudo mesmo, no ?
Mrcia apenas respondeu com a cabea, confirmando, no queria falar. No respondeu  pergunta por que estava pensando: No entendo at agora como ela conseguiu descobrir 
tudo. No foram Francisca ou Marluce... Elas mesmas no sabiam, nem poderiam imaginar que eu viria aqui. Preciso me informar mais a respeito de Exu e dessa religio. 
Finalmente, Marluce saiu, e elas foram embora. O carro estava distante da casa; tiveram de fazer o caminho de volta andando. Quando atravessaram a rua, na primeira 
quadra, encontraram uma menina que por sua aparncia parecia ser muito pobre e tinha seis ou sete anos. Ela se aproximou de Mrcia, falando:
- Moa, a senhora tem um trocado?
Mrcia olhou para ela, seus olhos se encontraram e ela sentiu uma ternura inexplicvel por aquela menina desconhecida. Automaticamente, lembrou-se de dona Durvalina, 
dizendo que ela encontraria uma pessoa pobre, mas aquela menina tinha algo mais que ela no sabia explicar. Abriu a bolsa e estava tirando a nota quando ouviu em 
suas costas algum dizendo:
- Lenita! Pedindo dinheiro de novo? J falei que no quero que faa isso!
Mrcia deu a nota para a menina e voltou-se para olhar quem estava falando. Era uma mulher que, sem olhar para ela, balanava o brao da menina, enquanto dizia:
- Devolva esse dinheiro pra moa! A gente  pobre, mas no precisa pedir! Trabalho muito pra lhe dar tudo o que precisa!
Mrcia ficou parada, branca como cera... diante dela estava sua me. Estava mais velha, tinha os cabelos brancos, mas era a mesma que havia visto no noticirio da 
televiso. Ficou olhando sem saber o que fazer ou falar. O que mais desejava naquele momento era sumir dali. Enquanto a mulher falava com a menina, ela pensava: 
No sei o que fazer. Como vim parar neste lugar? E agora? Vou ter de falar com ela. Nunca quis isso, e no quero agora. A mulher olhou para ela e devolveu o dinheiro:
- Obrigada, moa, por sua bondade, mas a gente no precisa, no.
Mrcia percebeu que ela no a tinha reconhecido. A ltima vez que a vira foi quando dona Leonor morreu, j fazia mais de dez anos. Naquele tempo, Mrcia era magra 
e franzina, tinha os cabelos curtos e negros. Hoje, mulher feita havia mudado muito, e sua me no prestara muita ateno nela, s queria desculpar-se pela menina. 
Deu um sorriso amarelo para a me e saiu rapidamente. Foi muito bom ela no ter me reconhecido. Seria embaraoso, principalmente na presena de Marluce e de sua 
amiga. Chegaram ao carro. Ela deixou as duas em um ponto de nibus, porque elas moravam longe dali. Voltou para seu apartamento. J eram mais de sete horas. Entrou, 
sentou-se em sua poltrona preferida, ficou pensando em tudo que havia acontecido naquele dia. Sentiu um forte cheiro de charuto. Cheirou suas roupas e seus cabelos. 
No sinto cheiro algum. Deve ser porque fiquei muito tempo dentro daquele quarto.  melhor eu tomar um banho... s assim conseguirei livrar-me deste cheiro. Entrou 
no chuveiro. Enquanto se banhava, pensava: Tudo o que aquela mulher disse me pareceu muito srio. Fez questo de que eu soubesse o que pretendia fazer. Disse tambm 
que poderei receber de volta o que fizer. No acredito em nada disso, mas Francisca disse que ela afastou algum da esposa. Vou deixar isso para l. Estou agora 
pensando naquela menina. Minha me na televiso disse que no sabia onde estava sua neta. Seria aquela menina? Ser que  filha de meu irmo? Aqueles olhos... por 
que senti que j a conhecia? Por que senti que ela  algum que amo? No pode ser...  Nunca a vi antes... Saiu do banho. Em frente ao espelho, admirou seu rosto. 
Deu um sorriso. Sabia que era uma mulher bonita. Seus longos cabelos negros, lindos e brilhantes... Sempre os tratou com os melhores produtos. Sua pele clara e olhos 
de um castanho claro davam a ela uma aparncia realmente formosa. No sei por que fiquei to brava com Osvaldo. Sou bonita, posso ter o homem que quiser. Ele que 
continue ao lado daquela mulherzinha insossa. Vou escolher agora um homem para mim, mas ser perfeito. Tem de ser perfeito, porque vai ser o pai de meu filho! Novamente 
sentiu o cheiro de charuto. Devem ser estas roupas; vou lev-las para a lavanderia. Passava pela sala quando escutou o interfone tocando. Atendeu:
- Pois no.
- O senhor Osvaldo est aqui para falar com a senhora. Posso deixar subir?
Ela refletiu por um momento. Estava vestida s com um roupo. Sorriu, falando:
- Pode mandar subir, obrigado.
Voltou a sentir muita raiva. Queria saber qual a mentira que ele diria agora. Foi para seu quarto e passou pelo corpo o perfume preferido de Osvaldo.
- Vou provoc-lo e, quando estiver pronto, eu o mandarei embora, para que nunca mais volte.
A campainha tocou e ela foi abrir a porta. Ele estava ali em sua frente, com o rosto preocupado. Ela sorriu.
- Pensei que nunca mais voltaria a v-lo. Foi bom que veio. Precisamos conversar.
Abraou-o, e procurou sua boca. Ele se afastou, dando um beijo em seu rosto. Ela sorriu, pensando: Veremos at quando resistir. Entraram. Ela ofereceu uma bebida, 
ele aceitou. Preparou uma para cada um e sentaram-se. Um pouco desajeitado, Osvaldo disse:
- Estou aqui para que possamos ter uma conversa definitiva. Clarice, depois de muito tempo, no suportou mais a solido e o desprezo que eu lhe fazia passar e resolveu 
me abandonar. Foi para o Paran viver com seus pais.
- No foi isso que vi no restaurante. Parecia que estavam muito felizes.
- Estvamos mesmo... E estamos. No suportando sua ausncia e a de meus filhos, fui atrs dela e a convenci de que a amava e a queria de volta.
- Voc fez isso, Osvaldo? Por qu? Essa seria a oportunidade de ficarmos juntos...
- Voc nunca deixou transparecer que queria isso, Mrcia. Disse sempre que era uma mulher independente e que no queria um compromisso srio.
- Nunca quis mesmo, mas agora estou pensando seriamente nisso. Estou com trinta e quatro anos e est na hora de ter um marido e filhos. Hoje, sei que voc  o homem 
que quero para ser meu companheiro e pai de meus filhos.
- Para isso estou aqui. Preciso te contar tudo. Descobri que amo minha esposa, que no posso viver sem ela, por isso tudo entre ns est acabado. Quero ser de agora 
em diante o marido e pai que nunca fui. Vou me dedicar inteiramente a eles. Estou aqui para colocarmos um ponto final em nosso relacionamento. Vamos recomear nossas 
vidas. Tenho por voc um imenso carinho, mas  a ela que amo. Agora que descobri isso, no posso mais tra-la, no conseguiria.
Mrcia sentiu uma onda de dio invadir seu corpo. Mas, sendo sempre muito controlada, manteve-se impassvel, como se nada que ele estivesse falando a atingisse. 
Olhou para ele amorosamente, fixou bem seus olhos e o abraou com muito amor. Seu roupo soltou-se de um lado e suas pernas bonitas ficaram transparecendo. Enquanto 
beijava seu rosto e pescoo, dizia:
- Voc no pode estar dizendo a verdade. Sei que me ama do mesmo modo que eu o amo. Se no fosse assim, no teramos ficado tanto tempo juntos. Sinta meu perfume... 
Coloquei-o s para lhe agradar, vamos continuar como sempre, no precisamos nos casar. Apenas ficaremos como antes, nos vendo e nos amando... Voc no precisa se 
separar s no me deixe... no sei como viverei sem voc... te amo muito...
Ele, com os olhos fechados, sentindo aqueles lbios tocando-o, por um minuto se entregou, mas voltou  realidade, afastou-se dos braos dela e disse:
- No adianta! Resolvi que vou ser feliz ao lado da mulher que verdadeiramente amo. No farei mais nada que possa faz-la sofrer.
Mrcia no desistiu. Voltou a abra-lo.
- No sabe o que est dizendo. Ns nos amamos, por sete anos vivemos felizes. Voc no pode simplesmente jogar tudo para o alto. Eu te amo...
Tentou beij-lo novamente, mas ele, agora de forma brusca, se afastou. Levantou-se e, em p, a certa distncia, disse:
- Sinto muito, mas no posso. Tenho uma famlia que amo. Por muito tempo estive afastado deles, mas agora usarei todos os momentos disponveis para lhes proporcionar 
felicidade. Voc  uma mulher bonita, independente, tem dinheiro e cultura, poder ter o homem que quiser. Esquea-me e procure refazer sua vida, como estou fazendo 
com a minha.
Em uma ltima tentativa, ela deixou o roupo cair e estendeu os braos para ele, num convite sedutor, mas ele olhou para ela, mandou-lhe um beijo com a ponta dos 
dedos e foi embora. Mrcia ficou ali parada, nua e sentindo muito dio. Pegou o roupo e jogou-o sobre as costas. Seu corpo tremia num misto de frio e de dio. No 
consigo acreditar que isto esteja acontecendo! Quem ele pensa que  desprezando-me dessa maneira? Ele tem razo: sou independente e bonita! Posso ter o homem que 
quiser, quando quiser! Acontece que eu quero s ele. Nem que seja para depois desprez-lo, mas agora, neste momento, eu o quero com todas as foras de meu ser! E 
ningum, ningum mesmo, vai impedir que eu o consiga de volta! Foi para seu quarto e deitou-se. Na posio fetal, comeou a chorar, no sabia se de dor ou de dio. 
Chorou muito. Adormeceu sem perceber. Sonhou com um campo muito verde, onde havia uma alameda. Olhou para o horizonte e viu uma silhueta correndo em sua direo. 
Quando a figura se aproximou, ela percebeu que era a menina que havia conhecido, Lenita, que, naquele momento, corria para ela abrindo os bracinhos e sorrindo. Mrcia, 
muito feliz, abriu os braos para receb-la, mas a menina desapareceu. Acordou tremendo e suando. Abriu os olhos e notou que estava em seu quarto. Sentiu frio, estava 
com o corpo descoberto. O roupo, que estava apenas em suas costas, cara. Cobriu-se com o cobertor e ficou pensando: Que sonho estranho... aquele lugar era muito 
bonito. A menina, com certeza, era Lenita; talvez um pouco menor, mas era ela. Que felicidade senti quando a vi correndo e que desespero senti quando ela desapareceu. 
Quem ser essa menina que me faz to bem? Recolocou o roupo, que estava nos ps da cama. Levantou-se e foi at a cozinha. A mesa, como sempre, estava posta e seu 
jantar deveria estar no forno. Marluce era dedicada e tratava-a muito bem. Abriu o forno e olhou para a comida. Na geladeira, havia uma travessa com salada, bastaria 
a ela temperar. Mas estava sem fome, no queria comer nada. Sentia como se em sua garganta houvesse um caroo que no deixava passar alimento algum. Pegou um copo 
com leite e voltou para seu quarto. Olhou o relgio: era meia-noite e quarenta. Vestiu seu pijama e voltou para a cama. Amanh  sexta-feira, no posso faltar ao 
trabalho, mas no sbado pela manh voltarei  casa de dona Durvalina e mandarei fazer o tal trabalho. No importa o preo que terei de pagar. Quero esse homem a 
meus ps. Eu o terei com certeza. Nem que para isso tenha de vender minha alma para o diabo! Sentiu novamente o cheiro de charuto. Cheirou suas roupas e nada. Pensou: 
Esse cheiro deve estar impregnado em minha pele. Ela no podia ver com os olhos fsicos, mas, se pudesse, veria vultos negros que a envolviam em uma dana macabra. 

DIREITO  JUSTIA

 No dia seguinte, Mrcia acordou na hora certa. Cumpriu sua rotina de se preparar para o trabalho. Enquanto se vestia, no conseguia esquecer Osvaldo falando-lhe 
aquelas coisas horrveis e indo embora, apenas mandando um beijo com a ponta dos dedos. Seu dio aumentou e pensou com muita raiva: Alm de tudo, ainda saiu me humilhando 
com aquela atitude. Eu o odeio! Vou me vingar! Se ele pensa que vai me usar e depois jogar fora, est muito enganado! Se tudo que dona Durvalina disse for verdade, 
eu o verei aqui rastejando a meus ps! Trabalhou o dia inteiro. Por mais que tivesse problemas particulares, seu trabalho era sagrado. Ainda mais agora, com o doutor 
Fernando doente, ela teria de mostrar ao presidente que era uma pessoa eficiente. Quando,  tarde, todos foram embora, ela sozinha, no escritrio, lembrou-se de 
Osvaldo. Tornou a v-lo mandando-lhe o beijo com a ponta dos dedos e saindo sem nada dizer. Seu dio aumentava cada vez mais. Nunca aceitarei isso! Eu, que sempre 
consegui tudo na vida! No importa o que tenha de fazer, terei aquele homem de volta! Quando voltar implorando meu amor, conhecer uma nova Mrcia, que ele nunca 
pensou existir! Farei com que sofra muito! Aps t-lo de volta, vou abandon-lo. Eu quero abandonar! No aceito ser abandonada. Nunca. Nunca! Sobre sua mesa havia 
uma foto com todos os funcionrios, tirada em uma festa de fim de ano. Olhou um por um e pousou os olhos no rosto de Farias. Sorrindo, pensou: Ele tambm se julgou 
melhor que eu. E viu o que lhe aconteceu... Lembrou-se de tudo novamente: como conseguiu que ele se afastasse da empresa depois de tantos anos. Sorriu novamente. 
Sou mesmo sensacional! Lembro como se fosse agora. Naquele dia, ele, desesperado, implorava:
- Mrcia, por favor, voc no pode fazer isso. Vai destruir minha famlia!
- Claro que posso! No tenho nada a ver com sua famlia. Voc  quem deve se preocupar com ela. Mant-la bem  sua responsabilidade...
- No posso sair da empresa. Estou aqui h muito tempo e estou velho para conseguir outro emprego como este.
- O problema no  meu,  seu. Sou jovem e preciso pensar em meu futuro, e ele neste momento est em suas mos.
- Por ser jovem, voc poder conseguir uma clientela prpria, como eu fiz. Eu  que no tenho mais energia para isso.
- Por que me dar a todo esse trabalho? Sua clientela j est conquistada e pode ser minha. Vou lhe dar trs dias e, se no pedir demisso, mandarei as fotos para 
a presidncia e para sua mulher.
- No teria coragem de fazer isso. Meus filhos esto casados e nunca me perdoariam. Sabe como esta empresa  conservadora, eu seria demitido na mesma hora...
- Por isso mesmo estou te avisando.  melhor pedir a demisso e sair com dignidade. Do contrrio, perder o emprego da mesma maneira e ainda ser humilhado.
Mrcia relembrou que, no dia seguinte, chegara  notcia de que ele se havia envolvido em um acidente na estrada com mais quinze carros e que havia morrido. Seu 
carro ficou totalmente destrudo no meio dos outros. Muitas pessoas se feriram, mas s ele morreu. As pessoas envolvidas no acidente no conseguiram dizer como tudo 
acontecera. Estava uma noite fria e com muita neblina. De repente, os carros foram batendo uns nos outros, no se podendo dizer qual havia sido o culpado. O carro 
de Farias estava voltado para trs, no sentido contrrio ao trfico. Deduziu-se que, com a batida, ele foi virado pelos demais. Mrcia e os outros funcionrios ficaram 
consternados. Durante o velrio, a empresa, por meio de um de seus diretores, prestou homenagem a ele pelos servios prestados. Todos os funcionrios gostavam muito 
dele e por isso compareceram tambm. Mrcia mostrava-se triste como os demais. Aps o funeral, ela foi para casa e ficou imaginando o que diria quando fosse chamada 
para ocupar o lugar que antes pertencera a ele. No dia seguinte, quando voltou ao trabalho, foi chamada  sala de seu superior. Assim que entrou, ele disse:
- Mrcia, infelizmente Farias se foi de nosso lado. Estamos tristes, porque ele era amado por todos, inclusive por minha famlia, pois ele era nosso amigo particular, 
mas a empresa e nossas vidas devem continuar. Ele sempre falou muito bem de voc, sempre disse que era uma moa capaz e com grandes chances de crescimento. Por isso 
estou lhe pedindo que continue trabalhando com os clientes que eram dele. Tenho certeza de que far o possvel para que tudo caminhe bem. Sei que, de onde ele est 
neste momento, est aprovando minha atitude.
Mrcia, agora relembrando tudo, abriu um sorriso: Enquanto ele dizia aquilo, eu, fazendo um enorme esforo, deixei que algumas lgrimas cassem pelo meu rosto. Com 
a voz embargada, respondi:
- Eu tambm sentirei muito sua falta, pois devo tudo que sou e que sei a ele. Ensinou-me tudo como se fosse meu pai, ou um amigo sincero. A melhor maneira para homenage-lo 
ser fazer com que seu trabalho continue sem soluo de continuidade. Sei que estar feliz por me ver fazendo tudo quilo que me ensinou. No o envergonharei nunca...
- Tenho certeza de que assim ser.
Sa daquela sala e voltei para a minha, onde pude secar as lgrimas e comemorar: Consegui! Consegui! Ningum jamais desconfiar que eu fiz aquelas ameaas! Se soubesse 
que ele logo morreria, teria esperado mais um pouco. Agora, tenho de mostrar minha capacidade. Obrigada, Farias. Pegou a fotografia que estava sobre a mesa, olhou 
para o rosto de Farias, sorriu e recolocou a foto no lugar. Naquele mesmo instante, como se tivesse sido atingido por um raio, Farias abriu os olhos: continuava 
ainda naquele lugar horrvel. Ao relembrar tudo o que havia acontecido, comeou a gritar:
- Onde estou? Que lugar  este?
O lugar era realmente horrvel: escuro, lamacento e malcheiroso. Ele ouvia gritos. Assustado, pensou: Esses gritos esto me deixando louco. Estou escondido nesta 
espcie de caverna, fugindo de figuras horrendas que me perseguem o tempo todo. Sei que, a qualquer momento, elas me encontraro e terei de fugir novamente. No 
entendo o que est acontecendo, mas, s de me lembrar das figuras, sei que preciso ficar quieto o mais que puder. J estou cansado de procurar uma sada e no encontrar. 
Por mais que ande e me esconda, essas figuras sempre me encontram. Que lugar  este? Como vim parar aqui? Estou sujo, com as roupas rasgadas e sinto muito frio e 
fome, mas o medo que estou sentindo me faz ficar escondido, sem coragem para nada. Estava assim, desesperado, com as mos tapando seus olhos, quando sentiu uma mo 
em seu ombro. Assustou-se e pulou para o lado, tentando livrar-se daquela mo. Um homem, tambm sujo e com a vestimenta rasgada, disse:
- No precisa ficar com medo. Estou aqui para te ajudar. Meu nome  Gervsio. H muito tempo estou te observando e creio que agora chegou  hora de falar com voc.
Farias no entendia por que, mas acreditou naquele homem. Perguntou:
- Que lugar  este? Por que no encontro uma sada? Que figuras so essas que querem me pegar?
- Vejo que o amigo tem muitas perguntas. Vou tentar responder a todas.
- Por favor, faa isso. Estou desesperado, sem entender nada.
- Este lugar  chamado de Vale dos Suicidas.
- Suicidas? Est louco! No estou morto. Estou vivo, e muito vivo. Muito menos me suicidei. Que estou fazendo aqui?
- Se est aqui,  porque deve ter se suicidado. Voc nunca ouviu falar da vida aps a morte?
- Claro que ouvi, mas nunca dei muita ateno para essas coisas de religio; precisava trabalhar. Mas no consigo acreditar que eu esteja morto. No consigo!
- Est, sim, meu amigo, assim como eu e todos os moradores deste vale. A morte, assim como a vida, no passa de iluso.
- Se o que est dizendo for verdade, ento realmente posso estar morto. Mas com certeza no me suicidei. Eu no tive culpa. Fui obrigado por aquela mulher. Ela  
um monstro.
- Ningum tem o poder de nos obrigar a nada. S fazemos o que queremos. Se voc se suicidou, a culpa foi s sua.
- Est dizendo isso porque no a conhece. Ela me obrigou.
- Quer me contar o que aconteceu?
- Vou contar tudo como aconteceu e ver que a culpa foi toda dela. Mrcia entrou bem jovem na empresa em que eu j trabalhava havia muito tempo. Era graciosa e sorridente 
e, com o passar do tempo, conquistou minha amizade. Aos poucos, fui passando a ela toda a minha experincia. Ensinei-lhe todo o ofcio que levei anos para aprender. 
Ela, muito inteligente, tornou-se uma tima vendedora, s que no se deu por satisfeita, e quis meu lugar, a clientela que levei tanto tempo para conseguir. Ela 
se mostrava amiga e confidente, por isso revelei a ela algumas particularidades de minha vida. Era casado havia muitos anos, tinha quatro filhos, todos adultos e 
bem posicionados na vida. Mas havia muito tempo eu possua uma outra mulher. Conseguia manter uma vida dupla. Essa outra mulher me era muito importante. Sabia que 
eu era casado, mas aceitou-me assim mesmo, por me amar muito. A empresa e minha famlia eram muito conservadoras e jamais aceitariam essa situao. Mrcia, aps 
eu ter lhe contado tudo, contratou um investigador particular para me seguir. Um dia me chamou, dizendo:
- Farias, creio que  hora de voc pedir demisso da empresa.
- Por que eu faria isso? Estou aqui h muito tempo e pretendo ficar por muito mais. Mas por que est dizendo isso?
- Porque quero e preciso de sua clientela. E s posso consegui-la se voc pedir demisso.
- O que a leva a crer que farei isso?
- Ela tirou da bolsa um envelope e me entregou. Eu o abri, e dentro havia vrias fotos minhas com a outra mulher. Em algumas, estvamos abraados no supermercado, 
em outras nos beijando no porto de sua casa, quando eu me despedia. Todas eram comprometedoras. Com as fotos nas mos, perguntei:
- Que pretende fazer com estas fotos?  
- Mandarei cpias para sua esposa e para os diretores da empresa. Sabe como so conservadores... Alm de perder o emprego, perder tambm a famlia.
- Comecei a tremer. Sabia que ela tinha razo. Pedi, implorei, mas ela se mostrou insensvel. Cinicamente, disse:
- Se pedir demisso, poder obter a aposentadoria. Diga  sua famlia que est doente. Se no pedir, mostrarei a todos estas fotografias e darei o endereo de sua 
outra casa. Ser desprezado. Voc  quem sabe... Vou te dar trs dias para pensar no que vai fazer. Depois disso, sabe que no hesitarei em mandar as fotos.
- Ela saiu e eu fiquei ali com as fotos nas mos, sem saber o que fazer. Eu no poderia pedir demisso. O dinheiro que ganharia com a minha aposentadoria no daria 
para manter minha famlia com o mesmo padro de vida. Pensei muito, mas no encontrava sada, Gervsio.
- Se tivesse pensado um pouco mais, Farias, veria que sempre h uma sada. Mas o que fez em seguida?
- Sa dali completamente transtornado, Gervsio! J na estrada, dirigindo meu carro, ia vendo o rosto dela me dizendo todas aquelas coisas. Via tambm o rosto de 
minha mulher, de meus filhos e dos diretores da empresa. Fiquei cada vez mais desesperado. A noite estava fria e havia um pouco de neblina. Em meu desespero, pensei 
que a nica soluo seria morrer, mas no poderia me suicidar, porque assim minha famlia no receberia o seguro. Se eu morresse, tinha certeza de que a empresa 
no os abandonaria. No sei como tive aquela idia. Em uma manobra, virei o carro no sentido contrrio em que estava. S senti a primeira batida. Depois no vi mais 
nada. Quando recuperei os sentidos, estava aqui neste lugar, sem entender o que estava havendo. No sei o que aconteceu com minha famlia nem com minha amante, a 
quem tanto amo. S sei que, se cometi suicdio, a culpa no foi minha, foi da Mrcia! Eu a odeio!
- Voc no precisava ter feito isso. Poderia ter encontrado outra soluo.
- No existia outra soluo! No existia! 
- Existia, sim, Farias: voc poderia ter enfrentado Mrcia, ter acreditado no amor de sua famlia e no quanto era admirado por seu trabalho. Poderia contar a todos 
aquilo que acreditava ser um erro. Quem lhe garante que eles no entenderiam a situao?
- No. Eles no entenderiam. Eu os conheo. Mas Mrcia foi  culpada.  uma injustia eu estar aqui. Se no fosse por ela, ainda estaria vivo.  uma injustia!
- Posso afirmar que sempre existe uma soluo para tudo, mas, se insiste em dizer que sofreu uma injustia, vou levar voc para que converse com algum que vai ajudar. 
Venha comigo.
- No posso sair daqui. Os monstros vo me pegar.
- No se preocupe nem tenha medo: Vou lev-lo em segurana. Venha.
Farias continuava assustado, mas sabia que no poderia continuar ali. Sentiu que aquele homem poderia ajud-lo. Olhando para os lados e segurando no brao de Gervsio, 
foi caminhando. Gervsio entrou por vrios corredores. Andava parecendo conhecer muito bem o caminho. Aos poucos, Farias foi ficando confiante. Embora o caminho 
fosse muito escuro e lamacento, as figuras feias no os atacavam. Depois de andarem por muitos lugares, finalmente chegaram a um corredor iluminado. Entraram em 
uma sala onde havia uma mesa. Um homem que estava sentado, assim que entraram, levantou-se e, sorrindo, disse:
- Gervsio, novamente aqui! Por quem est acompanhado?
- Sim, Damio, estou aqui novamente. Trago comigo Farias. Ele quer lhe falar; diz que sofreu uma injustia.
- Seja bem-vindo, meu irmo. A Lei de Deus  sempre justa e perfeita, mas, se eu puder ajud-lo, estou aqui para isso. Quer me contar o que aconteceu?
Farias sentiu um profundo respeito por aquele homem que lhe transmitia muita paz. Contou tudo o que acontecera. Damio o ouviu sem interromper. Quando Farias terminou 
de falar, olhou para Damio. Este, tambm o olhando, disse:
- Sinto que j terminou de contar. Preciso saber: o que quer que eu faa?
- Quero justia. Mrcia  a nica culpada.
- A Lei  justa. Ela serve para nos ajudar a encontrar nosso caminho. Voc diz que sofreu uma injustia... se isso realmente aconteceu, ter o direito de exigir 
que a Lei seja cumprida. Mas pode tambm usar a maior lei que existe. Essa lei  a lei do amor, que a tudo perdoa.
- Perdoar? Nunca! No posso perdoar. Ela me destruiu!
- O perdo sempre foi e ser o nico caminho para se chegar a Deus. Sem ele, nos afastamos da felicidade e da perfeio para sempre.
- No! No vou perdoar! Se essa Lei existe, se  para todos, exijo, como direito, que ela seja usada a meu favor!
- Est bem. Se  isso que deseja, assim ser. Gervsio pode acompanh-lo. Ele tem o direito de usar a Lei.
- Sim, farei isso, Damio. Farias, vamos?
Farias estava encantado com a oportunidade de poder se vingar daquela mulher que foi a causa de todo o seu sofrimento. Voltou-se para Gervsio, que estava um pouco 
atrs dele.
- Claro que vamos! Senhor Damio, estou muito agradecido por esta oportunidade.
Damio, com o rosto triste, respondeu:
- No precisa agradecer. Infelizmente, sei que ela est prestes a cometer algo muito ruim. Gostaria de poder intervir, mas no posso. Porm tenho esperana de que, 
como todo esprito, ela tenha dentro de si e saiba encontrar a bondade e o amor de Deus. Tenho esperana de que, por isso, vai se libertar desses pensamentos. Se 
assim fizer, conseguir se afastar do mal. Portanto tambm estar protegida e poder encontrar a paz. Se isso acontecer, meu irmo, se ela persistir no bem, voc 
tambm no poder fazer nada. Esta  a Lei. Gervsio, voc vai acompanh-lo. Deixe que faa tudo que quiser. Ele tem esse direito, j que julga ter sofrido uma injustia. 
Mas preciso dizer-lhe algo mais, Farias: tente usar esse direito para perdoar e amar. S ganhar com isso.
- Ela  m e gananciosa! Vai fazer essa ruindade que o senhor est dizendo, sim. Para ela no existe ningum alm dela mesma.  ruim, no vai pensar um minuto para 
prejudicar outra pessoa. Tenho certeza!  
- Se assim for, se ela fizer o mal, ser toda sua. Gervsio olhou para Farias e disse:
- Meu amigo, vou lhe pedir mais uma vez: abandone essa idia de vingana, acredite que a Lei  justa. Ser muito melhor para voc.
- Nunca! Por culpa dela estou aqui neste lugar horrvel. Ela no pode ficar impune! Usarei todas as armas que possuir para destru-la!
Damio fez um sinal com a mo. Gervsio entendeu, segurou o brao de Farias e puxou-o. Farias fez uma reverncia para Damio, este os abenoou com um sorriso e saram. 
Enquanto os dois saam, Farias impressionado com aquela figura, perguntou:
- Gervsio, quem  esse homem?  um santo?
Gervsio sorriu e respondeu:
- No, ele no  um santo.  um esprito de luz e, como todos, est nos encaminhando para o aperfeioamento. Ele est e estar sempre aqui para nos ajudar. Agora, 
vamos para onde voc quer, para junto dela. Feche os olhos...
Farias confiava em Gervsio, pois ele o estava ajudando. Quanto a Damio, no entendia bem o que sentia, pensou: Ao mesmo tempo em que o respeito, sinto medo de 
sua presena. Assim pensando, acompanhou Gervsio.

A FORA DO AMOR

Quando abriu os olhos, Farias estava dentro do carro de Mrcia, que voltava para casa. Ela, enquanto dirigia, ouvia msica e ia pensando nele. Ele foi um covarde! 
Se eu estivesse no lugar dele, teria contado tudo para a minha famlia. No teria me curvado perante uma chantagem. S sinto que tenha morrido to rpido. Se soubesse 
que seria assim, no teria feito nada, bastaria s esperar. Ao ouvir aquilo, Farias tomado de dio, quis se jogar sobre ela, mas foi impedido por Gervsio. 
- No deve fazer isso.
- Ela no est nem um pouco preocupada com meu destino.
- Estou vendo, mas ela est agora dirigindo um carro. Se a atacar, poder causar um acidente e prejudicar no s ela como outras pessoas. Se isso acontecer, ser 
sua culpa e voc ser o responsvel. A Lei se voltar contra voc.
- Eu serei o responsvel? Nunca fiz mal a ningum. Ao contrrio: sempre procurei ajudar. A ela mesma, ajudei, ensinei tudo o que sabia. Ela  quem  m.
- Est certo, mas voc est aqui para vingar-se dela, no para pr em risco a vida de outras pessoas. Tenha calma. Vai poder usar sua fora, mas s contra ela.
Enquanto isso, Mrcia, alheia  presena deles, chegou  garagem do prdio. Tomou o elevador e entrou em seu apartamento, acompanhada por Farias e Gervsio. Abriu 
a porta. Foi direto para seu quarto. Havia trabalhado muito, estava cansada. Tirou a roupa e dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho. Farias seguiu-a, dizendo:
- Voc vai agora conhecer meu dio. Vou destru-la. J sei como farei. Est com vontade de beber, Mrcia? Beba. Vai se sentir melhor.
Ela, parecendo ouvir, foi at a sala, pegou um copo, encheu de vinho e comeou a beber. Farias continuou:
- Isso! Beba muito! Vou fazer com que perca tudo que conseguiu com sua maldade.
Ela continuou bebendo. Lembrou-se de Osvaldo, e o dio voltou: 
- Quem ele pensa que ? Nunca conseguirei esquecer o gesto que fez, mandando-me aquele beijo com a ponta dos dedos e deixando-me ali sozinha. Nua. No perdoarei 
nunca! Vou t-lo de volta! Farei qualquer coisa. Amanh bem cedo irei novamente  casa de dona Durvalina, levarei o dinheiro e mandarei fazer o tal trabalho. Ningum 
impedir minha vingana.
Por estar cansada e embriagada, dormiu logo, mas foi um sono agitado. Sonhava e acordava, no conseguindo dormir tranqilamente. Pela manh, acordou, sentindo dores 
pelo corpo, a cabea doendo muito. No entendia por que no havia dormido bem. Pensou: No dormi a noite toda. Deve ser o dio que estou sentindo por Osvaldo. Vou 
at a casa de dona Durvalina mandar fazer o trabalho. Ele tem de voltar. Eu o quero arrastando-se a meus ps, e depois, o abandonarei para nunca mais voltar a v-lo! 
Era muito cedo, mas mesmo assim pegou o carro e saiu dirigindo sem destino. Foi fazer algumas compras para esperar o tempo passar. Quando acreditou ser a hora certa, 
foi em direo  Marginal e  casa de dona Durvalina. Teve alguns problemas, pois no conhecia muito bem o caminho, mas finalmente encontrou a rua. Deixou o carro 
no mesmo lugar que deixara da outra vez, longe da casa, e foi caminhando. Havia muitas crianas brincando. Pensou: Como  bom ser criana... Elas brincam sem entender 
sua real situao. Eu tambm fui assim, brincava sem entender a pobreza em que vivia, mas assim mesmo eu era feliz. S quando cresci foi que realmente entendi minha 
situao. Umas dez casas antes da de dona Durvalina, algumas crianas haviam desenhado no cho uma amarelinha. Ela se lembrava muito bem dessa brincadeira. Sorriu. 
Viu Lenita, que, sentada em um degrau, olhava as crianas brincando. Mrcia notou que ela estava com o rosto triste. Sem saber por que, aproximou-se, perguntando:
- Por que no est brincando?
- No posso. Sou doente e no posso pular muito. 
- Doente? Que doena?
- No sei. Parece que  do corao. O mdico disse que no posso fazer esforo, por isso fico s olhando.
Mrcia sentiu um grande aperto no corao. Aquela menina, no sabia por que, representava muito para ela. Sentiu muita vontade de abra-la, mas novamente se lembrou 
de quem era e no podia misturar-se com aquelas pessoas, embora fossem parte de sua famlia. Apenas sorriu e continuou andando. Seu corao pedia que voltasse, abraasse 
e ajudasse aquela menina, mas sua mente a impedia de faz-lo. Estava quase chegando  casa de dona Durvalina, quando ouviu gritos desesperados das crianas. Voltou-se 
e viu Lenita deitada no cho e as outras crianas gritando. Correndo, foi at elas:
- Que aconteceu?
- No sei dona. Ela caiu e ficou assim.
Mrcia viu Lenita muito branca e respirando com dificuldade.
- Onde ela mora? Onde est sua me?
- Ela est morando na minha casa e no tem me, mora com a av e ela est trabalhando. Vou chamar minha me.
Mrcia, pegando a menina no colo, desesperada, disse:
- Faa isso. V chamar sua me. Vou lev-la a um hospital.
O menino saiu correndo. Mrcia lembrou que o carro estava distante. Embora a menina fosse muito magrinha, no conseguiria chegar ao carro com ela nos braos. Tornou 
a deit-la no cho, falando para as outras crianas:
- Fiquem com ela, mas no muito perto, ela precisa ter ar para respirar. Vou buscar meu carro e volto logo.
As crianas, assustadas, acenaram com a cabea para ela ver que entenderam e afastaram-se um pouco. Depois de colocar a menina novamente no cho, Mrcia saiu correndo 
em direo ao carro. Quando voltou, a me do menino j estava agachada junto  Lenita, que continuava desacordada. Mrcia parou o carro, falando:
- Vou lev-la a um hospital. Seria bom se a senhora viesse comigo.
A mulher comeou a levantar a menina. Mrcia ajudou-a e as duas a colocaram no banco traseiro. A senhora entrou tambm e foi segurando a cabea de Lenita. Mrcia 
acelerou o carro, ligou as luzes de emergncia e saiu em disparada. Perguntou:
- Onde  o hospital mais perto daqui?
- O hospital pblico fica distante, mas logo ali na outra esquina h um hospital particular. S que a av dela  pobre e no pode pagar um tratamento.
- Isso no  problema. Para onde devo ir? Onde fica esse hospital?
A mulher foi ensinando o caminho. Em pouco tempo, estavam em frente a um grande hospital. Mrcia viu uma placa com a inscrio  Emergncia . Estacionou. Apressada, 
saiu do carro e entrou correndo no hospital. Voltou acompanhada por duas enfermeiras que traziam uma maca. Pegaram  menina e entraram apressadamente. Mrcia e a 
outra mulher as acompanharam. L dentro, as enfermeiras seguiram com a menina por uma porta. Mrcia e a senhora ficaram esperando, sentadas em uma poltrona. O porteiro 
entrou e dirigiu-se a Mrcia:
- Desculpe, mas a senhora deixou seu carro em um lugar proibido, reservado para as ambulncias. Tambm deixou as chaves no contato.
Mrcia, muito nervosa, s naquele momento percebeu que havia esquecido as chaves. Tremia muito, e disse:
- Por favor, ser que poderia tir-lo de l para mim? Estou muito nervosa.
O porteiro, sorrindo, saiu. Logo depois voltou, entregando-lhe as chaves. Mrcia agradeceu. A recepcionista fez um sinal para que ela se aproximasse. Mrcia no 
percebeu. Nervosa com tudo que estava acontecendo, no tirava os olhos da porta por onde Lenita entrara. Seu corao batia rpido. Pensava: Ela no pode morrer. 
Sinto que me  muito importante. Precisa viver. A recepcionista tornou a fazer o sinal. Mrcia, sem entender muito bem o que a mulher desejava, aproximou-se do balco.
- Chamei-a porque percebi, pelas roupas que a menina est vestindo que ela no  sua parente. Preciso abrir uma ficha, mas para isso necessito os dados pessoais. 
A senhora os tem?
- No, no tenho. Apenas a socorri.
- H algo mais: este  um hospital particular, por isso s daremos a ela o primeiro atendimento. Se tiver de ficar internada, ter de ir para um hospital pblico.
Mrcia no acreditou no que estava ouvindo.
- Est me dizendo que por no ter dinheiro ela no ter um atendimento adequado? Poder morrer?
- No, no  isso. S ter de ir para um hospital pblico.
- Quero... quero, no! Exijo que ela tenha todo o atendimento que precisar! No sei os dados dela, mas aquela senhora deve saber. Depois que ela for atendida quero 
falar com o mdico para saber sua real situao.
Voltou para a poltrona, perguntando para a senhora:
- Sabe o nome da menina? Onde esto seus pais?
- No sei o nome todo. Sei que se chama Lenita, mas no sei o resto. Ela no tem pais: a me morreu quando ela nasceu, e o pai dois anos depois. Desde que nasceu 
vive com a av, que  minha amiga. So muito pobres. A av acabou de perder o barraco onde morava numa favela, e est em minha casa at conseguir um lugar.
Ao ouvir aquilo, Mrcia sentiu novamente aquele aperto no corao. Relembrou o rosto de Ricardo, seu irmo. Embora no gostasse de sua me, s vezes sentia saudades 
de seu irmo. Agora ficou sabendo que ele no vivia mais. Com um n na garganta e a voz embargada, disse:
- Sinto muito por tudo isso. V, por favor, at o balco e d as respostas que souber. Vamos esperar e ver o que o mdico tem para dizer a respeito do tratamento 
que a menina ter de fazer.
A mulher levantou-se e foi at o balco. Mrcia ficou relembrando seu tempo de infncia e seu irmo, as brincadeiras que faziam. Estava presa em seus pensamentos 
quando um mdico entrou na sala e falou com a recepcionista. Ele olhou para Mrcia, que seguia todos os movimentos que eles faziam. Ele se dirigiu at ela, dizendo:
- Soube que queria falar comigo. Acredito ser a respeito do estado da menina. Quero dizer-lhe que ela agora est muito bem e fora de perigo, s que a doena que 
tem precisa de acompanhamento, e ela est muito desnutrida. Infelizmente no poder continuar neste hospital, mas o ideal seria que tivesse um tratamento contnuo, 
aqui ou em outro lugar. Gostaria muito que ficasse conosco e que eu pudesse continuar tratando-a, mas no sei quais so as condies da famlia. Este  um hospital 
particular, e eu infelizmente no sou dono, apenas trabalho aqui.
- Entendo doutor. S lamento que tenha de ser assim. Mas no se preocupe: ela ficar aqui o tempo que for necessrio. Deixe tudo por minha conta. Faa o que for 
preciso.
O mdico sorriu e disse:
- Obrigado. Sei que apenas socorreu a menina, que no a conhece, por isso, estou muito agradecido em seu nome. Falarei com a famlia e continuarei tratando dela 
em meu consultrio sem cobrar.  tudo que posso fazer. Quem sabe, juntos, poderemos fazer com que ela tenha uma boa qualidade de vida.
- Farei o possvel para que ela tenha tudo que precisar doutor. Essa menina precisa de auxlio e eu tenho como ajudar. No se preocupe, faa tudo que estiver a seu 
alcance.
O mdico cumprimentou-a com a cabea e voltou pela mesma porta de onde tinha sado. Precisava ficar atento ao estado de Lenita. A senhora voltou e disse:
- Dei as informaes que sabia. Preciso avisar a av da menina para que venha at aqui e complete as informaes.
Mrcia voltou a lembrar-se de sua me e disse:
- A menina ficar aqui por alguns dias. A av deve estar preocupada e no sabe para que hospital viemos. Providenciarei tudo com a recepcionista, depois levarei 
a senhora de volta para que comunique todo o acontecido a ela.
Foi at o balco.
- Que preciso fazer para que ela tenha todo o atendimento necessrio?  
 - Deixe um cheque com esta quantia. Quando a menina tiver alta, devolveremos o que sobrar, ou cobraremos o excedente.
Mrcia verificou o valor, tirou da bolsa um talo de cheques, preencheu uma das folhas e entregou-a a moa, dizendo:
- Vou deixar este cheque e meu telefone. Se precisar de mais, basta me telefonar.
- Est bem. Assim que a famlia chegar, darei seu telefone para que possam agradecer.
Ao ouvir aquilo, Mrcia estremeceu. Disse com uma firmeza que assustou a moa:
- Nem pensar! No se atreva a fazer isso. Estou ajudando a menina, mas no quero ser mais incomodada por sua famlia. Portanto, este telefone no pode ser dado a 
ningum. A ningum, entendeu?
A moa, assustada, respondeu:
- No entendo por que quer se manter annima. O ato que est fazendo  muito bonito. Mas, se  assim que deseja, manterei o sigilo. Vou anotar aqui na ficha que 
seu telefone no deve ser dado a ningum. Est bem assim?
-  isso mesmo o que desejo.
Mrcia voltou para junto da mulher que a acompanhava.
- A menina est bem e j providenciei para que fique aqui o tempo que for necessrio. Agora, podemos ir. Mais tarde, traga a av dela at aqui; acredito que esteja 
desesperada para saber o que aconteceu com a menina.
- No precisa me levar: moro aqui perto e vou a p. No sei quem  a senhora, mas apareceu do cu. Obrigada por tudo. Pode me dizer seu nome? A av de Lenita vai 
querer saber para agradecer.
- Meu nome no importa. O importante  que ela continue cuidando bem da menina. Diga a ela que mantenha o tratamento com o mdico. Providenciarei os remdios que 
precisar.
- Ela adora essa menina e faz tudo que pode por ela. Trabalha muito.
- Assim espero. Bem, vou embora, mas antes tenho de fazer algo. Voltou para o balco e falou para a recepcionista:
- Ser que podia chamar o mdico novamente? Preciso falar com ele.
A moa chamou pelo interfone:
- Doutor, aquela mulher que ajudou a menina deseja falar com o senhor. 
 - Est bem, irei em seguida.
Aps alguns minutos, ele voltou. Olhando para Mrcia, disse:
- Est querendo perguntar-me algo mais?
- No, sua explicao sobre a doena e o tratamento foi completa, mas o senhor disse que vai continuar tratando da menina em seu consultrio. Ela vai precisar ser 
medicada, por isso vou deixar meu telefone com o senhor. D a ela toda a medicao que precisar, em seguida me telefone, e eu lhe mandarei o dinheiro dos remdios 
para sua conta bancria. Por favor, d-me o nmero da conta e da agncia. No se preocupe: basta me telefonar e dizer o valor. No mesmo dia eu farei o depsito. 
No economize, gaste o que for necessrio.
O mdico ficou olhando para ela sem entender todo aquele interesse, mas considerou que aquilo no era de sua conta. A menina seria tratada e para ele isso era o 
que importava.
- No estou preocupado, sei que cumprir com o prometido. No se preocupe; ela ter todo o tratamento necessrio.
- Sei disso, doutor. Telefonarei mais tarde para saber como ela est. Ser que poderia v-la antes de sair?
- Claro que pode. Ela agora est dormindo, mas seu estado  muito bom. Est tudo sob controle. Venha comigo.
Ela o acompanhou, entrando por aquela mesma porta. Foi levada at o quarto. Lenita dormia tranqilamente. Sua cor natural j voltara. Mrcia, emocionada, ficou olhando 
para aquele rostinho e pensando: Voc  to bonita! No se preocupe: farei tudo que for possvel para ajudar voc a crescer e a se tornar uma linda moa. Voc  
muito querida. No sei qual o motivo, porm sinto que te amo muito. Vou embora, mas, daqui para frente, acompanharei sua vida. Deu um beijo na testa da menina e 
saiu. No percebeu, mas um vulto luminoso aproximou-se sorrindo e tambm beijou sua testa. Mrcia foi para o seu carro e partiu. A imagem de Lenita no saa de sua 
cabea: Queria cuidar dela para sempre, mas sei que minha me no permitir, parece que  muito apegada  menina. S de pensar que para t-la comigo terei de aceitar 
minha me tambm, sinto um frio correr pela minha espinha. Que sentimentos estranhos so esses? Como posso gostar tanto de uma e odiar tanto a outra! Estava distrada 
com seus pensamentos. S quando chegou  rua de seu prdio lembrou-se de dona Durvalina. Com tudo o que aconteceu, acabei esquecendo-me dela, mas talvez tenha sido 
melhor. Lenita precisa muito de minha ajuda. Farei tudo o que puder, farei com que meus pensamentos sejam todos para ela. Preciso encontrar uma forma. No sei ainda, 
mas com certeza pensarei em algo. Sempre penso! Entrou em casa. Pela primeira vez sentiu que o apartamento era muito grande para ela sozinha. Olhou atravs da porta 
de vidro para a piscina. Este apartamento  to grande... a piscina quase nunca  usada. Para Lenita, ela seria muito boa. Aqui h muito espao para brincar. Sentia 
o corao leve. Encontrara um motivo para viver, alm de seu trabalho. Encontrou algum em quem sentia que podia confiar e que podia amar. Embora Gervsio e Farias 
permanecessem a seu lado o tempo todo, no conseguiam se aproximar, muito menos intuir maus pensamentos. Desde que Mrcia encontrara Lenita e se preocupara com ela, 
e durante todo o tempo em que esteve no hospital, ela ficou como que protegida por uma aura de luz que brotava de seu corao. Durante a viagem de volta, no carro, 
seu pensamento foi s para Lenita e pelo grande amor que sentia por ela. Gervsio e Farias entraram em seu apartamento, mas ela os afastava com o pensamento de amor. 
Farias ficou nervoso:
- Que est acontecendo? Por que no posso mais chegar perto dela?
- Voc ouviu o que Damio disse: se ela no praticar aquela maldade, se deixar o corao s com o sentimento de amor, voc no poder se aproximar.
- No  justo! Ela no pode ter mudado tanto.
- Sempre podemos mudar. As chances que Deus nos d so imensas.  
- No consigo acreditar. Ela logo vai mostrar quem  na realidade.
- Vamos esperar, Farias... vamos esperar... Mrcia voltou-se. Estava se encaminhando para o quarto, quando olhou para o lugar onde pela ltima vez vira Osvaldo. 
Tornou a v-lo indo embora, com aquele sorriso sarcstico. Imediatamente todo o orgulho ferido e o dio voltaram e ela pensou com muito dio: Como fui me esquecer 
dele? Aquele idiota! Livrou-se por causa de Lenita, mas amanh vou voltar at a casa de dona Durvalina e mandar fazer o trabalho.]No mesmo instante em que sua faixa 
de pensamento mudou, Farias e Gervsio perceberam que ela agora podia ser atacada. Farias foi para junto dela e comeou a falar:
- Isso mesmo. Ele no presta. Ele humilhou voc. Precisa se vingar! Se beber, vai se sentir melhor. 
Como se o estivesse ouvindo, ela olhou para o bar e, imediatamente, a vontade de beber voltou. Deixando-se novamente influenciar por Farias, encheu um copo. Ele 
bebia junto a ela por meio do vapor do lcool. Ela, envolvida por ele, encheu um copo atrs do outro. O dio por Osvaldo era muito grande. Quanto mais pensava nele, 
mais bebia. Logo percebeu que estava completamente embriagada. Deitou-se em um sof na sala e caiu em sono profundo. Farias tambm embriagado, adormeceu a seu lado.Naquela 
noite, Mrcia novamente teve um sono agitado e sem descanso. Pela manh, acordou sentindo-se muito mal e com dor de cabea. Acompanhada por Farias, foi para o chuveiro. 
Enquanto tomava banho, ia pensando: O Osvaldo, como estar em sua nova vida? Aquele idiota! Ontem se livrou por causa de Lenita... Lenita? Lenita? Como ser que 
ela est? Saiu do chuveiro, pegou o telefone e telefonou para o hospital. Informaram-na de que a menina estava bem e que a av a acompanhava. Enquanto falava sobre 
Lenita, novamente se deixou envolver por uma profunda ternura. O vulto luminoso aproximou-se, o que obrigou Farias a se afastar. O esprito envolveu-a em sua luz 
e assim fez com que ela ficasse mais tranqila. Com aquele sentimento de ternura e amor, Mrcia dirigiu-se para a sala, o vulto acompanhando-a. Farias tambm a seguiu 
s que agora  distncia. Ela, sentada em seu sof preferido, pensava: Preciso ajudar a menina, s no sei como. Posso aparecer para minha me e pedir a ela que 
no conte a ningum quem sou. Ela pode dizer que sou uma pessoa que a est ajudando por causa da menina. No... No posso fazer isso. Ela  minha me. Na realidade 
no tenho motivos para odi-la tanto. Ela me deu tudo que podia, me ensinou o que sabia. Quando me mandou para a casa de dona Leonor, foi pensando em meu bem, e 
acertou. Preciso ajudar Lenita, no posso deixar que ela fique desamparada. O vulto luminoso a seu lado a olhava com muito carinho. Com um sorriso radiante em seu 
rosto, a envolveu novamente em sua luz. Ela continuou pensando: Isso mesmo: tomarei um banho e irei ao hospital. Se minha me me reconhecer, conto a ela minhas intenes 
de traz-las para morar comigo.  isso mesmo que tenho de fazer. Hoje, sou uma mulher realizada. Se pensar bem, devo isso a ela. Foi ela quem, pensando em meu futuro, 
me encaminhou. O vulto sorria. Ele sabia que s estava ali porque ela trazia agora em seu corao pensamentos de amor e gratido. Enquanto tomava banho, Mrcia pensava 
em Lenita e no tratamento de que precisava. Sinto que, se no a ajudar, ela fatalmente morrer, o mdico foi bem claro. Minha me est em situao ruim, mas, por 
mais que eu queira, no sei por que no consigo sentir pena dela, ela me  completamente estranha, no consigo confiar. A nica de minha famlia por quem sinto algo 
 Lenita. Por ela, serei capaz de tentar viver com minha me. Ao pensar em Lenita, seus olhos se iluminavam e a sua aura tambm. O vulto a seu lado sorria e dizia:
- Meu amor, voc tem de conseguir. Precisa esquecer e perdoar o passado. S assim poderemos ser felizes novamente. Voc tem de conseguir.
Ela sentiu um suave perfume, que no era do sabonete que estava usando. Com o perfume, sentiu novamente saudade, mas no sabia do qu. Est decidido: irei ao hospital 
e, depois que Lenita tiver alta, vou traz-la para c. Se o preo ser ter de trazer tambm minha me,  o que farei. Pagarei. Enquanto se vestia, via a menina sorrindo 
para ela e correndo por aquele apartamento enorme. Farias percebeu que a faixa de ondas dela havia mudado novamente. Comeou a sacudir Gervsio, que dormia tranqilamente:
- Gervsio! Gervsio, acorde! Ela vai sair e parece que est disposta a trazer a menina e sua me aqui para casa. Acorde!
Gervsio abriu os olhos e falou um pouco atordoado:
- Por que est gritando?
- Ela vai sair e parece estranha. Acho que vai buscar a menina!
- Ser mesmo? Que quer fazer?
- Precisamos impedir. Ela no pode fazer isso. Precisamos fazer com que ela volte a pensar em Osvaldo.
Antes que Gervsio falasse algo, Farias lanou-se sobre ela, mas no conseguiu alcan-la. Uma luz a protegia como se fosse um escudo. Ele foi jogado para longe. 
Ficou desesperado, sem saber o que fazer, e comeou a gritar:
- Gervsio, que aconteceu? Por que no consigo me aproximar?  
- Por que ela est tendo pensamentos bons e firmes, por isso um daqueles l de cima a est protegendo. Enquanto ela continuar assim, no poderemos nos aproximar.
- No pode ser! Ela  l de ter bons pensamentos? Ela  muito m, cnica e calculista!
- Sempre h uma hora para se arrepender e conseguir o perdo e o amor de Deus. Se ela continuar assim, tudo para voc estar perdido. No conseguir se aproximar.
Farias no se conformou. Jogou-se vrias vezes sobre ela e vrias vezes foi repelido e atirado longe. Mrcia s via diante dela o rosto de Lenita, e aquele sentimento 
de ternura tomou conta de todo o seu ser. No posso permitir que ela morra por falta de assistncia ou por m alimentao. Tenho muito dinheiro e posso dar tudo 
de que ela precisa. Irei at l e contarei a ela que, quando sair do hospital, vir aqui para minha casa e ser muito feliz. O vulto de branco sorria e deu-lhe um 
beijo no rosto. Ela sentiu uma brisa suave passando por seu corpo. Estou me sentindo muito bem. Parece que encontrei um novo sentido para minha vida. Sinto que agora 
serei realmente feliz, podendo dividir com Lenita tudo o que possuo. Farias continuava se jogando sobre ela. No se conformava com o fracasso e gritava:
- No  justo, Gervsio! Depois de tudo que ela me fez, ser protegida dessa maneira. Ela no presta! Merece castigo e no perdo!
- Meu amigo, se ela continuar assim, no poderemos fazer nada. Tora para que voc tenha razo e que ela volte a ter sentimentos de dio e vingana. S assim voc 
poder se aproximar e tentar faz-la ser novamente o que sempre foi: m, calculista e mesquinha. Se conseguir isso, ela ser toda sua, mas, se ela no voltar a ser 
como antes, voc ter de ir embora e esquecer.  
 - Esquecer? Nunca! O que ela me fez no tem perdo! Como vou esquecer que por causa dela fui atirado naquele vale horrvel? Por causa dela estou aqui nesta situao! 
No vou esquecer nem perdoar. Nunca!
- No adianta ficar assim. Tem de ter pacincia e esperar. O perdo  muito bom. Tente perdoar e ver como se sentir muito bem. Acredite na Lei, ela  justa e sbia.

ORGULHO FERIDO

Mrcia terminou de almoar, pegou o carro novamente e saiu rumo ao hospital. No conhecia muito bem o caminho, nunca antes estivera por aquele lado da cidade. Ao 
sair da marginal, perdeu-se. No sabia onde estava e que caminho deveria tomar. Parou em um posto de gasolina e pediu informao ao frentista. Ele lhe ensinou o 
caminho, e ela continuou procurando. Estava passando por uma rua quando viu o carro de Osvaldo estacionado em frente a um porto. Seu corpo todo estremeceu e seu 
corao comeou a disparar. Diminuiu a velocidade. Estava se aproximando, quando viu de dentro da casa algumas pessoas saindo. Osvaldo vinha abraado  esposa, as 
crianas corriam  sua frente. Junto vinha um outro casal, mais velho, que Mrcia deduziu serem os pais dele. Ele conversava distrado e no viu seu carro. Ela acelerou 
justamente para que ele no a visse. Estacionou mais  frente e pelo retrovisor ficou observando. Todos se abraaram. Osvaldo ficou o tempo todo com as mos no ombro 
da esposa. Sorrindo, entraram no carro e saram no sentido contrrio ao dela. Novamente, o dio voltou. Mrcia falou alto:
- Ele est feliz com a esposa, no est nem um pouco preocupado comigo! No est se importando se estou s e carente! No est se lembrando nem que um dia eu existi. 
Isso no vai ficar assim! No vou a hospital algum! Vou para a casa de dona Durvalina mand-la fazer o que tem de ser feito!
Continuou dirigindo. Passou em frente ao hospital. Dali para frente sabia como chegar a seu destino. Dirigiu, por mais alguns minutos, e finalmente chegou. Dessa 
vez, parou o carro em frente  casa. No estava com disposio de andar. Bateu palmas e a mesma senhora que morava no quarto da frente atendeu:
- Pois no.
- Preciso falar com dona Durvalina. Ela est?
- No sei. Ela mora na terceira porta. Pode entrar.
Mrcia entrou e caminhou at a porta. Bateu e dona Durvalina atendeu.
- Pois no. Posso ajudar em alguma coisa?
Ela estranhou aquela figura. Uma mulher alta, com cabelos negros, com os olhos brilhantes, podia-se dizer que era bonita, no tinha nem trinta anos. Mrcia ficou 
olhando, pensando estar diante de outra pessoa. quela que estava  sua frente em nada se parecia com a outra com quem havia conversado. Meio sem jeito falou:
- A senhora  dona Durvalina?
- Sou eu mesma. Posso ajudar em alguma coisa?
- Estive aqui outro dia e falei com a senhora. Disse que faria um trabalho para mim, disse tambm que eu poderia vir a qualquer hora. Como trabalho, ser muito difcil 
eu vir durante a semana, por isso vim hoje. A senhora pode me atender?
- Sinto muito, mas dia de domingo eu no trabalho.
- Imaginei isso, mas  muito urgente. Sei que o preo da consulta  cinqenta. Pagarei cem.
A mulher pensou por um instante e falou:
- Est bem. Vai precisar esperar um pouco, tenho de me preparar. Pode ir l para o fundo. A porta est s encostada. Entre e irei em seguida.
Mrcia, com um sorriso vitorioso, dirigiu-se  porta. Abriu, entrou. Ficou impressionada. O quarto parecia bem maior. O ambiente estava claro, iluminado por uma 
luz lils. No fundo, um altar com flores e alguns santos. Velas acesas de vrias cores. Olhando aquilo, pensou: Definitivamente, este no  o mesmo lugar em que 
estive naquele dia. Ser que estou ficando louca? Estava ali olhando, quando dona Durvalina entrou:  
- Est estranhando alguma coisa?
- Estou. No outro dia, isto aqui parecia escuro e feio. Hoje parece iluminado e bonito.
- Bem se v que a moa no entende nada de minha religio. Durante a semana, para atender as pessoas, eu trabalho com a esquerda, mas tambm trabalho com a direita. 
Tenho meus santos e protetores. Dependendo da consulta, eu uso um lado ou o outro.
Enquanto falava, puxou uma cortina preta, separando os dois ambientes. Acendeu algumas velas pretas, pegou charutos e a garrafa de cachaa, ficou em p com os olhos 
fechados. Seu corpo comeou a tremer e de repente soltou uma gargalhada estridente. Mrcia, assustada, viu a transformao da mulher  sua frente. Novamente no 
lembrava nem por um instante a dona Durvalina que acabara de conhecer. A mulher sentou-se no cho, acendeu um charuto e tomou um pouco da cachaa. Mrcia agora j 
sabia o que tinha de fazer e ajoelhou-se  sua frente. Como da outra vez, a mulher pegou suas mos. Deu uma gargalhada e falou:
- Ento a moa voltou? Resolveu mesmo fazer o trabalho?
- Sim, e precisa ser hoje.
- A moa pensou bem no que vai ter de pagar?
- Pensei. No me incomodo, pagarei o que for preciso.
- J que  assim, s me resta atender seu pedido. Vou fazer o trabalho. Espero que a moa no se arrependa.
- No vou me arrepender. Resolvi hoje. No tenho tempo e no sei comprar o material necessrio, por isso vou deixar o dinheiro com a senhora para comprar tudo.
- Est certo, moa, mas antes preciso lhe falar mais uma coisa. Esse trabalho que vou fazer pode dar certo, mas tambm, dependendo da pessoa que for receber, ele 
pode no funcionar. Se ela for uma pessoa boa, com bom sentimento, vai ter proteo e nada vai acontecer. A moa est entendendo?
- Quer dizer que pode no acontecer nada? Quer dizer que estarei gastando meu dinheiro em algo que pode no acontecer?
- Isso mesmo. Se a pessoa pra quem o trabalho for feito  protegida, no vou conseguir realizar. Estou avisando para depois, se no der certo, a moa no volte pra 
reclamar.
- Ele no  uma boa pessoa! Ele no tem bons sentimentos,  um canalha. Eu o odeio! Vou arriscar, sei que dar certo!
- A moa  quem sabe. H outra coisa que preciso avisar. Se o trabalho der certo ou se no der, isso no importa; o que importa  a inteno da moa. Se fizer, vai 
ter de pagar o preo, dando certo ou no.
- J disse que no me preocupo com isso. S vamos saber se dar certo, fazendo o trabalho.
- Moa, depois que eu fizer, vai ser difcil desfazer. Pense bem...
Mrcia irritou-se com toda aquela conversa. Ela j havia pensado muito e era exatamente aquilo o que queria. Falou quase gritando:
- J pensei bem. No voltarei atrs. Vou pagar o que for preciso. A senhora no quer receber o pagamento?
- A moa no est falando com senhora nenhuma, a moa est falando com um Exu.
Mrcia se assustou com o olhar que a mulher lhe dirigiu, disse:
- Est bem, desculpe.  que estou muito nervosa. Mas mesmo assim volto a perguntar: o senhor no quer receber?
- Est bem, moa, se quer assim, vamos fazer. A moa d o nome de todas as pessoas, deixa o dinheiro do meu cavalo e outro tanto pra comprar tudo que precisar, e 
amanh meu cavalo compra tudo. Eu preparo e ela faz a entrega. Vai demorar sete dias pra a moa ver se deu resultado. Est bem assim?
- Est.  s o que quero: ver o resultado.
- Est bem. Agora a moa pode ir embora e esperar at a semana que vem. Se der certo, a moa no precisa mais voltar, s se quiser fazer outro trabalho.
Enquanto falava, bebia e soltava baforadas de charuto sobre Mrcia. Mrcia levantou-se, tirou da bolsa os cem da consulta, os cinco mil do trabalho e mais duzentos 
para que o material fosse comprado. Entregou  mulher e saiu. J no carro, sorria satisfeita com o resultado que teria. Estava feito. Ela veria Osvaldo a seus ps, 
pedindo perdo. Era tudo que queria. A seu lado, sentados no banco de trs, Gervsio e Farias tambm sorriam alegres. Gervsio falou:
- Agora ela  toda sua. Pode fazer cumprir sua justia. Essa  a Lei. Temos de voltar e falar com Damio. Ele vai dizer o que pode ser feito.
- Como pode dizer o que deve ser feito? Ele j disse que eu poderia fazer cumprir minha justia.
- Ele disse e  verdade, mas para tudo existe uma ordem. Precisamos voltar e falar com ele.
- Est bem. J que  assim, que seja, mas estou feliz, porque vou poder me vingar!

UMA FAMLIA FELIZ

Enquanto isso, Osvaldo passeava por um parque de diverses, onde, aps o almoo, levou as crianas. Enquanto elas brincavam, ele e Clarice passeavam abraados. Ela 
no acreditava na felicidade que estava sentindo. Disse:
- Estou to feliz, Osvaldo! Voc voltou a ser o homem que conheci e com quem me casei, voltou a ser amoroso comigo e com as crianas.
-  mesmo, meu amor, tenho de reconhecer que a fiz sofrer muito. Sua partida me fez perceber o quanto amo voc e as crianas, e me fez compreender que s poderei 
ser feliz ao lado de vocs.
Clarice deu um beijo em seu rosto, dizendo:
- Agradea  sua me e a Marlene. Foram elas que me deram  idia de jogar uma ltima cartada.
- Que est dizendo? Minha me? Marlene? - perguntou, admirado.
- Sim, foram elas. Sua me estava cansada de ver voc naquela vida desvairada, esquecendo-se de mim e das crianas, e Marlene voc conhece:  s bondade. As duas 
me convenceram de que a melhor coisa que eu teria de fazer seria abandonar voc. Sabamos que seria uma cartada difcil e definitiva, mas sua me dizia sempre:
- Filha, voc precisa fazer isso. Sei que meu filho ama voc e as crianas. Ele s no se deu conta disso, ainda. Por isso tem de fazer com que ele sinta a falta 
de vocs. No conhece o ditado? Para dar valor,  necessrio perder.
- E se ele no sentir nossa falta? Se ele no se preocupar e no for me procurar?
-  um risco que voc precisa correr. De que adianta ficar ao lado de um homem que no a respeita, que est sempre ausente na educao dos filhos? Voc  muito boa, 
no merece isso.
- Minha me te disse isso, Clarice?
- Disse muitas vezes, Osvaldo. Marlene ajudava muito, sempre dizendo:
- Sua sogra tem razo, Clarice. Vocs merecem muito mais. Voc tem de confiar na bondade de Deus e ter certeza de que Ele nunca abandona Seus filhos. Vocs se casaram 
e ele abenoou seu lar com duas crianas. Se assim fez, foi para que tudo desse certo. Deus  pai. s vezes Ele nos manda alguma dificuldade, por nossa prpria culpa, 
para nos ensinar ou porque temos alguma dvida para resgatar.
- Marlene  uma mulher maravilhosa, Clarice. Trabalha para minha me, nem sei h quanto tempo. Est sempre em dificuldades, mas no reclama nunca. Como pode?
- No sei. Ela sempre diz que se sofre  porque se merece. So coisas l de sua religio... acredita na vida aps a morte, reencarnao e tudo mais.
- Voc acredita em reencarnao?
- No sei. s vezes penso: por que existem tantas diferenas aqui na Terra? Dizem que Deus  Pai de todos... ento por que a muitos Ele d tudo e a outros no d 
nada? Ser que Ele tem filhos preferidos?
Osvaldo ficou ouvindo Clarice e pensando. Quando ela terminou de falar, ele continuou:
- Pensando dessa forma, a gente chega  concluso de que, se existe um Deus, tem de haver reencarnao. S isso poderia realmente explicar as diferenas que existem. 
Deve existir algum motivo para que as pessoas tenham vidas to diferentes: uns sofrem tanto e outros, nada...
- Estive pensando muito sobre isso. Marlene mesma... desde que a conheo, sempre sofreu todo tipo de desgosto. Por qu? Uma mulher to boa e prestativa, sempre disposta 
a dividir o que tem... ela tem sempre uma palavra de consolo, e em sua pobreza ainda encontra meios para ajudar aqueles que mais precisam. No d para entender.
-  muito complicado mesmo. Bem, mas isso no importa.
Estou feliz de voltar a encontr-la e am-la. Elas duas tinham razo: amo muito voc e as crianas. Ficaremos sempre juntos e nada vai nos separar novamente. Clarice 
correspondeu o beijo suave que ele deu em seus lbios, falando:  
 - No sei se reencarnao existe, nem se essa histria de almas gmeas  verdadeira, mas, se isso tudo for verdade, com certeza estivemos juntos nos amando em outra 
encarnao e somos almas gmeas, porque eu o adoro.
As crianas saram de um brinquedo e vieram correndo ao encontro dos dois, pedindo sorvete. Ainda abraados, foram at um carrinho e compraram o preferido de cada 
um. Os quatro, cada um com seu sorvete, continuaram andando pelo parque. As crianas praticamente engoliram de uma vez o sorvete para poderem brincar novamente. 
Quem os visse, com certeza, diria:
- Essa  uma famlia feliz. E, realmente, era.

OPORTUNIDADE DE REPENSAR

Mrcia acordou e foi trabalhar. Naquela semana, por ser a ltima do ms, ela teve muito trabalho e precisou ficar todos os dias at mais tarde no escritrio. Osvaldo 
no telefonou, mas ela quase no teve tempo de pensar nele e, quando pensava, contava nos dedos os dias que faltavam para o domingo. Sabia que teria de esperar at 
l. Dedicou todo o seu tempo ao trabalho, quase no pensou em Lenita tambm. Na tera-feira, a recepcionista do hospital ligou:
- Dona Mrcia, sou Regina, aqui do hospital.
- Hospital?! Ah, sim... Lenita! Como ela est?
- Est bem, vai receber alta hoje, aps o almoo.  por isso mesmo que estou ligando. O cheque que a senhora deixou  superior aos gastos e teremos de devolver o 
restante. Estou ligando para saber se a senhora vem at aqui ou se prefere que o dinheiro seja depositado em uma conta de banco.
- Nem uma coisa nem outra. Esse dinheiro foi reservado para Lenita. Desconte do cheque as despesas e d o troco  av da menina para comprar alimentos e tudo o que 
for necessrio para atender s necessidades de Lenita.
- Farei isso. A senhora  mesmo uma santa. Agradeo em nome da menina e de sua av. Obrigada.
Desligou o telefone. Mrcia, ainda com o aparelho na mo, pensou: Uma santa? Eu? Ainda bem que a menina est bem. Mas Precisa de tratamento. Vou arrumar um meio 
de ajud-la. No hospital, a recepcionista colocou o telefone no gancho. Pelo interfone, pediu  enfermeira do andar que enviasse a av de Lenita at a recepo. 
Pouco depois, ela chegou, perguntando:
- A senhorita mandou me chamar?
- Sim. Sua neta vai receber alta, e a moa que deixou cheque pediu para darmos o troco  senhora, para comprar toda alimentao de que a menina precisar.
- Quem  essa moa?
- Ela pediu que seu nome e endereo no fossem fornecido quer continuar annima.  
- Preciso saber quem . Preciso agradecer tudo que fez por minha menina.
- Sinto muito, mas ela imps essa condio. No podemos quebrar o prometido.
- Moa, por favor, preciso saber quem  ela. 
- S posso lhe dizer que o nome dela  Mrcia e que  uma mulher muito rica.
- Mrcia?! Mrcia? Voc disse Mrcia?
- Foi exatamente isso que disse. O nome dela  Mrcia. Mas por que o espanto?  um nome como outro qualquer.
- Moa, por favor, preciso saber o endereo dela. Preciso disso mais do que nunca!
- Minha senhora, desculpe, mas no posso.
- Por favor, moa, preciso agradecer. Se ela no tivesse socorrido minha neta, ela agora poderia estar morta. O mnimo que posso fazer  agradecer do fundo do meu 
corao.
Regina ficou pensando por alguns segundos, olhando para a ficha de Lenita que estava em suas mos. Voltou a olhar para a velha senhora:
- Pensando bem, no vejo inconveniente algum em lhe dar o endereo. O gesto dela foi muito bonito, no deve ser ignorado. Ela no quis que a senhora soubesse quem 
era porque agiu com boa vontade, apenas querendo ajudar a menina, no para receber agradecimento. Vou lhe dar o telefone que ela deixou,  de seu escritrio. A senhora 
pode telefonar e agradecer, mas, por favor, no diga a ningum que fiz isso... posso perder meu emprego.
- No vou dizer, pode ficar tranqila. Regina anotou o nmero do telefone, o nome e o endereo da empresa em que Mrcia trabalhava e entregou o papel  av de Lenita, 
que o dobrou e guardou na bolsa. Agradeceu e voltou para o quarto. Precisava preparar Lenita para irem embora.
Mrcia voltou ao trabalho. Aquela semana era mesmo puxada. O trabalho como sempre, foi entregue e elogiado. Todos os seus auxiliares tambm trabalharam muito. No 
gostavam dela, mas eram obrigados a admir-la como profissional. Possua um grande conhecimento sobre tudo que fazia. No sbado de manh, saiu e foi fazer algumas 
compras. Sabia que, na semana seguinte, Osvaldo voltaria, e queria que ele a encontrasse em uma camisola deslumbrante. Fez compras, depois foi ao cabeleireiro, voltou 
para casa, arrumou-se e foi ao teatro. No domingo, acordou cedo e voltou quele parque em que esteve observando as pessoas. Sentou-se no mesmo banco e ficou pensando: 
Ele voltar, e desta vez exigirei que abandone a esposa e que se case comigo. Est na hora de ter meus filhos. S agora estou percebendo como sou sozinha. No tenho 
ningum a meu lado a quem possa me dedicar e dividir tudo o que tenho. Preciso mudar esse estado de coisas. Vou formar minha famlia, est mais do que na hora. Continuou 
olhando as pessoas correndo, andando e os pais brincando com as crianas. Um homem de corpo atltico e bonito passou por ela, lanou-lhe um olhar e, sorrindo, continuou 
correndo. Ela o acompanhou com os olhos. Ele era realmente bonito e seu sorriso tambm. Ele sumiu, para logo depois passar correndo por ela e sorrir novamente. Ela 
no se conteve e sorriu tambm. Ele continuou correndo e, cada vez que passava por ela, sorria. Em uma das voltas, acenou com a mo e foi correspondido. Ele sumia 
de um lado, ela ficava olhando para o outro, esperando sua chegada. Em uma das vezes que apareceu, ele parou e sentou-se a seu lado. Suava muito, mas mesmo assim 
era bonito. Estava de short e podia-se ver suas pernas grossas de puro msculo. Devia ter uns trinta e poucos anos. Os cabelos castanhos, um pouco grisalhos nos 
lados, davam a ele uma aparncia magnfica. Aquela beleza viril a encantou. Enxugando o rosto com uma toalha que carregava no pescoo, ele falou:
- Meu nome  Ronaldo. Muito prazer.
Ela, meio sem jeito por no estar acostumada a ser assediada, respondeu:
- O meu  Mrcia. Muito prazer.
- Voc no costuma vir aqui, no ? Venho quase todos os domingos e nunca a vi antes.
-  verdade. Esta  a segunda vez que venho. Gosto de admirar a natureza e ver as pessoas felizes e despreocupadas.
- No pratica esporte?
- No. Sempre trabalhei e estudei muito, nunca me sobrou tempo.
- Tempo a gente sempre arruma. O esporte no faz bem s para o corpo, mas para a mente tambm.
- Acredito. S que nunca senti vontade. Quem sabe agora eu passe a me interessar.
Ele deu um largo sorriso:
- Espero, sinceramente, que se interesse Mrcia, porque assim poderemos nos ver mais vezes e, quem sabe, nos tornar amigos. Preciso ir embora. Foi um prazer conhecer 
voc e espero v-la mais vezes por aqui. At logo...
- Voc me ver, com certeza. At logo...
Ele foi embora. Mrcia ficou olhando at que ele desaparecesse, pensando: Ele  realmente muito bem apessoado e simptico. Seu sorriso  franco e bonito. Seus olhos... 
que olhos eram aqueles? Meu Deus, que homem! Sorriu por estar to impressionada e sentindo algo que nunca sentira antes. Os olhos dele possuam algo que a atraa 
e muito. Foi para casa resolvida a voltar no prximo domingo na mesma hora. Precisava v-lo novamente. Passou o resto do domingo tranqila. Leu, tirou uma soneca, 
assistiu  televiso. Cada vez mais constatava que era uma pessoa s, completamente s.

TRISTEZA E ACEITAO

Na segunda-feira, levantou-se e foi para o escritrio. Aquele era o dia. Com certeza, Osvaldo telefonaria louco de vontade de v-la. Chegou  empresa, estacionou 
o carro na garagem e subiu pelo elevador. Aquela era sua rotina diria. Ao entrar no saguo, a recepcionista, ao v-la, disse:
- Dona Mrcia, esta senhora a est esperando por muito tempo. Disse que precisa conversar com a senhora e que  urgente.
Mrcia voltou-se e viu em sua frente sua me. Estremeceu. Ela estava vestida de maneira simples, com roupas que denotavam sua origem. Mrcia ficou calada, sem conseguir 
se expressar. O sangue sumiu de seu rosto. Agindo como se no a conhecesse, a mulher falou:
- Vim at aqui para agradecer o bem que fez  minha neta e para lhe dizer que agora ela est muito bem.
Mrcia, ainda confusa, acreditando que mais uma vez ela no a havia reconhecido, disse:
- No precisava fazer isso. Qualquer pessoa na mesma situao teria feito o que eu fiz.
- Precisava agradecer, sim. Com o dinheiro que sobrou, vou poder tratar dela por um bom tempo. Muito obrigada mesmo.
Enquanto falava, a mulher ia olhando para ela profundamente. De repente, parou de falar e ficou s olhando. Por seu rosto correram duas lgrimas. Mrcia percebeu 
que ela a havia reconhecido. Percebeu tambm que a recepcionista da empresa acompanhava toda a conversa. Ficou com medo de que a me falasse algo comprometedor na 
frente dela. Num instante, disse:
- Por favor, entre aqui em minha sala, quero que me fale mais a respeito da menina.
Entrou na sala e a me a acompanhou. A funcionria da recepo ficou encantada e admirada pelo fato de a Bruxa (era assim que a chamavam) ter feito uma boa ao. 
Correu para contar aos outros empregados. Mrcia, depois que fechou a porta, falou:
- A senhora tem mais alguma coisa para me dizer?
- Mrcia!  voc mesma! A minha Mrcia, que tenho procurado h tanto tempo. Mrcia... Por que se afastou da gente? Por que nunca mais deu uma notcia sequer? No 
pensou que eu ia morrer de preocupao?
- No sou a Mrcia que a senhora est pensando! A Mrcia que conheceu fugiu um dia de toda aquela pobreza, misria e tristeza, do meio de pessoas pobres e infelizes! 
Sou outra pessoa, venci na vida, graas a meu trabalho e boa vontade. No perteno, alis, nunca pertenci, a seu mundo! Sempre odiei todos vocs, nasci em sua casa 
por engano!
- No fale assim. Somos sua famlia, sou sua me...
- No tenho famlia, no tenho me, no me importo como esto vivendo e onde! Estive esse tempo todo isolada porque no queria ter contato algum com vocs. Quero 
continuar assim!
- Mrcia, minha filha, no pode imaginar o quanto tenho sofrido sem notcias suas...
- Agora com certeza vai sofrer ainda mais, pois descobriu que sou rica e poderosa, enquanto a senhora continua na misria de sempre! Quanto quer para esquecer que 
me viu? Quanto quer para no contar a ningum que sou sua filha? Posso pagar o que quiser, tenho muito!
Ao ouvir aquilo, a velha senhora limpou as lgrimas com as mos e olhou firme para Mrcia, respondendo:
- Como voc  mesquinha! No quero e no preciso de nada. Sou sua me e continuarei sendo para sempre. No vou dizer a ningum e no precisa pagar por meu silncio. 
Dinheiro algum pagaria a vergonha e a tristeza que estou sentindo neste momento por ter gerado um monstro como voc. Peo a Deus que tenha pena de sua alma, que 
lhe mostre o caminho do bem e do amor, que a proteja. Deus a abenoe, minha filha...
Seu corao estava despedaado. Enxugando as lgrimas que insistiam em cair, saiu da sala, passando pela moa que a havia atendido e que percebeu que ela estava 
chorando. Preocupada, perguntou:
- Por que est chorando? Aconteceu alguma coisa? Quer um pouco de gua?
A mulher estava com muita raiva. Pensou em dizer o que havia acontecido, dizer que aquela que estava dentro daquela sala, posando como uma grande senhora era sua 
filha. Pensou, mas no disse. Enxugou as lgrimas, respondendo:
- Estou bem. S um pouco emocionada, nada mais. At outro dia.
A moa, intrigada, insistiu:
- Est bem mesmo?
A velha senhora fez sim com a cabea e saiu. Enquanto descia sozinha no elevador, muito magoada com a atitude daquela filha que havia criado com todo o amor, deixou 
as lgrimas correrem sem se preocupar em disfarar. Chorando, pensava: No consigo acreditar que esta  a mesma menina que gerei dentro de mim. Meu Deus! Depois 
que desapareceu, quantas noites fiquei sem dormir, preocupada com ela. Sempre me preocupei muito. Nunca entendi por que simplesmente desapareceu de minha vida. Fiquei 
to feliz quando, no hospital, suspeitei que ela poderia ser minha filha to procurada e amada. Agora que tive a confirmao, s posso lamentar e chorar muito. J 
na rua, andando meio perdida, parou na calada, fechando os olhos. Pensou: Esta deve ser mais uma prova pela qual terei de passar. Meu Deus preciso de foras para 
no fraquejar. Estou velha e cansada, minha vida toda tem sido de provas e sacrifcios, no sei se suportarei mais esta. Por favor, ajude-me a no me revoltar e 
bradar contra Sua justia. Estou cansada. Imediatamente um vulto se aproximou, abraou-a e carinhosamente falou em seu ouvido: 
- Minha filha, no se desespere. Tudo um dia vai terminar. Sua filha precisa muito de seu amor e de sua ajuda. Deus est e estar sempre com voc, enquanto acreditar 
em seu amor e em sua justia. Reaja contra esse sentimento de dio, mgoa e desiluso que agora est sentindo. Confie no amor, na justia e na Lei.
Ela no ouviu, mas sentiu dentro de si um consolo muito grande. Lembrou-se de Lenita, que estava em casa e que precisava de sua proteo. Lembrou-se de Mrcia quando 
criana, correndo para que ela a abraasse. Lembrou-se de seu marido, que j havia partido para Deus, e de seu outro filho, que como ela teve tambm uma vida triste. 
Com o olhar distante, continuou pensando: Mrcia ao menos est feliz. Do que estou reclamando? Indo embora, encontrou seu caminho. Ela tem razo: se tivesse continuado 
conosco, teria tido um destino igual. Que Deus a abenoe. Que Deus me perdoe por este momento de fraqueza, me perdoe se, por um instante, duvidei de Sua sabedoria, 
justia e amor. Continuou andando. Precisava ir depressa, porque tinha um longo dia de trabalho pela frente. Havia telefonado no dia anterior, avisando sua patroa 
que chegaria um pouco mais tarde, mas no podia abusar. J trabalhava havia muito tempo para ela, eram na realidade amigas, mas sua obrigao teria de ser cumprida. 
Acelerou o passo e tomou um nibus, calma e tranqila. Pelo menos um de seus filhos estava feliz. Enquanto o nibus andava, ela pensava em seu passado, no filho 
que to cedo foi embora: Ricardo era to bonito, me amava e se preocupava comigo. Queria muito encontrar a irm desaparecida. Lembro o dia em que pela primeira vez 
trouxe Cinira para me conhecer; era ainda uma menina: 
- Mame, esta  Cinira, ela trabalha l na fbrica.
- Muito prazer. Fique  vontade. 
 Notei que era uma menina simples, mas muito bonita. Comearam um namoro. Fiquei um pouco preocupada porque eram muito crianas, mas no fiz nada. Ricardo estava 
muito feliz, aquilo era o suficiente para que eu a aceitasse. Namoraram por quase um ano. Numa tarde de domingo, os dois chegaram juntos. Ricardo, com o rosto um 
tanto preocupado, disse:
- Mame, estamos com um problema e a gente no sabe como resolver. A gente precisa de sua ajuda.
Senti que algo muito grave estava acontecendo. Comecei a ficar preocupada:
- O que est acontecendo? Fale logo, estou ficando nervosa, Ricardo!
- Cinira est esperando uma criana. Ela est grvida.
- Oh, meu Deus! Vocs ainda so crianas... Voc s tem dezessete anos, e ela quinze, meu filho... 
- A gente sabe disso. Os pais dela so muito severos, no vo aceitar. Quando souberem, vo coloc-la para fora de casa. Por isso a gente precisa da sua ajuda, mame.
- Vou fazer o que puder para ajudar vocs. O que querem?
- A gente precisa de dinheiro para que ela possa fazer um aborto.
- Aborto?! Aborto? No! No posso fazer isso. Sabe que no tenho dinheiro. Ganho o suficiente para nosso sustento, mas, mesmo que tivesse no lhe daria para um aborto. 
 um crime. Essa criana  um esprito de Deus, no podem matar!
- A gente no tem condio de criar uma criana, mame... que vamos fazer? No tem outro caminho...
- Sempre tem um caminho, e esse no  o melhor. Talvez, o mais fcil, mas no o melhor.
- A gente no sabe o que fazer.
- Voc gosta realmente dela?
Lembro que olhei para aquela menina que mantinha os olhos baixos e chorava. Ele respondeu:  
- Claro que gosto! Eu a amo, por isso no quero que sofra. O pai dela no vai aceitar.
- Se gosta mesmo, vai assumir essa criana e a ela tambm. Vocs vo se casar, e vir morar aqui.
- Aqui? Esta casa  s um quarto-e-sala.
- A gente d um jeito. Qualquer coisa  melhor que um aborto.
S ento Cinira levantou os olhos, que brilhavam mostrando a felicidade que sentia.
- A senhora vai fazer isso, mesmo? - disse ela. - Vai deixar a gente vir morar aqui?
- Claro que sim, minha filha. Antes de te conhecer, meu filho era triste e calado. Hoje est feliz, mudou completamente. Sei que se amam como no iria ajudar?
Naquele mesmo dia, fomos at o cartrio. Mas a gente no imaginava como seria difcil realizar aquele casamento. Os dois eram menores de idade, por isso no poderiam 
se casar sem o consentimento do juiz. Depois de muita luta, eles conseguiram convencer o juiz de que se amavam e que queriam realmente aquela criana. Na festa de 
casamento s havia um pequeno bolo, mas muitos amigos. Seis meses depois, nasceu Lenita. Quando a vi no berrio, senti uma ternura enorme. Eu a amei desde o primeiro 
instante. A meu lado, olhando a criana atravs do vidro, Ricardo tambm estava feliz e orgulhoso:
- Mame, ela no  linda?
- , sim, meu filho.  a menina mais linda do mundo. Vamos fazer o possvel para que seja muito feliz.
Cinira ficaria no hospital por dois dias. Lenita nasceu s duas da tarde.  noite, Cinira comeou a ter uma hemorragia. Os mdicos no conseguiram explicar o motivo, 
s disseram que fizeram o possvel, mas no adiantou a hemorragia no foi estancada. Uma semana aps o nascimento de Lenita, Cinira morreu. Ainda pensando, olhou 
pela janela do nibus. L fora o sol brilhava. Lgrimas comearam a correr por seu rosto, e ela as enxugou com as mos. No queria relembrar tudo que havia passado, 
mas a lembrana do desespero em que seu filho ficou fazia-a sofrer muito. Como Ricardo ficou desesperado ao saber que a esposa havia morrido... Eu tentava consolar 
meu filho, mas, mesmo j conhecendo algo sobre a vida espiritual, eu mesma no conseguia aceitar. Dizia:
- Por que, meu Deus? Eles se amavam tanto... Essa criana, apesar de tudo, foi muito bem-vinda. No  justo. Meu filho  to bom, o que ser dele agora?
Levamos Lenita pra casa. Ela realmente era muito bonitinha. Ricardo entrou em uma depresso profunda. O fato de eu trabalhar a muito tempo nas mesmas casas facilitou 
que minhas patroas permitissem que eu trabalhasse tendo de levar a menina comigo. Aos poucos, todas se apaixonaram por ela. Dois anos atrs, Lenita estava com quase 
dois anos e parecia ser uma criana saudvel. Em uma noite, percebi que ela estava tendo dificuldades para respirar. Eu e Ricardo a levamos a um pronto-socorro. 
Depois de examin-la, o mdico disse:
- Ela tem um problema de corao, vai precisar ficar internada para que sejam feitos vrios exames.
Assustados, eu e Ricardo nos olhamos. No mesmo instante nos lembramos de Cinira morrendo em um hospital. Ele no queria deixar a menina, mas eu o convenci de que 
seria o melhor. Com o corao apertado, a gente deixou Lenita ali. No dia seguinte, na hora da visita, fomos at o hospital. Ela estava com uma boa aparncia. Ao 
ver a gente, a enfermeira disse:
- O doutor Tavares pediu que fossem at seu consultrio. Precisam conversar.
Preocupados, fomos at ele, que nos recebeu com o rosto srio:
- Fizemos os exames e descobrimos que ela tem um problema srio no corao. Talvez, quando crescer um pouco mais, tenhamos de fazer uma cirurgia.
- Cirurgia? O senhor tem certeza?
- Sim, mas vamos iniciar um tratamento. Ela ter de tomar este remdio todos os dias. Veremos como vai reagir.
A gente levou Lenita pra casa. Ricardo permaneceu calado durante todo o trajeto. Eu no sabia em que ele pensava, mas no me atrevi a perguntar. Trs dias depois, 
ele chegou a casa com uma motocicleta:
- Mame, sabe bem que Lenita vai precisar de um tratamento. A gente no pode continuar morando aqui nesta favela. Por isso resolvi mudar de emprego. O que ganhava 
na fbrica era muito pouco. Trabalhando com esta moto, poderei ganhar muito mais e em breve a gente vai poder mudar.
Senti um aperto no corao, mas sabia que no podia fazer nada. Apenas disse:
- Tem certeza de que essa  a melhor coisa a fazer, meu filho?
- Tenho mame, sim. Preciso ganhar mais, e essa  uma tima maneira. Alm do mais, com a moto, se Lenita passar mal durante a noite, vai ser muito mais fcil levar 
ela para o pronto-socorro.
- Est bem, Ricardo. Se acreditar ser o melhor, que seja.
Ele comeou a trabalhar para uma empresa. No final do primeiro ms de trabalho, chegou  casa muito feliz:
- Olhe aqui, mame: recebi meu primeiro salrio, e  mais que o dobro daquele que recebia na fbrica. Se continuar assim, logo a gente vai poder mudar.
- Fico feliz por voc. Ser muito bom mudarmos para um lugar melhor.
Seis meses depois, em uma noite, ele comeou a sentir uma dor de cabea muito forte. Dei a ele um comprimido com ch, dizendo:
- Deve ser o comeo de uma gripe.
A dor passou, e ele voltou a dormir. Duas horas depois, acordou gritando:
- Mame, no estou agentando a dor. Est muito forte. Preocupada, perguntei:
- Quer ir at um hospital? 
- No, vou tomar outro comprimido e, se amanh no passar, eu vou.
Dei para ele outro comprimido. Ele dormiu mais um pouco, mas pela manh a dor ainda continuava agora mais forte. Ele no tinha condies de dirigir a moto. Pegamos 
um txi e fomos a um hospital. Aps o exame, o mdico disse:
- Ter de ficar internado. Estou suspeitando de que esteja com meningite.
O cho sumiu de meus ps. Senti que ia desmaiar, mas o mdico me amparou. Sem deixar transparecer meu desespero, me despedi de Ricardo. Naquela mesma noite, ele 
morreu. Era meningite da mais letal, no houve uma maneira de ser salvo. Ainda pensando, Marlene olhou novamente para fora, enquanto o nibus seguia seu caminho. 
Est faltando pouco, preciso prestar ateno. Estou to envolvida em meus pensamentos que posso at perder meu ponto. Ela, no entanto, no conseguia parar de pensar: 
Como me revoltei contra Deus! Quando recebi a notcia da morte de Ricardo, comecei a gritar:
- Deus, como pde fazer isso comigo? Sou uma pessoa boa. No fao nada de mal para ningum. Tenho vivido uma vida inteira de sofrimento e misria. Perdi meu marido, 
minha nora tenho uma filha que no sei por onde anda. E agora meu filho? No  justo. No  justo! Eu chorava muito. A enfermeira, vendo que eu estava sozinha, me 
deu uma injeo e fiquei dormindo no hospital por algumas horas. Quando acordei, estava mais calma, mas no conseguia perdoar Deus por me tratar daquela maneira. 
Precisava providenciar o sepultamento de meu filho. Sabia que precisava voltar para casa e continuar vivendo, pois havia deixado Lenita com uma vizinha. Lenita... 
Ah, minha Lenita... Foi por ela que suportei tudo. Eu no podia morrer. Ela precisava de minha proteo e afeto, no podia deixar que ficasse sozinha neste mundo. 
Quanto a Mrcia, no posso fazer nada. Estou h muito tempo vivendo sem ela. Agora sei que ela est bem, e isso me basta. Meu ponto de nibus est chegando, preciso 
descer. Levantou-se, tocou a campainha e desceu.

RESULTADO DO TRABALHO

Depois que a me saiu, Mrcia sentou-se em sua cadeira. Tremia, no sabia se de emoo ou de raiva. Por que ela teve de me encontrar? Por que eu tive de dizer todas 
aquelas coisas? Por que eu a odeio tanto? Por que nunca consegui nem consigo agora acreditar em seu amor, ou pelo menos confiar nela? Ficou assim sem trabalhar por 
algum tempo. O interfone tocou. Era o doutor Fernando, que havia se recuperado e voltado, querendo que ela fosse  sua sala. Ela se levantou, foi at o banheiro, 
retocou a maquiagem, passou as mos pelos cabelos e foi at ele. Recebeu suas orientaes e voltou para sua sala. Como sempre, o trabalho para ela era o melhor remdio. 
Enquanto trabalhava, esquecia-se de tudo, at de Osvaldo. O dia passou rapidamente. Osvaldo no ligara, mas ela nem se deu conta disso. Nos momentos de folga, s 
pensou em Lenita, em sua me e no dio que viu em seus olhos quando esta disse sentir vergonha de t-la gerado. Quando o expediente terminou, foi para sua casa. 
S quando l chegou foi que lembrou ser segunda-feira, o fim do prazo estabelecido por dona Durvalina fora no domingo. Ele no telefonou. Ser que o trabalho no 
vai dar certo? Foi at a cozinha. Seu jantar estava preparado, mas ela novamente estava sem fome. Ficou por ali, andando de um lado para outro, sentindo um imenso 
vazio que tomava conta de todo o seu ser. Foi se deitar. Estava dormindo quando o telefone tocou. Meio adormecida, atendeu:
- Al... Quem ?
- Sou eu, Osvaldo. Sei que j  muito tarde, mas preciso te ver agora!
Ela deu um pulo, sentou-se na cama.
- Osvaldo? Mas  muito tarde. Onde voc est?
- Estou aqui embaixo, em um telefone pblico. Preciso subir e te ver agora.
Ela sorriu e pensou: Sim! O trabalho deu certo!  
 - Pode subir. Estou esperando.
Enquanto ele subia, ela foi at o banheiro, escovou os dentes, passou seu perfume preferido e colocou a camisola nova que havia comprado especialmente para aquele 
dia. Olhou o relgio: era mais de uma hora da manh. A campainha tocou, ela foi abrir a porta. Assim que se encontraram, uma onda de desejo os envolveu. Comearam 
a se beijar sem nada dizer, ali mesmo na porta. Ele parecia alucinado, e ela tambm. Entraram. O amor foi violento e selvagem. No foi dita palavra alguma. Quando 
terminaram, ele pareceu voltar  realidade:
- No sei o que estou fazendo aqui. Aconteceu algo em minha casa que me desgostou e eu senti uma necessidade imensa de ver voc, de te possuir!
- Que aconteceu em sua casa?
- Prefiro no falar, foi horrvel. No sei se poderei continuar vivendo ao lado de Clarice, mas sinto que a amo, e muito.
Ao ouvir suas ltimas palavras, Mrcia estremeceu.
- Como pode dizer que a ama depois de me possuir de forma to apaixonada?
Ele no soube responder. Enquanto isso, Clarice, em sua casa, chorava desesperadamente.
- Meu Deus, que aconteceu esta noite? Por que tudo tem de mudar to drasticamente? Estvamos to felizes. Por que aquela dor to intensa? De onde veio aquele mau 
cheiro terrvel?
Chorava, e com razo. Ela e Osvaldo jantaram com as crianas. Aps coloc-las na cama, prepararam-se para dormir. Antes, porm, planejaram momentos de amor. Assim 
que comearam as primeiras carcias, de suas bocas comeou a sair um mau cheiro insuportvel, o que fez com que afastassem os rostos. Insistiram, mas foi em vo: 
ao invs do prazer, uma dor terrvel tomou conta dos dois. A dor foi to intensa que foram obrigados a desistir. Imediatamente, Osvaldo se lembrou de Mrcia e sentiu 
por ela um desejo incontrolvel. No desistiu: saiu e foi  sua procura. Ele, durante o trajeto, por muitas vezes parou o carro, procurando entender o que havia 
acontecido. Desesperado, pensou:  Eu amo Clarice com toda a ternura que s um amor verdadeiro pode ter. Por que est acontecendo tudo isso? Ser que estamos doentes? 
Pensava em voltar, mas o desejo por Mrcia foi maior que o amor por Clarice. No resistiu e, por isso, foi at ela. Depois de amar Mrcia, Osvaldo saiu do apartamento 
dela, pegou o carro e ficou andando sem destino. Sentia que amava Clarice. Sentiu tambm que no fundo detestava Mrcia, mas sabia que no poderia mais viver sem 
ela. Queria voltar para casa, mas temia sentir novamente aquele cheiro horrvel que o perfume de Mrcia havia eliminado. Sabia que Clarice tambm deveria estar sofrendo. 
Andou... Andou. Vou para casa. Amo Clarice e nossos filhos. Algo deve ter acontecido que no entendo, mas amanh mesmo vamos, os dois, ao mdico fazer alguns exames 
para descobrir o motivo daquela dor e daquele cheiro... Chegou a casa. Clarice estava deitada ainda chorando. Entrou no quarto, pensando que ela estivesse dormindo. 
Deitou-se a seu lado, e percebeu que no havia mais aquele odor ruim. Deu um beijo na testa da esposa, que abriu os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela ficou com 
medo de abrir a boca e novamente o mau cheiro voltar. Ele a abraou, falando:
- Meu amor, sei que, como eu, est sofrendo muito. Mas no importa o que aconteceu esta noite, ns nos amamos. Vamos amanh mesmo a um mdico para descobrir o que 
est acontecendo. Amo vocs, e nada vai conseguir nos separar, nem que tenhamos de viver como irmos dentro desta casa. Mas nunca vou te abandonar... se fizesse 
isso, estaria abandonando a mim mesmo. No consigo mais viver longe de vocs. Deve haver uma explicao para tudo isso que est acontecendo e ns a encontraremos 
desde que continuemos juntos.
Ao dizer aquelas palavras, Osvaldo, sem perceber, afastou com violncia o vulto negro que os tentava envolver. Clarice voltou a chorar. Ele a abraou e a beijou 
com amor. O mau cheiro no voltou. Deitaram-se e dormiram abraados, como sempre. No dia seguinte pela manh, ao levantar, Osvaldo ligou para o escritrio avisando 
que s iria trabalhar na parte da tarde. Levantou-se e foi para a cozinha. Clarice estava dando caf para as crianas, que iriam em seguida para a escola. Ele se 
aproximou, beijou seus lbios e sentou-se para tomar caf. Da rua ouviu-se uma buzina, e Clarice saiu para levar as crianas at o nibus escolar. Voltou, sentou-se 
ao lado de Osvaldo e tomaram caf juntos. Ela j havia marcado hora com seu ginecologista. Eram ainda oito horas, e a consulta seria s onze. Aps terminar o caf, 
ela se levantou, tirou a loua de cima da mesa e levou-a at a pia. Osvaldo tambm se levantou e a abraou por trs. Ela se encostou-se a seu peito e fechou os olhos. 
Ao sentir o corpo do homem amado encostado ao seu, Clarice estremeceu.. Ele a virou de frente e a beijou. Ela correspondeu ao beijo e, assim abraados e aos beijos, 
foram para o quarto. Assim que se deitaram, o mau cheiro voltou e as dores se fizeram sentir. Ela, desesperada, levantou-se chorando e dizendo:
- No adianta. No vamos conseguir nunca mais. Isto est se tornando uma tortura.
No mesmo instante, ele sentiu um desejo enorme por Mrcia, muito embora neste horrio ela devesse estar no escritrio. No faz mal, vou at l. Fecharemos  porta 
e nos amaremos ali mesmo. Preciso v-la. Tem de ser agora! Sentia seu perfume, que o embriagava. Vestiu-se, pegou a chave do carro e foi para a garagem. Entrou no 
carro e deu a partida. J estava saindo, quando parou, pensando: No posso ir. Amo minha mulher. Isso que est acontecendo tem de ter uma explicao. Vamos ao mdico, 
como planejado. Seu corpo doa de desejo por Mrcia, mas ele resistiu. Entrou em casa novamente, e Clarice estava ali, sentada na cama e chorando. O mau cheiro havia 
passado. Ele a levantou e a abraou, dizendo:
- Tudo isso tem de ter uma explicao. Vamos ao mdico e descobriremos. Ns nos amamos e nada vai nos separar.
Beijou seus lbios novamente, e o beijo foi suave e amoroso. Dez minutos antes das onze, estavam no consultrio do ginecologista. Osvaldo segurava fortemente a mo 
de Clarice, como se temesse perd-la. O desejo por Mrcia aumentava, mas ele, suado e nervoso, resistiu. O ginecologista, aps ouvir a histria dos dois, ponderou:
- Estou estranhando, porque a senhora j  minha paciente h muito tempo e nunca observei que tivesse alguma ferida, que seria um dos provveis motivos para sentir 
dor. Vamos fazer um exame. 
Auxiliada por uma enfermeira, Clarice deitou-se na mesa e o mdico a examinou. Quando terminou, disse: 
- Exatamente o que falei: aparentemente no h nada errado, mas vamos pedir alguns exames de laboratrio, s com eles poderei fazer um diagnstico preciso. Quanto 
ao senhor, vou pedir alguns exames tambm.
Osvaldo e Clarice ficaram um pouco mais tranqilos. Ele perguntou:
- O que o senhor acredita que possa estar acontecendo conosco?
- No sei como responder a essa pergunta. Tenho quase vinte anos de profisso e nunca vi algo parecido. Precisamos esperar o resultado dos exames. Fiquem tranqilos, 
acharemos as respostas.
Confiantes, sentiam que o mdico iria ajud-los. Foram para a escola pegar as crianas e depois almoaram em um restaurante. As crianas estavam felizes de passar 
o dia com o pai. No estavam acostumados a v-lo, porque quando acordavam ele j havia ido para o trabalho e quando voltava eles j estavam dormindo. S depois que 
Osvaldo assumiu o amor pela esposa e pelos filhos foi que ele comeou a chegar a casa cedo o suficiente para jantarem e ficarem juntos.

DESCULPA PARA O SUICDIO

Enquanto isso, Gervsio e Farias, saram da sala de Damio. Farias confuso, sem saber que caminho seguir, perguntou:
- Gervsio, quem  na realidade Damio? Ele parece no pertencer a um lugar como este. 
- No sei muito tambm, s coisas que ouo aqui e acol. Parece-me que ele  um esprito muito iluminado, que escolheu trabalhar aqui na tentativa de ajudar aqueles 
que se suicidam. Na maioria das vezes, os suicidas sempre culpam algum por seu ato. Sofrem muito por isso, at o dia em que se convencerem de que ningum e nada 
pode ser culpado, a no ser eles prprios. Damio est sempre presente a cada atitude que  tomada por qualquer um. Quando percebe que chegou a hora e que existe 
uma chance de o esprito entender e livrar-se do dio, ele manda cham-lo  sua presena. Ele, ento, o ajuda a pensar e a tomar o melhor caminho. Dizem tambm que 
ele est aqui para ajudar um amigo, ou melhor, inimigo. Farias acompanhava o que Gervsio dizia.
- Ajudar um inimigo? Deve estar brincando! No posso acreditar que algum quisesse viver em um lugar como este sem necessidade! S para ajudar um inimigo. Sinto 
muito, mas no acredito!
- Existem espritos que fazem muito mais que isso. Muitos deles renascem sem necessidade, s para ajudar um amigo ou inimigo. Por isso o cu e o inferno no so 
como os imaginamos na Terra.
- Que est dizendo? No existe cu e inferno? O que acha que  o vale? Aquilo parece um inferno muito pior do que o imaginado.
- Se fosse o inferno descrito na Terra, todos os que l ento permaneceriam para sempre, sem esperana de sair, o que no  verdade, porque um dia todos os espritos 
encontraro a luz divina.
- Um dia, podero mesmo sair dali?
- Sim,  um lugar de aprendizado e reflexo, mas todos tero a oportunidade de sair, podendo, assim resgatar seus erros.
 - Est dizendo que todos so levados ao suicdio porque querem. Eu mesmo fui levado por aquela mulher perversa. Se ela no tivesse aparecido em minha vida, eu estaria 
at hoje vivendo feliz ao lado de minha famlia.
- No conheo a histria de vocs em uma vida anterior, mas sei que voc s no a enfrentou por covardia. Portanto, a culpa no foi dela e sim sua.
- No aceito isso! No podia deixar que as pessoas soubessem que eu tinha uma vida que, para muitos, poderia no parecer digna. Eu tinha uma imagem que no podia 
ser destruda. Se tudo fosse descoberto, seria meu fim!
- Por que as pessoas no poderiam saber?
- Porque todos acreditam ser um crime, um pecado.
- E voc, no que acredita?
- Tambm acho um crime, um pecado.
- Ento voc  culpado duas vezes. A primeira, por ser covarde; a segunda, por praticar algo que achava ser pecado, mas assim mesmo o cometia.
- No  pecado, Gervsio?
- Deus  justo e perfeito, no permitiria que um esprito nascesse para o erro, Farias. Ele quer que todos os seus filhos encontrem o caminho para a felicidade. 
s vezes coloca  nossa frente outros espritos a quem precisamos ajudar, ou simplesmente para nos testar.
- Testar? Est dizendo que aquela mulher com que tive um longo relacionamento, poderia ser um teste?
- No sei o motivo, mas pode ser, sim, Farias. No sabemos os caminhos para nossas vidas. 
- Nunca soube nada sobre esse assunto. No tinha tempo, precisava trabalhar.
- Se soubesse algo sobre isso, teria sido diferente?
Farias voltou seu pensamento para seu passado. Viu-se praticando atos que para ele eram errados, mas que lhe faziam muito bem. Pensou na outra mulher que fez parte 
de sua vida, mas de quem sentia vergonha. Pensou em quantas vezes disse que no voltaria mais  sua casa, e em quantas vezes voltou.
- No sei. Sempre acreditei que os sentimentos eram mais fortes que eu.  
- Talvez fosse uma tendncia a que voc devesse resistir. Ou simplesmente aceit-la sem discutir.
- No sei. Estou cada vez mais confuso, mas, mesmo que eu aceitasse, os outros e minha famlia no aceitariam e me condenariam para sempre.
- Quem lhe garante isso? Mais de uma vez voc duvidou do amor de Deus e de sua famlia. Quem lhe garante que, se eles viessem a descobrir, aps um primeiro susto 
e at uma grande revolta, o amor que sentiam por voc fosse superior e eles simplesmente ignorassem o fato, continuando a am-lo para sempre?
- No. No acredito que isso pudesse acontecer. Eles no poderiam compreender nunca! Como exigir isso deles, se eu mesmo no compreendia?
- Isso voc nunca saber, porque no tentou. S estou fazendo tudo isso e fazendo voc pensar para que entenda que, embora Mrcia tenha contribudo para o seu suicdio 
e deva ser punida, no foi  nica culpada; voc tambm teve sua parcela, e grande, de culpa porque foi covarde e no conseguiu enfrentar aquilo que considerava 
errado. 
- Talvez voc tenha razo. Mas, mesmo assim, se ela no tivesse me obrigado, estaria at hoje vivendo muito bem e, quem sabe, com o tempo, eu teria coragem de abandonar 
aquela mulher, ou de assumi-la de vez.
- Nunca saber... nunca tentou... na primeira oportunidade, se acovardou e encontrou o caminho que parecia ser o melhor.
Farias, ficou calado, apenas abaixou a cabea e, pensativo, acompanhou Gervsio.

CONHECENDO A ESPIRITUALIDADE

Mrcia chegou  empresa sorridente e feliz. Entrou em sua sala e pediu um caf. Enquanto esperava, ia pensando: Todo o trabalho e o dinheiro gasto valeram  pena. 
Ele voltou melhor do que eu poderia imaginar. Senti que est inteiramente a meus ps. Vou ficar com ele por algum tempo e depois vou abandon-lo. Ele vai ver quanto 
custa um dia ter tentado me humilhar. Poder ficar com aquela esposinha, mas nunca poder am-la ou possu-la novamente. Quando vier me procurar, eu o expulsarei 
para sempre. Nunca mais vou querer v-lo em minha frente. Nunca mais! Trabalhou o dia todo, mas no conseguia esquecer Osvaldo, o modo como ele a havia amado e como, 
com certeza, voltaria naquela noite. Ele vai querer amar a esposinha novamente, no vai conseguir e voltar a me procurar. Vou adorar v-lo a meus ps, implorando 
meu amor. Valeu mesmo a pena o dinheiro gasto. A felicidade que estou sentindo, no h dinheiro que pague. No dia seguinte pela manh, Osvaldo e Clarice foram  
clnica fazer os exames pedidos pelo mdico. Decidiram que, enquanto os resultados no chegassem, evitariam ter contato fsico. Perceberam que, assim fazendo, poderiam 
viver em paz, mas sabiam que aquele estado de coisas no poderia durar por muito tempo. Amavam-se e, naturalmente, se queriam de todas as maneiras. No poderiam 
ficar Por muito tempo sem esse contato. Aps fazer os exames, Osvaldo foi para seu trabalho, Clarice pegou as crianas na escola e foi almoar na casa de sua sogra. 
Dona Slvia considerava-a como filha e sofria muito ao ver o que Osvaldo fazia com ela, por isso lhe dava toda a ateno e carinho. Quando Clarice tinha quinze anos, 
seus pais vieram do Paran para So Paulo e foram morar ao lado da casa em que Osvaldo morava. Entre as duas famlias nasceu uma amizade sincera, e entre os dois 
um amor que os levou ao altar. Viveram felizes por pouco tempo. Quando nasceu a primeira filha, Osvaldo sentiu-se rejeitado e dividido no amor que Clarice dava  
criana. Foi se distanciando e conheceu Mrcia. Da para frente deixou Clarice e os filhos completamente abandonados. Por ser um empresrio bem sucedido, no deixava 
faltar nada que o dinheiro pudesse comprar, mas sua presena foi ficando cada vez mais breve. Isso durou muitos anos. Sua me acompanhava tudo e sofria ao ver o 
que ele fazia. Tentou muitas vezes falar com ele, mas foi em vo: ele, simplesmente, sorria e continuava como antes. Ela e Marlene, sua empregada e amiga h muitos 
anos, davam conselhos a Clarice para que o abandonasse, mas Clarice o amava e tinha medo de perd-lo para sempre. At que, uma noite, ao se aproximar dele, pedindo 
carinho, depois de ele ter chegado tarde da noite, como era seu costume, ele a repeliu ferozmente. No dia seguinte, ela decidiu seguir os conselhos da sogra e de 
Marlene e foi embora para a casa de seus pais, que haviam voltado para o Paran. Da para frente, tudo mudou. Osvaldo agora era o homem com quem havia se casado, 
fiel e cumpridor de seus deveres. Ela estava feliz, e sua sogra sabia disso. Naquela manh, Clarice chegou com as crianas para o almoo. Dona Silvia j a esperava. 
Depois do almoo, as crianas foram para a rua brincar. Clarice e a sogra estavam sentadas  mesa; Marlene coava caf. Dona Silvia, que estava prestando ateno 
ao comportamento da nora desde que ela chegara, perguntou: 
 - Clarice, o que est acontecendo? Voc me parece que no est bem. Osvaldo mudou novamente? Voltou  sua antiga vida?
Clarice olhou para a sogra e para Marlene, que se voltou para ouvir sua resposta. Comeou a chorar e entre lgrimas falou:
- No. Ele continua apaixonado e nos dando toda a ateno. Estou muito preocupada, mas ele no tem culpa, est sendo maravilhoso, apesar de tudo.
- Tudo o qu? Que est acontecendo? Voc me parece muito tensa, seu rosto denota um sofrimento muito grande. Conte logo.
Clarice contou. As duas ouviram caladas. Quando terminou de narrar os acontecimentos, concluiu:
- No sei o que fazer. Eu e ele nos amamos muito, mas temo que, se isso continuar, nosso casamento se acabe definitivamente. No poderemos viver por muito tempo 
como irmos. No sei o que fazer... No encontro explicao... Fomos hoje a um laboratrio para fazer alguns exames, para que o mdico consiga descobrir o que est 
acontecendo. No sei... Tenho a impresso de que isso no vai resolver.
Marlene, ao ouvir aquilo, voltou-se para olhar Clarice de frente e perguntou:
- Voc disse que tudo isso s acontece quando esto fazendo amor?
- Sim. Se ficarmos conversando ou simplesmente de mos dadas, nada acontece. S quando estamos envolvidos em carcias mais profundas  que aquele cheiro horroroso 
surge e as dores tambm. Somos obrigados a parar.
Marlene ficou olhando sem nada dizer. Dona Slvia perguntou:
- Vocs foram ao mdico e ele disse que aparentemente est tudo bem?
- Disse, mas temos de esperar o resultado dos exames que fizemos hoje.
Marlene segurou suas mos, falando:
- Isso est me parecendo coisa feita.  
- Como assim? Que coisa feita  essa?
- Existem espritos maus que so usados para fazer maldade.
- No acredito nisso e, mesmo que acreditasse, quem poderia querer nosso mal? A troco de qu?
- Os espritos maus so as mesmas pessoas ms que um dia desencarnaram. Quando desencarnamos, continuamos sendo como sempre fomos. Se ramos bons, continuamos bons; 
se ramos mentirosos, maus, fofoqueiros, briguentos, continuamos da mesma forma. Dependendo do grau da maldade praticada, os espritos se tornam escravos de outros 
mais espertos.  como um presidirio que vai parar em uma cela onde existem presos antigos e poderosos: ele  obrigado a se adaptar ao que estes querem.
- Isso ser verdade? Quer dizer que, mesmo no tendo erros, como acredito no ter, posso ser vtima de um esprito como esse?
- Deus  Pai supremo e justo. Nunca, jamais permitiria que um filho seu sofresse sem motivo. Voc hoje pode ser e , sei disso, uma pessoa boa e cumpridora de seus 
deveres, mas nada pode nos garantir que no passado, em outra vida, tenha sido sempre assim.
- Est dizendo que posso hoje responder por algo que fiz no passado e de que no me lembro?
- Isso mesmo. Essa  a Lei.
- Que Lei  essa? No importa o que fiz ontem, importa o que sou hoje.
- Voc pode pensar assim, mas suas vtimas de ontem podem pensar de maneira diferente e exigir uma justia da qual se acham merecedoras.
- Se for verdade, isso no  justo.
- Aqui na Terra, quando um crime  cometido, a lei no prende o infrator e o condena? Por que com a justia de Deus seria diferente?
- Se  assim, estou pagando por erros passados. Se realmente algum fez algo para destruir meu casamento,  por que mereo? Est dizendo que no h uma maneira de 
escapar? Est dizendo que nada pode ser feito? Est dizendo que o mal poder vencer sempre?  
 - Existe uma luta constante entre o mal e o bem. Todos somos espritos aprendizes, estamos aqui para nos encontrar com amigos de outrora, para nos ajudarmos mutuamente, 
e inimigos, para tentarmos uma reconciliao. Se algum lhe fez um mal que pode at destruir seu casamento, o nico caminho que conheo  o do amor e do perdo.
- Perdo? Amor? Como posso perdoar e amar uma pessoa que est tentando destruir a mim e  minha famlia?
- Esse  o nico caminho que conheo.
- Se existe algum que faz uma maldade dessas, deve existir algum que a desfaa e a mande de volta para quem fez. Vou procurar uma pessoa assim e mandarei tudo 
de volta.
- No faa isso, Clarice. Se assim o fizer, estar tambm se tornando escrava e sofrer muito por isso.
Dona Slvia, que at agora s ouvia as duas, colocou sua mo sobre as de Clarice, que gesticulava muito enquanto falava.
- Clarice, minha querida - disse ela. - Sabe quanto gosto de voc e de meus netos. Seria a ltima pessoa neste mundo a lhe dar um mau conselho. Conheo Marlene h 
muito tempo, sei de toda a sua vida e como tem suportado todas as dificuldades em nome do que acredita. Pode parecer estranho, mas ela sabe o que diz, tem muito 
conhecimento e, sempre que aconselhou algum, foi para o bem. Escute o que ela tem para dizer e siga seus conselhos, sei que no vai se arrepender.
Clarice confiava naquelas duas mulheres que estavam  sua frente, mas no admitia que existisse algum que pudesse fazer mal a outra pessoa. Pensou um pouco e falou:
- No estou entendendo muito bem o que esto falando. S sei que meu casamento est se destruindo e com ele a minha felicidade e a dos meus filhos! No posso ficar 
parada e rezando sem nada fazer para impedir isso! Sei que amo e sou amada...
Marlene a interrompeu:
- Acabou de dizer as palavras mgicas. Sabe que ama e que  amada... essa  exatamente a arma que deve usar. O amor que existe entre vocs  o que os libertar de 
qualquer mal.  
- Preciso que me diga o que tenho de fazer. Quero fazer o certo e farei qualquer coisa para salvar o meu casamento.
- A primeira coisa a fazer  pedir a Deus que proteja a pessoa que cometeu esse crime. Que Deus a ilumine para que se arrependa.
- No sei quem , nem sei se acredito nisso. Como posso pedir por um estranho?
- No importa quem seja. No importa se acredita ou no. Apenas seja sincera. Dona Silvia, pea a Rosa que segure as crianas na casa dela por uma hora mais ou menos. 
Vou fazer algo, e elas no podem estar presentes. Precisarei de sua ajuda.
Dona Slvia levantou-se, foi at a vizinha, onde as crianas brincavam, falou com a dona da casa e voltou. Sentou-se novamente e disse:
- Podemos ficar  vontade. Ela vai prender as crianas l. Marlene tirou tudo que havia em cima da mesa, colocou uma jarra com gua, sentou-se ao lado de Clarice 
e dona Slvia, segurou as mos de cada uma e fez com que elas segurassem as suas, formando assim uma corrente. Fez um pai-nosso, abriu uma pgina do Evangelho e 
leu a parbola do filho prdigo. Quando terminou de ler, falou:
- Senhor meu pai, como um dia o filho prdigo pediu perdo e o regresso para o lar, neste momento estamos aqui pedindo perdo por todos os crimes praticados. Sabemos 
que somos devedores, mas sabemos tambm que de Suas mos s podem cair bnos. Senhor, neste momento, unidas no mesmo amor em torno de nosso irmo Osvaldo, pedimos 
que suas bnos caiam sobre ele e sua famlia, que de nossos coraes, neste momento, possam sair raios de luz que o atinjam, onde estiverem, a pessoa e os espritos 
envolvidos. Que eles possam, Senhor, entender que o mal hoje feito s poder lhes trazer muito mais sofrimento amanh. Confiamos em Sua justia e sabedoria.  
Ao terminar, ela abriu os olhos, pegou dois copos com gua e deu um deles a Clarice e dona Slvia para que bebessem, enquanto ela bebia o outro. Clarice e a sogra 
no viram, mas, se tivessem visto o que Marlene via, ficariam deslumbradas. A cozinha foi tomada por luzes coloridas de um lils suave que as envolvia e subiam. 
Marlene contemplava aquela luz e em pensamento agradecia: Obrigada, Senhor meu Pai, por ter ouvido nossas preces. Em Suas mos colocamos nossas vidas. Quando as 
luzes desapareceram, ela falou:
- Agora est tudo bem. Nossas preces foram ouvidas, e tudo seguir como tem de ser. Devemos confiar e esperar o resultado.
Clarice e a sogra abriram os olhos. Realmente, acompanharam com sinceridade a orao que Marlene proferiu. Clarice no sabia por que no conseguia sentir dio. Em 
seu corao s existia o grande amor que sentia por seu marido e seus filhos. Dona Slvia sorria confiante. Conhecia Marlene havia muito tempo e sabia de quanto 
ela era capaz para fazer o bem. O telefone tocou, e dona Slvia foi atender. Era Osvaldo:
- Mame, Clarice ainda est a?
- Est. Estamos tomando caf. Por qu?
- De repente senti uma vontade imensa de falar com ela, de ouvir sua voz.
- Espere um pouco, vou passar o telefone.
Sorrindo e fazendo com os dedos um sinal de positivo, passou o aparelho para Clarice, que, tambm sorrindo e com lgrimas nos olhos, atendeu.
- Al, Osvaldo.
- Clarice, meu amor, que bom ouvir sua voz. Agora a pouco senti tanto medo de perder voc, senti tanta vontade de estar a seu lado. Estou ligando para dizer que 
te amo muito...
- Tambm te amo, Osvaldo. Sinto que daqui para frente tudo vai ficar bem. Seremos felizes para sempre. 
- Vou chegar cedo em casa. Um beijo.
Ela colocou o aparelho no gancho e agora chorava copiosamente. Sem perceber, estava ajoelhada e dizendo:
- Obrigada, meu Deus, por me mostrar que estou no caminho certo. Por favor, continue nos abenoando e iluminando nossos inimigos.
Marlene, tambm de mos postas, completou:
- Que, com certeza, foram nossas vtimas no passado. Clarice, entre lgrimas e sorrisos, abraou as duas e comeou a danar enquanto falava:
- Sinto que nosso amor vai ser mais forte que tudo. Juntos, venceremos qualquer maldade.
No momento em que Marlene terminava a orao, Mrcia, no escritrio, sem saber por que, parou de escrever. A imagem de Lenita surgiu  sua frente, e ela se enterneceu. 
Seus pensamentos voltaram-se para aquele rostinho to querido. Fechou os olhos por um instante e, como se voltasse a um passado desconhecido lembrou-se daquele sonho 
no qual se via em um lugar muito lindo, ao lado de Lenita e de um homem desconhecido que sorria para elas. Embora ele fosse desconhecido, ela sentia que o amava. 
Em seguida, aparecia algum que tirava a menina de seus braos com violncia. Lembrou que, quando sonhava, nesse momento ela sempre acordava.
- Que estranho! Que sentimento  esse que sinto por uma menina desconhecida at outro dia? Como ser que ela est? Sei que precisa de cuidados, mas por que tem de 
viver ao lado daquela mulher que tanto odeio? Ser que a odeio mesmo? No entendo esse sentimento que nutro por ela. Sinto que  uma pessoa em quem no posso confiar.
Voltou ao trabalho, que, como sempre, para ela era o mais importante. Na casa de dona Slvia, assim que Marlene e Clarice terminaram de agradecer a Deus pela graa 
recebida, as crianas entraram correndo. Clarice abraou-as falando: 
- Agora vamos embora. Preciso preparar o jantar para o papai. Hoje vou fazer uma comida especial, aquela de que ele mais gosta.  
Pegou as crianas e foi embora. Estava leve e confiante. Sabia que o amor deles era a nica arma que possua e, com certeza, a usaria. Ao abrir a porta de casa, 
sentiu um perfume de limpeza. A empregada j havia ido embora, e tudo estava perfeito. Gostava de cozinhar, por isso ela mesma preparava as refeies todos os dias. 
As crianas estavam sujas e cansadas de tanto brincar. Mandou que fossem para o banho enquanto ela preparava o jantar. No era ainda sete horas quando Osvaldo chegou. 
Deu-lhe um beijo nos lbios e foi para a sala brincar com as crianas. Da cozinha, escutou um barulho. Foi para a sala, e Osvaldo estava deitado no cho com as duas 
crianas em cima dele. Rolavam pelo tapete e riam muito. Ela, da porta, viu aquela cena e sorriu pensando: Com a ajuda de Deus, nada poder impedir que essa felicidade 
dure para sempre, que meus filhos possam crescer ao lado do pai amoroso que Osvaldo se tornou e que eu continue sendo feliz ao lado do homem que tanto amo. Voltou 
para a cozinha e terminou o jantar. Enquanto jantavam, as crianas, felizes por terem o pai em casa na hora do jantar, falavam muito, contando do dia que tiveram 
na casa da av que tanto amavam e das brincadeiras com os amiguinhos. Osvaldo ouvia os filhos com ateno. De vez em quando voltava seus olhos para Clarice, que 
o fitava tambm. Realmente se amavam muito. Terminaram o jantar. As crianas ficaram mais um tempo assistindo televiso, depois foram para a cama. Clarice foi para 
o quarto e preparou a cama para dormirem. Ela e Osvaldo haviam combinado que no se tocariam enquanto no recebessem o resultado dos exames. Ela nadou por todo o 
quarto, para assegurar-se de que tudo estava limpo e cheiroso. Deitou-se. Logo depois, Osvaldo entrou e deitou-se tambm. Ela lia um livro que Marlene lhe havia 
emprestado. Ele tirou o livro de sua mo e beijou-lhe para dar boa-noite. Um beijo que a princpio parecia ser sem maiores conseqncias tornou-se quente e sensual. 
Sem perceber, comearam a se acariciar, esquecendo a promessa feita de esperar o resultado dos exames. Quando estavam no auge das carcias, a dor e o mau cheiro 
voltaram. Parou imediatamente, Osvaldo levantou-se e foi para a sala. Clarice, dessa vez, o seguiu e no chorava. Sentou-se a seu lado, e os dois perceberam que 
a dor e o mal estar haviam desaparecido. Osvaldo sentiu novamente aquele desejo enorme por Mrcia. O desejo era tanto que ele no resistiu: foi para o quarto e comeou 
a se trocar para sair. Clarice colocou-se em sua frente, falando:
- Espere. No vou deixar voc sair. Precisamos conversar.
- No temos o que conversar. Nunca mais conseguiremos fazer amor. Mas eu te amo.
- Tambm te amo, por isso mesmo precisamos conversar. Preciso te contar o que aconteceu hoje na casa de sua me.
Ele parou, olhou para ela e disse:
- No posso ficar. Tenho de sair. Preciso ir a um lugar, e quando voltar conversaremos.
- Vai procurar a outra mulher?
Ele se sentiu como uma criana pega fazendo uma travessura.
- O que est dizendo? Que outra mulher? Est louca?
- No estou louca.  exatamente sobre isso que precisamos conversar.
O desejo por Mrcia era intenso. Ele precisava v-la e possu-la de qualquer maneira.
- Agora no posso ficar. Preciso sair.
Clarice, desesperada por no conseguir impedir o marido, gritou:
- Se sair agora, quando voltar no me encontrar mais aqui. Vou embora, e sozinha. As crianas ficaro.
Ao ouvi-la dizer aquilo, ele parou e perguntou desesperado:
- Est dizendo que vai me abandonar e os seus filhos? 
Dessa vez ela no chorava. Conseguiu foras sem saber de onde e respondeu:
- Sim. Porque, se voc sair esta noite, tudo estar perdido para ns. Serei a pessoa mais revoltada e infeliz deste mundo e no terei nada para oferecer os meus 
filhos, a no ser revolta e dio. No  isso que quero para eles, que merecem muito mais: carinho e segurana, o que s nosso amor pode dar.
Osvaldo sentiu que ela estava falando a verdade e que cumpriria o que estava prometendo. Sentiu um vazio imenso s de pensar em ficar sem ela. Abraou-a com fora, 
enquanto quase gritava:
- Deus, me ajude! O que estou sentindo  mais forte que eu Clarice.
Vendo o desespero do marido, o abraou e o conduziu de volta para o quarto. Ele se deitou, procurando dormir, mas foi em vo: seu desejo por Mrcia era incontrolvel. 
Ele se levantava e se deitava, no conseguia parar. Ia at a porta do quarto, voltava, parecia que estava a ponto de enlouquecer. Clarice lembrou-se de tudo que 
Marlene havia dito. Calmamente se ajoelhou e comeou a falar em voz alta:
- Meu Deus, Pai poderoso e amoroso, no permita que o mal tome conta de nosso lar. Estamos aqui para cumprir nossa misso perante ns mesmos e nossos filhos. No 
permita Senhor, que essa misso seja interrompida. Que sua luz divina caia sobre ns e sobre nossos inimigos. Abenoe Senhor, o nosso lar. Ajude-nos, meu Pai. Que 
nosso amor possa superar tudo o que est acontecendo. Confiamos Senhor, em Seu amor. Osvaldo no entendia o que ela estava fazendo, mas sentiu que aos poucos o desejo 
foi sumindo e uma paz imensa tomou conta de todo o seu ser. Levantou-se, abraou a esposa, ajudou-a a levantar-se e beijou-a nos lbios num gesto de gratido e amor. 
Sabia que aquela orao tivera sobre ele um poder enorme. Abraado a ela, falou:
- Agora estou bem, no vou mais sair. Mas voc vai me contar tudo que est acontecendo. Sinto que sabe de algo, e eu tambm preciso saber.
Ela o beijou nos olhos, falando:
- Vamos para a cozinha. Vou fazer um ch e enquanto bebemos vou contar tudo que aconteceu hoje na casa de sua me.
Abraados, foram at a cozinha. Passaram pelo quarto das crianas, onde ambos dormiam profundamente. Entraram e cobriram os dois. Na cozinha, Clarice preparou um 
ch. Enquanto enchia as xcaras, disse:
- Estou muito cansada, parece que participei de uma batalha. De qualquer modo, se houve essa batalha, parece que ao menos desta vez eu ganhei. Eu, no... Ns ganhamos. 
Nosso amor provou que  mais forte que tudo. Marlene tinha razo.
Clarice no pde ver e no sabia, mas realmente havia participado de uma batalha. Osvaldo, enquanto sentia aquele desejo imenso por Mrcia, estava totalmente envolto 
por um vulto negro que lanava sobre ele baforadas de charuto. Quando ela comeou a rezar, uma luz intensa entrou no quarto, arremessando o vulto para longe. Ele 
resistiu muito, por isso ela se sentia agora muito cansada. Ele teve de parar de jogar fumaa de charuto sobre Osvaldo, mas no foi embora. Estava agora na cozinha, 
sentado em um canto. Fumava seu charuto e bebia sua cachaa prestando ateno em tudo que eles falavam, esperando o momento exato para atac-los novamente. Enquanto 
tomavam o ch, Clarice contava todo o acontecido. Osvaldo ouvia, no acreditando.
- Isso tudo  inveno da cabea de Marlene. Ela  chegada a essas coisas de espiritismo. Isso nunca teve sentido para mim, essa histria de reencarnao, de outras 
vidas...  tudo uma grande bobagem.
- Eu tambm pensava assim, mas, depois de tudo que aconteceu hoje, no pude deixar de me interessar por esse assunto. Marlene me emprestou alguns livros e os estou 
lendo, apenas com a inteno de estudar e entender, e estou gostando das explicaes que tem neles.
- Supondo-se que tudo isso fosse verdade, quem se interessaria em destruir nosso casamento?
- Deduzimos que s poderia ser uma mulher abandonada ou que goste muito de voc.
Ao ouvir aquilo, Osvaldo imediatamente pensou em Mrcia, mas no podia afirmar perante a esposa que mantinha um caso fora do lar havia muito tempo. Disfarou, falando:
- No existe outra mulher. Mas, se existisse eu a mataria com minhas prprias mos.
- Seria um outro engano. Marlene me convenceu de que esse seria o pior caminho a seguir. Ao contrrio, devemos fortalecer nosso amor e rezar muito por essa pessoa, 
pedindo a Deus que seja iluminada e que se arrependa dessa loucura que praticou. De acordo com o que Marlene disse, devemos rezar muito por esse esprito que tentou 
e continuar tentando nos separar.
Ao ouvir aquilo, o vulto que estava sentado levantou-se e aproximou-se mais para poder ouvir melhor. Clarice continuou:
- Marlene disse que esse esprito, quando vivo, talvez tenha sido muito mau para com outras pessoas ou com ele mesmo. Quando se viu do outro lado, perseguido pelos 
demais, pensou que realmente era escravo e por isso continuou se dedicando  maldade. Devemos rezar e pedir muito para que Deus lhe mostre estar errado, e assim 
ele poder ajudar as pessoas e libertar a si prprio.
O vulto ficou pensando: Ser que ela est dizendo a verdade? Ser que a tal escada existe mesmo? Ser que estou sendo enganado durante esse tempo todo? Osvaldo a 
interrompeu, perguntando:
- Voc diz que temos de perdoar e rezar por eles? No estou entendendo, Clarice.
- Jesus veio a Terra para nos ensinar exatamente isso. Ele disse:  Perdoai setenta vezes sete. Com isso, quis nos mostrar que o perdo deve ser infinito. Falou tambm 
da importncia de perdoar.
Osvaldo, depois de pensar um pouco, falou:
- Nunca fui dado a acreditar em religio alguma. Embora tenha sido criado na igreja catlica, depois de adulto me limitei a comparecer a casamentos e missas de stimo 
dia. Sempre acreditei ser a religio um atraso de vida. Sempre acreditei que Jesus tinha sido um anarquista de sua poca. Agora, escutando voc, chego a pensar que 
estive errado o tempo todo. Jesus no promoveu a anarquia, a desordem, mas sim a compreenso com os inimigos. Vou ler mais sobre sua histria. Preciso saber mais 
sobre ele e sobre tudo o que disse.
- Tambm farei isso. Sinto necessidade de saber mais. Sinto que precisamos saber para conseguirmos lutar contra todo o mal que est sobre nosso lar. Supondo-se novamente 
que isso seja verdade, o que devemos fazer para nos livrar desse mal?
Clarice se levantou. Pegou uma jarra com gua e a colocou sobre a mesa, exatamente como Marlene havia feito. Segurou as mos de Osvaldo e fechou os olhos, dizendo 
em voz alta:
- Aqui estamos Senhor, dentro de nosso lar, juntos e confirmando nosso amor. No sabemos muito sobre a vida eterna, mas sabemos que o Senhor  um Pai supremo e amoroso. 
Por isso lhe pedimos humildemente que nos proteja e a nossos filhos, para que possamos continuar vivendo em paz a fim de cumprir nossa misso aqui na Terra. A essa 
pessoa que porventura tenha nos feito algum mal, se ela existir, pedimos que sua luz a ilumine e a traga de volta para Seus braos; a esse esprito ou espritos 
em pacto com ela, tambm seja enviada muita luz para que eles entendam que o esprito  livre, por isso no precisa ser escravo, a no ser de si mesmo. Senhor tenha 
compaixo de ns todos e derrame Suas graas sobre nosso lar. Ela fez aquela orao com tanto fervor que Osvaldo, sem perceber, a acompanhou com toda a emoo e 
f. O vulto saiu de l correndo; precisava de esclarecimentos sobre o que havia ouvido. Precisava saber se o que ela dissera era realmente verdade. Precisava saber 
se a tal escada realmente existia. Aps a orao, Clarice bebeu um pouco de gua e serviu tambm para Osvaldo. Guardou o resto da jarra para dar s crianas no dia 
seguinte. Levantaram-se e foram para o quarto, em um estado de muita paz e amor. Dormiram abraados como antes.

O ENCONTRO DO AMOR

Mrcia acordou violentamente. Sentou-se na cama e demorou um pouco para perceber que estava em seu quarto. Sabia que havia sonhado com algo horrvel, mas no se 
lembrava do qu. Levantou-se, foi at a sala ver se havia algum l. Sentia uma presena, mas no sabia o que era. Andou pela casa toda procurando encontrar algo. 
Certificando-se de que no havia nada, voltou e deitou-se novamente. Fechou os olhos para continuar dormindo, mas no conseguia. Algo a impedia, pensamentos desencontrados 
passavam por sua mente. Meio adormecida, via o rosto de Farias pedindo a ela que no contasse nada do que sabia. Esse rosto de repente se transformava no rosto de 
Lenita, que estava chorando. Sua me, Osvaldo e muitas imagens passaram por sua cabea. Uma imagem demorou mais tempo: era o rosto de um homem alto e forte, com 
uma expresso de dio e que fumava um charuto, jogando baforadas sobre ela. Essa imagem fez com que acordasse novamente. Dessa vez sabia o que havia sonhado. Sentou-se 
na cama e lembrou-se do trabalho que havia encomendado. Seu corpo tremia e doa, como se houvesse levado uma surra. Levantou-se novamente, foi ao bar, pegou um copo 
e encheu de vinho e tomou quase tudo de uma vez. Sabia que precisava dormir, porque teria de levantar cedo para ir ao trabalho. Um pouco tonta com o vinho, adormeceu, 
mas seu sono no foi tranqilo. Dormia e acordava a todo instante. Pela manh, acordou cansada e com olheiras profundas. Lembrou que os comprimidos para dormir haviam 
terminado e que deveria voltar ao mdico para que ele receitasse mais. Trocou-se e foi trabalhar. Durante o dia, por vrias vezes, sentiu tonturas e fraqueza. Esses 
momentos vinham com tal intensidade que ela se desviava do trabalho e, quando voltava ao normal, no se lembrava de onde havia parado. Ficou preocupada: aquilo no 
era normal. Nada, nunca, por pior que fosse seu estado emocional, conseguiu um dia sequer afast-la de suas obrigaes no trabalho. Decididamente, tenho de ir a 
um mdico. Estava to preocupada com sua sade que no pensou em Osvaldo em nenhum momento do dia. Estava muito preocupada consigo mesma para pensar em algum que 
no fosse ela prpria. O dia arrastou-se, e ela ligou para seu mdico, marcando uma consulta para o dia seguinte. Osvaldo, no trabalho, pensava em Mrcia e em tudo 
que Clarice havia dito. Lembrou-se da expresso no rosto de Mrcia no dia em que disse que no a veria mais. Ela seria bem capaz de fazer algo assim, s por orgulho 
ferido. Embora acredite que ela tenha coragem para tanto, custo a acreditar que o tenha feito. Durante todo esse tempo em que estivemos juntos, sempre foi muito 
cordata e deixou muito claro que no queria um envolvimento maior do que aquele que mantnhamos. Ser que ela fez algo? Mas, se Clarice tiver razo, nosso amor ser 
mais forte. Que Deus proteja Mrcia para que ela encontre algum que a ame e a quem ela ame tambm. No pensava aquilo por medo, mas pelo amor que um dia julgou 
sentir por ela e por que a admirava como mulher e profissional. Sabia que havia conquistado tudo com seu esforo e trabalho. Mesmo que quisesse, no conseguia sentir 
raiva de Mrcia, muito menos dio. Entendia seus motivos e, colocando-se em seu lugar, julgou que, tendo oportunidade, tambm faria o mesmo. Procurou afastar seu 
pensamento dela e voltou a pensar em Clarice e em seus filhos e no quanto os amava. Seguindo os conselhos de Marlene, eu e Clarice devemos confirmar a todo instante 
nosso amor. E isso que farei, Eu a amo e ficarei a seu lado, custe o que custar.  noite, quando chegou a casa, Mrcia novamente reparou que aquele apartamento era 
muito grande para ela sozinha. Percebia agora a solido em que vivera o tempo todo. Pegou um copo com vinho e sentou-se em uma poltrona. Ligou a televiso, mas no 
conseguia prestar ateno ao que estava passando. S ento se lembrou de Osvaldo. No me procurou mais depois daquela noite... Ser que o trabalho perdeu o efeito? 
Ser que ele no vai voltar? Seu corao se apertou. Mais do que nunca, sentia falta de Osvaldo ou de algum para lhe fazer companhia. Pensando nele, resolveu sair 
e andar um pouco de carro pela cidade. Queria cansar o corpo para poder dormir tranqila, como fazia antes. Dirigia seu carro distrada, e s percebeu que o semforo 
havia fechado quando estava sobre a faixa. Freou bruscamente, e um carro que vinha logo atrs bateu no seu. O barulho foi grande, e ela saiu vociferando em direo 
ao motorista, que tambm saa de seu carro. Ao v-lo, ela parou. Ele, sorrindo, falou:
- Desculpe, estava distrado e no pensei que fosse parar. Ficaram se olhando. Ele perguntou: 
- Voc no  a moa do parque? Sou Ronaldo, no est me reconhecendo?
Claro que ela o reconhecera. Jamais esqueceria um homem como aquele. Sorrindo, respondeu: 
- Agora estou me lembrando. Voc  o corredor?
- Isso mesmo. No se preocupe com o estrago de seu carro, vou mandar consertar e arcarei com todas as despesas.
- Acontece que preciso do carro para trabalhar.
- Sem problema. Tenho vrias agncias de automveis, posso lhe emprestar um enquanto o seu permanecer no conserto.
Mrcia sorriu. Havia mentido, porque para trabalhar usava o carro da empresa. S disse aquilo por estar sem palavras e muito emocionada por v-lo novamente. Ele, 
amvel, falou:
- Seu carro ainda pode andar o estrago no foi muito grande. Podemos ir a algum lugar tomar algo e festejar a coincidncia desse nosso reencontro casual, porm muito 
feliz.
Ela no sabia o que responder. Nunca fora dada a galanteios, e ele parecia ser um galanteador nato.
- No sei o que dizer. J  tarde e estou voltando para meu apartamento.
- Ora, vamos tomar algo, depois iremos at uma de minhas agncias pegar outro carro. Poder escolher o que quiser. 
Percebendo sinceridade no que dizia e achando que ele era um homem bonito e agradvel, ela simplesmente fez um sinal com a cabea, dizendo:
- Est bem, vamos. S que no posso demorar muito. Amanh preciso acordar cedo.
- No se preocupe: ser rpido, o tempo suficiente para que eu possa admirar um pouco sua beleza.
Ela entrou em seu prprio carro e o seguiu. Pararam em frente a um barzinho freqentado por jovens que danavam ao som de uma msica muito alta. Entraram, sentaram-se 
e pediram um drinque, mas o barulho era insuportvel. Ele, com seu bonito sorriso, disse quase gritando para que ela o ouvisse:
- Aqui no vai dar para conversarmos. Gostaria de saber mais sobre voc e falar-lhe de minha vida. Que tal irmos para outro lugar?
Ela sorriu.
- Acredito que seja a melhor coisa que temos para fazer. Aqui, realmente, est impossvel.
Resolveram ir a um restaurante, onde o ambiente fosse mais calmo. Quando se dirigiam para os carros, Ronaldo falou:
- Vamos antes at uma de minhas agncias. Deixaremos seu carro e voc pegar outro.
Ela sorriu, dizendo:
- Perdoe-me, mas eu menti. No preciso de outro carro para trabalhar. Uso o da empresa.
Ele sorriu e instintivamente deu um beijo em sua testa.
- Melhor ainda. Mesmo assim, vamos at a agncia e deixamos seu carro l. Depois, iremos ao restaurante e a levarei para casa.
Ela consentiu. Em hiptese alguma poderia discordar daquele homem maravilhoso. Fizeram exatamente isso. No restaurante, enquanto esperavam a comida e depois, enquanto 
comiam, ele, muito falante, contava sua histria.
- Meus avs vieram da Itlia e aqui conseguiram conquistar muitas coisas. Ficaram ricos, e eu praticamente nasci em bero de ouro. Estudei muito, aqui e no exterior. 
Com vinte e quatro anos, conheci Magali, por quem me apaixonei de uma maneira violenta, e em menos de seis meses estvamos casados. Vivemos felizes at que, ao dar 
 luz ao nosso primeiro filho, ela e a criana morreram. 
Mrcia percebeu em seus olhos certa tristeza enquanto relatava os fatos.
-  Sinto muito. Deve ter sofrido demais.
- No pode imaginar o quanto. Entrei em uma depresso profunda, parecia que o mundo havia terminado. Sentia-me como se houvesse morrido com ela. No dormia nem comia, 
minha nica vontade era morrer para poder reencontr-la.
Ela ficou realmente consternada.
- Sinto muito. Mas o que fez para reagir?
- Aps muito tempo, com a ajuda de minha me, que no se conformava em me ver daquela maneira, e, tambm, de alguns amigos, me recuperei e decidi que continuaria 
vivendo.
- Ainda bem que reagiu. Hoje me parece muito bem.
- Quando voltei  vida, resolvi que daquele dia em diante me dedicaria exclusivamente s minhas agncias e ao esporte, que, depois dos carros,  o que mais amo.
- Isso eu percebi: gosta mesmo de correr.
- Correr, fazer musculao e jogar tnis. s vezes nadar, mas no  meu esporte preferido.
- Nossa! Onde arruma tempo para tudo isso?
- Acordo muito cedo. Quando se gosta do que se faz, o tempo nunca  problema.
- Parece que tem uma vida muito agitada, diferente da minha, que se divide em trabalho, trabalho e trabalho.
- No tem namorado? Ela se lembrou de Osvaldo.
- No. Nem para isso tenho tempo. S mesmo o trabalho faz parte da minha vida.
- Isso precisa mudar. A vida  muito boa se for bem vivida. Vou lhe confessar: aps sair da depresso, nunca mais outra mulher despertou em mim qualquer sentimento 
de amor. Talvez por medo de sofrer novamente, no permiti que isso acontecesse... At agora.
Ao ouvir aquilo, Mrcia estremeceu.
- Que est querendo dizer?
- Que agora estou sentindo algo estranho novamente. Desde aquele dia no parque, no consegui mais esquecer voc. O pensamento foi to forte que, por isso, deve ter 
acontecido o acidente, somente para nos reencontrarmos.
Mrcia no conseguia acreditar no que estava ouvindo. Aquele homem maravilhoso no podia estar dizendo a verdade. 
- No acredito no que est dizendo. No me conhece. No sabe quem sou. Ns nos encontramos apenas uma vez.
- Tambm no entendo. S sei que estou perdidamente apaixonado e, se voc quiser, poderemos iniciar um relacionamento, para que possamos nos conhecer melhor.
Ela, sorrindo e no podendo esconder sua felicidade, respondeu:
- Voc deve estar louco! No pode estar dizendo a verdade!
- Claro que sou louco e claro que estou dizendo a verdade! Depende de voc, s de voc...
Ele falava manso, de uma maneira que fazia com que Mrcia pensasse que estava dormindo e sonhando. Enquanto ele falava, ela pensava: O que  isso? Esse  o homem 
que sempre sonhei encontrar, mas que ao mesmo tempo pensei no existir. Devo estar sonhando mesmo... Mas no estava. Ele sorria, muito, demonstrando a sinceridade 
com que falava. Ela se entregou completamente a seus encantos. Aps terminarem de jantar, foram para o apartamento dela. Ao chegarem a frente ao prdio, ele estacionou, 
saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para que ela descesse, pegando sua mo para ajud-la. Ela, emocionada, pensava: Este homem no existe... Ele olhou em 
seus olhos e disse:
- Voc bem poderia me convidar para um drinque de boa-noite.
Ela no resistiu. Sorriu, dizendo:
- Vamos subir? Terei imenso prazer em lhe oferecer um drinque.
Subiram. Ao entrar, Ronaldo encantou-se com o tamanho do apartamento e o bom gosto da decorao.
- Este lugar  muito bonito e grande. Mora com seus pais?
- No, no tenho famlia. Moro sozinha.
- Est me dizendo que mora sozinha em um apartamento deste tamanho? No se sente muito sozinha?
Ela, sria, respondeu:
- Trabalho muito. No tenho tempo nem para sentir solido.
- Acredito que esteja na hora de pensar mais em voc e menos no trabalho. Trabalhar  importante, mas no pode se transformar na prioridade da vida.
Ela no respondeu. Encaminhou-se at o bar para preparar um drinque. Ele a seguiu e, abraando-a por trs, comeou a beijar seu pescoo e seus cabelos. Ela no resistiu 
por muito tempo e em poucos minutos j estavam no quarto amando-se com muito carinho e amor. O amor foi intenso, porm suave. Mrcia sentiu prazeres que nunca antes 
havia sentido. Quando terminaram, ele, emocionado, falou:
- Decididamente, voc  a mulher de minha vida. Com voc eu at me casaria. O que acha?
- Casar? Nunca pensei nisso. Tenho meu trabalho, que me toma muito tempo.
- No vai mais precisar trabalhar, se no quiser. Tenho o suficiente para lhe dar a mesma vida confortvel que tem agora. S quero ficar a seu lado para sempre.
Ela no acreditava. Decididamente, estou sonhando. No pode estar acontecendo,  bom demais! Ele continuou falando:
- Mas, se preferir continuar trabalhando, tambm no me oporei voc  quem vai decidir o que quer fazer desde que diminua o ritmo e fique a meu lado para sempre.
- Espere um pouco... Voc est indo rpido demais. Ns no nos conhecemos.
- Tem razo. Vamos ficar juntos por trs meses. Depois desse tempo, se tudo der certo, e sei que vai dar nos casaremos e seremos felizes para sempre. Que acha de 
minha proposta?
- O que posso dizer, com um argumento como esse?
Ela simplesmente balanou a cabea, beijou-o e foi beijada com amor e muito carinho. Quando ele foi embora, ela ficou sentada em sua cama, pensando em tudo o que 
havia acontecido naquela noite. Beliscava-se para ver se estava acordada mesmo ou se tudo no havia passado de um sonho. Era bom demais para ser realidade.  verdade? 
Tudo aconteceu mesmo? Ele esteve aqui, me amou?  o homem mais maravilhoso que conheci em toda a minha vida. Vamos nos casar e seremos felizes. Muito felizes.  Adormeceu. 
Naquela noite, sem necessidade de comprimidos ou vinho, teve um sono tranqilo. Estava feliz, e a felicidade embala qualquer sono e sonho. No dia seguinte, Mrcia, 
como todos os dias, acordou na hora. S que naquela manh sentia-se diferente. Estou muito feliz. Finalmente, encontrei um homem de verdade. Ser que o verei novamente? 
Ser que no foi s por uma noite, como muitos outros que passaram por minha vida? Foi para o trabalho. Estava ainda envolvida pelas lembranas da noite anterior. 
Por mais que tentasse, no conseguia esquecer aquele homem maravilhoso. Ele  to bonito, agradvel, me fez to feliz! Custo a acreditar que realmente tenha acontecido... 
Mas aconteceu... Perto das dez horas, um mensageiro chegou, trazendo um ramo de rosas vermelhas acompanhadas por um carto, que dizia: Rosas para a mulher mais perfeita 
que j conheci. Com amor, Ronaldo. Mrcia, depois que as recebeu, j com a porta da sala fechada, pegou as rosas, cheirou-as, leu o carto e comeou a danar e a 
pensar, feliz. Ele  realmente sensacional! Eu o amo!  noite, ele foi at sua casa, e novamente se amaram. Ela parecia estar delirando de tanta felicidade. Nos 
braos dele, com os olhos fechados, pensava: Finalmente encontrei o homem ideal, o amor de minha vida. Sinto que seremos felizes para sempre.

A AJUDA SEMPRE VEM

Clarice e Osvaldo, em seu quarto, mantinham uma distncia considervel para evitar tudo que conheciam e no queriam que se repetisse. Continuavam lendo para entender 
melhor aquela nova doutrina. Precisavam conhecer e acreditar. Todas as noites, aps colocar as crianas para dormir, sentavam-se na mesa da sala, discutiam partes 
que achavam interessantes de algum livro. No final, os dois juntos faziam uma orao e iam dormir. Nunca mais tentaram uma aproximao ntima; temiam que todo aquele 
horror ocorresse novamente. Amavam-se o suficiente para apenas estar juntos, fazendo companhia um ao outro. Quinta-feira era o dia da semana em que Clarice estava 
acostumada a almoar na casa de sua sogra. Como sempre fazia, pegou as crianas na escola e rumaram para l. Ao v-los chegar, dona Slvia os recebeu com sorrisos, 
abraos e beijos. Percebeu que Clarice, embora continuasse um pouco abatida, trazia nos olhos certa tranqilidade. Enquanto almoavam, perguntou:
- Minha filha, como esto s coisas com Osvaldo? Aquilo voltou a acontecer?
- Sim, mas com tudo que Marlene me ensinou e disse, consegui impedir que Osvaldo sasse de casa. Conversamos muito e agora, embora mantenhamos distncia, estamos 
conseguindo viver muito bem e temos estudado os livros que ela me emprestou.
Marlene, que tambm estava almoando, disse:
- Fico contente que tenha entendido e feito com que Osvaldo entendesse tambm. Acredito que esse  o princpio do fim de seus sofrimentos.
- Acredita mesmo?  
- Sim. J que esto fazendo leituras dirias, gostaria de participar de uma delas qualquer dia desses.
- Quando quiser, ser para ns um imenso prazer. Sabe o quanto Osvaldo a admira. Embora estejamos lendo e querendo realmente aprender, existem algumas dvidas que 
poder nos esclarecer.
- Posso tentar, mas, apesar de estar a tanto tempo lendo e estudando, s vezes ainda tenho muitas incertezas. O importante  sempre procurar as respostas quando 
houver dvidas, mas posso lhe garantir que, aps esclarecer uma, sempre surge outra. Assim  que vamos aprendendo cada vez mais. Mas responderei o que souber; se 
no souber, vamos procurar as respostas juntos.
- Sei que com sua ajuda aprenderemos muito. Vou falar com Osvaldo. Que tal marcarmos para quinta-feira  noite?  o dia em que trabalha aqui; assim, dona Slvia 
poder ir tambm.
- Puxa! Pensei que no iriam me convidar. Cheguei a pensar que no queriam minha presena.
Marlene e Clarice riram. Marlene disse:
- Como poderia ficar de fora num momento importante como esse na vida de seu filho? Sabe que o amor que sente por ele e toda a famlia  tambm uma arma importante.
- Se meu amor for uma arma, posso garantir que sou a mulher mais armada do mundo. Amo de corao a todos, so parte de minha vida.
Clarice aproximou-se e beijou aquela mulher que amava como se fosse sua me. Sabia de sua sinceridade ao dizer aquelas palavras.
- Dona Slvia, a cada momento sinto que venceremos toda maldade. Temos, sim, a maior arma do mundo.
Na quinta-feira seguinte, como o combinado, Osvaldo, ao sair do trabalho, passou na casa de sua me. Ela e Marlene estavam prontas, esperando-o. Ele as apanhou e 
rumaram para sua casa Clarice recebeu-as com um sorriso feliz e sincero. Amava aquelas duas mulheres e sabia que, se houvesse alguma salvao para sua famlia, viria 
de Deus, mas por meio delas. Ao entrar na sala, Marlene percebeu que em um canto da sala havia um vulto sentado, fumando um charuto e acompanhando todos os movimentos 
do casal. Ela simplesmente olhou, mas no disse nada. Clarice estava com a mesa posta para o jantar. Havia feito um prato especial para receber as queridas visitantes.
- Que bom que chegaram! Espero que gostem da comida que preparei. Aps o jantar vou limpar a mesa e prepar-la para nossas oraes. Est bem assim, Marlene?
Marlene, embora estivesse observando o vulto, agia normalmente, como se no estivesse acontecendo nada. Respondeu:
- Est timo. Agora no conversaremos sobre assuntos pesados. A hora das refeies deve ser sempre tranqila.
Marlene, enquanto falava, continuava acompanhando o vulto. Sentou-se em uma cadeira da qual podia observar todas as suas expresses. Durante o jantar, conversaram 
sobre muitas coisas. O assunto preferido foram s crianas e suas brincadeiras. Como no podia deixar de ser, riram muito. Jantaram em paz. Por mais que Marlene 
houvesse pedido, no adiantou: as dvidas de Clarice e Osvaldo em relao aos livros que estavam lendo eram muitas, e eles no viam a hora de t-las esclarecidas. 
Algumas coisas no estavam claras para eles. Marlene respondia a todas as perguntas, no desviando os olhos do vulto, que agora estava mais perto, esperando o momento 
para atac-los novamente. Clarice disse:
- S no entendo por que um esprito, ao invs de fazer o bem, prefere fazer o mal. Em tudo que tenho lido, h sempre um castigo para um mal praticado.
Marlene olhava para o vulto, e este, querendo saber qual seria a sua resposta, agora a fitava tambm, sem saber que estava sendo visto por ela. Ela se levantou e 
se dirigiu at onde ele estava. Ao chegar perto, virou-se para os demais, dizendo:  
 - Vamos fazer de conta que aqui h um esprito que tenha recebido certo pagamento de algum para fazer o mal que prometera e estaria aqui espreitando, esperando 
um descuido qualquer de cada uma de suas possveis vtimas. Ele faz isso porque algum disse que era o certo. Provavelmente, quando vivo, no teve instruo alguma 
sobre a vida depois da morte. Talvez no tenha cumprido bem suas obrigaes e por isso, ao acordar, se viu em um lugar muito feio. Quando percebeu que estava vivo, 
mesmo depois da morte, ficou perdido sem entender nada. Outros espritos mais espertos disseram a eles que eram os chefes por terem chegado antes e que se ele quisesse 
sair daquele lugar e continuar bebendo e fumando, como fazia antes, deveria fazer tudo o que eles mandassem. Ele, em sua ignorncia, acreditou, porque, a se ver 
naquele lugar ruim, pensou que estava perdido, que aquele era o nico caminho que tinha para seguir.
O vulto a seu lado, ao ouvi-la falando, perguntou:
- Existe outro caminho? Sei que sou um pecador sem perdo e tenho de passar toda a eternidade no inferno em que vivo! Jamais vou poder entrar no cu, por isso tenho 
de seguir nesse caminho, tentando encontrar, quem sabe, a escada de que j ouvi falar muitas vezes, mas nem eu nem aqueles que mandam em todos os outros sabemos 
onde est! Todos dizem que nunca ningum a encontrou.
Marlene ouviu aquele quase lamento, mas fez que no ouvisse e continuou:
- Todos ns, inclusive os espritos, deveramos saber que Deus  um Pai amoroso. Se nos manda algumas provas, se nos castiga de vez em quando,  porque, sabendo 
que estamos nos desviando do caminho, quer nosso desenvolvimento como esprito. Ningum, encarnado ou no, est condenado a uma vida eterna de sofrimento. Um dia 
a felicidade vai vir, atravs do caminho do bem, do amor e do perdo. Jesus, quando passou pela Terra, ensinou que cada um tem de fazer sua parte.  A gente precisa 
aprender qual  nossa parte. Para isso Ele coloca em nosso caminho outros espritos, encarnados ou no, para nos ensinar. Assim, por meio da dor ou da felicidade, 
sempre aprendemos mais. Por isso devemos agradecer por todas as oportunidades que nos so dadas.
Todos a ouviam atentamente, inclusive o vulto, que voltou a sentar-se no cho e, pensativo, fumava seu charuto e tomava um gole de cachaa. Marlene seguia seus movimentos 
e sorriu ao perceber que o havia atingido com suas palavras. Continuou:
- Muitas pessoas, quando voltam para o plano espiritual, pensam ainda estar vivas. Sentem necessidades bsicas do corpo, como fome e sede. Aqueles que, durante a 
vida, bebiam cachaa ou fumavam charuto, continuam sentindo essa necessidade, e para isso trabalham em troca dessas coisas. Com o tempo percebero que nada disso 
faz mais falta ao esprito, portanto no precisam fazer o mal ou o bem em troca de nada. Podem continuar s fazendo o bem e com certeza encontraro uma escada que 
os conduzir  luz e  felicidade.
O vulto olhou para ela, depois para o charuto e para a garrafa que tinha nas mos. Largou os dois e segurando e sacudindo Marlene, perguntou quase gritando:
- Voc sabe onde fica essa escada? Voc sabe? Precisa me mostrar onde est e como fao para encontrar. Precisa me ensinar...
Marlene, embora o visse sacudindo-a, no sentia nada. Acompanhava tudo que ele fazia. Intimamente agradecia a Deus, pois sentia que aquele esprito estava prestes 
a ser salvo. Continuou falando: 
- Quando retornamos a Terra para uma nova escola de aprendizado, deixamos no plano espiritual amigos que nos amam e que sofrem se no conseguirmos vencer os desafios. 
Muitos deles esperam com ansiedade nossa volta. Portanto, esprito algum precisa ficar perdido sem destino; ele sempre ter algum que ama e est esperando a sua 
volta. Basta desejar profundamente e pedir a Deus essa graa.
Clarice tentou se levantar para tirar a loua da mesa e arrum-la para a leitura do Evangelho, mas, a um sinal de Marlene, voltou a sentar. As crianas no gostavam 
quando eles comeavam a falar naquele assunto, por isso se levantaram e foram para a sala de televiso. Dona Slvia, mais acostumada com o modo como Marlene trabalhava, 
segurou a mo de Clarice e a de Osvaldo, e, fazendo um sinal, baixou a cabea e fechou os olhos. Eles entenderam e fizeram o mesmo. Os trs ficaram em profunda orao, 
sinceramente querendo ajudar quem estivesse ali. Marlene, ainda em p no canto e percebendo que o vulto estava examinando-a e entendendo o que ela falava, continuou:
- Todos somos filhos de Deus, portanto eternos como Ele. Todos temos um passado do qual, com um pequeno esforo e a ajuda de bons irmos espirituais, podemos nos 
lembrar. Por isso, meus irmos, j que estamos, neste momento, com muita f e caridade, vamos juntos, elevar nossos pensamentos at Deus, nosso Pai, para que possamos 
ser atendidos e socorridos por aqueles que amamos e por quem fomos amados um dia, e, com certeza, teremos essa graa.
Os trs, sentados e com as mos entrelaadas, seguiam atentamente o que ela falava. O vulto levantou-se, andou at a mesa e viu que eles estavam em profunda orao. 
Marlene continuava parada e seguindo todos os seus movimentos. Uma luz intensa desceu sobre a cabea dos trs. O vulto assustou-se e deu um passo para trs. Marlene, 
com os braos abertos e com as mos para o alto, por trs dele, continuava em orao. Ao ver a sala toda iluminada, ele, assustado, voltou a sentar-se em seu canto, 
continuando a ouvir Marlene, que no parava de falar nas pessoas que nos amavam e queriam nos ajudar. Ele, ouvindo aquilo, fechou os olhos por um segundo. Depois, 
de sua garganta partiu um grito desesperado:
- Teresa! Teresa! Estou lembrando. Teresa! Em seguida comeou a chorar, falando:
- Teresa, o que fiz de nossas vidas? Teresa, onde voc est? Onde esto nossos filhos?
Osvaldo, Clarice e dona Slvia no viam aquela cena, mas Marlene sim. Ela, profundamente emocionada, continuou falando:
- As pessoas que amamos esto sempre ao alcance de nosso pensamento. Para t-las ao nosso lado, s  necessrio pedirmos a Deus, nosso Pai, sua permisso. Ele  
infinito em sua bondade e perdo, precisamos apenas acreditar e pedir sinceramente.
O vulto comeou a chorar violentamente, com soluos que no conseguia controlar. Seu corao queria sinceramente ver a esposa, e agora sabia que poderia v-la, se 
Deus permitisse. O mesmo Deus que disseram t-lo condenado para sempre. Aquela mulher que ele no conhecia estava dizendo que tudo era mentira, que Deus existia, 
sim, que s precisava pedir com sinceridade. Ajoelhou-se, baixou a cabea e com a voz quase em lamento falou:
- Deus, meu Pai, no sei ainda qual o crime que cometi para estar aqui no inferno em que vivo at agora. S sei que tenho algum que muito amei, sei que ela me amou 
tambm. Senhor meu Deus, permita que eu a possa ver novamente e pedir seu perdo. S Seu amor infinito, como est dizendo essa mulher, vai poder me ajudar agora.
Marlene, chorando baixinho, tambm pedia. 
- Meu Pai, atenda, por favor, a esse irmo que est perdido. Assim como o pai recebeu de volta em sua casa o filho prdigo, recebe agora, este seu filho com festa 
e louvor.  uma ovelha desgarrada que volta. Tem piedade, meu Pai.
Como por encanto, luzes foram formando uma escada que descia do alto. O vulto, ao ver aquela escada to procurada, no se conteve: gritando e chorando, levantou-se 
e voltou a sacudir Marlene para que ela tambm visse. Gritava feliz:
- A escada! Ela existe. Ela existe! Voc estava dizendo a verdade! Ela existe. A escada existe!
Da escada uma forma comeou a descer. Toda branca, com um suave tom de lils em suas vestes, olhava para o vulto e sorria. Ele, ao ver aquele ser que se aproximava, 
voltou a se ajoelhar. Preso de muita emoo, quase no podia falar. De sua garganta, partiu um som baixo, que com muito custo Marlene conseguiu ouvir:
- Teresa!  voc mesma? Teresa  voc mesma? Est to bonita!  voc mesma? No estou sonhando? No estou sofrendo uma alucinao?
Ao chegar ao p da escada, o vulto iluminado abriu os braos e caminhou, sorrindo, at ele, que continuava ajoelhado. Pegou em suas mos e, enquanto o levantava, 
disse:
- Sou eu mesma, Clemente. Suas preces foram atendidas. Estou aqui para lev-lo a um mundo de amor, felicidade e muita luz. L encontrar outros amigos e a oportunidade 
de resgatar todos os seus erros. Deus  Pai justo e infalvel e nos ama a todos da mesma maneira, pecadores ou no.
Abraaram-se com muito amor. Sobre eles caram muitas luzes coloridas. Marlene ouviu uma suave msica cantada por vozes de crianas. Seu corao encheu-se de felicidade. 
Presa de muita emoo, sem perceber comeou a falar em voz alta:
- Obrigada, meu Deus, por este momento de deslumbramento. Sei que estou aqui na Terra resgatando faltas passadas, mas este momento compensa qualquer sofrimento. 
Obrigada, meu Pai, por receber este seu filho amado e desviado.
Marlene continuava vendo os dois se abraar. O vulto luminoso voltou-se para ela, dizendo:
- Obrigada, minha irm, por sua f e caridade. Este  meu marido de outras vidas. Ns nos desencontramos h muito tempo e hoje, com sua ajuda, voltamos a nos ver. 
Que Deus a abenoe, e muito.
Marlene sorriu humildemente. Estava muito emocionada, por isso no conseguia dizer uma palavra sequer. O vulto luminoso abraou o outro e falou:
- Voc veio a esta casa para fazer o mal, mas aqui recebeu o bem. No acha que deve algo a esses irmos?
Ele pensou, olhou para um lugar distante, e imediatamente em suas mos surgiram os bonecos que um dia havia amarrado. Chorando arrependido, ele os foi desamarrando. 
Logo depois de desamarrados, sumiram de suas mos em uma bola de luz. O vulto iluminado, sorrindo, acompanhou o outro, que muito feliz subia a escada que por tanto 
tempo havia procurado. Assim que sumiram, levaram com eles as luzes. Marlene sentou-se, falando:
- Est feito! Tudo est bem. Por meio do perdo, conseguiram combater e vencer o mal. Perderam um inimigo, salvaram um irmo e ganharam muitos amigos. Agora, vocs 
estaro livres para continuar suas jornadas.
Os trs abriram os olhos. Dona Slvia sorria enquanto os outros dois se olhavam sem nada entender. Clarice disse:
- O que est dizendo, Marlene? Estamos livres do mal? Tudo terminou? Mas como? A mesa no foi preparada, a loua est ainda sobre ela. Estvamos apenas conversando 
e ouvindo seus ensinamentos. No abrimos os trabalhos. No fizemos orao. No lemos o Evangelho nem o comentamos, como sempre.
Marlene, tomando um pouco de gua que estava em cima da mesa, falou:
- Todo esse ritual  importante e deve ser feito sempre que possvel, mas a falta dele no faz com que os objetivos no sejam alcanados. Deus no entra em nossas 
casas por elas estarem arrumadas ou no, por serem ricas ou pobres. O que interessa a Ele so nossos coraes, a f que sentimos Nele e em seu julgamento. Por isso 
nossos coraes  que devem estar sempre limpos do dio, da mgoa e cheios de muita f. S assim Deus poder entrar neles a qualquer momento.
Dona Slvia, sorrindo com o espanto do filho, falou:
- Marlene  vidente e assim que aqui chegou deve ter visto algo. Enquanto falava conosco, dando respostas e nos esclarecendo, na verdade estava falando com um outro 
esprito que ns no vamos. Marlene, no foi isso que aconteceu?
- Foi isso mesmo, mas agora estou com muita vontade de tomar um caf. Posso ir at a cozinha preparar?
Clarice levantou-se e a acompanhou. Gostava de seu prprio caf, mas sempre achou o de Marlene melhor. Osvaldo e a me permaneceram na sala, conversando.
- Mame, a senhora acredita mesmo que todo o mal foi embora? Acredita que estamos livres de tudo aquilo?
- Acredito meu filho. Conheo Marlene h muito tempo, j vi coisas que ela fez que voc no acreditasse. Por isso pode estar certo de que tudo agora est bem.
- Mame, se isso for verdade, essa mulher  uma santa. Por que tem uma vida to miservel e com tanto sofrimento? Por que ela no usa esses poderes para ganhar dinheiro?
- J perguntei isso a ela algumas vezes, e ela sempre responde que est aqui resgatando dvidas imensas contradas no passado e que no possui poder algum, apenas 
uma f muito grande no amor de Deus.
- Se for verdade mesmo, se eu e Clarice ficarmos livres daquele tormento, no existe dinheiro que pague; darei a ela o que for preciso.
- Meu filho querido, se quiser perder uma amiga e ouvir um palavro muito grande, fale com ela que quer pagar.
- Ela fala palavres?  
 Dona Silvia soltou uma gargalhada.
- Fala muitos! Ela mesma diz no ser santa.
Clarice e Marlene voltaram da cozinha, Clarice estava com uma bandeja na mo. Sentaram-se e tomaram o caf. Osvaldo, disse:
- Marlene, tem certeza que tudo terminou? Pode nos dizer como aconteceu?
- Podem ficar tranqilos: tudo est terminado. Mas, neste momento, no quero falar a esse respeito. Talvez em outra hora eu conte toda a maravilha que presenciei 
aqui. Por enquanto, vamos, somente, agradecer as graas recebidas nesta noite.
Ela no quis comentar o que havia presenciado porque sabia que a viagem que os espritos estavam fazendo agora seria longa. Eles precisavam s de pensamentos de 
amor. Pouco depois, Marlene se despediu de Clarice.
- Preciso ir para minha casa. Fique tranqila, que agora est tudo bem, mas lembre-se de que o amor de Deus  infinito e Ele nunca abandona Seus filhos, pecadores 
ou no. Continue amando seu marido e seus filhos e nada de mal pode atingir vocs.
- Obrigada por tudo, obrigada por seus ensinamentos. No sei como poderei pagar por tudo que fez.
- No tem de agradecer e muito menos pagar. Foi Deus quem fez tudo. Vocs so Seus filhos e tm muito amor no corao. Boa-noite.
Osvaldo acompanhou Silvia e Marlene at suas casas. Deixou primeiro sua me e, depois, seguiu com Marlene. Enquanto dirigia, disse:
- Marlene, preciso te agradecer por tudo o que fez em nossas vidas.
- No tem de agradecer, no fiz nada. Tudo que conseguiram foi por que mereciam. Deus nunca permite que uma injustia seja feita. O mal s e permitido quando a pessoa 
que o faz encontra outra que, se tivesse oportunidade, faria o mesmo.  
 - No estou entendendo...
- Vou dar um exemplo bem fcil. Uma vela acesa com m inteno s encontrar lugar no corao da pessoa que tambm acende velas com ms intenes. Se o corao for 
livre de maldade, nada o atingir.
- Mas a maldade nos atingiu. Sofremos por causa dela, muitos dias!
- Voc estava desviado de seus deveres de esposo e pai. Dividido, sem saber o que fazer com a sua vida, no estava dando o valor devido a tudo que havia conseguido. 
Foi preciso tudo isso acontecer para que desse valor a sua esposa e filhos e escolhesse um caminho. Graas a Deus, voc escolheu o caminho certo.
Osvaldo ficou calado, pensando. A imagem de Mrcia surgiu em seu pensamento.
- Marlene, vou confessar um segredo: sei quem fez essa maldade. O que faremos com ela?
- Vamos, em nossas oraes, agradecer a Deus a graa recebida, e pedir-lhe que a ilumine e a tire do caminho da perdio. Com seu ato, embora tenha sido cheio de 
m inteno, ela fez com que o amor entre voc e Clarice ficasse mais forte, fez com que vocs procurassem entender mais sobre a vida daqui e aps a morte. Deu a 
oportunidade para que um esprito que estava desgarrado, perdido e sofrendo muito se aproximasse de ns e encontrasse o caminho de volta para o Pai. No final, aquilo 
que teria sido para o mal se transformou em um bem para muitos. Devemos pedir muito por ela e aprendermos que nada neste mundo acontece sem a permisso e a vontade 
de Deus.
Osvaldo ficou calado. Os argumentos de Marlene eram irrefutveis. Hoje se sentia um homem realizado ao lado da esposa e dos filhos. S podia agradecer mesmo. Ao 
chegar  casa de Marlene, pensou: Este lugar  to pobre! Como ela pode ser uma pessoa to tranqila e sem revolta? Como pode s pensar no bem? Como, em sua pobreza, 
pode ainda encontrar meios para ser feliz? Estacionou o carro e, antes que ela descesse, beijou-a na testa, num profundo reconhecimento por tudo o que ela havia 
feito por ele e por sua famlia. Ela apenas sorriu. Enquanto descia do carro, falou:
- Juzo, menino. Deus lhe deu mais uma oportunidade. No a deixe escapar.
Ele sorriu, ligou o carro e partiu em direo  sua casa. Estava leve, feliz e tranqilo.
Em casa, Clarice o esperava. Sentia vontade de ficar abraada ao marido, sentir sua presena fiel e verdadeira. Quando ele retornou, as crianas j estavam dormindo. 
Ela o esperava na cama, lendo. Ele se aproximou, beijou-a com suavidade e muito carinho, como se fosse  primeira vez. Em poucos minutos estavam se amando, sem problema 
algum, com muito amor e felicidade. 

A FESTA

Fazia j quase trs meses que Mrcia estava namorando Ronaldo. Todos os dias recebia maos de rosas, sempre acompanhadas de um carto com frases apaixonadas. Ronaldo 
continuava sendo maravilhoso, como no primeiro encontro. Todas as noites ele ia at sua casa. Depois de se amarem e conversarem um pouco, ele ia embora, cheio de 
amor e paixo. Nos fins de semana, iam ao parque, e ela agora j estava at correndo um pouco a seu lado. Quando se cansava, ficava olhando-o correr, acenando com 
a mo ou jogando beijos quando passava por ela, que no cabia em si de tanta felicidade. Mrcia esqueceu completamente Osvaldo e mais ainda ter um dia mandado fazer 
aquele trabalho. Nos primeiros dias, percebeu que ele nunca mais a procurou. Deduziu que tudo no passara de uma explorao e pensava: Aquela mulher me enganou: 
pegou meu dinheiro e no fez nada. Mas no tem importncia, foi at bom. Imagine se hoje eu tivesse Osvaldo atrs de mim? O que faria com Ronaldo? Como sempre ocorre 
em minha vida, tudo acabou dando certo. Faltava uma semana para os trs meses combinados. Em uma sexta-feira, Ronaldo quis ir a um restaurante.
- Vai fazer trs meses que estamos juntos. Quero comemorar com muito requinte. Vamos jantar em um restaurante. O lugar ser uma surpresa, tenho certeza de que vai 
adorar.  muito bem freqentado, por isso quero que v muito bonita. Sabe do imenso orgulho que tenho de seu porte e beleza. O que acha de minha idia?
Mrcia ouvia tudo com o corao disparando de tanta felicidade. 
- Pode ficar tranqilo: vou usar uma roupa especial. Estarei muito bonita. Sabe que tambm gosto de desfilar com um homem elegante e bonito como voc.
Ela se preparou com todo o requinte. Na hora marcada, ele chegou tambm muito bem vestido. Ao v-la, falou:  
 - Voc est deslumbrante. Eu te amo cada vez mais. Beijaram-se e saram. Foram a um restaurante de luxo, onde ela nunca havia ido. Todas as mesas estavam tomadas, 
com classe e requinte nunca vistos por ela. No centro havia uma pista de dana e um pequeno palco, onde violinos tocavam msicas suaves. Aps terminarem o jantar, 
uma doce melodia comeou a ser tocada. Ronaldo levantou-se e convidou-a para danar. Ela o acompanhou deslumbrada com tudo o que estava acontecendo. Comearam a 
danar. Enquanto tocava, o maestro, ao microfone, anunciou o nome de Ronaldo, pedindo-lhe que fosse at o palco acompanhado por sua noiva. Pararam de danar. Mrcia 
estranhou, no sabia que ele era reconhecido naquele lugar. Ronaldo pegou sua mo e a conduziu at o palco. Todos os freqentadores os acompanhavam com os olhos. 
Assim que chegaram ao palco, uma nova msica comeou a tocar, exatamente a que Mrcia mais gostava. Do alto do palco e sobre suas cabeas, ptalas de rosas comearam 
a cair. Ronaldo, emocionado, tirou do bolso uma caixinha que continha um lindo anel de brilhante e, enquanto o colocava no dedo dela, falava:
- Quero agradecer a presena de todos os meus familiares e amigos que aceitaram meu convite e gostaria de apresentar minha adorvel noiva. Quero tambm comunicar 
que dentro de um ms realizaremos nosso casamento. Todos se levantaram e comearam a aplaudir. Mrcia, deslumbrada com aquela surpresa, comeou a tremer, sem ter 
palavras para exprimir seus sentimentos. Ronaldo colocou a mo em sua cintura e a conduziu at o centro da pista, onde recomearam a danar. Ela se deixava levar 
em seus braos ao ritmo daquela msica. Sua cabea rodava entre lgrimas e sorrisos. Beijou e foi beijada ardentemente por Ronaldo, que feliz disse:  
 - Isto no  nada em comparao a tudo que lhe darei durante toda a vida que passaremos juntos.
- Meu amor, voc no existe! Eu te amo muito, muito, muito!
Os convidados, aps o trmino daquela primeira msica, aproximaram-se, cumprimentaram o casal e comearam a danar. Foi uma noite inesquecvel para todos que ali 
compareceram. Mrcia foi apresentada aos pais de Ronaldo, depois aos irmos e sobrinhos, e no final a toda a famlia. Ela, gentil, sorria para todos. Quem visse 
aquele rosto angelical jamais poderia imaginar toda a maldade que era capaz de fazer. No final da festa, antes que os convidados fossem embora, Ronaldo e Mrcia 
saram escondidos. As despedidas seriam demoradas e eles no queriam esperar mais para se amar. Ele a levou a um hotel onde uma sute os esperava. Vendo tudo aquilo, 
ela disse:
- Hoje est parecendo nossa noite de lua-de-mel. Depois de tudo isso, no posso imaginar o que far quando ela chegar realmente.
- Isso voc vai conferir em Paris.
- Paris? Est dizendo que vamos passar nossa lua-de-mel em Paris?
- E em toda a Europa. Teremos dois meses s para nos amarmos e conhecermos lugares. O que acha? S no iremos se voc no quiser.
- Claro que quero! Sempre quis conhecer Paris, mas, embora tivesse dinheiro, faltava-me tempo e companhia. Sempre foi o sonho de minha vida!
- Ento esse sonho ser realizado. Gostou da surpresa que te preparei no restaurante?
- Adorei. Nunca poderia imaginar que algum dia eu fosse  protagonista de um conto de fadas.  
- Como quis te fazer uma surpresa, no convidei ningum de sua famlia. Nunca comentou nada sobre eles, por isso no sei onde esto e no quis te perguntar, mas 
para nosso casamento fao questo de que todos compaream.
Uma nuvem passou pelo rosto dela ao lembrar-se da famlia. Fez fora para que uma lgrima casse de seus olhos. Vagarosamente e baixinho, falou:
- No tenho ningum. Meus pais morreram em um acidente quando eu tinha apenas seis meses. Fui criada por minha av, que me deu tudo, e j faz dez anos que morreu. 
Sou sozinha no mundo.
Ao ouvi-la dizer aquelas palavras, um vulto iluminado que estivera a seu lado durante toda a noite balanou a cabea e, demonstrando tristeza, disse:
- No, meu amor, no faa isso. Diga a verdade...
Ela parou de falar, parecendo ouvir algo. Imediatamente, lembrou-se de Lenita e de sua me. No, no posso dizer a ele que minha famlia  pobre e vive naquele lugar 
miservel. Ele no entenderia. Ronaldo, muito triste, abraou-a e disse:
- Sinto muito. Deve ser muito triste no ter ningum. Minha famlia  muito unida e agradeo todos os dias por ter todos ao meu lado. Mas agora voc no ficar mais 
sozinha. De agora em diante, todos ns seremos sua famlia. Poder nos amar e ser amada.
Ela, abraando-o, falou:
- No se preocupe: j me acostumei. Mas sei que de agora em diante nunca mais ficarei sozinha. Hoje tenho voc, que  maravilhoso e  tudo para mim. Farei com que 
sua famlia me aceite. E daqui a algum tempo teremos nossos filhos.
A nuvem agora passou pelo rosto dele. Afastou-se dela, colocou as mos em seus ombros e perguntou desesperado:
- Voc est esperando uma criana?
Ela se assustou com sua atitude. Nunca o vira daquela maneira.
- No. Mas pretendo, um dia, ter vrios filhos.
Como se um peso fosse tirado de sua cabea, ele a abraou novamente. 
- Ainda bem. Eu morreria se soubesse que voc est esperando um filho. Isso nunca ir acontecer.
- No estou entendendo... Como, nunca vai acontecer? Igual a toda mulher, quero ter meus filhos.
- Poder adotar quantos quiser. Darei a eles todo o amor deste mundo, mas nunca vou querer ver voc esperando um filho. Tenho medo de te perder.
S naquele momento ela se lembrou do trgico fim da primeira esposa de Ronaldo. Falou baixinho em seu ouvido:
-  isso, meu amor? Acredita que possa acontecer novamente? No se preocupe: no vai acontecer. Nosso amor  perfeito demais para que algo de mal possa acontecer. 
Nunca ouviu aquele ditado: Um raio no cai duas vezes no mesmo lugar? Esquea tudo isso, vamos viver nossa noite de amor. Teremos muito tempo para pensar em filhos.
Ele foi at o bar, onde havia uma garrafa de champanhe, encheu duas taas e ofereceu uma a ela, fazendo um brinde:
- Que nosso amor seja feliz e eterno.
Tomaram a champanhe. Ele colocou uma msica para tocar e comearam a danar. Embalados pela champanhe e pela msica, em poucos minutos estavam deitados sobre a cama, 
acariciando-se. Em dado momento, ela segurou sua cabea, colocou seus olhos bem perto dos dele e falou:
- Eu o amo... Eu te amo muito...
Assim que abriu a boca para falar, um terrvel mau cheiro saiu por ela ao mesmo tempo em que Ronaldo sentia uma dor profunda. Ele, desesperado, afastou-se dela e 
levantou-se. O mau cheiro era to forte que Ronaldo saiu correndo para o banheiro, fechou a porta e comeou a vomitar. Ela, desesperada, correu atrs dele e comeou 
a chorar e gritar:
- Meu amor, o que est acontecendo? Que cheiro  esse? Ele cheirava seu corpo para ver se havia algum lugar em que o cheiro no estivesse.
- No sei. Saiu de sua boca! Voc deve estar doente!
- Por favor, abra a porta! Precisamos conversar. Precisamos entender o que est acontecendo!  
 - J vou sair... Espere um pouco...
Ela voltou para a cama. Ficou sentada olhando para a porta do banheiro. Depois de quinze minutos, a porta se abriu. Ele estava abatido, com o rosto de quem estava 
nitidamente passando muito mal. Assim que o viu ela disse:
- Est vendo? O cheiro foi embora...
Bastou ela abrir a boca para o mau cheiro voltar e envolver todo o ambiente. Ele se vestiu rapidamente e comeou a sair, quando ela, desesperada e chorando muito, 
o segurou pelas pernas.
- No v embora! No me deixe! Eu te amo. Voc me ama! 
Ele tentou ficar, mas, a cada palavra que ela falava, parecia que o mau cheiro aumentava. Ele saiu quase correndo, batendo a porta violentamente e dizendo:
- Preciso respirar um pouco de ar puro. Se ficar aqui, acho que vou morrer.
Ela se viu sozinha no quarto. Chorava sem parar. Vultos negros, gargalhando, rodopiavam em volta do quarto todo e sobre ela. Ela continuava chorando, procurando 
entender o que havia acontecido dos vultos, que agora eram muitos, passou perto de seu nariz a figura de dois bonecos amarrados um ao outro. Como por encanto, no 
mesmo instante, ela se lembrou de dona Durvalina e do trabalho que havia encomendado. Preocupada, pensou: No pode ser. O trabalho no deu certo. Osvaldo nunca mais 
me procurou. Olhou para o relgio que estava sobre o criado-mudo. Duas horas da manh. No vou encontrar aquele lugar durante a noite, mas amanh, assim que clarear 
vou at l. Ela vai ter de me explicar o que est acontecendo. Logo hoje? Estava tudo to perfeito. Eu amo Ronaldo! No posso perd-lo. Pagarei o que for preciso 
para que esse feitio saia de minha vida! Lembrou que no estava em seu apartamento. Ligou para a recepo e pediu um txi. O recepcionista no entendeu o que havia 
acontecido. Ronaldo havia pedido o que de mais luxuoso existia no hotel. Quando o viu sair correndo, quase alucinado, ainda vestindo o palet, ficou apenas olhando 
e querendo entender, pensou:  Agora ela pediu um txi... Que ser que aconteceu? Infelizmente acho que no vou saber. Preciso mesmo  chamar o txi. O mau cheiro 
do quarto desapareceu. Enquanto esperava o txi, Mrcia ia se lembrando de suas idas e vindas  casa de dona Durvalina. Lembrou-se do encontro que teve com sua me 
e com Lenita. Lembrou-se de Farias e da maldade que havia feito com ele. Enquanto ela relembrava o passado, os vultos negros ficavam  sua volta, rindo e rodopiando 
em uma dana infernal. O txi chegou, ela desceu do quarto e, sem olhar para o recepcionista, foi embora. Chorou durante todo o caminho. O motorista tentou iniciar 
uma conversa, mas logo percebeu ser intil. Ela estava com o pensamento distante e deixou claro que no queria conversar. Entrou em casa. Olhou todo aquele luxo 
 sua frente, que agora no tinha o menor valor. A nica coisa que queria era ter Ronaldo de volta. Quando, finalmente, encontrei o amor de minha vida, ele simplesmente 
escapou por entre meus dedos. No posso mais viver sem ele. Eu o amo... Voltou a chorar. Foi para seu quarto, voltou para a sala, entrou pelos demais quartos, foi 
para o banheiro. No havia lugar em que se sentisse bem. Sofria muito. Tentou ligar para Ronaldo. Precisava falar com ele, nem que fosse  distncia, mas o telefone 
tocou vrias vezes e ele no atendeu. Via em sua frente o rosto de nojo com que ele a olhara. No conseguia dormir. Era sbado, mas dona Durvalina a atenderia de 
qualquer maneira. Sabia que bastava oferecer o dobro do preo cobrado. No queria nada, s queria que o feitio fosse quebrado.Se dona Durvalina fez, ela ter de 
desmanchar. Finalmente, adormeceu no sof em que estava sentada, de frente para a porta de vidro que dava para a piscina. Acordava, olhava para o cu, voltava a 
dormir. Assim ficou durante toda a noite. Dormindo e acordando, esperando o amanhecer. Acordou com a claridade do sol batendo em seu rosto. Abriu os olhos, lembrou-se 
de tudo o que havia acontecido. Parecia que o dia seria bonito. Ronaldo, como todos os sbados em que no tinha uma viagem programada, iria at o parque correr. 
Ela resolveu: Vou at l. Talvez o encontre e poderemos conversar. No posso lhe contar o que fiz, mas, como sempre, arrumarei um modo de lev-lo a pensar sobre 
o assunto, a esperar at que eu encontre uma soluo. S de pensar que poderia perd-lo, sentiu um aperto no corao. Sabia que, se o perdesse, seria a mulher mais 
infeliz do mundo. Comeou a chorar novamente. Foi ao banheiro, tomou um banho, cheirou seu corpo, e nada: no havia cheiro algum.
- Decididamente, foi feitio mesmo.
Vestiu-se e foi para o parque. Ainda era cedo. Ronaldo costumava chegar mais tarde. Enquanto esperava, ficou observando as crianas brincando e as pessoas andando. 
Lembrou-se de seus planos de ter muitos filhos. Lembrou-se da festa maravilhosa que teve, da viagem programada para Paris e toda a Europa, seu maior sonho. Comeou 
a andar em volta do lago, pensando: Este lago  to bonito... O lugar ideal para morrer... Se no conseguir trazer Ronaldo de volta, se no conseguir viver do lado 
dele pelo resto de minha vida, esse ser meu destino... Virei aqui  noite, quando no houver ningum, e simplesmente mergulharei. Sem ele, no quero mais viver. 
O suicdio ser o nico caminho que terei para seguir. A seu lado, caminhando junto e soprando esses pensamentos para ela, iam vrios vultos negros. Ela esperou 
quase at o meio-dia. Ronaldo no apareceu. Ligou para sua casa. A empregada informou que ele havia viajado e no disse para onde. Seus olhos se encheram de lgrimas. 
Definitivamente, eu o perdi para sempre. Como vou viver sem ele? Minha nica esperana  dona Durvalina, s ela poder me ajudar... Voltou para seu carro e seguiu 
em direo  casa de dona Durvalina. Passou pela casa em que sua me morava com Lenita. Pensou nas duas, mas sua urgncia no momento era trazer Ronaldo de volta. 
Bateu palmas, e a mesma senhora do quarto da frente atendeu:
- Pois no. Ah,  a senhora? Pode entrar.
Mrcia entrou e bateu  porta do quarto. Dona Durvalina abriu e perguntou:
- A moa, aqui? Depois de tanto tempo. No pensei que um dia ia voltar. O trabalho deu certo? Est feliz?
Mrcia, furiosa, respondeu:
- O trabalho no deu certo! Vim aqui para que o desmanche. Pagarei em dobro sua consulta, mas preciso falar com a senhora hoje, sem falta!
A mulher, calmamente, respondeu:
- No precisa ficar nervosa. Vou atender  senhora. Pode me esperar l no fundo, a porta est aberta.
Mrcia, agora, j conhecia o caminho e dirigiu-se para l. Empurrou a porta e viu novamente o altar cheio de santos, flores e velas. Uma imagem de Jesus com os braos 
estendidos parecia sorrir para ela. Seus olhos, embora de vidro, pareciam ter vida. Ela ficou olhando-o e pensando: Nunca em minha vida parei para saber mais sobre 
sua histria. Nunca tive tempo para isso. Aproximou-se e viu-o de mais perto. Em sua alucinao, pareceu que ele sorria. Devo estar louca.  apenas uma imagem, nada 
mais. Estava ainda diante dele quando dona Durvalina chegou e perguntou:
- Est falando com Ele? s vezes,  a melhor coisa que tem para se fazer.  o melhor caminho a seguir.
Mrcia se voltou violentamente ao ouvir a voz da mulher e respondeu muito nervosa:
- No vim aqui para falar com uma imagem de gesso! Vim aqui para falar com a senhora, que  de carne e osso!
- A moa parece que no entendeu. Nunca falou ou tratou alguma coisa comigo. Sempre falou com um esprito.  
 - Com a senhora ou com o esprito, no importa! Preciso que desmanche o que fez!
- A moa vai esperar um pouco. Daqui a pouco vai falar com quem de direito.
Disse isso e novamente puxou a cortina negra. Colocou no cho uma garrafa de cachaa e alguns charutos. Fez um tipo de orao. Seu corpo comeou a tremer e, em seguida, 
ela soltou uma gargalhada. Sentou-se no cho e olhou para Mrcia, perguntando:
- Que a moa veio procurar aqui?
Mrcia percebeu que a mulher falava diferentemente da ltima vez em que l esteve. Parecia estar conversando com outro esprito.
- Vim aqui pedir para desmanchar o trabalho que fez.
- No fiz trabalho algum pra moa.
- Como no? Paguei tudo o que foi pedido! O trabalho, alm de no ter dado resultado, ainda se voltou contra mim! Quero que seja desmanchado. Pagarei o que for preciso!
- Espere um pouco, moa. No fiz trabalho algum pra moa.
- Como no? Disse que ia amarrar uns bonecos, deu o preo e eu paguei!
- A moa nunca falou comigo, no. A moa falou com o outro, que se debandou pr outro lado, o que deixou o chefe muito bravo. Estou aqui no lugar dele. S isso.
- No estou entendendo. Est agora querendo se fazer passar por outra pessoa s para no devolver o dinheiro ou desmanchar o trabalho?
- A moa est entendendo muito bem. A moa veio aqui, pediu um trabalho, e a moa pagou. O trabalho foi feito...
- At pode ser, mas s deu resultado por uma noite. No sei se ainda est acontecendo com a outra pessoa aquilo que me foi prometido. S sei que agora est acontecendo 
comigo. Eu no quero! Eu no quero!
Mrcia gritava e chorava tudo ao mesmo tempo. Seu corpo tremia ao lembrar-se da cena ao lado de Ronaldo, do mau cheiro e do rosto dele quando se afastou dela. Continuou:
- Isso no  justo. O homem que mais amo fugiu de mim, de meu amor. No importa quem tenha feito. Quero que desmanchem...
- Moa, esse negcio de justia  muito complicado. Tem sempre dois lados. No foi avisada que tinha um preo? No foi perguntado se a moa estava disposta a pagar?
- Foi. Eu disse que queria e que estava disposta a pagar. Mas agora no quero mais. Quero que seja desmanchado. Pagarei o dobro; se for preciso, at mais. Pagarei 
tudo o que for preciso. S quero ficar livre dessa maldio.
- No foi dito que cinqenta por cento ia voltar pra moa? Ou mesmo at cem por cento?
Mrcia parou, olhando para aquele homem com quem agora ela tinha certeza que estava conversando. O rosto da mulher estava vincado, parecia mais forte e msculo. 
Na vez anterior, a mulher bebia e fumava charuto sem parar. Hoje ela no estava bebendo e fumava um cachimbo. A garrafa de cachaa e os charutos estavam l, mas 
ela no tocou neles.
- Cinqenta por cento? Cem por cento? Do qu? O trabalho no deu certo. Osvaldo procurou-me s uma vez. Depois, nunca mais. Se no me procurou mais,  porque deve 
estar muito feliz. Se no deu certo, por que terei de pagar?
- O trabalho pode no ter dado certo, mas foi feito. No foi dito pra moa que, mesmo que no desse certo, ia ser cobrado? Que o que valia era a inteno? A moa 
teve inteno, no teve? A moa quis afastar aquele homem da mulher, no quis?
Mrcia ficou relembrando o primeiro dia em que ali estivera e em tudo que lhe fora dito.
- Naquele dia eu tive inteno porque estava com muita raiva, com muito dio, mas hoje no. S quero ser feliz. Quero que seja desmanchado para que eu possa ter 
minha vida de volta, ter o homem que tanto amo novamente me amando. Quero ser feliz.
- No foi dito pra moa que depois de feito, ia ser muito difcil desmanchar o trabalho?
- Foi. Mas foi dito difcil, e no impossvel. Deve haver um meio. Preciso saber qual . Tem de me dizer. Pago o que for preciso. Dinheiro no  importante. Quero 
minha vida de volta. Quero ser feliz!
- No d, no, moa. Eu no posso fazer nada. No fui eu quem fez o trabalho.
- Como no pode fazer nada? Como no foi voc quem fez o trabalho?  muito fcil dizer isso. Recebeu o dinheiro, conforme combinado. Paguei minha parte do modo que 
pediu. Agora, simplesmente, me diz que no pode fazer nada? No vou aceitar isso. No posso aceitar. Se aceitar, sei que nunca mais terei meu amor de volta. Preciso 
dele. Nunca conheci a felicidade e, agora que a consegui, no posso simplesmente perd-la!
- A moa no tem de aceitar nada. A moa  livre pra procurar uma sada. Eu no sei como fazer. A moa foi avisada de que o que ela estava fazendo podia voltar pra 
ela mesma, no foi? No posso fazer nada...
- Por sua culpa estou perdendo, se j no perdi o nico homem que amei na vida! O homem que poderia me dar a felicidade maior deste mundo!
- Por minha culpa? Acredita mesmo que foi por minha culpa? A moa veio aqui querendo um homem. No se preocupou com o que ele queria. Agora quer um outro. A moa 
no sabe o que quer?
Mrcia agora estava furiosa.
- Como no sei o que quero? Consegui tudo na vida exatamente porque sempre soube o que queria! Se voc fez, outro vai desmanchar e eu vou encontrar! Exatamente porque 
sei o que quero. Quero aquele homem de volta. Ele voltar, nem que para isso eu tenha de gastar at meu ltimo centavo!
- A moa  quem sabe. Eu no posso fazer nada. S posso dizer uma coisa pra moa: no gaste seu dinheiro  toa. No  com dinheiro que vai conseguir desmanchar o 
que mandou fazer. No  no...
- Se no for com dinheiro, ser com o qu? Pode me explicar?
- No posso, no. A moa mesma  que vai ter de descobrir.
- Seja o que for, descobrirei. Pode estar certo.
Mrcia levantou-se e, sem se despedir, saiu. Estava com muita raiva, muito nervosa e com muito dio. Antes de entrar no carro, olhou para a casa que sabia ser de 
sua me e de Lenita. Pensou em ir at l. Elas esto a. Poderia lev-las para viver em minha companhia. Quem sabe, fazendo uma boa ao, possa reverter o trabalho? 
No. No e no! Como posso me dedicar a elas? Estou com muitos problemas! Preciso encontrar uma forma de reverter tudo isso. Em algum lugar deve haver resposta. 
Vou encontrar esse lugar, nem que tenha de revirar o mundo. Elas que fiquem por a! Viveram at hoje muito bem, podero continuar vivendo. No quero me envolver 
em suas vidas. Elas s me dariam mais problemas. Acelerou o carro e saiu em disparada, sem olhar novamente para a casa, chegando at a virar o rosto para o outro 
lado. S me faltava agora encontrar aquela mulher, que se diz minha me, com suas lgrimas. No quero v-la nunca mais. Preciso encontrar um meio de me livrar dessa 
maldio. No posso perder Ronaldo. Eu o amo. Ele tambm me ama. Vou encontrar algum que possa me ajudar... Antes de ir para casa, passou mais uma vez pelo parque, 
na esperana de ver Ronaldo correndo. Mas foi intil: ele no estava ali. Sentada no banco, ficou relembrando os dias felizes que viveu com ele. Chorava como criana. 
Chorou muito e, de repente, parou. No posso ficar chorando. No sou mulher de chorar. Tenho de fazer algo. Deve existir algum que possa me ajudar. Triste, voltou 
para casa. No dia seguinte, pegou o jornal e comeou a folhe-lo, na inteno de se distrair. Aps ler alguns artigos financeiros e polticos, chegou aos classificados. 
Sem interesse, comeou a l-los. Notou que havia vrios anncios de videntes e pessoas que faziam consultas espirituais e desmanchavam trabalhos. Selecionou alguns 
nmeros de telefone e comeou a ligar. Marcou consultas noturnas, uma para cada dia da semana, com pessoas diferentes. Uma delas vai me ajudar.  impossvel que 
no exista neste mundo algum que consiga desmanchar o mal que aquela mulher fez. Ficou andando pelo apartamento. Cada pedao a fazia lembrar-se de Ronaldo. Ela 
o amava desesperadamente, no podia perd-lo. Isso no! Vou encontrar uma maneira. Sem que ela soubesse,  sua volta, rodopiando, feliz, estava Farias sempre acompanhado 
por Gervsio. Farias chegou junto a ela, falando em seu ouvido:
- No est com vontade de beber? Um vinho agora seria muito bom... V at o bar, vai ver como vai se sentir melhor... Pegue um copo e beba... Eu lhe farei companhia...
Como se estivesse hipnotizada, ela se dirigiu ao bar, pegou um copo, encheu-o de vinho e comeou a beber. Farias, sentado a seu lado, aspirava ao lcool com ela. 
Mrcia bebeu um copo aps o outro. Completamente embriagada, dormiu no sof da sala, sem foras para ir at seu quarto. Durante a noite, teve horrveis pesadelos. 
Farias, a seu lado, falava coisas que faziam com que acordasse e dormisse logo em seguida. Farias apertava sua cabea, causando dores violentas. Ela acordava, mas 
o efeito do lcool era mais forte, e voltava a dormir. Quase pela manh, viu em seu sonho o corpo dele entre as ferragens, com sangue por todo lado, apontando-lhe 
o dedo e dizendo:
- Voc me matou! Voc me matou! Assassina! Assassina!
Ela deu um pulo e acordou, ainda vendo-o e ouvindo sua voz. Olhou em volta e percebeu que estava em seu apartamento. Ainda bem que foi um sonho. Por que ele disse 
que eu o matei? A morte dele foi um acidente. Por que no estou em meu quarto? Ai, que dor de cabea! Por que tive de beber tanto? Levantou-se, mas ainda sentia 
uma pequena tontura. No dia anterior, no comera nada, apenas bebera. Estou fraca, preciso me alimentar. Que dia  hoje? Nossa!  dia de trabalho! Deitou-se novamente 
na cama. Seu corpo estava pesado. Farias subiu em seus ombros, dando a ela a impresso de estar com um peso enorme nas costas. Ele ria, enquanto pulava e falava: 
 - Voc no presta. Quis subir a qualquer preo. Agora, perdeu o que mais queria e vai perder todo o resto. Vou me vingar. Foi sempre to egosta que no tem um 
amigo sequer para te ajudar. Voc no presta!
Ela absorvia, sem saber, tudo o que ele dizia. Sentia uma Profunda solido. Lembrava-se de tudo o que havia feito contra muitas pessoas. Via Lenita, plida, desmaiada 
em seus braos, e sua me, sorrindo e chorando, quando a encontrou. Em seguida, a figura de Farias preso nas ferragens. Sua cabea rodava, mas ela precisava se levantar 
e ir trabalhar.Preciso me levantar... Tenho compromissos importantes marcados na empresa... Nunca deixei de cumprir compromisso algum. Tentou levantar-se novamente. 
Vou tomar um banho e ficarei melhor. No posso ficar deitada, preciso ir para a empresa. Levantou-se. Voltou a se lembrar de Ronaldo. No posso perd-lo. No posso! 
Meu amor, onde voc est? Volte, por favor. No saberei viver sem voc. Tornou a se deitar. Seu corpo estava fraco, sua vontade estava dividida entre a obrigao 
do trabalho e a imensa dor que sentia por se ver ameaada por algo que no sabia como enfrentar. Ficou deitada por mais algum tempo. Com muito esforo, levantou-se 
novamente e conseguiu chegar ao banheiro. Tomou um banho demorado e realmente se sentiu melhor. Vestiu-se e, ainda com um pouco de dor de cabea, foi para a empresa. 
Levou com ela a folha de papel em que havia marcado os endereos das pessoas que visitaria para encontrar uma soluo para seu problema.

OPORTUNIDADE DE PERDO

O dia se arrastou e, por muitas vezes, ela se distraiu com o trabalho. Quando algum perguntava algo a respeito de um assunto qualquer, por vrias vezes no soube 
responder. Sua cabea e suas costas doam muito. Farias continuava em cima dela e no parava de falar:
- No adianta voc agora  minha. Nunca mais vou sair daqui! Nunca mais. Vou te levar  loucura. Quero te ver l no vale, naquele inferno. No vou te deixar em paz, 
nunca mais. Nunca mais!
Naquele dia, pela primeira vez desde que comeara a trabalhar na empresa, olhava a todo instante no relgio. Deixou seu trabalho para o dia seguinte. Sentia que 
no estava em condies de tomar qualquer deciso. Tinha conscincia de que, para voltar a ser a funcionria exemplar que sempre fora, teria de resolver seu prprio 
problema. Pela primeira vez, tambm, no estava conseguindo separar sua vida particular da profissional. Seus superiores perceberam que ela no estava bem. s trs 
horas da tarde, doutor Fernando chamou-a em sua sala.
- Mrcia, estou notando que hoje voc no est bem. Est acontecendo alguma coisa? Est com algum problema?
- Desculpe senhor, estou com uma terrvel dor de cabea. Mas tenho certeza de que logo estarei bem.
-  melhor que v para casa ou a um mdico. Estou preocupado. Sabe que temos decises importantes para tomar e sempre contei com sua ajuda, mas hoje me parece que 
no podemos decidir nada. V para casa, cuide-se e volte amanh.
Mrcia no gostou do que estava ouvindo. Ela sempre fora elogiada e agora sentia que o chefe a estava recriminando. Perdeu o controle:
- Que est querendo dizer? Que no sou uma boa profissional? Que estou deixando meus problemas particulares interferirem em meu trabalho?
Ele estranhou a pessoa que estava  sua frente. Nunca antes a vira descontrolada dessa maneira.
- Que  isso? S estou preocupado com sua sade. Sei que  uma boa profissional, nunca poderia duvidar disso. Vejo, agora, que realmente no est bem e que precisa 
se tratar. V procurar um mdico. Pode ficar em casa quantos dias forem necessrios. S volte quando realmente se sentir bem.
Ela percebeu que havia perdido o controle. Farias rodopiava  sua volta, gargalhando e muito feliz.
- Agora, sim.  isso mesmo o que quero ver! Fernando precisa te conhecer como  na realidade! Vai perder tudo o que conseguiu, mentindo e enganando.
- Desculpe - ela disse ao seu chefe -  que realmente no estou bem. Estou me sentindo muito fraca.
- Por isso mesmo, deve consultar um mdico. Fique em casa todo o tempo de que precisar.
- Mas tenho muito trabalho para concluir...
- No se preocupe, v procurar ajuda e se trate.
Ele falou com tal impostao de voz que ela no teve como argumentar. Sentia-se realmente muito mal, tentou sorrir e retirou-se da sala. J em sua sala, pegou a 
bolsa e saiu. Farias e Gervsio a acompanharam. Pegou o carro. Na rua, respirou fundo. Sentia que o ar lhe faltava. No posso ir para casa. L me sinto sufocar. 
Mas aqui tambm. No sei o que fazer. Essa dor que sinto pela perda de Ronaldo  imensa. Vou dirigir um pouco. Melhor ainda: vou at sua casa. Ele no pode ter viajado 
assim de repente. Deve estar em casa ou em algumas de suas agncias. Vou procur-lo e pedir que volte. Se for preciso, contarei a ele tudo o que fiz. No... Isso 
no poderei fazer nunca. Ele no entenderia e, com certeza, no me perdoaria! Continuou dirigindo. Ronaldo morava em uma manso localizada em um bairro nobre da 
cidade. Parou o carro em frente a um enorme porto de ferro. Desceu e ficou parada, olhando para dentro do jardim. Um homem, ao v-la ali parada, veio em sua direo.
- Pois no, senhorita, deseja alguma coisa?
- Preciso falar com o senhor Ronaldo. Ele est em casa?
- Sinto senhorita, mas ele viajou no sbado pela manh e no disse quando voltaria.
- O senhor sabe aonde ele foi?
- O patro no costuma dizer aonde vai.
- Obrigada. Se ele voltar, por favor, avise que Mrcia esteve aqui. Vou deixar meu carto. Poderia me telefonar assim que ele voltar?
- Poderei dizer para ele que a senhorita esteve aqui, mas telefonar, no. No se preocupe: ele mesmo vai ligar. A senhorita  muito bonita...
Mrcia percebeu que no adiantava ficar ali.
- Obrigada, o senhor foi muito gentil. At logo.
Voltou para o carro e continuou dirigindo. Foi a todas as agncias de carro que sabia serem dele, mas nada. Em todos os lugares, recebia a mesma resposta:
- Ele foi viajar.
Cansada, resolveu ir para casa. Estava escurecendo, e ela teria tempo de tomar um banho, trocar de roupa e ir ao encontro da primeira mulher com quem havia marcado 
consulta. Vou, hoje, nesta. Se no der certo, vou a todas as outras; uma delas vai ter de me ajudar. Preciso de ajuda. Sempre soube lidar com meu trabalho. Sempre 
soube afastar de meu caminho quem me incomodasse, mas, com essas coisas, no sei lidar. No sei como fazer, mas algum deve saber, e vou encontrar esse algum. No 
apartamento, como sempre, tudo estava em ordem. Entrou e se sentiu sozinha. Precisava ter algum para conversar. Precisava ter uma amiga, mas no tenho ningum. 
Passei minha vida toda apenas querendo ganhar dinheiro e prestgio na empresa. Para qu? Para qu? Foi para o banheiro. Tinha tempo de tomar um banho de imerso, 
que sempre lhe fazia muito bem quando chegava do trabalho tensa e cansada. Foi o que fez. Ficou deitada na banheira por mais ou menos meia hora. Depois disso, trocou-se, 
pegou as chaves do carro e se preparou para sair. Quando estava saindo, olhou para o bar, no canto da sala. Percebeu que j no havia ali muitas garrafas. Embora 
quase nunca bebesse, quando decorou o apartamento, colocou no bar algumas bebidas de todos os tipos, que fariam parte da decorao e que estariam l para o dia em 
que fosse receber alguns amigos. Todavia, esses amigos nunca vieram. As garrafas ali permaneceram por longo tempo. Agora, faltavam algumas, que ela mesma havia tomado. 
Vou comprar as que esto faltando. No quero meu bar vazio. Saiu em direo ao endereo que havia anotado.  rua ficava em um bairro bom, com belas moradias. Estacionou 
o carro em frente a um prdio e subiu ao terceiro andar. Foi recebida por uma senhora bem vestida e sorridente.
- Boa-noite. Pode-se ver que  uma pessoa educada: chegou na hora marcada.
- Boa-noite, dona Neide. Tenho urgncia em resolver um problema e penso que talvez possa me ajudar.
- Vamos ver. Entre, por favor.
Mrcia entrou. O ambiente ali era bem diferente daquele que encontrou na casa de dona Durvalina. Aquele apartamento revelava que a pessoa que ali vivia era de posses. 
Mrcia perguntava-se: Por que uma pessoa como essa se dedica a um trabalho desses? Deve cobrar um preo alto, mas no faz mal: pagarei o que for preciso. S quero 
Ronaldo de volta. Dona Neide percebeu sua curiosidade, enquanto a encaminhava a uma sala nos fundos do apartamento, e disse:
- Parece no entender por que me dedico a um trabalho como este?
- Por favor, a senhora tem de me desculpar.  que no entendo muito bem dessas coisas. Nunca dei muita ateno, por isso estou surpresa.
- No precisa se preocupar com isso. Dedico-me a este trabalho j h muito tempo, h quase vinte anos. Estou cumprindo minha misso aqui na Terra.
- Misso? Que misso?
- A de ajudar as pessoas que se encontram perdidas, sem um caminho para seguir.
- Consegue realmente isso?  
- Na maioria das vezes, sim, mas depende muito da pessoa que me procura.
Ao ouvir aquilo, Mrcia pensou: Estou novamente falando com uma pessoa que vai querer me enganar. Quando no conseguir me ajudar, vai dizer como dona Durvalina, 
que a culpa  minha. Agora, no tenho como escapar. J que estou aqui, vou at o fim. Vamos ver no que vai dar, mas desta vez, s darei dinheiro se houver garantia. 
Chegaram a uma porta. Dona Neide abriu-a e convidou Mrcia para entrar. L dentro, encontrou um ambiente acolhedor. Ela, rapidamente, olhou tudo. Havia uma mesa 
forrada com cetim branco. Um incenso queimava sobre a esttua de algum que Mrcia no conhecia. O incenso soltava um aroma suave e bom. Sobre a mesa, cartas de 
baralho. Flores e velas acesas de vrias cores. Mrcia se impressionou com a paz que sentiu ali dentro. Dona Neide percebeu seu espanto:
- Nunca esteve em um lugar como este? Nunca consultou as cartas?
- No,  a primeira vez. Nunca me interessei pelo futuro, porque sempre soube como conduzir minha vida para que o futuro fosse do modo que quisesse.
Dona Neide apenas sorriu. Mostrou a ela uma cadeira que estava em frente a ela e se sentou em outra que estava do outro lado. As duas ficaram frente a frente. A 
vidente fechou os olhos e com o baralho nas mos fez uma espcie de orao. Depois, embaralhou as cartas e pediu para Mrcia que cortasse trs vezes com a mo esquerda. 
Mrcia obedeceu. A mulher pegou de volta as cartas e perguntou seu nome. Mrcia respondeu. Dona Neide comeou a colocar as cartas sobre a mesa. Mrcia acompanhava, 
em silncio, todos os seus movimentos. Depois de colocar as cartas, a mulher ficou apenas olhando, sem nada dizer. Examinou, examinou e, finalmente, disse:
- A senhorita est com energias muito pesadas a seu lado. Aqui no diz o que fez s mostra que mexeu com foras poderosas. Essas foras agora esto cobrando sua 
parte. Elas esto querendo que a senhorita pague tudo, perdendo aquilo que mais ama neste mundo. O que voc fez?
Mrcia ficou impressionada. No falara a respeito de sua vida e aquela mulher no a conhecia. Ela estava, mesmo, vendo as coisas?
- No fiz nada. Vim aqui porque preciso de ajuda. O homem que mais amo est fugindo de mim!
- Qual  o nome dele?
- Ronaldo.
Dona Neide embaralhou novamente e pediu a Mrcia que cortasse. Em seguida, lanou as cartas sobre a mesa e, depois de analis-las demoradamente, falou:
- Esse homem te ama sinceramente. Encontraram-se porque precisam continuar algo que foi interrompido em outra vida. Mas ele foi afastado por sua culpa. Ele est 
distante, foi para outro pas, mas, volto a dizer te ama muito. S sente medo, muito medo. Est sofrendo demais.
- Algo que foi interrompido? Outra vida? O que est dizendo?
- Vocs, em uma vida passada, tinham um compromisso, que foi interrompido contra a vontade dos dois. Nesta vida presente, deveriam se encontrar e recomear de onde 
pararam s que voc impediu que isso acontecesse por se deixar envolver por energias perigosas.
- No estou entendendo nada do que est dizendo. Preciso que ele volte. No poderei continuar vivendo sem ele.
- Que fez de mau? Com que foras mexeu? Que trato fez com essas foras? Preciso saber para ver se posso ajudar. No se preocupe: o que disser ficar s entre ns, 
no sair deste quarto.
Ao perceber a indeciso de Mrcia em contar, ela continuou:
- Preciso saber o que fez para ver se posso te ajudar. Precisa confiar. Foi para isso que veio at aqui.
Mrcia comeou a chorar e contou tudo sobre dona Durvalina. Neide ouviu em silncio. Quando Mrcia terminou, ela fechou os olhos e permaneceu orando. Depois de algum 
tempo, abriu os olhos e disse:
- Quando desejamos o mal para algum, no  necessrio nem praticar, porque nosso pensamento tem uma fora muito grande. Com ele, podemos construir ou destruir. 
Ao nosso lado, existem energias do bem e do mal e, infelizmente, voc se envolveu com as do mal. 
- No sabia o que estava fazendo.
- No universo, existe uma Lei que comanda a tudo e a todos. Essa Lei tem de ser obedecida e cumprida. Desde que nascemos, aprendemos o que  certo e errado; por 
isso, quando fazemos o mal para algum, sabemos o que estamos fazendo. Foi avisada que pagaria cinqenta por cento, mas, mesmo assim, insistiu em continuar. Agora, 
a cobrana chegou.
- Eu no sabia o que estava fazendo. No imaginei que a cobrana seria dessa forma. Alm disso, o trabalho no deu certo: Osvaldo no voltou. No  justo pagar por 
algo que no consegui.
- Justo? O que  justia para voc? No deu certo, mas poderia ter dado. Como estaria aquela famlia hoje? No deu certo, mas voc teve a inteno de fazer o mal. 
E isso foi o bastante. No precisaria de mais nada.
- No posso pagar com aquilo que mais amo e de que mais preciso. Deve existir um meio de tudo ser contornado. Osvaldo deve estar feliz com sua famlia. Eu quero 
ser feliz com Ronaldo. Deve existir um meio. Sinto que a senhora sabe como me ajudar. No se preocupe com dinheiro: tenho muito e usarei at o ltimo centavo se 
for preciso.
- Infelizmente, eu no fao trabalhos, s atendo  curiosidade das pessoas em relao ao passado, presente e futuro. Dou conselhos, ensino simpatias, nada, alm 
disso. No posso te ajudar. E h mais uma coisa que preciso lhe dizer. Do modo que est, ser presa fcil para pessoas mal intencionadas. Poder gastar todo o seu 
dinheiro e no conseguir nada.
- Que est querendo dizer? No estou entendendo.
- Aprenda algo muito importante. A mediunidade  um dom que nos  dado quando nascemos. A todos. Entendeu bem? A todos. Por isso, ela no deve ser usada para ganharmos 
dinheiro. Em qualquer lugar a que for, preste ateno: se houver cobrana, saia de l o mais rpido possvel.
- Estou entendendo e aprendendo. Da prxima vez, tomarei mais cuidado. Mas a senhora deve conhecer algum que possa me ajudar.  
- Tenho uma amiga que possui um terreiro de umbanda. Talvez os caboclos e pretos velhos possam te ajudar.
- Onde fica? Preciso ir a qualquer lugar onde haja uma esperana de ajuda.
- Amanh  tera-feira, o dia em que ela trabalha com os caboclos. Vou te dar o endereo. O trabalho comea s trs da tarde. V at l. Posso lhe garantir que, 
se existe algum que pode te ajudar,  ela. No deixe de ir. Est precisando, e muito. Essas foras que esto com voc so muito perigosas.
- Obrigada. Irei com certeza. Quanto lhe devo?
- No me deve nada. Cobro, sim, das pessoas que aqui vm por curiosidade, para saber do presente, passado e futuro, mas seu caso  diferente. Precisa de uma ajuda 
muito forte. As foras que esto ao seu lado, j lhe disse, so perigosas; no quero ter envolvimento algum com elas.
Mrcia despediu-se da mulher. Tinha de continuar procurando ajuda. Nunca em sua vida pensou que existissem essas coisas e que elas pudessem fazer tanto mal. Farias 
e Gervsio a esperavam  porta do apartamento de dona Neide, do lado de fora. Tentaram entrar, mas alguma coisa os impediu. No sabiam o que era. No conseguiam 
ver a faixa de luz que estava na porta, impedindo-os de entrar. Assim que Mrcia abriu a porta e saiu, eles novamente a seguiram. Ela sentia muita vontade de encontrar 
a cura para seus males. Preciso encontrar um modo de me livrar de tudo isso. Mas nem por um instante estou arrependida do que fiz contra Osvaldo. Ele mereceu. S 
sinto no ter dado certo. No posso aceitar o que est acontecendo comigo porque sinto que fui enganada, por isso no aceito ter de pagar e ele continuar feliz ao 
lado da esposinha. No posso aceitar e nem aceitarei nunca! Naquela noite, tambm no dormiu bem. Sentia algo que a sufocava, seu corpo no encontrava posio na 
cama. Pela manh, novamente acordou com dor por todo o corpo. Levantou-se, e, enquanto tomava banho, pensava: J que o doutor Fernando me ofereceu alguns dias de 
folga, vou aproveitar. Nunca tirei frias na empresa. Sempre me preocupei demais com meu trabalho, mas agora preciso me preocupar com minha vida. No vou trabalhar 
a semana toda. At o fim da semana, tenho certeza de que estarei com tudo resolvido e com Ronaldo de volta. Estava com a sensao de que havia sonhado muito, mas 
no lembrava o que fora. Marluce, ao chegar para o trabalho, espantou-se em v-la em casa. 
- Bom-dia. A senhora est doente?
- No. Por que essa pergunta?
- Durante todo esse tempo que aqui trabalho, nunca vi a senhora pela manh.
- Esta semana no vou trabalhar, tenho alguns problemas para resolver.
Durante a manh, ficou andando de um lado para o outro. Olhava no relgio a todo instante, estava ansiosa para ir at o tal terreiro. Vou para ver como . Se l 
houver alguma ajuda, vou buscar. Sinto que encontrarei minha paz. s trs horas em ponto, parou o carro em frente a uma casa. O terreiro ficava em uma vila nos arredores 
da cidade. Do lado de fora, a casa parecia ser grande. Mrcia notou que muitos carros estavam parados na rua. Pelo grande nmero de carros aqui parados, parece que 
o lugar  muito bem freqentado. Entrou um pouco desconfiada. Farias e Gervsio a seguiram. Foi encaminhada para os fundos da casa. L havia um galpo enorme. Na 
porta, antes de entrar, recebeu um pequeno carto com um nmero. Entrou. Vrias pessoas estavam sentadas e outras separadas por uma pequena cerca de madeira pintada 
de branco. No meio, havia uma espcie de porto. As pessoas que estavam dentro do cercado, vestidas de branco, danavam e cantavam ao som de um tambor. As pessoas 
danavam e rodopiavam, dando voltas. Mrcia acompanhava tudo. Em frente ao altar, havia uma mulher vestida de branco, portando na cabea um cocar de ndio, feito 
com penas brancas. Ela fumava charuto e comeava a cantar as msicas, que eram seguidas pelos demais. O som era envolvente. Mrcia estava se sentindo muito bem. 
Farias e Gervsio tambm acompanhavam tudo com curiosidade. Viram que a volta toda estava cercada por outros ndios que no eram vistos pelas pessoas da platia. 
Na porta do cercado, havia dois que impediam que alguns espritos entrassem. Poderiam ser considerados os porteiros. Farias nunca havia visto coisa igual. Assustado, 
perguntou para Gervsio:
- Que lugar  este? Quem so esses ndios? Que ela veio fazer aqui?
- Esta  mais uma das religies que existem na Terra. Chegou aqui por meio dos negros. Hoje,  freqentada por pessoas de todas as classes sociais. Mrcia deve ter 
vindo aqui procurar ajuda.
- Eu era e sou catlico. Nunca quis saber de outra religio.
- Toda religio  boa, Farias, porque todas falam de Deus. E todas pretendem que aqueles que as seguem encontrem o verdadeiro caminho.
As pessoas que se encontravam dentro do cercado cantavam e danavam muito. Uma a uma, deitavam-se em frente a um altar com muitos santos, velas e flores. Batiam 
 cabea, levantavam-se, deitavam-se em frente  mulher de cocar e batiam a cabea novamente. Ela os abenoava, fazendo o sinal da cruz em suas costas. Mrcia nunca 
havia visto algo igual, mas estava gostando daquele ritual, achando-o muito bonito. Prestava ateno em tudo e percebeu que, conforme a msica mudava de ritmo, as 
pessoas danavam diferentemente. As mulheres, com saias brancas e muito armadas, danavam e rodavam sem parar. Se no fosse uma religio, poderia ser um timo espetculo 
para assistir. Quase uma hora se passara e as pessoas continuavam danando e cantando. Mrcia no estava cansada, ao contrrio: cada vez gostava mais de tudo que 
estava vendo. De repente, a msica parou. A mulher com o cocar branco sentou-se em uma espcie de poltrona colocada em frente ao altar.  Uma das pessoas de branco 
chegou ao pequeno porto e chamou um nmero. Uma senhora que estava sentada do lado de Mrcia levantou-se e entrou, foi para junto da mulher de cocar e ajoelhou-se 
 sua frente. Outros nmeros foram sendo chamados, e as pessoas eram encaminhadas a outras pessoas que estavam vestidas de branco. Chegou, ento, a vez de Mrcia. 
Ela havia observado tudo e fez exatamente o que as outras pessoas fizeram antes dela. Entrou e ajoelhou-se em frente  mulher do cocar, que soltou, sobre Mrcia, 
uma baforada de charuto e perguntou:
- Que  que a fia veio fazer aqui?
Ela falava com um sotaque estranho, e Mrcia sentiu alguma dificuldade para entender. Uma moa que estava ao lado dela, percebendo sua dificuldade, repetiu:
- O pai quer saber o que a moa veio fazer aqui.
- Estou precisando de ajuda e me disseram que aqui eu encontraria o que procuro.
O caboclo falava e a moa repetia:
- A moa veio busca ajuda ou veio ajudar? Mrcia estranhou a pergunta:
- No entendi... Preciso de ajuda, vim buscar sua ajuda.
- Sabe, o dia que a fia deixa de pensa s nela, a vida da fia vai muda.
- No estou entendendo o que est querendo dizer, s sei que hoje preciso de ajuda.
- Ta bem, fia. Oc sempre deixa tudo pra amanh. H fia ta muito escura. O anjo da guarda ta quase apagado e distante. A fia afasto ele. A fia faz muita maldade 
e ele num pode mais chega perto. A fia agora ta sozinha, acompanhada s por aqueles qui qu vingana.
Mrcia ouvia novamente quase as mesmas coisas. Sentiu que ali tambm no encontraria ajuda.
- Sei o que fiz, mas preciso de ajuda. Ser que no vou encontrar em lugar algum?
- Fia, assim como as gua do rio um dia chega ao mar; assim como h semente um dia nasce, cresce e leva as planta sempre pr alto; assim como o sol dorme pra lua 
acorda... Assim tambm um dia o mal encontra o bem.
- No estou entendendo.
- A fia tem que pedi Ag prs pai da fia. Eles to triste e distante. J ajudara muito a fia, mas ela num soube reconhece.
- Ag? O que  isso?
- Ag, fia,  perdo. A fia tem que pedi perdo prs seus pai.
- Meus pais? Perdo? No posso fazer isso. Meu pai j morreu e no sei onde est minha me.
- Pra esses tambm a fia tem que pedi perdo. O pai j volto pra junto de Nosso Sinh, mas a me a fia sabe sim onde ta. To falando  dos outros pai da fia: Ogum 
e Oxum.
- No estou entendendo nada mesmo. Ogum? Oxum?
- Seu pai, fia,  Ogum. Guerreiro e lutado. Ele sempre ajudo a fia, abrindo todos os seus caminho. Oxum  a me da fia. Ela  Dona dos rio. Ela deu pra fia muito 
ouro e beleza. Agora to triste e num vo ajuda mais. Por isso, se a fia quis di novo a proteo deles, tem que pedi Ag.
- Como fao isso?
- A fia vai pega um inhame, assa ele na brasa. Quando tive bem mole, vai abri, o rega com bastante mel. Vai numa istrada i oferece pra Ogum, pedindo Ag. Depois 
vai pega um peixe bem grande, vai assa na foia da bananeira, enfeita com gema de ovo, vai  marge dum rio oferece pra Oxum, pedindo Ag.
- No sei como fazer isso.
- Meu cavalo faz.  s traze tudo. Ela faz.
- Quanto vou ter de pagar por esse trabalho?
- Meu cavalo num cobra nada. Ela sabe que, se um dia cobra alguma coisa, eu me afasto e num volto nunca mais. A fia s tem que traze as coisa.
- Se eu fizer isso, minha vida vai voltar a ser como antes?
- O caboclo num sabe. Isso quem vai decidi  Ogum e Oxum. A fia sabe que tem uma morte nas costa, num sabe?
Farias que acompanhava tudo  distncia, porque um ndio que estava na porta no o deixara entrar, levantou-se e falou, gritando:
- Ele vai contar Gervsio? Ela agora vai ficar sabendo o que fez comigo?
Gervsio colocou a mo em seu ombro e fez com que voltasse a se sentar novamente. Mrcia assustou-se com aquilo:
- Morte? Eu? Nunca matei ningum!
- Pra mata num  preciso usa uma arma. A fia mato e vai se alembr agora.  
A mulher olhou para Farias e jogou uma baforada em direo  platia. A fumaa bateu em Farias e jogou-o ao lado dela e de Mrcia, que, assustada com tudo o que 
ouvira, no mesmo instante pensou: Farias? Ser que ele est falando de Farias?
- O senhor est falando de Farias? Eu no o matei. Ele sofreu um acidente.
- Fia, a arma que se usa pra mata pode s a boca. Fia, pensa! Pensa muito! Agora pode i fala com meu cavalo, e ela vai faze a comida de santo que eu pedi.
Mrcia levantou-se e saiu dali, acompanhada por Farias. Ela se lembrava da ltima vez que falou com ele. 
- Ser que ele no sofreu um acidente? Ser que ele se matou?
Falou com a pessoa que estava na porta:
- Ela mandou que eu falasse com seu cavalo. Onde posso encontr-lo?
- O cavalo  aquela com quem a senhora estava conversando. Assim que o caboclo for embora, a senhora conversa com ela.
Mrcia voltou para seu lugar e sentou-se novamente. Farias tambm voltou. Ela estava intrigada: Como ele soube que eu mandei fazer aquele trabalho para Osvaldo? 
E de Farias? A mulher que fui visitar ontem  noite deve ter contado. Isso tudo deve ser uma mfia. Vou embora. Saiu dali sem olhar para trs. No vou fazer nada 
que ela mandou. Farias... Imagine se eu tenho alguma coisa a ver com sua morte! Ele era um fraco, no soube lutar. Farias, ao ouvir aquilo, ficou preso de muito 
mais raiva do que j tinha. Diante do caboclo, ele quase a perdoara:
- Gervsio, no adianta: no posso perdoar. Ela  ruim mesmo.
Aproximou-se de Mrcia e falou em seu ouvido:
- Voc no tem jeito. At pensei em ir embora, seguir meu caminho e te deixar em paz, mas no vou. Agora, voc vai saber o que fez. Vai se lembrar a todo instante. 
No vou permitir que esquea. A justia vai ser cumprida!
Mrcia entrou furiosa em seu carro. Falou alto: 
- Estou me deixando levar por crendices! Eu, que sempre fui independente, que nunca precisei de nada nem de ningum! Ogum? Oxum? Isso tudo  conversa para levar 
meu dinheiro!
Ligou o carro e saiu em disparada. Farias, a seu lado, dizia:
- Vai perder tudo o que conquistou e usurpou. Voc vai ver! No est com vontade de beber? Eu estou!
Mrcia dirigia sem prestar muita ateno ao trnsito. Estava com muita raiva e ao mesmo tempo com muito medo de perder Ronaldo para sempre. No, no vou perder Ronaldo! 
Deve haver e sei que vou encontrar uma soluo. Deve existir. Ainda bem que me lembrei: o bar l em casa est quase vazio. Vou comprar algumas bebidas. Entrou em 
um supermercado, comprou vrias garrafas de todo tipo de bebida. Saiu carregando os pacotes. Agora, meu bar estar novamente com as bebidas para qualquer gosto. 
Quem quiser poder me visitar, no passarei vergonha. Mas quem viria me visitar? Estas bebidas vo durar muito tempo. Farias e Gervsio seguiam com ela. Farias olhou 
para o amigo e, sorrindo, disse:
- Ela no sabe, mas essas bebidas vo durar muito menos do que pensa. Vou convidar alguns amigos. Hoje, naquele apartamento, vai haver uma festana!

A CAMINHO DO FIM

Assim que entrou no apartamento, Mrcia foi para a cozinha ver se havia algo para comer. Encontrou uma caixa com biscoitos. Pegou alguns e foi para o quarto. Tentou 
ler, mas no conseguiu. Foi at a sala e, no bar, pegou a garrafa de um vinho da marca que, s vezes, gostava de tomar. Encheu um copo e voltou para o quarto. No 
estava bem, algo estava faltando em sua vida. Claro que no estou bem. Como vou viver sem Ronaldo? Farias, em suas costas, dizia, baixinho, em seu ouvido:
- No pode mesmo viver sem ele. A vida no vale mais nada para voc.  fcil: basta se matar! Sempre foi sozinha, nunca confiou em ningum. Nunca gostou de algum. 
No far falta alguma.
Ela andava de um lado para o outro com o copo na mo. Esticava os braos para cima, como se quisesse tirar um peso de suas costas. Nada adiantava. Tomou todo o vinho 
que havia no copo, foi para a sala e encheu outro.  medida que bebia mais peso sentia em suas costas. Lembrou-se de Farias e do que o ndio tinha dito. No pode 
ser... Ele no se matou. Mesmo que tenha se matado, a culpa no foi minha. Eu, em seu lugar, teria enfrentado a famlia e teria dado uma surra em quem me estivesse 
chantageando. Ele era mesmo um fraco. Um covarde! Ao ouvir seu pensamento, Farias ficou furioso. Saiu e foi procurar alguns amigos para a festa. Gervsio tentou 
evitar, mas foi em vo.
- Vou destruir essa mulher. Ela no presta. No tem um pingo de sentimento.  m e calculista!
Saiu e voltou em seguida com outros espritos. Alguns j estavam embriagados, outros sentiam muita vontade de beber. Comearam a rodopiar em volta de Mrcia e sorviam 
o aroma de lcool que saa do copo e das garrafas. Ela, desprotegida, cedeu a seus desejos e comeou a beber sem parar. Bebeu um copo atrs do outro. A garrafa terminou, 
ela abriu outra, e agora j no bebia mais no copo, bebia no gargalo da garrafa. Completamente embriagada, caiu sobre o tapete da sala. Tudo rodava  sua volta. 
Tentou se levantar, mas no conseguiu. Via  sua frente Osvaldo, dona Durvalina, o caboclo e Farias. Deste  que no conseguia se esquecer. Ele, a seu ouvido, dizia, 
muito nervoso:
- No vai me esquecer nunca mais. Vou ser sua sombra! Vai pagar muito caro por tudo o que me fez passar na vida e naquele vale infernal! S fui para l por sua culpa. 
 para l que te levarei, para sentir tudo de horrvel que senti! Voc vai se matar! Vou lutar para que isso acontea! Est sozinha. Continuar assim. No existe 
ningum neste mundo para se preocupar com voc ou que venha te ajudar. Foi sempre to egosta que nunca conseguiu ter um amigo. Est sozinha comigo. Assim ficar 
at que eu consiga te levar ao suicdio!
Ele falava e ria como um alucinado. Ela, meio adormecida, chegava quase a escut-lo. No percebeu a noite passar. Pela manh, ao abrir a porta, Marluce assustou-se.
- Meu Deus do cu! Que aconteceu aqui? Dona Mrcia!
A sala estava toda revirada. Em sua embriaguez, Mrcia derrubara as coisas pelo caminho. Marluce viu a patroa deitada no cho da sala e correu para socorr-la. Ao 
chegar mais perto, sentiu o odor de vinho. Olhou tudo e viu as garrafas e copos espalhados por toda a sala. O tapete, de um tom creme bem claro, estava agora todo 
manchado de vermelho. Marluce tentou acordar Mrcia, mas no conseguiu. Decidiu lev-la ao banheiro. Com muito esforo, conseguiu, colocou-a embaixo do chuveiro 
e abriu a torneira. Conforme a gua caa, Mrcia ia despertando. Chorava e falava coisas sem nexo para Marluce.
- Marluce, preciso te contar: eu no o matei. Ele morreu de acidente. E eu tambm no quis fazer mal para Osvaldo, s queria que ele no me abandonasse. Quero Ronaldo 
de volta.
- Fique calma, dona Mrcia. Logo a senhora vai ficar boa. Esse banho vai fazer bem.
- No adianta. Nunca vou ficar bem. Quero morrer. No agento mais esta vida!
- Que  isso, dona Mrcia? A senhora tem tudo: este apartamento, um lindo carro, seu trabalho, todas aquelas roupas. Que mais pode desejar?
- Nada disso adianta. Perdi a nica razo de minha vida. Perdi o homem mais maravilhoso do mundo. Quero morrer. Marluce tem algum veneno aqui no apartamento?
- Claro que no! Para que a gente ia ter veneno?
- No faz mal. Vou para a rua e vou comprar. Vou tomar tudo de uma vez. Assim, a morte vem depressa. Dormirei para nunca mais acordar.
Marluce estava cada vez mais assustada. A patroa parecia outra mulher. Ficou com medo de que ela cumprisse aquilo que estava dizendo. Ajudou Mrcia a sair do banho, 
colocou-a na cama e foi para a cozinha preparar um caf bem forte, que sabia ser bom para curar bebedeira. Na cozinha, pensava: Meu Deus, o que vou fazer se essa 
louca resolver mesmo se matar? Preciso pedir ajuda, mas a quem? Ela nunca falou de sua famlia. Nunca ningum a procurou. No tem amigos. No tem ningum. Terminou 
de preparar o caf, colocou-o em uma xcara e voltou para o quarto onde havia deixado Mrcia. Ela no estava mais na cama. Marluce largou a xcara e saiu correndo 
em direo  sala. Mrcia estava ali com uma garrafa nas mos, bebendo no gargalo. Marluce correu para ela. Quis tirar a garrafa de suas mos, mas no conseguiu. 
Mrcia empurrou-a com tanta violncia que a fez cair no cho. Ela se levantou chorando e olhou para um canto da sala, onde havia uma agenda de telefones. Pegou a 
agenda e abriu-a. Estava quase vazia, os poucos nmeros anotados eram de pizzarias, supermercados e bancos. Folheou desolada as pginas, at que viu um nome: Luciana. 
Pegou o telefone e ligou. Do outro lado, uma mulher atendeu:  
- Quem ?
- Quero falar com dona Luciana.
- Sou eu mesma, pode falar.
- Desculpe eu estar telefonando. Meu nome  Marluce e trabalho pra dona Mrcia. Ela no est bem. Preciso de ajuda, mas a agenda de telefones no tem o nmero de 
ningum da famlia, s o seu. Lembrei que a senhora s vezes telefona para ela, por isso estou telefonando.
- Fez bem. Mrcia no est bem? O que ela tem?
- No sei. Acho que precisa ir a um mdico. Daria para a senhora vir at aqui?
- No se preocupe: j estou indo. Fique ao lado dela e, se piorar, na agenda deve haver o telefone de algum pronto-socorro. Dentro de meia hora estarei a.
Desligou o telefone. Marluce, tambm, largou o aparelho, olhando para Mrcia, que, com a garrafa na mo, continuava andando de um lugar para outro, falando com algum 
que s ela podia ver:
- Voc tem razo: preciso morrer. No adianta mais ficar nesta Terra.
Quarenta minutos depois o porteiro chamou pelo interfone. Estava avisando que dona Luciana acabara de chegar. Marluce pediu que ela subisse. Ao entrar no apartamento, 
Luciana ficou atnita. No conseguia acreditar que aquela que estava em sua frente era a mesma Mrcia que conhecia. Estava toda descabelada, andando cambaleante 
de um lado para o outro e falando coisas que no se conseguia entender. Aproximou-se, segurou no brao de Mrcia e disse:
- Mrcia, que est acontecendo? Por que est bebendo dessa maneira?
Mrcia olhou para ela e comeou a chorar:
- Luciana? Que est fazendo aqui? Quem te chamou? V embora, no quero te ver! No preciso de ningum. S quero morrer...
Luciana tentou abra-la, mas no conseguiu. Mrcia se afastou, gritando:
- No adianta! No vou mais viver. Quero morrer. A vida  minha, fao com ela o que quiser!  
Luciana, preocupada, sentou-se em um sof e ficou olhando para a amiga. O que estar acontecendo com ela? Sempre foi muito fechada e reservada. Todas as vezes que 
conversamos, sempre me pareceu estar muito bem. Que vou fazer? Parece que ela no tem qualquer doena. Est apenas embriagada.
- Marluce, no posso ficar aqui agora, preciso apanhar as crianas na escola. Fique com ela, no a deixe sozinha. No ritmo em que est bebendo, vai dormir logo. 
Assim que eu deixar as crianas em casa, voltarei e veremos o que se pode fazer, mas no a deixe sozinha.
- Est bem, dona Luciana. Vou ficar aqui de longe, s olhando. Mrcia, alheia  presena das duas, continuou bebendo sem parar. Luciana saiu e Marluce, assustada, 
manteve-se distante. Depois que fora jogada no cho, ficou com medo de se aproximar. Como Luciana previra, em pouco tempo Mrcia estava deitada no cho, dormindo 
profundamente. S ento Marluce se levantou e foi at a cozinha preparar algo para as duas comerem, caso Mrcia acordasse com fome.
s duas da tarde, Luciana voltou. Teria a tarde toda para tentar resolver o problema da amiga. Jamais em sua vida pde imaginar que algum dia a veria assim. No trajeto 
entre sua casa e a de Mrcia, lembrou-se dela na faculdade: Que ter acontecido com ela? Sempre foi uma menina extrovertida e brincalhona. Estou me lembrando agora 
do dia em que a conheci e me aproximei dela na biblioteca. Eu estava perdida, precisando de algum para conversar. Naquele tempo ela foi indispensvel em minha vida. 
Ns nos tornamos amigas e, quando Mrcia precisou de um emprego, no pensei duas vezes para apresent-la a meu pai. Durante todo esse tempo, nos encontramos poucas 
vezes, mas sempre ouvi elogios a respeito de seu trabalho. O que aconteceu para que ficasse nesse estado?  
 Quando Luciana entrou no apartamento, Marluce a recebeu com olhar preocupado e disse:
- Ela dormiu, acordou e agora est revirando todas as gavetas da casa procurando um revlver. Disse que precisa morrer...
- Ela tem algum revlver em casa?
- No. Eu nunca vi.
- Assim  melhor. Precisamos fazer algo para ajud-la. No pode ficar sozinha. Voc pode dormir aqui?
- No, meu marido trabalha de noite e no tenho com quem deixar as crianas.
- Tambm no posso. Que vamos fazer?
- A senhora no acha que era melhor ela ir pro hospital?
- No. Ela tem um cargo importante na empresa, ningum pode saber que est se embriagando. Temos de encontrar outra soluo... J sei! Vou dar um telefonema.
Pegou o aparelho e discou.
- Slvia, sou eu, Luciana. Est tudo bem?
- Luciana! H quanto tempo... Comigo est tudo bem, mas sou eu que pergunto: o que te deu para me telefonar?
- Sei que hoje  dia de Marlene trabalhar em sua casa. Ela ainda est a?
- Est, sim, mas por qu? Ela no vai  sua casa na sexta-feira?
- Sim, mas preciso da ajuda dela hoje. Quero ver se ela pode fazer companhia a uma amiga minha que est doente e no tem ningum para ficar com ela  noite.
- Vou cham-la. Marlene atendeu em seguida.
- Dona Luciana, sou eu. Que est acontecendo?
- Tenho uma amiga que no est muito bem e precisa de algum para ficar com ela durante a noite. Pensei que talvez voc aceitasse esse trabalho. Sei que costuma 
fazer isso s vezes.
- Sabe como  trabalho nunca  demais. Mas sabe que tem um problema...
- Sei qual , mas no se preocupe, pode vir. Ela est precisando de sua ajuda e acredito no ser s de companhia. Estou desconfiada de que algo mais esteja acontecendo 
aqui.
- Est bem. Vou terminar meu servio aqui e vou em seguida. Qual  o endereo?  
 Luciana passou o endereo e o telefone. Depois disse:
- Faa o seguinte: apanhe um txi e, assim que chegar aqui, eu pago o motorista.
- Est bem. Vou o mais rpido possvel.
Luciana desligou, aliviada. Olhou para Marluce, que acompanhou toda a conversa e estava aliviada tambm. Mrcia continuava bebendo e mexendo nas gavetas, em busca 
do tal revlver que graas a Deus no existia. As duas a acompanhavam de longe, sem nada dizer. Eram quase cinco da tarde quando Marlene chegou. O porteiro interfonou 
avisando, e Marluce desceu com o dinheiro que Luciana lhe deu para pagar o txi. O porteiro estranhou todo aquele movimento no apartamento de Mrcia. Ela nunca recebia 
ningum e, agora, aquele entra-e-sai. Marluce conduziu Marlene at o apartamento. Assim que entrou, Luciana veio receb-la.
- Marlene, que bom que chegou. Sei que vai poder ajudar muito.
Marlene notou que o bairro e o apartamento eram luxuosos. J na porta, parou e ficou olhando, calada. Luciana apressou-se:
- Est admirada com a beleza desta sala?  porque no viu o resto. A dona tem muito bom gosto.
Marlene, ainda parada perto da porta, no respondeu. Olhava para a sala e via muitos vultos danando e rodopiando em uma algazarra profunda. Fechou os olhos e dali 
mesmo onde estava comeou a orar:
- Senhor, meu Pai, proteja a pessoa que mora nesta casa. Ela deve estar sofrendo muito mesmo. D a oportunidade de se libertar dessas visitas. Que Sua luz divina 
possa entrar e clarear toda a casa, principalmente a moradora. Permita Senhor, que meu mentor possa estar aqui comigo para me intuir.
Imediatamente, ela foi envolvida por muita luz. A seu lado, o vulto de um senhor sorridente pegou sua mo. Ela sentiu sua presena e sorriu confiante. Ao sentirem 
a luz e a presena, os vultos, assustados, pararam de rodopiar e desapareceram rapidamente. Somente Gervsio e Farias permaneceram, parados e encostados em um canto 
da sala. Farias nervoso, falou:
- Gervsio, no vou embora. Estou aqui para exercer meu direito de vingana, direito esse que ganhei quando pedi justia, direito esse que pela Lei no me pode ser 
negado. No vou aceitar essa intromisso. Quem  essa mulher? Quem  esse que a est acompanhando? Que luz  essa? Eles  que no podem continuar aqui. Eles tm 
de ir embora. Principalmente essa luz, que est me fazendo mal!
- Acalme-se.
- Como me acalmar? Mrcia  minha! Tem de pagar por tudo. Eles tm de ir embora. Onde est a Lei?
- A Lei est aqui mesmo. At para os encarnados existe sempre um julgamento justo. Se essa luz est aqui,  porque tambm, em nome da Lei, pediu permisso. No podemos 
exigir que v embora.
- Que julgamento? O que ela fez comigo no tem perdo! Ela me destruiu!
- Acalme-se. Vamos esperar.
Farias ficou olhando para Marlene. Ela continuava parada em orao e cercada de luz. Quando terminou de rezar pedindo ajuda, ela abriu os olhos e percebeu que o 
ambiente estava praticamente limpo. Viu Farias e Gervsio encostados na parede e sentiu o olhar de dio que Farias lhe lanava. No demonstrou nenhuma emoo no 
rosto. Entrou decidida e disse:
- Dona Luciana, onde est  moa que mora aqui?
- Agora est em seu quarto, revirando tudo para encontrar um revlver. Estou muito assustada. Receio que, embora fosse  ltima coisa que quisesse fazer, teremos 
de lev-la para um hospital. Isso seria o fim de sua carreira na empresa. Ela ocupa um cargo muito alto, no pode ser ligada  bebida. Eles no aceitariam.
Marlene no disse nada, apenas acompanhou Luciana at o quarto de Mrcia. Ao chegar  porta, novamente parou. Seu corao disparou ao ver a situao em que Mrcia 
se encontrava. Quis dizer algo, mas no conseguia tamanho foi o espanto que sentiu.
- Meu Deus, Pai todo-poderoso!  ela?! Como pode estar nesse estado?  
 Mrcia, seguida por Farias e Gervsio, que se anteciparam a Marlene, andava de um lado para o outro, com o cabelo todo despenteado, as roupas sujas de bebida. Como 
se fosse um m, o olhar de Marlene atraiu-a. Ela parou bem de frente a Marlene, falando-lhe:
- Mame?! Que est fazendo aqui? Quem te chamou? No disse que nunca mais queria te ver?
Marlene, sem poder evitar as lgrimas, respondeu:
- Mrcia! Mrcia, minha filha. No se preocupe. Logo mais vou embora.
- V embora agora mesmo. No quero a senhora aqui em minha casa! Eu odeio a senhora! Quantas vezes vou ter de repetir isso? Tenho dio! dio!
- Deve ter motivos para isso, mas neste momento precisa de minha ajuda, e eu no vou embora.
Mrcia lanou-se sobre ela com muita fria.
- V embora! No quero a senhora aqui. No preciso da senhora! Nunca precisei. Odeio-te!
Farias percebeu que nem tudo estava perdido. Falava ao ouvido de Mrcia:
- Isso mesmo: voc a odeia. Ela no presta. Mande-a embora.
- V embora! No a quero mais aqui. Eu odeio a senhora!
- No se preocupe. Vou embora, mas s depois que voc ficar bem. Deus  nosso Pai de bondade infinita, nunca nos deixa sem ajuda.
- Deus? Que Deus?
- O mesmo Deus que te deu a vida. Que te d todos os dias o sol e a lua. Que te deu inteligncia e um corpo perfeito. Que agora me encaminhou at aqui.
- Tudo isso  besteira. Esse Deus no existe. V embora. No quero ver a senhora nunca mais. Saia daqui!
- Mrcia. Sou sua me. Eu te amo. Quero te ajudar.
- No preciso de sua ajuda, nem de ningum. V embora!
Marlene, enquanto falava, acompanhava com os olhos Farias que rodopiava em volta de Mrcia, falando a seu ouvido:
- No ligue para ela! Voc agora  minha. Ningum vai poder ajudar!  
Mrcia olhava com dio e rancor para Marlene, que, envolvida pela situao, por um momento sentiu-se impotente. De seus olhos, lgrimas desciam. Sabia que, se aquele 
vulto estava tomando conta de sua filha, era porque ela mesma havia permitido. Mais uma vez elevou seu pensamento a Deus. Em voz alta, falou:
- Meu Deus de infinita bondade, sei que foi essa mesma bondade que me encaminhou at aqui. Permita meu Pai, que eu consiga ajudar a esta minha filha, que um dia 
foi colocada em meus braos como uma criana. No consegui fazer com que ela entendesse o valor da vida que estava nos dando, porque eu mesma no entendia. Mas hoje 
sei que, se estamos juntas nesta vida,  s por Sua vontade, meu pai. Se ela atraiu sobre si um irmo vingador,  porque deve ter cometido um erro muito grande. 
Senhor nos d a chance de nos perdoarmos mutuamente e assim reencontrarmos Seu caminho.
Farias tentou se lanar sobre ela, mas no conseguiu, e a luz que a envolvia o arremessou para longe. Encostado  parede, ele gritava:
- No pode fazer isso! Tenho autorizao para estar aqui! Ela  minha! Voc no pode evitar!
Olhando firmemente para ele, Marlene respondeu:
- Sei meu irmo, que deve ter permisso para estar aqui, mas essa permisso no seria para ajudar Mrcia? No seria para que ela retornasse ao caminho de nosso Pai?
Ao perceber que ela o via e ouvia, ele, assustado, falou:
- O que  isso? Que est falando? Que est tentando fazer? No vim aqui para ajudar essa traidora! Vim para lev-la comigo, para o mesmo lugar em que ela, com sua 
maldade, me lanou. No vou sair daqui! Voc no vai conseguir me afastar daqui! Tenho permisso! Estou exigindo a minha justia! Tenho esse direito! Essa  a Lei!
- A nica Lei que conheo  a do amor e do perdo. E  em busca dela que estou aqui neste momento. Em nome de nosso Pai, peo-lhe que a busque tambm.
- Nunca! No vou perdoar nunca! Ela me destruiu, me lanou no pior inferno que possa existir. Vou fazer o mesmo com ela. Vai conhecer todos os horrores por que me 
fez passar!
- Que Deus te ilumine.  s o que posso te desejar...
Mrcia acompanhava aquelas palavras que sua me dizia para algum que ela no via. Marluce e Luciana tambm acompanhavam, impressionadas. Ao v-las ali, paradas, 
Mrcia pegou uma almofada e atirou sobre elas, gritando:
- Saiam daqui, todas vocs. Saiam daqui!
Marlene olhou para elas e fez um sinal para que sassem. Elas entenderam. Luciana abraou Marluce, saiu e fechou a porta. J fora do quarto, Marluce, tremendo, falou:
- Dona Luciana, o que  aquilo? Com quem aquela mulher estava falando? Ela  mais louca que dona Mrcia. A gente no pode deixar as duas sozinhas. No pode, no. 
Ela disse que dona Mrcia  filha dela? Foi isso que entendi? Ela  me de dona Mrcia? No pode ser. Dona Mrcia no tem famlia.
- Como voc, tambm estou abismada com tudo isso. Conheo Mrcia h muito tempo e nunca soube que tinha me ou famlia, mas no devemos nos preocupar com isso agora. 
O importante  que precisamos ajud-la. Se existe algum que pode fazer isso, esse algum  Marlene. Ela sabe o que est fazendo. Vamos ficar aqui fora.
S ento se lembraram da menina que veio acompanhando Marlene. Ela estava sentada em um sof. Luciana aproximou-se:
- Lenita, sua av est l dentro cuidando de uma moa que est muito doente. V com Marluce at a cozinha, ela vai te dar um lanche.
Lenita, com os olhos presos  escada que levava para o andar de cima, e ao quarto de Mrcia, parecia no a ouvir. Levantou-se do sof e dirigiu-se em direo  escada 
e ao quarto. Luciana tentou evitar, mas ela a olhou de uma maneira firme, que a fez parar. Enquanto isso, Marlene, dentro do quarto, continuava em orao pedindo 
ajuda para aqueles dois irmos que estavam ali, em luta.  
- Meu Pai, sei que tudo acontece por Sua vontade, mas, neste momento, estou pedindo ao Senhor que, se houver uma chance para ajudar os dois, que essa chance seja 
dada.
Enquanto ela pedia, a porta se abria. Lenita entrou e dirigiu-se  cama onde Mrcia se debatia. Colocou sua pequena mo nos cabelos de Mrcia, que, ao v-la, parou 
e ficou olhando como se estivesse vendo um anjo.
- Que est fazendo aqui? Voc  uma criana, no pode me ver neste estado. V embora!
- No vou embora, gosto muito da senhora. Sempre a achei a moa mais bonita do mundo. No quero ver a senhora to feia assim...
Mrcia olhou para Marlene e para a menina. Parou de gritar e abriu os braos para Marlene, falando em lgrimas:
- Mame! Mame! Perdoe-me por tudo que fiz e me ajude... Ajude-me, mame... Preciso da senhora, me ajude. Preciso de seu Deus...
- Estou aqui e vou ficar at que fique completamente boa e encontre seu caminho. O meu Deus, que  tambm o seu, vai ajudar a gente, sim. Pode acreditar: Ele no 
abandona nunca seus filhos e no vai abandonar a gente agora...
Marlene, chorando muito, a abraou e puxou Lenita. As trs ficaram abraadas. Marlene disse:
- Obrigada, meu Deus, por este momento e por esta nova chance. Ajude-nos a encontrar o caminho do perdo e do amor.
No mesmo momento, uma luz muito forte tomou conta de todo o quarto. Do meio dela, surgiu a figura de Damio. Aproximou-se das trs e, sorrindo, lanou sobre elas 
mais luz. Farias, que a tudo assistia, gritou:
- Damio! Damio! Que bom que chegou. Essa mulher est tentando evitar que a justia seja feita! Est tentando evitar que a Lei seja cumprida! Ela no pode fazer 
isso, pode?
Damio olhou para ele e, sorrindo, disse:
- No, meu irmo, ela no pode. O nico que pode  voc, dando seu perdo.
- Perdo? Nunca! Quero e exijo meu direito de justia! Voc disse que era a Lei. Quero ver essa mulher comigo, l no inferno que me lanou! No vou perdoar nunca! 
 - Tem certeza do que est falando? Quer mesmo a justia? No vai aproveitar este momento para perdoar?
- No vou perdoar nunca! Quero a justia! Tenho esse direito!
- Sendo assim, nada posso fazer. Tem razo, A justia tem de ser feita. Venha comigo.
Marlene, emocionada e envolvida pelo abrao de Mrcia e Lenita, no percebeu a presena de Damio. Damio partiu, acompanhado por Gervsio e Farias. Chegaram  frente 
de um enorme prdio. Farias ficou encantado com to grande beleza.
- Que lugar  esse?
- Preciso presidir um julgamento. Voc vai me ajudar e aprender como  que se realiza. Vamos entrar?
- No estou entendendo, mas, se for para que possa fazer justia, irei a qualquer lugar.
Entraram. Dentro, havia uma sala e um corredor comprido, onde havia vrias portas, parecendo um grande hospital. Um jovem aproximou-se para receb-los:
- Ol, Damio, novamente aqui?
- Ol, Duarte. Sim, estou mais uma vez aqui. Este  Farias nosso irmo. Ele quer que a Lei seja cumprida. Est aqui para exercer seu direito de justia. Antes, porm, 
tenho de presidir, julgar e decidir o destino de alguns irmos. Trouxe Farias para que me ajude nesta misso.
- Seja bem-vindo, Farias. Nada mais agrada a nosso Deus do que a justia cumprida. Venha comigo.
Damio olhou para Gervsio, dizendo:
- Meu irmo, quero lhe agradecer por tudo que fez, mas agora pode deixar por nossa conta. Farias poder me ajudar a dar a sentena para nossos irmos e depois fazer 
com que sua justia seja cumprida. Voc pode voltar ao vale. L deve haver outro irmo precisando de sua ajuda.
- Est bem, vou agora mesmo. Farias meu amigo, que Deus te ilumine e te d o que realmente precisa para ser feliz.
- Tenho certeza de que agora serei feliz. Vou fazer cumprir a justia e aquela mulher vai ter o que merece.
Gervsio olhou para Damio e Duarte, sorriu e foi embora. Duarte, acompanhado por Damio e Farias, entrou em uma sala. Parecia um cinema, com uma imensa tela e poltronas 
confortveis. Sentaram-se. Damio disse:
- Bem, meu irmo, vamos agora assistir a um filme.
- No quero assistir a filme algum. Quero saber o que tenho de fazer para que a Lei seja cumprida.
- O que acha que deve fazer para que a Lei seja cumprida?
- Quero que aquela traidora perca tudo o que conseguiu. Quero que seja desmoralizada. Quero que se mate para ir morar naquele vale infernal!
- A justia est em suas mos. Mas, antes, preciso presidir esse julgamento.  no momento a minha prioridade. Aps assistirmos a este filme e voc me ajudar na sentena, 
cuidaremos de seu caso.

O FILME

A tela se iluminou, e uma longa estrada apareceu. Por ela, em disparada, vinha um cavalo branco. Montado sobre ele, um cavaleiro. O cavalo parou, o rosto do cavaleiro 
ficou em evidncia na tela. Do alto do morro, o cavaleiro olhava para uma casa grande que ficava no sentido contrrio. Olhou para a estrada e para o vale que o separava 
da casa e pensou: Preciso me apressar para poder chegar e dar meu consolo. Elas devem estar desesperadas. Continuou cavalgando. Olhava tudo: a enorme lavoura onde 
o verde do caf se fazia notar, as imensas terras. Ela deve estar sofrendo muito, preciso ficar a seu lado. Cavalgando, desceu o vale e comeou a subir o morro que 
o levaria at a casa. Quando chegou ao topo, pegou uma estrada que se estendia at a casa. Parou com o cavalo em frente a uma escadaria prxima  porta de entrada 
da casa. Desmontou, olhou para cima, avistou duas mulheres vestidas de preto e subiu os degraus rapidamente. A mais nova, sorrindo timidamente, estendeu a mo para 
que ele a beijasse, dizendo:
- Cssio! Seja mais uma vez bem-vindo  nossa casa. Infelizmente, hoje o dia  de muita tristeza. Mas eu sabia que em uma hora como esta voc no nos deixaria sozinhas.
Enquanto beijava a mo que lhe fora estendida, Cssio respondeu:
- Boa-tarde, Virgnia. Como est? E voc, querida Elvira? Posso imaginar como est se sentindo. No consigo acreditar que isso realmente aconteceu.
- Menino, que bom que veio! - disse Elvira. - Estou muito triste mesmo. Sabe o quanto gostava dele. Assim como a todos vocs tambm considerava Renato um filho.
- Sei disso. E eu o considerava um irmo. Ontem, pela manh fomos eu e meu pai, at a cidade. Quando terminamos de fazer as compras, encontramos um amigo, e ele 
nos levou para sua casa. Ficamos ali conversando e, quando percebemos, j era muito tarde para voltar. Ele nos convenceu de que no deveramos viajar durante a noite. 
Ento, resolvemos pernoitar ali. Hoje pela manh, terminamos de fazer as compras e voltamos. Assim que chegamos, recebemos a notcia. Soubemos que Andr esteve ontem 
l em casa, mas no nos encontrou. Vim imediatamente, nem troquei a roupa com que viajei. Ainda no acredito no que ocorreu. Se soubesse que Renato tambm iria at 
a cidade, iramos juntos e isso no teria acontecido. No me perdo por no estar com ele.
Elvira, emocionada, disse:
- No pense assim. Nada poderia evitar esse infeliz acontecimento. Tudo o que acontece tem sempre  vontade e a permisso de Deus.
- Como a invejo querida Elvira. Gostaria de poder sentir essa f que voc possui nesse Deus. Se Ele realmente existe,  muito cruel. Se assim no fosse, no teria 
afastado Renato de nossa presena de uma maneira to estpida.
- No fale assim, menino. Deus sempre sabe o que faz.
- Acredito ser bom que pense assim. Com certeza, aceitar e entender com muito mais facilidade do que eu. Por mais que queira aceitar, no consigo me conformar. 
Ele era to jovem, tinha uma vida inteira pela frente. Tinha Juliana e Helena. Foi uma grande perda. No tenho palavras. Estou muito preocupado com Juliana. Como 
ela est?
Virgnia recolheu a mo que havia estendido.
- Pode imaginar. Como todos ns, recusa-se a acreditar. Est l dentro. No diz nada, apenas chora baixinho, mas quem a conhece percebe o quanto est sofrendo. Muito 
obrigada por ter vindo. Acompanhe-me, esto todos na sala. Juliana gostar muito de v-lo.
Ele, abraado a Elvira, a seguiu. Seus olhos percorriam tudo. Chegaram a uma grande sala, no centro da qual havia uma mesa com uma urna funerria. Ao lado da urna, 
encontrava-se uma bela moa, que chorava baixinho. Cssio aproximou-se e tocou em seu ombro, fazendo com que ela se voltasse. 
- Sinto muito, Juliana. Estou aqui para ajudar no que for preciso. Sabe que poder contar sempre com minha presena e ajuda. Amo-a como se fosse minha irm e queria 
muito bem a Renato. Estou muito triste e nem sei o que dizer.
- Cssio, meu querido amigo. Muito obrigada por sua presena. Sempre tive a certeza de sua amizade, mas no sei explicar o que estou sentindo hoje. Um sentimento 
de perda muito grande. Sabe o quanto eu e Renato ramos unidos e o quanto nos amvamos.
- Sei o quanto est sofrendo, mas tudo na vida passa, e essa dor passar tambm. Elvira diz que Deus  que sabe das coisas.
Virgnia aproximou-se e abraou Juliana.
- Juliana, minha irm, voc est a em p h muito tempo. Acredito que seja melhor ir descansar um pouco. No se preocupe, atenderei a todos que chegarem.
- Tem razo, estou cansada mesmo. No sei como estaria neste momento se no fosse  amizade de vocs. Vou tomar um banho e ver se consigo descansar um pouco.
- Isso mesmo, minha irm, v e fique tranqila, no se preocupe com nada.
Juliana, com um sorriso forado, se afastou. Cumprimentou algumas pessoas e se dirigiu a seus aposentos. Antes, passou pelo quarto de sua filha, que dormia tranqilamente. 
Helena, minha filha, em sua inocncia, no est percebendo a grande perda que sofremos neste dia. No sei como conseguirei continuar vivendo daqui para frente. Nossa 
vida ser muito triste. Gostaria de ir com ele, mas preciso continuar vivendo por voc. Helena abriu os olhos. Ainda meio adormecida, viu sua me a seu lado e sorriu:
- Mame, sonhei que papai est l no cu.  verdade?
- , sim, minha filha. Ele est no cu. Olhando por ns.
A menina voltou a dormir. Juliana cobriu-a, beijou sua testa e foi para seu quarto. Dentro do quarto, olhou para sua cama, arrumada como sempre. Tudo est igual: 
os mveis, as cortinas... Mas estou sentindo este enorme vazio. Como nossa vida pode mudar to de repente? Ontem mesmo nos amamos aqui, nesta cama, e fizemos promessas 
de amor eterno. Oh, meu Deus, o que acontecer comigo e com minha filha? Como poderemos viver sem ele? Renato era nossa fortaleza, nosso porto seguro. Deitou-se 
na cama. Seus olhos estavam vermelhos do muito que havia chorado, mas agora no havia mais lgrimas. Sentia um aperto muito grande no corao. Seu pensamento voltou 
ao passado: Estou lembrando-me o dia em que o conheci. Veio acompanhado por Cssio, nosso bom vizinho e amigo de infncia. Cssio tem dois anos a mais do que eu, 
e Virgnia, minha irm, tem um. Crescemos juntos. Quando pequenos, estudamos com os professores que papai e o pai de Cssio contrataram. Sempre fomos muito unidos. 
Estou me lembrando, agora, o dia em que Cssio chegou triste em casa, quando havia completado dezoito anos:
- No sei o que fazer, estou muito triste.
Eu e Virgnia no entendemos, porque ele era sempre muito alegre e espontneo. Perguntei:
- Que aconteceu? Por que est assim?
- Papai comunicou-me que chegou  hora de ir estudar na Frana. Ele quer que eu tome conta da fazenda e acredita que para isso preciso estudar fora. Insisti para 
ficar aqui, mas ele est inflexvel. Eu e Virgnia ficamos muito tristes. Lembro que disse:
- Vamos sentir sua falta, mas seu pai deve ter razo. Para ele tambm deve estar sendo difcil ficar sem sua presena.
- No sei, no. s vezes, penso que ele no gosta de me ver. Acredito que me culpe pela morte de mame. Por isso quer que eu v embora para bem longe.
- Cssio! Pelo amor de Deus, nem pense nisso! Seu pai sabe que voc no teve culpa, sabe que sua me morreu porque tinha uma doena que contraiu antes de engravidar. 
Sabe que ela, mesmo sabendo que morreria e, breve, quis deixar para ele um filho. Por isso, todos sabemos que ele  louco por voc. Tenho certeza de que ele s est 
querendo seu bem.  
 - Juliana, voc, s vezes, me parece to ingnua. Acredita que o mundo  feito s de pessoas boas. Meu pai no me tem nenhum afeto, tenho certeza. Por isso, preciso 
mostrar a ele que saberei cuidar de tudo que nos pertence. Nunca lhe darei um desgosto.
- No posso acreditar nisso. Ele  um homem muito bom, s est querendo seu bem e est mandando-o estudar fora para que realmente se instrua. Se no gostasse de 
voc, ele o deixaria por a, trabalhando no arado, sem se preocupar com seu futuro.
Aps alguns dias, ele foi embora. Um dia antes de viajar, veio para se despedir de mim e de Virgnia. Samos andando pelo campo. Em um dado momento, ele parou e 
pegou em nossas mos, dizendo:
- Vou embora, mas no quero que me esqueam. Vou estudar muito para poder voltar logo.
Ele chorava, e ns duas o acompanhamos no pranto. Eu e Virgnia continuamos aqui, aprendendo o que era necessrio a uma mulher: costurar, pintar, bordar e tocar 
piano. Quando ele foi embora, sentimos muito sua falta. Durante todo o tempo em que esteve fora, ns nos correspondamos freqentemente. Ele nos contava como era 
a faculdade, seus amigos. A princpio foi difcil, mas com o tempo ele se acostumou. Quatro anos se passaram at recebermos a notcia de que ele estava voltando. 
Como eu e Virgnia ficamos felizes! Nosso melhor amigo estava retornando! Preparamos uma pequena festa de boas-vindas. Ele retornou e veio  nossa casa, acompanhado 
por Renato. Conheceram-se na Frana, onde haviam estudado juntos. Os dois desceram dos cavalos, e Cssio foi o primeiro a falar:
- Bom dia, meninas. Finalmente, voltei. Podem imaginar como estou feliz. Este  Renato, meu amigo. Est aqui passando frias. Renato, estas so Juliana e Virgnia, 
minhas amigas de infncia e moradoras desta bela fazenda.
- Lembro quando nossos olhos se encontraram... Eu tinha vinte anos e nunca havia me apaixonado. No sei explicar o que senti naquele momento. Meu corao comeou 
a bater descompassado. Por mais que quisesse, no conseguia desviar meus olhos dos dele. Era como se um m nos atrasse. Ele tambm, mais tarde, me confessou que 
sentira o mesmo. Aproximou-se, eu, timidamente, estendi minha mo. Ele a segurou levemente e a beijou. Senti como se um fogo imenso atingisse todo o meu corpo. Retirei 
a mo bruscamente. No entendia o que estava acontecendo, mas sabia que algo muito forte se iniciara naquele momento. Entramos em casa. Percebi que os olhos de Virgnia 
brilharam ao v-lo. Ela providenciou um lanche, que foi servido na varanda para ns quatro. Cssio estava entusiasmado com as mudanas encontradas na fazenda. Alegremente, 
nos contou sobre o tempo em que esteve estudando. Renato apenas sorria, concordando, e no desviava seus olhos dos meus. Um pouco embaraada, eu respondia s perguntas 
de Cssio:
- Juliana, seu pai no se encontra aqui?
- No, ele foi at a cidade fazer algumas compras.  uma pena. Ele teve urgncia de ir, mas voltar ainda hoje. Tenho certeza de que gostaria muito de conhec-lo.
- No faltar oportunidade; j que estamos em frias, poderemos vir todos os dias para passear. O que acham?
Virgnia respondeu:
- Creio ser uma tima idia. Somos sozinhas, e, embora nos demos muito bem,  sempre bom termos companhias diferentes para nos distrairmos.
Daquele dia em diante, comeamos a nos ver todos os dias. Pela manh, Cssio e Renato chegavam cedo, tomvamos caf e saamos para cavalgar pelos arredores da fazenda. 
s vezes, amos at a fazenda de Cssio e conversvamos com seu pai. Embora eu quisesse lutar contra, o que sentia por Renato era mais forte. Uma tarde, quando Virgnia 
e Cssio saram para ver um bezerro que havia nascido, Renato falou:  
- Juliana, preciso falhar-lhe. No sei qual ser sua reao, mas no posso mais evitar. Desde que a vi, senti que  a mulher que amo e quero para minha esposa. O 
que me responde? Quer se casar comigo?
Comecei a tremer. Embora eu tambm sentisse algo muito forte por ele, no pensei que seria daquela maneira. Fiquei sem saber o que responder, apenas olhei em seus 
olhos por alguns minutos e desviei meu olhar em seguida, sem nada dizer. Ele falou com tristeza:
- Vou interpretar o seu silncio como uma negativa. Perde-me, pensei que tambm sentisse algo por mim.
- Eu sinto! Eu sinto... S que no pensei que voc sentisse o mesmo que eu. Voc me pegou de surpresa. No estou negando seu pedido, s estou surpresa.
- Ento, quer dizer que aceita ser minha esposa?
- Acredito que sim... Tambm sinto algo muito forte entre ns. S penso em voc, o dia inteiro e,  noite, sonho que estamos juntos. Acredito que isso seja o amor. 
S que precisamos falar com meu pai. No sei qual ser sua reao.
- No se preocupe com isso: falarei com ele e farei com que entenda. Falarei do amor que sentimos um pelo outro e, com certeza, ele entender.
Quando terminou de falar, beijou-me suavemente nos lbios. Senti como se estivesse voando. Senti vontade de sair mostrando para o mundo como estava feliz. Estvamos 
sorrindo um para o outro, quando Virgnia e Cssio voltaram. Ao nos ver daquela maneira, Cssio perguntou:
- Posso saber o que est acontecendo aqui?
- Nada est acontecendo, meu amigo. Apenas pedi Juliana em casamento e ela aceitou.
- Em casamento? No sabia de seu interesse por ela.
- Acredito ter me apaixonado desde o primeiro momento em que a vi. No comentei antes porque precisava saber se ela tambm sentia o mesmo por mim. Agora que tive 
a resposta, estou muito feliz. O mais importante  que ela me aceitou, porque me ama tambm. Agora, s preciso pedir permisso a seu pai.
Virgnia aproximou-se, me beijou e disse:
- Embora, assim como Cssio, eu esteja surpresa, quero cumpriment-la. Espero que seja muito feliz.
- Obrigada, minha irm. Sempre soube que podia contar com voc.
Cssio ainda insistiu:
- Conhecendo o pai de Juliana muito bem, acredito que no vai se opor. Ele j est velho e quer ver a filha protegida, de preferncia por um casamento. S exigir 
que ela permanea aqui a seu lado. Mas... E seu pai, Renato? Acredita que ele aceitar? Sabe muito bem que o mandou estudar para que continuasse  frente das empresas. 
Ele aceitar sua mudana para a fazenda, abandonando tudo que planejou para sua vida?
- Cssio, realmente isso ser um problema, mas sei tambm que nada poder me separar de Juliana. Quanto a viver nesta fazenda, se essa for  vontade do pai dela, 
eu aceitarei. Nada entendo de fazendas, mas sei que aprenderei. A nica coisa que quero  permanecer ao lado de Juliana para sempre.
- Sendo assim, s posso desejar aos dois muitas felicidades. E torcer para que tudo d certo.
- Obrigada, meu amigo, sei que dar certo. O amor que sentimos ser mais forte que tudo.
Virgnia disse:
- Vamos selar este feliz acontecimento com um jantar. Assim, Renato poder fazer o pedido oficialmente.
Aplaudimos a idia de Virgnia. Ela mandou preparar um jantar bem do gosto de papai. Cssio e Renato chegaram juntos. Vieram muito bem vestidos e Renato no conseguia 
esconder sua felicidade. Quando terminamos de jantar, passamos para a sala onde o caf seria servido. Assim que nos sentamos, Renato disse:
- Senhor Olavo, sei que no me conhece muito bem, mas, desde que aqui cheguei me apaixonei por sua filha Juliana. Hoje, tomei conhecimento de que ela sente o mesmo 
por mim. Por isso, queria pedir sua permisso para que possamos nos casar.
Papai olhou para mim. Eu somente sorri e abaixei os olhos. Ele perguntou:
- Minha filha,  isso mesmo que deseja? Quer se casar?
-  isso o que desejo. Tambm amo Renato. Ele prometeu que, se for sua vontade, aps o casamento continuaremos vivendo aqui.
- Sendo assim, se pretendem continuar vivendo aqui, s posso abenoar essa unio e que Deus lhes d muita felicidade.
Renato agradeceu a meu pai e beijou minha mo. Virgnia e Cssio nos cumprimentaram, j planejando a festa de nosso casamento. Eu estava feliz como nunca estivera 
antes. Amava Renato e sabia que seramos felizes. Naquela noite, ele se despediu, dizendo que iria para sua casa falar com seus pais. Fiquei ansiosa, esperando. 
No fundo, tinha medo de que eles no aceitassem.
- Irei at l e conversarei, contando tudo o que aconteceu. Sei que ser difcil, porque meu pai tinha planos diferentes para meu futuro, mas direi que a amo e que 
minha vida no ter sentido sem voc a meu lado.
Ele era de uma famlia rica da capital. No conhecia a vida do campo. Seu pai, um industrial famoso, possua vrias tecelagens. Mandou-o estudar na Frana para que 
tomasse conta de suas empresas. Meu pai, quando veio da Itlia, instalou-se aqui, onde nasci e fui criada. Amo tudo neste lugar, mas, se fosse preciso, embora meu 
pai ficasse triste, eu acompanharia Renato para qualquer lugar. Uma semana depois do pedido de casamento, Renato voltou. Trazia o rosto abatido. Chegou, beijou minha 
mo, cumprimentou meu pai e disse:
- Infelizmente, no consegui convencer meu pai. Ele no aceita meu casamento com outra moa que no seja aquela que ele prprio escolheu. Alm disso, est me cobrando 
por tudo que gastou em meus estudos para que eu continuasse cuidando de suas empresas.
Senti que a terra faltava sob meus ps. No conseguia falar, meu pai foi quem me socorreu:  
- Bem, preciso saber como ficaram as coisas. Veio at aqui para dizer que no vai mais se casar com minha filha?
- No, senhor. Ao contrrio: disse a meu pai que a amava e que me casaria com ela, com ou sem seu consentimento. Ele no aceitou, dizendo aos gritos:
- Se  isso o que quer, assim seja, mas vou ter de fazer algo que jamais imaginei que um dia faria. A partir de hoje, no o considero mais meu filho, por isso no 
me chame mais de pai e deserdo-o de todos os meus bens!
- Ele saiu da sala em que conversvamos e no me dirigiu mais a palavra, no me deixando alternativa alguma.
Renato nos contava tudo com a voz embargada, quase chorando. Olhei para meu pai, que assentiu com a cabea. Aproximei-me de Renato e, segurando suas mos, beijei-o 
no rosto, dizendo:
- Como ele pde fazer isso? No sabe o quanto voc o ama e respeita?
- Ele lutou muito para ter tudo que tem por isso nada justifica que eu lhe desobedea. Meu casamento foi um tipo de contrato feito com um seu amigo; queriam os dois 
que nossas famlias se unissem para que as fortunas aumentassem.
- E a moa, o que pensa a respeito disso?
- Ela apenas aceitou o que o pai lhe imps, mas na realidade, tambm no me ama. Acredito que esteja feliz por minha recusa, assim ficar livre de um compromisso 
no desejado. Em tudo isto s existe um problema: para ficar com voc, Juliana, ficarei sem dinheiro. Meu pai me deserdar e no me dar mais um centavo. Nada entendo 
a respeito da vida no campo, mas, se me aceitar como seu esposo e o senhor como seu genro, garanto que aprenderei.
Meu pai olhou para mim e para ele, sorriu e disse:
- Aqui existe muito trabalho, e tenho o necessrio para vivermos muito bem. Se o que querem  casar e construir uma famlia, eu aceito. S quero a felicidade de 
minha filha. Casamos um ms depois. A cerimnia foi simples, mas eu era a mulher mais feliz do mundo. Virgnia e Cssio foram nossos padrinhos. Embora, no comeo, 
Renato nada entendesse do campo, assim que casamos comeou a se dedicar e a amar tudo aqui. Nunca mais quis voltar para a cidade. Seu pai no lhe perdoou por haver 
casado e abandonado tudo. Por isso o deserdou e nunca mais quis sua presena diante dele, nem mesmo quando Helena nasceu. Mesmo assim, fomos sempre muito felizes. 
Papai morreu quando Helena estava com dois anos. Foi a primeira grande perda que senti, mas Virgnia, Cssio e Renato estiveram sempre a meu lado. Hoje, sei que 
papai est no cu e, com certeza, recebendo meu Renato. No entendo como esse acidente pde ter acontecido. Ontem pela manh, Renato, despediu-se. Iria at a cidade 
prxima fazer umas compras para a fazenda. Abraou-me, dizendo:
- Meu amor, preciso ir, mas volto  noitinha. Sabe que no gosto de deix-la sozinha.
- V com Deus, e no se esquea de trazer um presente para Helena. Sabe como ela fica sempre ansiosa por sua volta.
- Claro que no esquecerei e trarei algo para voc tambm. Vocs so os tesouros de minha vida...
Ele foi sozinho. Sempre que fazia essa viagem, levava um empregado da fazenda com ele, mas, nesse dia, resolveu ir s. Havia muito trabalho com a colheita do caf. 
Por isso, todos os empregados eram necessrios. O dia passou normalmente. Fiquei cuidando de meus afazeres. Aps o almoo, li uma histria para Helena, em seguida 
ela dormiu e fui pintar minha tela. Depois da famlia, o que mais adoro so minhas telas. Adoro pintar paisagens do campo e da natureza. Assim relembrando, Juliana 
sentiu um aperto no corao e a vontade de chorar voltou. Enxugou as lgrimas, sabia que precisava ser forte. Foi at uma penteadeira, na qual havia um espelho. 
Olhou para seu rosto e percebeu que seus olhos estavam vermelhos. Refletido no espelho, viu um quadro na parede, uma pintura feita por um artista local: ela e Renato 
sorriam felizes. Sorriu ao lembrar do dia que os dois posaram para o artista. E pensou: ramos to felizes. No consigo aceitar que tudo terminou. Ontem, quando 
Renato no voltou fiquei apreensiva e disse para Elvira:
- Elvira, estou nervosa. Renato no voltou at agora, e ele no costuma demorar tanto.
- Tambm estou preocupada, menina. No ser melhor mandar algum refazer o caminho que ele costuma seguir?
- Creio que sim. Chame Andr, ele conhece o caminho como ningum. Pea a ele que leve dois ou trs homens junto. Estou com um pressentimento muito ruim.
- Farei isso agora mesmo. Mas no se preocupe: se Deus quiser, nada aconteceu. Vamos confiar. Volto j.
- Saiu apressada da sala e voltou em seguida, acompanhada por Andr:
- Pois no, senhora. Estou aqui, o que quer que eu faa?
- Quero que percorra o caminho que o senhor Renato costuma fazer. V com mais alguns homens, olhem tudo. Ele no chegou at agora, estou preocupada.
- Pode deixar senhora. Vou encontr-lo, nem que para isso tenha de ir at a cidade.
Andr saiu e fiquei mais calma, pois sabia da dedicao dele para com Renato. Fiquei esperando com a certeza de que ele encontraria meu marido. Duas horas mais tarde, 
ele voltou. Vinha montado em seu cavalo e, em um outro, Renato estava deitado sobre a sela. Eu vi pela janela quando chegaram. Corri para fora, gritando:
- Que aconteceu, Andr? Por que o est trazendo assim deitado sobre o cavalo?
- Sinto muito, senhora. Ele est morto...
- Morto? Como morto? Que aconteceu?
- No sei. Ns o encontramos deitado no meio da estrada. Quando cheguei perto, notei que estava morto. Examinando, percebi que sua mo estava preta e que nela havia 
uma marca. Acredito que tenha sido picado por uma cobra.
- Cobra? Picado por uma cobra? Ele nunca se deixaria picar por uma cobra!
- No sei como aconteceu, senhora, mas, pelo estado de sua mo, s pode ter sido uma cobra. Ser melhor mandar chamar o doutor Joo Pedro, ele poder dizer se  
picada de cobra ou no.
Doutor Joo Pedro, o mdico de nossa famlia, foi chamado. Aps examinar o corpo de Renato, principalmente sua mo, declarou:
- Juliana, a marca que ele tem em sua mo  mesmo uma picada de cobra, e das mais venenosas. Sua morte foi quase instantnea. Foi um terrvel acidente.
- No pode ser... Ele no se deixaria picar por uma cobra.
- Mas foi o que aconteceu. No resta a menor dvida.
Fiquei intrigada, sem poder acreditar. No comeo, Renato nada entendia da vida no campo, mas, aps alguns anos, tornou-se um especialista, apaixonou-se por tudo. 
Depois da morte de papai, passou a comandar tudo na fazenda. Agora tambm isso no importa mais. O certo  que ele est morto e que seu corpo logo mais ser levado 
para o cemitrio. E eu vou ficar sozinha. No sei como vai ser minha vida. Ainda bem que tenho Virgnia e Cssio para me consolar. Eles me ajudaro a tocar minha 
vida para frente. Helena  ainda muito pequena, ser difcil explicar a ausncia do pai, mas Deus me ajudar.
- Juliana posso entrar?
- Claro que pode minha irm, estou apenas recostada.
- J est quase na hora do enterro, voc precisa voltar para a sala.
- Para ser sincera, no gostaria de ir. No suporto a idia de v-lo partir para sempre, mas sei que tenho de cumprir todas as formalidades.
- Tambm estou sentindo muito, mas no h outra maneira. Tudo tem de ser feito dentro dos conformes.  tudo muito triste, mas Deus  quem sabe de nossas vidas.
- s vezes, penso que Deus no  justo. Por que levar meu marido, to belo e forte? Por que nos deixar aqui sozinhas, eu e Helena?
- Nunca vamos entender os propsitos de Deus, mas vocs no esto sozinhas. Estou e estarei sempre com voc. Vou ajud-la a criar Helena. Ela  muito pequena ainda, 
mas, com o tempo, tudo passar e ela ser uma linda moa, voc ver.
- Obrigada, Virgnia. Nunca duvidei disso. Mas vamos, no podemos retardar o inevitvel. Por favor, fique a meu lado.  
- Claro que ficarei, mas procure ficar calma. Vamos acordar Helena? Antes de vir para c, passei por seu quarto e ela estava dormindo profundamente.
- Acredito ser melhor no a acordarmos, Virgnia. Ela no precisa presenciar um momento to doloroso para todos ns.
- Tem razo. Vamos, sei o quanto est sofrendo, mas no esquea nunca que sempre estarei por perto.
Juliana levantou-se e de seus olhos lgrimas insistiam em cair. No podia acreditar que aquilo realmente estava acontecendo. Seu marido, seu amor, estava indo embora 
para sempre. Com lgrimas correndo pelo rosto, falou:
- Virgnia, nunca pensei que isto pudesse acontecer. Pensei que envelheceria ao lado de Renato. O que vai ser de minha vida? No estou me sentindo com toda essa 
fora. Tenho vontade de me deitar e dormir para depois acordar e ver que tudo foi um sonho ruim, nada mais que um sonho ruim...
- Infelizmente, a realidade  outra. No  um sonho. Vamos...
Entraram na sala. Juliana olhou para a mesa onde estava o corpo de Renato e sentiu um aperto muito grande no corao. As lgrimas corriam soltas. Olhou  sua volta 
e falou para Virgnia:
- Embora tenham sido avisados, ningum da famlia dele compareceu. Ser que nem na hora de sua morte conseguiu ser perdoado por ter me amado? Ser que seu pai nem 
agora lhe perdoar? Meu Deus, como isso pode acontecer?
- Agora no  hora de se preocupar com isso. Esquea todos. Simplesmente, despea-se de seu marido.
- Tem razo, Virgnia. Nada agora  mais importante que isso.
Dirigiu-se para o centro da sala. Olhou para o rosto de Renato, que estava tranqilo. Olhou para seus cabelos. Passou a mo por seu rosto e chorava baixinho, enquanto 
pensava: Meu amor, no sei como conseguirei viver sem voc, mas que Deus leve sua alma para o cu, onde deve ser seu lugar. Continuarei vivendo para terminar de 
criar nossa filha. Sei que um dia estarei a seu lado. Adeus, meu amor.  Cssio, que se encontrava ao lado da urna morturia, abraou Juliana, dizendo:
- Minha amiga, est tudo terminado. Agora temos de lev-lo. Depois que tudo isto terminar, voc tem de descansar e recomear sua vida. Estou e estarei sempre com 
voc.
- Sei disso, Cssio. Sei que voc e Virgnia estaro sempre a meu lado.
- Pode ter sempre esta certeza. Agora, afaste-se para que a urna possa ser fechada.
Juliana beijou o rosto de Renato e, chorando, se afastou. A urna foi levada para o cemitrio que havia dentro da prpria fazenda. Renato foi enterrado ao lado do 
pai e da me de Juliana. Aps as cerimnias finais, as pessoas foram se despedindo. Todos os amigos presentes podiam notar nos olhos de Juliana a enorme dor que 
estava sentindo naquele momento. Virgnia permanecia a seu lado, abraando-a e consolando-a. Aquele gesto era admirado por todas as pessoas que ali se encontravam. 
Depois que todos foram embora, Juliana dirigiu-se at a sepultura, dando um ltimo adeus a seu marido, que fora to querido e que a fizera to feliz. Cssio e Virgnia 
permaneceram olhando  distncia. Aps algum tempo, Juliana retornou, e os trs voltaram juntos para casa. Ao chegarem, encontraram Helena brincando com uma boneca. 
A bab estava com ela. A menina alheia a todo o sofrimento que os demais sentiam ao ver a me, correu para seus braos. Juliana recebeu-a de braos abertos e cobriu-a 
de beijos. Cssio, logo depois, se despediu. Virgnia dirigiu-se a seus aposentos. Juliana, com a menina no colo, embalava-a com todo o amor que podia dar. Seu corao 
doa ao imaginar que aquela pequena no conseguia perceber a grande perda que havia tido.
- Mame, onde esto todas aquelas pessoas que estavam aqui? Onde est papai?
Juliana sentiu um enorme desejo de chorar, mas sabia que no podia. Agora, s lhe restava  filha, que era ainda muito pequena e no entenderia. Respondeu:
- Todas as pessoas foram embora. Papai foi fazer uma viagem muito longa, mas ns duas nunca o esqueceremos, est bem?  
 - Uma viagem? Por que ele no se despediu de mim? Sempre que ele viaja, despede-se. E na volta sempre me traz um presente. Desta vez ele tambm vai me trazer um 
presente?
Juliana no suportou. Abraou-a e, com o rosto banhado de lgrimas, mas escondido por trs da cabea da menina para que ela no notasse, falou:
- Quando ele voltar, trar um lindo presente, no se preocupe. A menina percebeu que a voz da me estava diferente.
Colocou seu rostinho bem em frente ao de Juliana e disse:
- Mame, por que est chorando? Est com dor de cabea? Juliana sorriu, enquanto respondia:
- , filhinha, estou com dor de cabea, mas logo vai passar. Agora, vamos tomar um lanche?
- No estou com fome, no. Elvira me deu um lanche, mas se a mame me quiser vou junto tomar um pouco de leite, assim a mame come tambm.
Juliana abraou e beijou a filha, pegou-a no colo e as duas foram para a cozinha. Ela mesma queria preparar o lanche. Embora no estivesse com fome, sabia que precisava 
de algum alimento, mesmo que fosse s uma fruta ou um copo de leite. Depois daquele dia, Juliana continuou sua rotina, embora sentindo um profundo vazio dentro de 
si. As pessoas que a conheciam puderam notar um profundo abatimento em seu rosto, mas todos sabiam se tratar do enorme sofrimento que estava sentindo pela falta 
do marido, morto to jovem e de uma maneira to inesperada. Em uma manh, Cssio estranhou o fato de seu pai no levantar. Foi at seu quarto e encontrou-o deitado 
aos ps da cama. Mandou chamar o mdico, mas no adiantou: seu pai partira. Cssio ficou arrasado. Blasfemou contra Deus:  
 - Se  que existe mesmo, por que  to mau? Por que nos tira sempre as pessoas que mais amamos? Eu o odeio!
Juliana aproximou-se:
- No fale assim. Seu pai foi um excelente homem. Conseguiu tudo o que quis na vida. Voc deve continuar de onde ele parou.
Ele a abraou e chorou muito. O tempo passou. Fazia j mais de um ano que Renato morrera. Cssio chegou quando Juliana estava na sala arrumando as flores de um vaso. 
Ela estendeu a mo para que ele beijasse, enquanto falava:
- O que o traz aqui to cedo, Cssio?
- Preciso falar com voc.  um assunto srio, mas no posso mais protelar. Tem de ser hoje.
Juliana sorriu, falando:
- Meu Deus! Por sua expresso, o assunto  srio mesmo! Pode falar, estou ouvindo.
- Bem... No sei como comear...
Juliana, ainda sorrindo, disse:
- Que tal pelo comeo?
- Bem... Faz mais de um ano que Renato partiu, agora acredito poder contar a voc algo que guardo h muito tempo. Quando voltei do exterior, meu desejo era chegar 
aqui e contar-lhe tudo, mas voc se apaixonou por Renato e se casaram. Senti que minhas esperanas haviam terminado.
- Que est querendo dizer? No estou entendendo.
- Agora que tomei coragem, no me interrompa, por favor. Vou falar tudo de uma vez.
Juliana ficou calada, olhando para o amigo de tantos anos. Ele continuou:
- Desde criana, sempre fui apaixonado por voc. Quando adulto, sabia do interesse que havia por parte de nossos pais para que nosso casamento fosse realizado. Quando 
fui estudar fora, no deixei de pensar em voc um momento sequer. Minha inteno era voltar e pedir-lhe em casamento, porm foi tarde. Perdi-a para Renato, mas agora 
ele no est mais aqui e posso novamente acalentar esse sonho. Quer se casar comigo?
Juliana, assustada com aquela declarao, arregalou os olhos para ele, perguntando:
- O que  isso, Cssio? Nunca pensei que sentisse por mim algo que no fosse amizade. 
- Sei disso, mas sempre senti. Sempre a amei desde que ramos crianas. Quero me casar com voc. O que responde?
Ela, sem jeito, meio sem saber o que fazer, respondeu:
- No sei, nunca esperei ouvir de voc algo como isso. No posso me casar com voc e com ningum, principalmente com voc, que sempre considerei um irmo. A amizade 
que sinto por voc  maior que qualquer coisa e no gostaria de estragar algo to bonito. Sinto muito, mas no posso me casar, no por enquanto. Trago ainda, dentro 
de mim, muita saudade de Renato. No sei se algum dia isso passar, mas sei que nunca poderei me casar com voc.  meu amigo. Por favor, esquea que me falou isso. 
Tambm esquecerei. No vamos estragar nossa amizade, que foi sempre to bonita e sincera...
- Est bem... Perdoe-me, nunca mais tocarei no assunto. Ele saiu da sala quase correndo. Juliana percebeu que ele chorava, mas nada podia fazer. Para ela, Cssio 
era simplesmente um amigo. Um amigo muito querido, nada, alm disso. No podia se casar com ele, e sentia que com ningum.
O tempo passou. Cssio nunca mais tocou naquele assunto. Aos poucos, a rotina foi voltando. Ela j nem se lembrava mais daquele assunto, at que certo dia Cssio 
chegou acompanhado por Virgnia. Vinham abraados e sorrindo. Virgnia disse:
- Estamos aqui juntos para lhe dar uma notcia. Vamos nos casar, Juliana.
- Casar? Vocs dois? Como pode ser? Nunca deixaram transparecer que se amavam.
- Ns mesmos no sabamos, foi de repente. Numa troca de olhares percebemos que nos amvamos; para pensarmos em casamento foi s um pulo.
- Fico muito feliz em saber disso. So as pessoas que mais amo depois de Helena. Desejo do fundo do meu corao que sejam muito felizes. Quando vai ser?
- Daqui a trs meses. Gostaramos de fazer uma grande festa, para isso vamos esperar a colheita, assim a festa ser uma s. Que acha? Embora saibamos que ainda pensa 
muito em Renato, no sabemos se concordar com a festa.  
- Acredito que ele no se importaria vocs sempre foram nossos melhores amigos. Acredito que tenham mesmo de fazer uma grande festa. Virgnia temos de preparar seu 
enxoval. Ser que trs meses sero suficientes? Cssio, onde iro morar? Aqui ou em sua fazenda?
- J conversamos sobre isso. Virgnia achou melhor que morssemos aqui para que voc no fique sozinha. Isto , se voc quiser.
- Claro que quero. Como conseguiria viver sem minha irm a meu lado? Ainda bem que voc est cuidando de tudo.
- Sendo assim, vou trazer para c meu escritrio. J que estou cuidando de sua fazenda desde que Renato morreu, ser melhor trazer os documentos de minha fazenda 
tambm, assim cuidarei de tudo sem precisar ir daqui para l.
- tima idia. Papai e Renato nunca permitiram que eu me envolvesse com os problemas da fazenda e, por isso, nada entendo. Se no fosse voc, no sei como seria.
- Pode ficar despreocupada: tudo est caminhando bem. H colheita este ano ser uma das melhores que j houve. A propsito, preciso que me assine o contrato de venda 
do caf.
- Assinarei assim que quiser. Virgnia vamos ver o que precisamos comprar para seu enxoval.
- Vamos, sim. Vai ser preciso comprar muitas coisas.
As duas se despediram de Cssio e foram para o quarto de Virgnia. Juliana realmente estava feliz com aquele casamento. Queria que a irm tivesse tudo de melhor. 
Fizeram uma lista enorme do que precisava ser comprado. Virgnia estava muito feliz, parecia ter ganhado a sorte grande.
- Juliana, agora vou realizar meu grande sonho: casar-me com Cssio, que, alm de ser o homem que amo,  tambm uma das maiores fortunas deste lugar, perdendo s 
para a de papai. Tenho certeza de que ele me far muito feliz.
Juliana estava sendo sincera: gostava muito dos dois. Sabia que eles s poderiam ser felizes.
Pouco depois que Virgnia saiu, Helena veio at o quarto da me. Estava chorando.
- Que foi minha filha? Que aconteceu?  
- Estou com saudade de papai. Ele foi viajar e no voltou at agora, j faz muito tempo...
Juliana sentiu novamente aquele aperto no corao. Abraando a filha, respondeu:
- Filhinha, o lugar para onde papai foi  muito longe, mas um dia estaremos com ele. Voc, por enquanto, tem s de brincar e crescer para que ele, quando voltar, 
fique muito feliz por encontr-la uma linda moa.
Com a menina no colo, foi para a sala, lhe deu alguns brinquedos e ficou por algum tempo brincando com ela. Elvira veio pegar Helena para lhe dar o lanche da tarde. 
Juliana foi para seu quarto, recostou-se na cama e comeou a chorar, pensando: Tambm sinto muita falta de Renato. Queria que ele estivesse aqui comigo, ainda mais 
neste momento em que terei de demonstrar felicidade. Na realidade, estou feliz com esse casamento. Virgnia e Cssio so meus melhores amigos, s posso desejar que 
sejam felizes. Ainda bem que Cssio se recuperou daquele amor que pensou sentir por mim. Daquele dia em diante, nossa amizade cresceu ainda mais. Quando me casei 
com Renato, ele ficou feliz e ajudou em tudo para que a festa fosse um sucesso, como realmente foi. Esteve sempre a meu lado. Est cuidando de tudo aqui na fazenda. 
S posso mesmo ficar muito feliz com esse casamento. Eu amo os dois. O casamento realizou-se trs meses depois. Juliana preparou o melhor quarto da casa. Ficou como 
Virgnia sonhara. Deu-lhes de presente uma viagem para a Europa. Ficariam viajando um ms inteiro. Antes de viajar, Cssio transmitiu todas as ordens necessrias 
para Andr, que era o homem de confiana dele, assim como o fora do pai de Juliana e de Renato. Virgnia ficou muito bonita vestida de noiva. Todos os convidados 
puderam notar a felicidade estampada no rosto de Juliana e o orgulho que sentia por estar dando uma festa to bonita para a irm. Cssio, sorridente, atendia a todos. 
 noite, aps os convidados terem ido embora, Cssio e Virgnia despediram-se de Juliana. Cssio disse:
- Juliana, querida, estamos indo amanh de manh. No precisa se levantar cedo. Sabemos que est cansada com toda essa movimentao, por isso vamos nos despedir 
agora. No se preocupe com nada, Andr j tem todas as ordens. Se precisar de alguma coisa, basta falar com ele.
- Cssio, no se preocupe comigo. Sua nica preocupao, agora, deve ser fazer minha irm feliz.
Virgnia, abraando a irm, falou:
- Isso ele far, com certeza. Demoramos muito para descobrir, mas sabemos hoje que nascemos um para o outro e que seremos muito felizes.
-  o que mais desejo. Tenho certeza de que ser assim. 
Despediram-se e foram para o quarto. Juliana saiu para a varanda. Olhou para o cu, a lua brilhava muito. Muitas estrelas faiscavam. Ela se encantou com a beleza 
que via.
- Estou mesmo exausta. Os preparativos para o casamento foram cansativos, mas valeu a pena. Deu tudo certo: Virgnia estava uma linda noiva. Ela e Cssio sero felizes.
Ficou ali por muito tempo. A saudade de Renato era imensa, sabia que em alguma daquelas estrelas ele devia estar. Escolheu uma e, olhando firmemente, mandou um beijo. 
Entrou em casa. Apesar da saudade, estava contente por ver seus melhores amigos casados e felizes. Antes de se deitar, passou pelo quarto de Helena, que, tambm 
cansada por toda a movimentao da festa, dormia tranqilamente. Cobriu a menina, beijou sua testa e foi para seu quarto. 

A JUSTIA DA LEI

Os dias passaram. Para Juliana, nada mudou, sua rotina foi sempre  mesma: dava algumas ordens e cuidava de Helena; nas horas de folga, pintava. J estava acostumada, 
mas sentia muita falta da irm, que sempre tivera a seu lado. Chamou Elvira. Assim que ela chegou, Juliana disse:
- Amanh, Virgnia e Cssio estaro voltando da viagem. Mande arrumar o quarto deles com todo o carinho e que sejam colocadas muitas flores. O jantar deve ser preparado 
com tudo o que eles gostam, devem chegar com muita fome. Preste ateno aos detalhes, quero que tudo esteja em ordem.
- Pode ficar tranqila, a casa estar um brinco. Tambm estou com muita saudade de meus meninos.
Elvira saiu. Juliana ficou andando pela casa, verificando se tudo estava em ordem. Quem cuidava da arrumao era Virgnia, por isso sabia que ela gostava de tudo 
em seu lugar. Olhou a sala, o corredor. Parou em frente  porta do escritrio. No costumava entrar naquele aposento, mas precisava ver se tudo ali estava arrumado 
tambm. L dentro, olhou para um quadro com a imagem desenhada de seu pai. Pensou: Papai, o senhor deve estar feliz, como eu, pelo casamento de Virgnia. Ela ser 
muito feliz, pode ficar tranqilo. Continuou olhando o lugar. Sobre a mesa, havia vrios papis. Sentou-se na cadeira, recolheu os papis e abriu uma gaveta para 
guard-los. Viu que havia algumas pastas de documentos. Por curiosidade, abriu  primeira. Eram papis de gastos de sua fazenda. Olhou as contas e percebeu que naquele 
ano o caf realmente daria lucro. Continuou olhando as outras. Abriu uma que era da fazenda de Cssio. Pegou um papel que dizia que a fazenda estava hipotecada para 
uma pessoa com a qual Cssio tinha uma dvida muito grande em notas promissrias. Ficou espantada: Por que ele nunca nada comentou a esse respeito? Essa dvida  
muito grande e vai vencer daqui a seis meses. Como ele conseguir tanto dinheiro? Amanh, quando chegarem, no vou comentar, mas depois de amanh vou perguntar. 
Precisamos encontrar um meio de arrumar esse dinheiro. No sei como, mas deve existir um modo. No sei em quanto monta minha fortuna, mas deve dar para ajud-lo 
a pagar. Intrigada, foi para seu quarto. Por mais que quisesse, no conseguia esquecer aquela cifra, era muito grande. O que ter acontecido para que ele fosse obrigado 
a pegar emprestado tanto dinheiro? Deve existir algum motivo. Por que no me contou nada? Poderia t-lo ajudado. Desde que o pai sofreu aquele derrame, ele  quem 
cuida de tudo. Pelos papis, essa dvida no  do tempo de seu pai,  recente. Tentou pensar em outra coisa, mas no conseguiu. Passou o resto do dia preocupada, 
mas sabia que nada podia fazer at que voltassem e ele lhe contasse tudo. No dia seguinte, perto das seis horas, eles chegaram. Juliana viu no rosto da irm a enorme 
felicidade que estava sentindo. Ela entrou em casa sorrindo e trazendo muitos pacotes. Mandou chamar Helena e, sentada no cho, comeou a abrir os pacotes.
- Trouxe muitos presentes para voc, Helena. Olhe como esta boneca  linda.
-  mesmo, titia. Tem mais?
- Sim, para voc e para sua me tambm. Juliana adorei a viagem. Assim que puder, acredito que voc e Helena devam faz-la tambm.
- Enquanto viajavam estive pensando nisso. Mas, agora, vamos comer, devem estar com fome.
Foram para a sala de jantar. Como Juliana havia ordenado, a refeio estava perfeita. Virgnia, no escondendo sua felicidade, contava em detalhes tudo o que havia 
visto durante a viagem. Cssio acompanhava a esposa, confirmando tudo que ela contava. Juliana procurava nos olhos de Cssio algum sinal de preocupao, mas nada. 
Ele continuava o mesmo. Ela poderia jurar que na vida dele no havia problema algum. No entendia, e ficava cada vez mais preocupada. Enquanto Virgnia falava sem 
parar, Juliana pensava: Vou falar com ele sem a presena de minha irm. Ela est muito feliz, no posso estragar sua felicidade. O jantar terminou. Virgnia falou:
- Agora, eu e Cssio vamos nos deitar, Juliana. Pode imaginar como estamos cansados.
- Posso sim, querida. V se deitar, amanh conversaremos. Os dois se despediram e saram da sala. Juliana continuava intrigada e pensava: Como ele pode esconder 
dessa maneira seus problemas? Por que no fala comigo e pede ajuda? Sempre me considerei sua amiga. Foi para seu quarto, deitou-se e ficou muito tempo pensando em 
tudo que havia lido. Depois de muito pensar e no entendendo o silncio de Cssio, adormeceu. No dia seguinte, acordou com a claridade do sol que batia em sua janela. 
Levantou, olhou  sua volta, sabia que havia tido um sonho bom, mas no se lembrava dos detalhes. Estava sentada diante do espelho quando Helena entrou correndo, 
rindo e gritando. Virgnia vinha logo atrs. Helena jogou-se sobre a me, que a amparou, sorrindo. Virgnia falou:
- Essa menina no quis comer o bolo que eu mesma fiz. Vou peg-la!
Helena, gritando e rindo ao mesmo tempo, escondia o rosto no peito da me, que a abraava, protegendo-a. Juliana, sorrindo, disse:
- No tenha medo, Helena. Mame est aqui e no vai deixar tia Virgnia fazer-lhe nada.
Virgnia aproximou-se e abraou as duas:
- Isso mesmo, ns duas estamos aqui para proteg-la, Helena.
Juliana sentiu um aperto no corao ao ouvir a irm falando aquilo. Enquanto a abraava, pensava: Como vou contar tudo a ela? Est to feliz. Vou falar ainda hoje 
com Cssio, ele vai ter de confiar em mim. Talvez haja um meio de ajud-lo. Precisamos encontrar um modo de arrumar esse dinheiro. Ele deve estar sofrendo muito. 
As trs saram do quarto, abraadas. Passaram pela sala. A mesa estava posta para o caf. Cssio j havia sado. Para tomar o caf, s faltava Juliana. Ela se sentou 
 mesa. Virgnia sentou-se em outra cadeira. Helena ficou sentada no cho, divertindo-se com os brinquedos que Virgnia lhe trouxera. Enquanto tomava caf, Juliana 
olhou para a irm, perguntando:
- Voc est mesmo feliz?
- Claro que estou! Cssio  um homem maravilhoso e me ama muito. Por que no deveria estar?
- Por nada. S estou fazendo uma pergunta. Cssio conta-lhe tudo? No tem segredos?
- No tem segredos. Ele me conta tudo. Por que essas perguntas? Aconteceu algo durante nossa ausncia?
Juliana sentiu vontade de contar o que descobrira, mas via que a irm estava muito feliz, e decidiu que conversaria primeiro com Cssio. Respondeu:
- No, nada aconteceu. Estou feliz com sua felicidade, espero que dure para sempre.
- Voc est estranha. Sinto que aconteceu alguma coisa e no quer me contar.
- No, nada aconteceu. Fique tranqila. Vamos sair daqui para que a empregada possa tirar a mesa do caf e arrumar a sala.
As duas saram. Juliana foi para fora ver o que Helena estava fazendo. Virgnia entrou em seu quarto e voltou logo depois, vestida para sair. Chegou perto de Helena 
e beijou-a no rosto, dizendo para Juliana:
- Vou encontrar Cssio. Quero ficar com ele o maior tempo possvel. Hoje, vamos percorrer a fazenda.
- Faa isso, minha irm. Aproveite todos os momentos junto de seu marido. A solido  muito triste. Jamais poderei esquecer Renato. No sei como estou conseguindo 
viver sem ele. Nunca mais serei feliz...
Elvira queria falar com a patroa a respeito do almoo. Entrou pela porta, ainda ouvindo as ltimas palavras de Juliana.
- Que  isso, menina? Ainda vai ser muito feliz. Renato est no cu, mas a menina  ainda muito jovem, vai encontrar um novo amor.
Juliana olhou para sua velha empregada, sabia que ela a queria como filha. Sorrindo, disse: 
- No vou encontrar um novo amor, porque no estou interessada. Estou muito bem, com minha filha e com todos vocs. No preciso de um novo amor.
- Precisa, sim. Com a ajuda de Deus, vai encontrar um. Vim pegar Helena, est na hora de seu banho.
A menina no quis ir, mas Juliana disse:
- V, minha filha, depois poder continuar brincando at a hora do almoo.
Helena levantou-se e saiu contrariada. Virgnia olhou para Juliana:
- Elvira tem razo. Voc  ainda muito jovem, no pode continuar nessa solido. Deve e vai encontrar algum.  s uma questo de tempo.
- No estou preocupada com isso. Vivi com Renato uma unio perfeita, acredito ser impossvel encontrar outro algum que me faa to feliz como ele conseguiu fazer...
- No vamos precipitar as coisas. Se tiver de ser, ser. Agora, tenho de ir. At logo mais.
- At logo, Virginia. Aproveite todos os momentos ao lado de seu esposo. Todos eles so muito importantes.
Virgnia partiu. Juliana ficou olhando para o horizonte, com o pensamento em Renato. Quanta saudade sinto. Por que teve de me deixar to cedo? Como foi se deixar 
picar por aquela cobra? O tempo foi passando. Fazia mais de um ms que Cssio e Virgnia retomaram da viagem. Juliana tentou falar vrias vezes com Cssio, mas no 
teve coragem. Sabia que a qualquer momento ele tocaria no assunto, pois se assim no fizesse era porque conseguira de alguma forma o dinheiro de que precisava. Naquela 
tarde, Juliana e Virgnia conversavam na varanda enquanto Helena brincava. Cssio chegou ofegante e feliz:
- Ainda bem que encontrei as duas juntas. Recebi uma carta de meu primo Rogrio, l de Portugal! Ele est chegando para nos visitar e vai ficar aqui um ou dois meses. 
Juliana espero que no se importe.
- Claro que no! Vejo que est muito feliz. Parece que gosta mesmo desse seu primo.  
- Gosto muito! Conheci-o ainda criana, quando papai me levou para Portugal. Enquanto estive estudando fora, na Frana, visitei-o muitas vezes e tornamo-nos grandes 
amigos. Todas as frias eu ia para Portugal. Durante esse perodo, ficamos o tempo todo juntos, e temos nos correspondido sempre.
- Pois ento ser muito bem-vindo. Esta casa no  s minha.  de vocs tambm. Quando acha que chegar?
- No sei... Voc sabe como a correspondncia demora em chegar. Mas, pela data em que esta carta foi escrita, ele j deve estar chegando.
- Est bem, vou pedir para Elvira arrumar o quarto de hspedes. L ele ficar bem. Espero que goste de tudo aqui. De minha parte, farei o possvel para isso.
Virgnia, nervosa, falou:
- Juliana, s podia esperar isso de voc. Cssio estou to nervosa. Ser que ele vai gostar de mim?
Juliana respondeu:
- Claro que vai! Voc  muito bonita. Diria at que perfeita. Cssio, voc no acha?
- Claro que acho. Querida, voc  a mulher mais perfeita do mundo. Obrigada, Juliana, por receber meu primo em sua casa.
- Em nossa casa. Nunca se esqueam disso: a casa  nossa. Juliana saiu, deixando os dois sozinhos, e foi at a cozinha falar com Elvira.
Trs dias depois, uma carruagem chegou  fazenda. Juliana, vendo-a da varanda, chamou por Virgnia, que foi correndo para junto da irm. As duas ficaram paradas, 
olhando.
- Olhe Virgnia, deve ser o primo de Cssio.
- Deve ser ele mesmo. E agora, o que fao?
- Apenas o cumprimente como sempre faz com as visitas. No entendo por que tanto nervosismo.  s o primo de seu marido, nada mais que isso.
- Sei disso. Mas estou nervosa. E se ele no gostar de mim?
- Isso no ter a menor importncia. O que importa  que seu marido gosta de voc. E muito.
A carruagem parou em frente  escada que dava acesso  varanda. Dela desceu um rapaz de aparncia muito agradvel. Assim que desceu, olhou para cima, falando:  
 - Qual das duas  minha adorvel prima?
Juliana apenas sorriu, enquanto Virgnia descia as escadas.
- Sou eu. Eu sou a esposa de Cssio. E voc, claro,  Rogrio. Ele beijou a mo que ela estendia.
- Sou eu mesmo. Cssio no exagerou quando me contou de sua beleza. Se voc  Virgnia, aquela deve ser...
Juliana, do alto da escada, ainda na varanda, disse:
- Juliana. Sou Juliana, irm de Virgnia e cunhada de Cssio. Seja muito bem-vindo  nossa casa, espero que goste da vida no campo.
- No s gosto como tambm vivo no campo. Cssio no lhes contou? Em Portugal, eu, meu pai e meus irmos temos uma imensa fazenda, s que no  de caf, mas de gado. 
Estou aqui exatamente para conversar com Cssio sobre a possibilidade de criarmos gado aqui no Brasil. Que acham?
Juliana, sorrindo, respondeu;
- Talvez seja uma idia que possa ser estudada, mas no seria melhor entrar primeiro?
Ele, sorrindo, enquanto subia os degraus que os separava, falou:
- Acredito que sim, mas  que estou encantado com tudo o que vi durante a viagem.
- Ter a oportunidade de ver muito mais. A fazenda  enorme, ainda mais agora que a cerca foi derrubada e a minha e a de Cssio se tornaram uma s.
Rogrio chegou perto de Juliana, que lhe estendeu a mo. Ele a segurou ternamente, olhou bem em seus olhos e disse:
- Muito prazer, senhora, acredito que vou gostar muito de minha estada por aqui.
Juliana, sentindo-se um pouco encabulada com o toque de sua mo, respondeu:
- Espero que sim. No me perdoaria se algo acontecesse que desagradasse um parente de Cssio.
- Nada acontecer, pode ter certeza.
Sob o sorriso de Virgnia, que notou o embarao da irm, os trs entraram na casa. Rogrio falava sem parar. Colocou-se logo  vontade, como se j as conhecesse 
h muito tempo. Cssio chegou logo em seguida e os dois se abraaram entusiasmados.
- Que bom que chegou meu primo! Pensei que fosse demorar mais!  
- Tambm estou contente por ter chegado. Durante a viagem at aqui, fiquei entusiasmado com tudo o que vi. A plantao de caf est uma beleza.
- Est sim. Neste ano, no tivemos nenhum desastre da natureza. Tudo que foi plantado vai ser colhido.
Juliana deixou-os conversando e foi para a cozinha pedir a Elvira que caprichasse no almoo.
- Fique tranqila, menina, vou caprichar. O moo nunca mais vai esquecer minha comida. Ele  um bonito rapaz. Olhou para a menina de uma maneira...
- Que  isso, EIvira? Ele acabou de chegar!
- Faz pouco tempo mesmo, mas vi como ele olhou para a menina...
Juliana balanou a cabea e saiu rindo. Na sala, os trs continuavam conversando. Quem mais falava era Rogrio. Juliana olhou para ele, pensando:  mesmo um belo 
rapaz, e tambm notei o modo como me olhou.  to diferente de Renato... fala muito. Renato sempre foi mais reservado, no gostava de jogar conversa fora.
Ela se juntou ao grupo, dizendo:
- Senhor Rogrio, se gostou de tudo que viu at aqui, vai gostar ainda mais da comida que EIvira est preparando para o almoo.
Cssio, rindo, falou:
- A comida dela  mesmo divina, mas, enquanto no fica pronta, se no estiver muito cansado, podemos sair e ver a fazenda. No dar para ver tudo, mas ter uma idia.
- Sei que vou gostar. Da comida e de ver a fazenda. Vamos? Eles saram. Juliana ficou seguindo-os com os olhos e pensando:  mesmo um belo rapaz!
Virgnia foi para seu quarto para trocar de roupa. Queria estar bem vestida para o primo de Cssio. Juliana foi para a cozinha ajudar no almoo. Ela gostava de ficar 
ali, conversando com Elvira. Desde menina, acostumara-se com isso, ainda mais quando tinha algum problema que a incomodava. Estava sentindo algo diferente. Precisava 
falar com Elvira. Elvira estava junto ao fogo, mexendo em uma panela. Juliana chegou quietinha, sentou-se e comeou a descascar uma batata. Elvira olhou para ela 
e, sorrindo, perguntou:
- O que  que a menina quer conversar?
- No quero conversar, quero somente ajud-la no almoo.
- A quem est tentando enganar? Conheo-a desde menina, e sempre foi assim: quando tinha algum problema, chegava como quem nada queria, sentava-se a nessa mesma 
cadeira e ficava calada at eu perguntar. A menina cresceu, mas continua a mesma. Sobre o que quer falar? Ser que estou adivinhando?
Juliana no respondeu, apenas sorriu. Elvira continuou:
-  sobre o moo que chegou?
- Voc disse que ele era um belo rapaz, e eu fui conferir...
- E a? Viu que eu tinha razo?
- Realmente, ele  um belo rapaz, mas nada tem a ver comigo. Ele fala demais, e eu ainda amo Renato.
- Ele fala, mas a menina gosta de ouvir sua voz. Renato est no cu, e a menina est aqui na Terra. Renato gostava muito da menina para querer que ela ficasse sozinha. 
Ele no iria querer que a menina ficasse para o resto da vida pensando nele. L onde est, vai querer que a menina seja muito feliz.
- No sei por que estamos falando dessas coisas. Rogrio  somente gentil e educado.
- Vi como ele olhou para a menina. Ele gostou mesmo de voc...
Juliana balanou a cabea e saiu sorrindo. Elvira tambm sorriu e pensou: Meu pai do cu d toda a felicidade que ela merece. Um pouco antes da hora do almoo, eles 
regressaram. Cssio estava feliz com a presena do primo. Virgnia e Juliana mudaram de roupa, trocando aquelas caseiras que usavam todos os dias por outras mais 
novas e bonitas. Cssio notou, mas no disse nada. O almoo foi servido. Rogrio comia com muita vontade.
- Esta comida est boa mesmo. Elvira tem um tempero muito agradvel.
- Tambm achamos.
Depois do almoo, foram para a varanda. Cssio serviu um licor. Rogrio, entusiasmado, disse:
- Esta fazenda  mesmo uma beleza. Cssio notei que existe muita terra sem plantao. Se quiser, poder criar muito gado.
- Ainda no pensei nisso, mas nunca  tarde, podemos discutir o assunto.
Juliana acompanhava a conversa em silncio. Estava estranhando, pois sabia que tanto seu pai quanto Renato sempre quiseram reservar as terras para futuras plantaes. 
Sempre diziam que, quando a terra que estavam usando se cansasse, eles teriam muitas outras virgens. Cssio e Rogrio continuavam conversando. Juliana pediu licena 
e saiu, com a desculpa de que ia colocar Helena para dormir. No quarto de Helena, deitada ao seu lado, pensava: Cssio nunca me falou de sua vontade de transformar 
a fazenda, que sempre foi de caf, em uma de criao de gado. Ele disse para Rogrio que nunca pensou nisso, mas, do modo como falou, acredito que j tenha pensado 
e at falado com o primo a respeito.  estranho. Papai e Renato nunca quiseram... ofertas no faltaram, mas sempre recusaram. Cssio, ao contrrio, no recusou e 
ainda disse que pensaria. Quando voltou para a varanda, eles no estavam mais ali. Ela ficou olhando tudo. Seu pensamento voltou-se para o tempo em que via seu pai 
chegando, galopando sobre um cavalo. Triste pensou: Eu era to feliz naquele tempo... nunca pensei que um dia estaria assim, to solitria. Quantas vezes papai e 
Renato chegaram juntos, galopando por esse caminho? Jamais imaginei que um dia estaria aqui olhando para o horizonte, esperando-os, mas sabendo que nunca mais chegaro. 
Que est acontecendo comigo? Embora queira me lembrar de Renato, por que no consigo esquecer Rogrio? Seu sorriso amvel, sincero e to bonito... amei e ainda amo 
Renato, mas por que no consigo lembrar com nitidez seu rosto? Por que s consigo ver o rosto de Rogrio? Ser que estou apaixonada por ele? No! No, isso no pode 
acontecer... Muito confusa, entrou em casa. Sabia que aquele sentimento era estranho. Havia gostado muito de Renato, ele fora um esposo perfeito, mas agora o sentimento 
era outro, diferente. Ela sentia vontade de estar nos braos de Rogrio, queria amar e ser amada por ele. Passou o resto do dia esperando, ansiosa, sua volta. Quando 
eles voltaram, ela os recebeu com um semblante que transmitia toda a felicidade que sentia. Rogrio desceu do cavalo e, sorrindo, falou para ela, que estava no alto, 
na varanda:
- Senhora Juliana, aqui tudo  perfeito. Estou pensando em me mudar para c. O que acha?
Ela no soube o que responder. Seu corao comeou a disparar. Apenas sorriu. Quem respondeu foi Cssio:
- Acho que seria uma boa idia, mas e sua fazenda, seu trabalho em Portugal? Meu tio permitiria?
- Eu no fao falta ali. Meu pai e meus irmos podem cuidar de tudo. Vou amadurecer essa idia. Posso comprar uma fazenda e me instalar aqui perto. O que acha senhora 
Juliana?
- Bem, acredito que seja uma tima idia. Ficaremos felizes em t-lo como vizinho.
Rogrio sorriu:
- Vou amadurecer mesmo essa idia.
Mais alguns dias se passaram. Juliana percebeu que Rogrio, sempre que falava, a olhava profundamente. Seu olhar a perturbava, o que fazia com que ela abaixasse 
os olhos, evitando-o. Cada vez mais se sentia atrada por ele. O dia marcado para ele voltar para Portugal estava chegando. Pela manh, ao acordar, diante do espelho, 
ela pensava: Ele vai embora amanh. Desde aquele dia, nunca mais tocou no assunto de voltar e ficar definitivamente aqui. Ter mudado de idia? Oh, meu Deus, como 
gostaria que ficasse! Sinto que o amo. No suporto a idia de no v-lo nunca mais. Saiu do quarto. A mesa do caf estava posta. Rogrio, Cssio e Virgnia estavam 
sentados, conversando. Juliana aproximou-se, falando:
- Bom-dia! Peo desculpas pelo atraso. Dormi muito.
Rogrio e Cssio levantaram-se para que ela se sentasse. Rogrio, novamente, sorriu daquela maneira que ela tanto gostava.
- Bom-dia! E est um dia lindo mesmo. O sol est claro. Tudo fica mais bonito com sua presena.
Ela sorriu. Sentou-se, pegou uma xcara e colocou leite. Embora tentasse, no conseguia disfarar a tristeza que sentia por v-lo partir. Ele continuou:
- Meus amigos, amanh partirei, mas no posso faz-lo sem lhes dizer algo. Cssio estive pensando todos esses dias, e resolvi que me mudarei definitivamente para 
c.
Juliana deixou cair  xcara que estava em sua mo. Seu corao comeou a disparar e ela no pde evitar demonstrar, com os olhos, a enorme felicidade que sentia. 
No disse nada, apenas sorriu. Rogrio continuou:
- Vou para Portugal comunicar minha deciso a meus familiares. Meu pai ficar um pouco triste, mas  um homem que acredita que uma pessoa s poder ser feliz quando 
conseguir o que quiser na vida. Meus motivos, com certeza, o convencero.
Cssio olhou para o primo, dizendo:
- Que motivos to fortes sero esses?
- Acredito meu primo, que meus motivos os convencero tambm. Senhora Juliana, infelizmente, a senhora no tem pai e, sendo Cssio seu parente masculino mais prximo, 
acredito ser a ele a quem devo fazer o pedido.
Juliana estava entendendo, mas no queria acreditar que uma coisa to maravilhosa estivesse acontecendo.
- No estou entendendo... que est querendo dizer? Que pedido  esse?
- Cssio, pensei muito e no posso ocultar o que sinto: estou apaixonado pela senhora Juliana e queria pedir sua mo em casamento.
Cssio, assustado, olhou para Virgnia, que, com os olhos arregalados, olhou para Juliana. Ela, como eles, tambm estava admirada. Cssio, depois de alguns segundos, 
respondeu:
- Bem, embora eu no seja parente, sou o amigo mais prximo, no posso responder. Juliana, o que diz? 
Ela agora estava tremendo. Elvira, que colocava sobre a mesa um bolo e estava s suas costas, apenas colocou a mo em seu ombro e apertou suavemente. Juliana percebeu 
o que ela quis dizer com aquele gesto. Olhou para Rogrio, dizendo com a voz trmula:
- O senhor nunca demonstrou, nem sequer insinuou seu interesse por mim. Estou como os outros, surpresa, e no sei o que responder. Preciso de um tempo para pensar.
- Ter at amanh de manh. Estive vendo uma fazenda h quinze minutos daqui. Ela  grande e tem um pasto muito bom para a criao de gado. Vou embora amanh e, 
quando voltar, trarei o dinheiro necessrio para compr-la e iniciar minha criao. Espero ter uma resposta sua at amanh.
- Est bem, pensarei seriamente e lhe darei uma resposta.
- Espero que seja a que estou esperando. Percebi que todos ficaram surpresos com meu pedido feito desta maneira. Assim o fiz porque quero que tudo seja feito da 
melhor maneira. Eu a amo e quero me casar.  assim que  feito em Portugal.
Juliana sorriu. Embora nunca esperasse que seria daquela maneira, estava feliz. Ele no s ficaria ali, como ainda seria seu marido e estaria para sempre a seu lado. 
Teve de fazer um esforo imenso para no se jogar em seus braos e beij-lo com todo o amor que sentia. Terminaram de tomar o caf. Os dois se despediram e foram 
percorrer a fazenda. Cssio iria com Rogrio ver a fazenda que ele queria comprar. Rogrio, antes de sair, ainda olhou sorridente para Juliana, que mais uma vez 
abaixou os olhos. Depois que saram, Juliana olhou para Virgnia, que permanecia calada. Juliana abraou-a, dizendo:  
 - Minha irm, estou to feliz! Quando Renato morreu, pensei que nunca mais encontraria a felicidade, mas vejo agora que estava enganada. Vou ser feliz novamente.
Virgnia, abraada a ela, disse:
- Quer dizer que vai aceitar o pedido?
- Claro que vou! Desde que o vi pela primeira vez, senti que o amava. Estava com muito medo de que ele fosse embora sem nada me dizer.
- J pensou no que Helena dir?
- Ele  carinhoso com ela e a faz rir a todo instante. Ela gosta muito dele e o aceitar.
- Sendo assim, j que est decidida, s posso desejar que seja muito feliz.
- Serei minha irm. Sinto que serei. Embora tenha amado Renato, sei que o que sinto por Rogrio  diferente, por isso sei que serei feliz. Ns quatro seremos felizes. 
Cssio contar com a ajuda de Rogrio para dirigir as duas fazendas. O trabalho para ele vai diminuir, assim ter mais tempo para ficar com voc.
As duas se separaram. Juliana correu para a cozinha, onde Elvira preparava o almoo. Quando entrou pela porta, viu que ela estava de costas. Chegou devagarzinho 
e abraou-a por trs, dizendo:
- Elvira, voc ouviu o que ele disse?
Elvira voltou-se e, abraando-a, respondeu:
- Ouvi menina. Ouvi e fiquei muito feliz. Deus ouviu minhas preces. No suportava mais ver minha menina triste, andando de um lugar para outro. Esse moo parece 
ser muito bom e gostar muito de voc. Vai ser um bom marido.
- Tambm sinto isso. Estou to feliz que tenho vontade de sair pelo campo e colher algumas flores para enfeitar a casa.
- Faa isso. V para o campo e demonstre a Deus toda a sua felicidade e gratido.
- Mas e Renato? Aprovaria esse casamento?
- Claro que sim! Como eu, ele tambm gostava muito da menina. S pode querer v-la feliz. No se preocupe com isso. V colher suas flores.
Juliana, parecendo mesmo uma menina, beijou-a e saiu para o campo. O dia estava realmente bonito. O cu claro, com o sol brilhante. Havia muitas flores no campo. 
Juliana, como que deslizando, ia apanhando-as, formando assim um lindo ramalhete colorido. Estou muito feliz! O homem que amo me ama tambm. Sinto que com ele serei 
muito feliz. Agradeo a Deus e peo do fundo de meu corao que proteja este amor. Permita que eu possa realmente ser feliz ao lado de Rogrio e de minha filha. 
Enquanto colhia as flores, cantava e danava. O dia passou.  noite, durante o jantar, Juliana, que estava com o vestido de que mais gostava, disse:
- Senhor Rogrio, estive pensando durante o dia todo sobre seu pedido. Resolvi aceitar e ser sua esposa.
Desta vez, Rogrio deixou cair o garfo sobre a mesa. Ele olhou para ela, parecendo no ter entendido. Juliana, rindo da expresso que ele fez, continuou:
- Est assustado por qu? No foi desta maneira que fez o pedido? Acreditei que minha resposta teria de ser do mesmo modo.
- Est bem. Tem razo por estar agindo assim. Eu deveria t-la consultado primeiro, mas perdoe-me, sempre fui assim: quando decido algo, tenho logo de colocar em 
prtica. Vai mesmo aceitar casar-se comigo?
- Vou. Embora tenha sido muito feliz em meu casamento, estou me sentindo muito s e o senhor me parece uma boa pessoa. Sinto que nos far muito felizes, a mim e 
a minha filha.
- Pode ter a certeza de que farei o melhor possvel. Tambm sinto que serei muito feliz a seu lado.
Cssio e Virgnia olharam-se. Notaram que, para aqueles dois, no havia mais ningum  mesa. Virgnia interrompeu-os, dizendo:
- Bem, parece que vamos ter mesmo um casamento aqui. Felicidades aos dois. Quando ser?
- Estou embarcando amanh para Portugal. Voltarei o mais rpido possvel. S gastarei o tempo necessrio para comunicar  minha famlia e pegar o dinheiro de que 
preciso para comprar a fazenda e iniciar minha criao.
- Fico feliz por minha irm. Juliana acredito que esse seja o tempo ideal para prepararmos seu enxoval. Desta vez, quem dar de presente  viagem de npcias seremos 
ns, no , meu amor? 
Cssio, ainda assustado com a rapidez com que tudo estava acontecendo, falou:
- Ainda estou um pouco perturbado. No esperava por isso, mas daremos de presente a viagem, sim, Virgnia. Desejo que possam aproveit-la como ns aproveitamos a 
nossa. Sinceramente, desejo que sejam felizes, tanto quanto eu e Virgnia. Agora, se me derem licena, tenho de me retirar, preciso assinar alguns papis.
Ele se levantou. Virgnia tambm, dizendo:
- Irei com voc. Vamos deix-los sozinhos para as despedidas. Saram. Juliana, agora s, ficou encabulada na presena de Rogrio. Foram para a varanda.
A noite estava linda, o cu estrelado e uma lua brilhante na fase crescente. Sentaram-se e ficaram em silncio, apenas admirando o luar. Ele quebrou o silncio:
- Senhora Juliana, no pode avaliar quanta felicidade me trouxe ao aceitar meu pedido.
- Seu pedido tambm me deixou muito feliz.
Ele se levantou, tomou-a nos braos e beijou-a, a princpio suavemente, mas depois o beijo foi mais ardente. Ela se sentiu desfalecer. Amava aquele homem. S desejava 
estar com ele naquele momento. Ainda beijando-se, encaminharam-se para o quarto dela. Juliana sabia que no devia, mas o desejo foi mais forte. Em poucos minutos, 
estavam um nos braos do outro, num amor verdadeiro e selvagem. Enquanto se amavam, ela sentiu que nunca havia passado por uma experincia como aquela. Ele era totalmente 
diferente de Renato, mas, definitivamente, ela o amava. Quando terminaram, um ainda nos braos do outro, ele disse:
- Eu a amo perdidamente. S partirei porque tenho compromissos, mas voltarei o mais breve possvel. Diga que vai me esperar com ansiedade.
- Claro que sim. Contarei os dias. Sinto que, depois de hoje, no poderei mais viver sem sua companhia.  
 Passaram a noite juntos. Pela manh, entraram na sala de refeies abraados. Cssio e Virgnia ali j se encontravam. Ao v-los to felizes, Virgnia comentou:
- Parece que esto realmente apaixonados. Acredito que essa separao ser dolorida.
- Ser, sim, minha irm. J estou sentindo a falta de Rogrio, mesmo antes de sua partida.
- J disse que voltarei o mais breve que puder. Tambm no consigo mais viver sem voc.
Ao terminarem o caf, ele partiu. Cssio acompanhou-o. Ele teria de ir at o porto de Santos, onde embarcaria. Seria uma viagem longa. Cssio acompanhou-o apenas 
at a cidade vizinha, no poderia ficar ausente da fazenda por muitos dias. Antes de sair, Rogrio despediu-se de Helena, prometendo-lhe que, quando voltasse, lhe 
traria um lindo presente. Despediu-se de Juliana com um beijo na testa e outro nas mos. Subiu na carruagem e foi acenando at sumir da vista de Juliana e Virgnia, 
que tambm acenavam. Entraram. Juliana, chorando, dirigiu-se a seu quarto. Virgnia foi cuidar dos afazeres da casa. No fim da tarde, Virgnia estava na cozinha 
com Elvira quando Cssio retornou. Vinha com o rosto vincado, mostrando uma sria preocupao. Juliana que estava na sala, ao v-lo entrar em casa daquela maneira, 
perguntou assustada:
- Por que est assim Cssio? Aconteceu algo com Rogrio? Ele respondeu rispidamente, de uma maneira que Juliana nunca tinha visto antes:
- Assim como? Estou bem. S com alguns problemas. Nada aconteceu com Rogrio!
- Talvez eu saiba a razo de seus problemas.
- Que voc sabe Juliana?
- Sei de sua dvida e sei tambm que o prazo est se esgotando.
- Andou mexendo em meus papis? Com que direito?
- Foi sem inteno. Quando vocs estavam viajando, fui ver se o escritrio estava em ordem. Comecei a mexer nas gavetas e encontrei a pasta com os documentos. A 
partir da, estou muito preocupada. Por que teve de fazer um emprstimo to grande? Se precisar de dinheiro, era s me pedir. No precisava pegar de estranhos, que 
devem ter cobrado juros abusivos. Por que no me contou? Sabe que possuo muito dinheiro e posso ajud-lo...
- No preciso de seu dinheiro. Darei um jeito. Voc sempre com esse ar de caridade... no preciso disso!
Saiu da sala e foi para seu quarto. Juliana ficou ali parada, sem entender o que estava acontecendo. Virgnia entrou na sala:
- Ouvi vozes. Cssio chegou?
- Chegou, sim. Est em seu quarto.
Virgnia dirigiu-se para o quarto. Juliana quase contou a ela o que estava acontecendo. No! Ficarei calada. No posso causar esse sofrimento a ela. Est to feliz 
com o casamento, e ele a trata com tanto carinho... amanh, assim que Cssio se acalmar, falarei com ele. Emprestarei o dinheiro e tudo estar resolvido, sem que 
Virgnia precise tomar conhecimento de nada. Durante o jantar, Cssio permaneceu o tempo todo calado. Aquilo no era de seu feitio, mas Juliana, sabendo dos motivos, 
no insistiu na conversa, sabia no ser aquele o momento. Deixaria para o dia seguinte. Virgnia tambm permaneceu calada. Juliana olhava para um e para outro. Aconteceu 
algo entre os dois enquanto estiveram no quarto, mas nada posso dizer. No sei se ele comentou algo com ela. No posso arriscar. Ser que ele contou sua real situao? 
Est decidido: vou esperar at amanh. Assim que ele sair para percorrer a fazenda, inventarei uma desculpa qualquer para Virgnia, sairei e irei atrs dele. Estando 
sozinho comigo, farei com que aceite minha ajuda. Sozinhos, sem que Virgnia possa ouvir a conversa, falarei francamente. Ter de me ouvir. Este clima de tenso 
no pode continuar. Aps o jantar, Cssio despediu-se e foi para seu quarto. Virgnia permaneceu um pouco mais. Juliana ficou pensativa. Notou que a irm estava 
com o olhar distante e perguntou:
- Virgnia, est acontecendo alguma coisa com Cssio?
- No sei. Por qu?
- Ele me parece preocupado. Est sabendo de algo?
- Tambm notei, mas ele no quis me dizer o motivo. Resolvi esperar at que queira me contar.
- Fez bem. Acredito que logo tudo ficar bem.
Em seguida, Virgnia despediu-se, dando por encerrada a conversa. Juliana, sozinha na varanda, ficou olhando para a lua e as estrelas.  uma pena que Cssio esteja 
com problemas. Eu, ao contrrio, estou muito feliz. Sinto em meu corao que daqui para frente no terei mais problema de solido. Encontrei novamente a felicidade. 
Sei que Rogrio em breve voltar que nos casaremos e seremos felizes. Helena gosta muito dele, no que  correspondida. Ser com certeza um bom pai para ela. Estou 
sentindo frio. Vou tambm me deitar. O dia de amanh ser cansativo e tenso. A conversa com Cssio no ser fcil, isso eu sei. Apagou as velas que iluminavam a 
sala. Foi para seu quarto, antes passando pelo de Helena, que dormia tranqilamente. Ajoelhou-se perto da cama e passou a mo carinhosamente pela testa da menina.
- Minha filha querida... sei quanta falta sentiu de papai, mas agora tudo mudar. 
Rogrio gosta muito de mame e de voc tambm. Ele nos far felizes. A menina no ouviu o que ela disse, mas, como se tivesse ouvido abriu um leve sorriso e virou-se 
de lado, deixando o cobertor cair. Juliana cobriu-a novamente e foi para seu quarto. No estava com sono. Pegou um livro e tentou ler, mas no conseguiu, s pensava 
em Rogrio, em seu rosto, em seu sorriso e na noite de amor que tiveram. Ele  maravilhoso. Vou dormir para que o tempo passe depressa e ele volte logo. Sorrindo, 
ajeitou-se na cama e, aos poucos, foi adormecendo. Alta madrugada acordou assustada com a porta de seu quarto sendo aberta violentamente. Sentou-se na cama e viu 
Cssio muito nervoso, com um copo de leite na mo. Ela, assustada, gritou:
- Cssio! Que  isso? Que aconteceu? Por que no bateu antes de entrar?
Ele, sem responder, colocou o copo sobre uma cmoda, aproximou-se da cama e violentamente a colocou de p. Ela, agora muito mais assustada, pois percebeu que ele 
estava transtornado, disse:
- Cssio, fale comigo. Que aconteceu?
Sem responder, ele segurou Juliana com fora pelos braos e a sacudiu. Ela, indefesa, primeiro, pelo susto de sua entrada, depois, pela maneira como ele estava agindo, 
no imps resistncia. Apenas perguntou:
- Que est acontecendo? Sei que est com problemas, mas sempre h um caminho. Ia conversar com voc amanh para encontrarmos uma soluo. Sabe que tenho como e posso 
ajud-lo. Farei tudo que estiver ao meu alcance para isso. Posso ajud-lo! Sem a soltar, ele respondeu:
- Pensei muito e decidi que realmente voc  a nica pessoa que pode me ajudar. Com sua morte!
- Minha morte? No vou morrer. Deve estar louco!
- Vai, sim! Est muito triste e com muita saudade de seu amado marido. No suporta mais viver com o peso de t-lo trado na noite passada. Vai se matar.  preciso. 
 a nica soluo para meus problemas.
- No, no farei isso! Esta no  a nica soluo! Posso lhe dar o dinheiro. Rogrio no vai acreditar que me matei. Voc vai ser preso...
- Por causa dele mesmo  que vai ter de morrer. Estava tudo caminhando como planejei. Cuidando de sua fazenda, eu pegaria o dinheiro de que precisava, pagaria minha 
dvida e voc no ficaria sabendo. No... no podia ser assim. Voc teve de xeretar. Teve de arrumar um marido que, com certeza, descobriria tudo! No posso deixar 
que isso acontea!  
 - Ele no vai se incomodar. Direi que lhe dei o dinheiro quando se casou com Virgnia... 
- Quer que meu primo descubra que no sou aquele homem bem-sucedido que pensa que sou? Quer que ele descubra que perdi todo o meu dinheiro no jogo? Nunca. Nunca! 
Voc vai se matar! - No vou fazer isso! No tem como me obrigar! - Tenho, sim. Est vendo este copo com leite? Contm um veneno muito forte, voc tomar e dormir 
no mesmo instante, no sentir nada.
- No vou fazer isso! E, mesmo que o fizesse como provaria s pessoas que tomei de livre vontade? Ningum acreditaria. Elvira e Virgnia sabem como estou feliz. 
Elas no acreditaro. Est louco, mesmo! 
- No se preocupe com isso. J pensei em tudo. Antes de beber o veneno, escrever uma carta de adeus para seu amorzinho. Com essa carta, todos acreditaro. - No 
vou fazer isso! Eu amo Rogrio e quero ficar com ele. Vamos nos casar... 
- No vai, no. Vai beber o copo todo. Se no beber, pegarei o veneno e o derramarei na boca de Helena e ela morrer em seu lugar. A escolha  sua... Ao ouvir aquilo, 
Juliana tomou-se de toda a fora que nunca pensou possuir, libertou-se dos braos de Cssio e comeou a gritar desesperadamente: 
- Virgnia! Elvira! Socorro! Acudam-me! A porta se abriu e Virgnia entrou por ela. Ao v-la, Juliana correu para seus braos, gritando: 
- Ele est louco! Quer me matar e est ameaando matar Helena. Temos de fazer algo! Virgnia soltou-se de seus braos, olhou-a bem nos olhos e disse: 
- A escolha  sua. Voc ou Helena? - Voc est com ele nessa trama diablica? No posso acreditar! Os dois esto loucos! Elvira! Elvira! Socorro! Virgnia, com os 
olhos esbugalhados de dio, disse: 
- No adianta gritar. Coloquei no ch que Elvira toma todas as noites uma dose de sonfero. Ela, hoje no vai acordar. S amanh cedo. A escolha continua sendo sua. 
Voc ou Helena? 
 - No posso acreditar que estou ouvindo isso de sua boca. Voc  minha irm. Sempre a amei como tal. Sempre confiei em voc. No pode estar com esse louco no mesmo 
propsito... no faria isso comigo e muito menos com Helena! Voc  minha irm... eu a amo... 
- Sabe que no sou sua irm! Sou filha da mulher com quem seu pai se casou e para isso teve de me aceitar e aturar durante todo esse tempo. Apenas isso! 
- Isso no  verdade! Quando meu pai se casou com sua me, ramos ainda crianas. Ele lhe deu tudo de que precisava, alm de carinho. Crescemos juntas, Virgnia... 
Virgnia, visivelmente transtornada, disse: 
- Deu-me tudo de que eu precisava? Depois de dar a voc! Ele sempre a preferiu! Voc sempre foi a sua querida, a coitadinha que to cedo ficou sem me! Aquela que 
merecia tudo! Fiquei sempre com as suas sobras, com aquilo que no lhe agradava mais! Em seu testamento, ele definitivamente me mostrou qual era o meu lugar nesta 
casa! Voc viu muito bem o testamento que ele me deixou! Tudo ficaria para voc, e eu teria tudo de que precisasse, desde que permanecesse para sempre em sua companhia. 
Servindo-a, sendo sua empregada! 
- Isso no  verdade, Virgnia! Ele, fazendo isso, s quis proteg-la. Quis ter a certeza de que estaria amparada, a meu lado... sabia que eu jamais deixaria faltar 
qualquer coisa para voc... 
- Acredita mesmo nisso? Ento, por que ele no me incluiu no testamento? No... ao contrrio, deixou escrito que, se algo lhe acontecesse em sua falta, tudo iria 
para Helena! E, se algo acontecesse com ela, s nesse caso, ouviu bem, s nesse caso, tudo seria meu! Voc sempre teve tudo! Quando Renato apareceu, assim que o 
vi, me apaixonei, mas novamente voc ficou com tudo. At ele voc me roubou! Eu j a odiava, mas, a partir daquele momento, passei a odi-la ainda mais. Agora, chegou 
 hora de minha vingana e estou feliz por isso! 
- Voc amava Renato? Nunca pude imaginar... nunca deixou transparecer... no sabia que o amava... 
Cssio, que ouvia a esposa falando, nervoso, gritou: - E o que voc fez comigo? Com que desprezo recebeu minha confisso de amor... Parecia uma deusa, dizendo: S 
posso ser sua amiga, nada mais que isso, para depois se entregar ao primeiro que apareceu. Voc no presta Juliana! Tem de morrer Naquele tempo, eu a amava. Hoje, 
a odeio com todas as foras de minha alma. Quero que morra!
- Mas vocs se casaram e vivem muito bem. Virgnia contestou:
- Entre ns nunca existiu amor, apenas uma grande amizade. Sempre que ficava triste com algo que voc me fazia, eu corria para Cssio e comentava com ele. Depois 
que se casou, percebemos que seria muito difcil fazer com que nosso plano fosse cumprido.
- Plano?! Que plano, Virgnia?
- Deix-la na misria. A nica maneira seria tirar Renato do caminho. Assim, voc, no sabendo como tocar os negcios, pois nunca fez nada na vida, entregaria todo 
o seu patrimnio nas mos de Cssio. Foi o que aconteceu. Ele controlaria tudo, tiraria aos poucos todo o seu dinheiro e falaria que foram os maus negcios. Voc 
ficaria na misria e ns, com tudo que era seu, que, por direito, tambm deveria ser meu!
- Est me dizendo que vocs, juntos, mataram Renato? No posso acreditar! Como tiveram coragem?
- No desespero se faz qualquer coisa. No foi to difcil assim. Cssio me trouxe uma cobra pequena, mas de veneno mortal. Eu a coloquei no alforje em que Renato 
levava gua e comida sempre que viajava. Assim que ele o abrisse, a cobra o picaria e ningum desconfiaria de nada, como aconteceu.
- Monstros! Vocs so uns monstros! Por inveja e ganncia tiraram  vida de Renato? Um homem bom que sempre os recebeu com carinho... So uns monstros!
- Por isso mesmo  melhor que nos obedea e se mate, porque, se no o fizer, sabe que temos coragem suficiente para matar Helena!
Juliana comeou a chorar. Sentia, naquele momento, que, se quisesse salvar a vida da filha, teria mesmo de obedecer. Sentia um profundo vazio no corao. Aquelas 
duas pessoas que amava, sempre a odiaram, tramaram contra ela. Mataram Renato e no hesitariam um momento para matar Helena, sem se preocupar se ela era ainda uma 
criana. Olhou para os dois e, chorando, tentou mais uma vez:
- No entendo por que tanto dio... se for dinheiro que querem, se  me ver na misria, no ser preciso matar a mim ou  minha filha. Passarei amanh mesmo tudo 
o que  meu para o nome de vocs e desaparecerei daqui para sempre. No preciso de muito dinheiro para viver. Dem-me uma quantia para que eu possa chegar  cidade, 
me instalar e arrumar um emprego qualquer.
- Emprego? Emprego de qu? Sempre foi a filhinha do papai e, depois, a esposa amada. Nada sabe fazer!
- Encontrarei uma maneira, Virgnia.
- Sei bem qual ser essa maneira. Ir direto para a polcia e contar tudo o que acabamos de falar.
- No, no farei isso, prometo. S quero salvar minha vida e a de Helena. Desaparecerei e nunca mais sabero de mim.
Virgnia olhou para Cssio e, com ironia, perguntou:
- Acredita no que ela est dizendo?
- No. E voc?
- Tambm no.  melhor seguirmos nosso plano original, assim no corremos riscos. No vamos perder mais tempo. Juliana pegue este papel e escreva o que eu ditar.
- No vou escrever o que quer nem outra coisa qualquer! Virgnia pegou o copo que estava sobre a cmoda e falou:
- Tudo bem. Cssio amarre-a e amordace-a. V para o quarto de Helena e faa com que tome o leite.
Juliana, ao perceber que no existia outra sada, chorando, falou:
- Est bem. Fao tudo que quiserem, mas deixem minha filha em paz...
Pegou uma folha de papel e um lpis que estavam na gaveta de seu criado-mudo e olhou para os dois. Com os olhos faiscando, ao mesmo tempo de dio e de medo, disse 
para Virgnia:
- Pode ditar. O que quer que eu escreva?
- Muito bem, menina,  assim que se faz. Como sempre, tomou a atitude mais certa. Escreva...
Juliana tremia, quase no conseguia segurar o lpis. Virgnia ficou furiosa:  
- Se insistir em no segurar o lpis e escrever, vou agora mesmo para o quarto de Helena.
- No! No v! vou escrever!
- Est bem. Vamos comear.

Querido amigo Rogrio,

Estou lhe escrevendo porque tomei uma deciso. Depois do que aconteceu conosco, e refletindo melhor, cheguei  concluso de que no o amo, mas sim a meu marido. 
No posso me perdoar por t-lo trado, atendendo ao desejo de um momento. Tra sua memria e o grande amor que sentia e ainda sinto por ele. Por isso, estou tomando 
uma deciso drstica. Vou morrer e assim encontr-lo para lhe pedir perdo e pedir que me aceite novamente como sua esposa. Espero que, com esta atitude, possamos 
ficar juntos eternamente. No me odeie e procure compreender meus sentimentos. Continue sua vida e seja feliz,

Juliana.

Juliana terminou de escrever e estendeu o papel para que Virgnia o lesse. Sua mo e todo o seu corpo tremiam. Sentia muito medo do que viria a seguir, mas estava 
aliviada. Sabia que a sua vida estava sendo trocada pela da filha. Virgnia terminou de ler.
- Acredito que tenha ficado bom, foi bem convincente. Agora pode se deitar e beber o leite.
Juliana, chorando, deitou-se. Cssio passou-lhe o copo, e ela, tremendo, no conseguia coloc-lo na boca. Cssio segurou-a e Virgnia fez com que bebesse. Ela sentiu 
uma leve tontura, percebeu que seu corpo ficava cada vez mais pesado e fechou os olhos. Conseguiu ouvir Cssio dizendo:
- Est feito. Vamos agora fazer com que Helena beba o outro.
Ao ouvir aquilo, Juliana entrou em desespero. Tentou se levantar, mas foi em vo. Seu esprito em poucos instantes estava livre da carne que o prendia. Seu pai, 
Renato e alguns amigos estavam esperando por ela. Ela, quando viu o pai e Renato, to desesperada estava que no se deu conta de estar morta, apenas gritou:
- Papai! Renato! Eles vo matar Helena! Temos de impedir!
Saiu correndo em direo ao quarto de Helena. Chegou ao momento em que a menina tomava o ltimo gole de leite. Jogou-se sobre os dois e comeou a bater com toda 
a fora que possua. Logo depois, percebeu o esprito de Helena saindo de seu corpinho. Fraca ainda por tudo que havia passado, Juliana desmaiou. Renato segurou 
a filha carinhosamente em seus braos. A menina abriu os olhos, viu seu pai, apenas sorriu e continuou dormindo. O pai de Juliana tambm a pegou nos braos e seguiram 
a longa caminhada da volta.

A VERDADE SEMPRE APARECE

Farias, que at agora permanecia calado, sentiu que lgrimas caam de seus olhos. Nervoso, comeou a gritar:
- Damio! O que  isso? Que maldade to grande esses dois fizeram? Como tiveram coragem de cometer dois crimes to horrveis como esses? Juliana era uma moa to 
boa e meiga... e a menina era ainda apenas uma criana! No posso acreditar que isso tenha mesmo acontecido. Deve ser s um filme!
Damio tambm enxugava uma lgrima, porque aquela cena havia sido muito violenta, at para um esprito experimentado como ele.
- Infelizmente, meu irmo, no  apenas um filme. Aconteceu realmente. Por isso estamos aqui hoje. Para julgarmos esses fatos. Precisamos dar a sentena que a Lei 
exige.
- Se a Lei realmente existe, eles tm de pagar com os piores castigos que possam existir!
- Que castigo sugere?
- No sei. Por mais que pense, no consigo encontrar um que realmente faa justia. Ah... J sei! Deveriam ser mandados para aquele vale, quase um inferno, para 
onde fui mandado! Eles merecem! Eu, por muito menos, fui jogado ali.
- A Lei existe e ela mesma se encarregar de dar a sentena. Vamos confiar em sua justia e continuar assistindo?
- Vamos, sim. Quero ver o que aconteceu com aquela pobre moa. Ainda no acredito que tiveram coragem de fazer tanta maldade. Como algum consegue ser to cruel? 
No entendo...
- Vamos continuar assistindo. At o fim, talvez encontremos as respostas. S ento poderemos dar a sentena final.
- Para o que fizeram no h justificativa nem perdo. So uns monstros!
Com a interrupo de Farias, a tela parou no momento em que os espritos seguiam viagem. A um sinal de Damio, as imagens voltaram a se movimentar. Apareceram Virgnia 
e Cssio no quarto de Helena, no momento em que ela acabava de morrer. Cssio pegou o corpinho e carregou-o para o quarto de Juliana, que ali jazia. Colocou a menina 
deitada na cama, a seu lado. Virgnia trouxe consigo os dois copos que continham veneno e colocou-os no cho, dando a impresso de que haviam cado. Sobre o corpo 
de Juliana colocou a carta. Saram os dois abraados, dando ainda uma ltima olhada para ver se tudo estava no lugar. Foram para seu quarto e deitaram-se. No dia 
seguinte pela manh, Elvira acordou com muita dor de cabea. No estranhou, porque costumava acordar assim. Como sempre, foi para a cozinha preparar o caf. Estava 
feliz por ver a felicidade de Juliana. Colocou a mesa. Cssio e Virgnia chegaram como de hbito, abraados e felizes. Sentaram-se e comearam a comer. Elvira estranhou 
que Helena no viera para tomar caf. Juliana sempre acordava um pouco mais tarde, mas Helena, no, ela acordava cedo e quase sempre tomava caf na cozinha com ela. 
Terminou de servir e foi para o quarto de Helena. Abriu a porta e no a encontrou. Sorriu, pensando: Deve estar dormindo com a me. Foi para o quarto de Juliana. 
Ao abrir a porta, percebeu que algo estranho havia acontecido ali. Comeou a gritar. Cssio e Virgnia correram para ver o que estava acontecendo. Pararam na porta 
do quarto e ficaram olhando Elvira, que tentava reanimar Juliana.
- Menina, acorde. No pode estar morta. No agora... Virgnia pegou o papel que estava sobre a cama e comeou a l-lo em voz alta. Elvira parou de falar com Juliana 
para poder ouvi-la. Quando Virgnia, chorando, terminou de ler, Elvira no suportou e comeou a gritar: 
- No pode ser! Ela no faria isso. Estava feliz depois de muito tempo. No pode ser! No faria isso, muito menos mataria Helena. Ela amava a filha. No posso acreditar!
Cssio aproximou-se, pegou no pulso de Juliana, fingindo ver se estava morta mesmo. Virgnia, chorando, abraou Elvira e tirou-a do quarto. Elvira no se conformava. 
Cssio mandou chamar Andr para que este avisasse as autoridades. Aps um exame superficial, no restava dvida, e todos acreditaram que Juliana cometera mesmo o 
suicdio e levara a filha junto. A notcia correu rpido. Muitos amigos, vizinhos e curiosos vieram para ver os dois corpos que foram velados na mesma sala em que 
tempos atrs Renato tambm fora. Todos estavam consternados, no entendiam como Juliana, que sempre fora to ajuizada, pudesse, de uma hora para outra, cometer uma 
loucura como aquela, mas os fatos no deixavam dvidas. Aps os corpos serem sepultados, Virgnia e Cssio despediram-se dos amigos, mostrando no rosto muita dor 
e sofrimento. Elvira, que acompanhou tudo, ainda no se conformava e chorava muito. Afinal, ela fora, na realidade, a verdadeira me para aquelas duas meninas. Juliana 
no pode ter feito isso. No posso acreditar. Ela estava feliz. Encontrara finalmente um motivo para viver. Ia se casar e seria muito feliz. No pode ter feito isso. 
Virgnia abraava-a e consolava-a com palavras afetuosas. As pessoas admiravam-se da ternura que Virgnia sentia por aquela velha empregada. Como previsto por Cssio 
e Virgnia, tudo deu certo. Cssio escreveu uma carta para Rogrio, contando todo o acontecido e transcrevendo a mensagem de Juliana, que ficaria guardada para que, 
no dia em que ele voltasse, pudesse ler e confirmar o acontecido. Pelas contas de Cssio, Rogrio estaria recebendo a carta um pouco depois de sua chegada a Portugal. 
Um ms se passou. Aps a missa de trinta dias, realizada na cidade, Cssio, acompanhado por Virgnia, atendendo a um chamado do advogado, foi at seu escritrio. 
L, na presena dos dois, foi lhes entregue o testamento do pai de Juliana. Por ele, aps a morte da filha e da neta, sua herdeira seria Virgnia. J em casa e em 
seu quarto, Virgnia segurava em suas mos os papis que o advogado tinha dado. Feliz, pensava: Finalmente, consegui! Agora  tudo meu. Poderei fazer o que quiser 
nada me impedir. Finalmente, irei ocupar o meu luar nesta casa! Cssio chegou logo depois. Antes de entrar, parou na porta. Ficou observando a expresso de felicidade 
com que Virgnia segurava os papis. Aps alguns segundos, disse:
- Vejo que est feliz. Conseguiu finalmente o que queria. Agora, me d esses papis, preciso guardar tudo muito bem.
- Por tudo que vi nestes papis, alm da fazenda e das terras, tenho muito dinheiro guardado. Poderei, agora, realizar todos os meus sonhos...
- Tem, sim. A fortuna que o pai de Juliana conseguiu  muito grande. Poder realizar todos os seus sonhos e os meus tambm. Mas no se preocupe com nada, vou cuidar 
de tudo.
Ele se abaixou sobre a cama em que ela estava deitada, para pegar os papis. Virgnia empurrou sua mo, dizendo:
- Obrigada, mas quem vai cuidar de tudo sou eu.
- Como assim? Por que est dizendo isso?
- Porque no confio em voc, meu amor... tenho medo de que tente me roubar, como pretendeu e fez com Juliana...
- Que  isso? Sempre estivemos juntos. Nunca pensaria em roub-la! Esse dinheiro todo agora  nosso. Conseguimos juntos.
- Sei disso, mas prefiro eu mesma tomar conta de tudo.
Furioso, Cssio saiu do quarto sem nada dizer. Montou o cavalo e afastou-se galopando. Enquanto isso, Juliana despertara. A seu lado estava Renato, segurando sua 
mo. Ela abriu os olhos e comeou a gritar:
- Renato, eles vo matar Helena! Temos de impedir. A porta se abriu e Helena entrou, sorrindo: 
 - Mame, que bom que acordou. Papai avisou-me que seria hoje. Juliana abraou a filha com muita fora. S ento percebeu que Renato estava a seu lado. Uma senhora 
entrou no quarto, falando para Helena:
- Agora que viu mame acordada,  preciso deix-la falar com seu pai, por isso, voc, agora, vem comigo.
- No quero ir. Quero ficar com mame e papai.
- Ter muito tempo para ficar com eles, mas agora precisa ir. Papai e mame tm muito para conversar.
Juliana beijou e abraou novamente sua filha, dizendo:
- V, minha filha. Est tudo bem, mas preciso falar com papai. Depois irei ter com voc.
- Mame, onde esto titio Cssio e titia Virgnia? Que lugar  este? No os vi por aqui.
- No sei bem que lugar  este, mas vou descobrir e descobrirei tambm onde esto seus tios. Quando isso acontecer, lhe contarei. Est bem assim?
A menina sorriu, beijou o pai e a me e saiu. Enquanto Helena saa, Juliana olhava para Renato como se s agora o estivesse vendo.
- Renato, como est aqui? Como fez para nos salvar? Ele a beijou suavemente.
- Fique calma, agora est tudo bem. Estamos juntos novamente. Nada mais vai atingi-la.
- No posso ficar calma! No est tudo bem! Nada est bem! Eles me enganaram. Tentaram matar a mim e a Helena tambm. Vou voltar e denunci-los s autoridades! Eles 
tero de ser presos. Tero de pagar por todo mal que nos fizeram!
- Nada precisa fazer. Existe uma Lei maior que a tudo julga. Eles tero tudo que merecem. Agora, s precisa ficar bem para continuar sua vida.
- No posso! Tramaram contra mim. Enganaram-me. Mentiram. Eu os amava. Confiava neles. Considerava-os irmos!
- Sei disso, mas por enquanto nada pode fazer. Estamos juntos e por isso volto a lhe dizer que est tudo bem.  
- No est tudo bem. No consigo aceitar.
Juliana parou de falar bruscamente. Olhou para Renato como quem no estava entendendo:
- Espere... como voc voltou? Que lugar  este? Onde estou?
- No fui eu quem voltou. Foi voc quem veio at aqui. Esta  uma casa de recuperao. Ficar aqui at que se sinta bem. Depois, iremos juntos para minha casa. Tudo 
voltar ao normal, como era antes. Ns trs, juntos, viveremos por um bom tempo em paz.
Surpresa, Juliana continuou olhando-o. Arregalou os olhos como quem se recusasse a aceitar o que estava imaginando.
- Como foi que cheguei at aqui? Como consegui encontr-lo?
- Voc no me encontrou. Eu fui busc-la. Estava sozinha e precisando de ajuda. Seu pai e mais alguns amigos foram comigo. Agora, tudo vai ficar bem.
Juliana, de um pulo, levantou-se da cama.
- No estou entendendo. Ou melhor, no quero entender... para que eu possa ter vindo at aqui, para estar vendo-o e conversando com voc... est tentando me dizer 
que morri? Est me dizendo que aqueles dois canalhas conseguiram? Se Helena est aqui,  porque eles a mataram tambm?
- Foi isso mesmo que aconteceu. Mas no se preocupe mais. Agora, j passou. Tudo ficar bem.
- Como no me preocupar? Como poderei deixar que sigam sem castigo? No estou entendendo. Se morri como estou me sentindo viva? Como estou com meu prprio corpo?
Sorrindo, Renato abraou-a.
- Est sentindo-se viva porque realmente est. A morte no existe para o esprito. Ele  eterno. Somos eternos. Como todas as pessoas que vivem na Terra, voc pensa 
que, ao morrermos, ns nos tornamos fantasmas, no temos mais corpos. No  a verdade, assim como muitas outras coisas que aprendeu. Aos poucos, ficar conhecendo 
tudo por aqui. Garanto que vai gostar muito. 
 - No entendo como pode estar calmo assim. Eles o mataram. Separaram-no de mim e de Helena. Destruram-nos!
- No princpio, assim que aqui cheguei, tambm fiquei revoltado, mas, aos poucos, amigos convenceram-me de que o que estava feito no tinha mais remdio, que eu 
deveria confiar na justia divina e continuar minha caminhada para o conhecimento. Poderia ver voc e Helena sempre que quisesse. Foi o que fiz. Aceitei os desgnios 
de Deus. Aprendi muito. Sempre que voc precisou, estive a seu lado. Por isso que, quando morreu, estvamos l para ajud-la a se desprender do corpo e vir em segurana 
para c. Agora est aqui e tudo est bem. O que tem de fazer  descansar. Logo se sentir melhor.
- Pare de dizer que tudo est bem! Nada est bem! No me sentirei bem enquanto no fizer com que aqueles dois paguem por todo o mal que nos fizeram!
Renato abriu os braos, levantou-os e fez urna prece:
- Senhor, meu Pai.  preciso que entenda o que ela est sentindo agora. Envie para ela Sua luz consoladora de paz, para que aceite tudo sem reclamar. Para que aceite 
que existe uma Lei maior que um dia a todos atinge: a Lei do amor e do perdo.
Enquanto Renato fazia essa orao, uma luz intensa desceu sobre a cabea de Juliana, e aos poucos ela foi se deixando cair. Renato segurou-a e, abraando-a, colocou-a 
novamente na cama. Depois de acomod-la, fez outra orao de agradecimento e permaneceu a seu lado. A porta se abriu. Urna senhora entrou, foi at a cama e colocou 
a mo sobre a cabea de Juliana. Renato, ao v-la, sorriu e falou baixinho.
- Marina, que bom que veio at aqui. Ela est muito revoltada, no sei mais o que fazer para amenizar todo o dio que est sentindo.
- Meu querido,  fcil entender o que ela est sentindo. Vamos orar e pedir a Deus que ela aceite e entregue tudo  Lei e  Justia Divina, mas voc sabe que, se 
ela no entender nem aceitar, nada poderemos fazer. Ela tem seu livre-arbtrio. Vamos esperar e ver o que acontece.  
 Renato olhou para Juliana e disse baixinho:
- Espero minha querida, que aceite. Para seu prprio bem.
Quando Juliana acordou, Renato ainda permanecia a seu lado. Ela olhou para ele e para todo o ambiente e sorriu.
- No foi um sonho? Voc est mesmo aqui? Ento eu morri mesmo? Estou morta?
- Sim. Estou aqui, e estarei para sempre a seu lado, mas parece que est melhor. Parece que est aceitando sua condio. Agora, acredito que possamos conversar.
- Podemos, sim. No tenho mais dvidas de que eles conseguiram. S no entendo como pode estar to calmo aps ter sido assassinado por aqueles dois. No entendo 
como consegue perdoar tanta maldade. Por mais que tente, acredito que nunca conseguirei perdoar todo o mal que nos fizeram.
- Para tudo sempre h uma hora certa. Tudo acontece como tem de ser. Quando voltamos para a Terra, levamos misses para serem cumpridas. Cabe a ns cumpri-las ou 
no. Ns fizemos nossa parte. Eles, no. Perderam a oportunidade divina que Deus lhes deu. Agora, nada mais nos resta a fazer, a no ser esperar que a Lei seja cumprida.
- Ainda no entendo. Como pode estar to calmo? Que Lei  essa?
- Estou calmo porque entendi que a Lei de Deus  para todos. A Lei do amor, do perdo e do retorno. Quando voltamos para a Terra, temos a liberdade de agir como 
quisermos. Podemos escolher entre o bem e o mal. Dessa escolha depender nosso futuro. Agora, s nos resta perdoar e aguardar.
- Eu no escolhi o mal. Ele se voltou contra mim e minha famlia. A maldade, a ganncia e a inveja nos destruram. Mataram Helena, sem se preocupar se ela era ainda 
uma menina, com a vida toda pela frente. Como posso perdoar isso? Posso nascer e renascer mil vezes, mas nunca os perdoarei!
- Peo a Deus que entenda para seu prprio bem. Se j est se sentindo melhor, se for para seu bem, posso falar com Marina e, talvez, possamos voltar para a fazenda. 
Ver com seus prprios olhos a Lei sendo cumprida. Quer voltar?
Juliana pensou um pouco, depois perguntou:  
- A Lei j est sendo cumprida?
- Est, sim, ela  implacvel. Quer ir at l?
- Quero. Preciso ver com meus prprios olhos. Eu os odeio e quero que paguem no fogo do inferno todo o mal que nos causaram!
- Posso tentar lev-la at l, mas ter de prometer fazer o possvel para tentar ajud-los.
- Ajud-los? Nunca! S se for para conden-los!
- Voc tambm agora est tendo a oportunidade de praticar o perdo e reconhecer que a Lei de Deus  divina e poderosa. No sei como foi nosso passado junto a eles, 
s sei que devemos nos ajudar mutuamente para nosso aprimoramento. O nico caminho para se chegar a Deus  atravs do perdo e do amor.
- Mas eles nos assassinaram. E tambm Helena, uma inocente. Como perdoar?
- Aprendi aqui que no existe ningum inocente, apenas espritos caminhando para a perfeio, como somos todos.
- No consigo entender e aceitar, mas vou me esforar. Vamos at l?
- Se for para seu entendimento, vamos, sim, Juliana. Vou pedir autorizao e solicitar a alguns amigos que nos acompanhem. A viagem  longa e perigosa, no podemos 
ir sozinhos.
Renato fechou os olhos. Pouco depois, a porta se abriu, Marina entrou e disse com um sorriso.
- Renato, voc me chamou? Vejo que nossa menina est acordada e bem.
Juliana olhou para aquela mulher que tinha um olhar meigo e amoroso.
- Quem  a senhora?
- Uma amiga de longa data. Fiquei feliz quando a vi de volta. Mais feliz agora, por v-la mais calma. Como est se sentindo?
- Mais calma, sim; mas conformada com o que nos aconteceu, isso no. Ainda no consigo entender, muito menos perdoar, como Renato quer.
- Tudo h seu tempo. S essa sua predisposio em entender j  um comeo. Renato, o que deseja fazer?
Antes que Renato respondesse, Farias voltou a gritar, fazendo com que a tela se congelasse novamente.
- Damio, eles no podem querer que ela perdoe! Como pode perdoar? Foi trada, enganada e humilhada. Alm de a matarem, mataram tambm seu marido e sua filha! Como 
perdoar?  
Damio, com sua habitual calma, respondeu:
- Voc ainda no aprendeu, mas aprender que o nico caminho para um esprito est no perdo. Peamos a Deus que tambm entenda isso.
- No aprendi e acredito que nunca aprenderei. Como podem ser assim? Vocs no tm amor-prprio? No tm sangue no corpo?
Damio e Duarte comearam a rir. Foi Duarte quem respondeu:
- Amor-prprio no passa de vaidade humana. Quanto ao sangue, realmente no temos. Vamos voltar para o filme?
Farias, meio sem graa, foi obrigado a sorrir tambm, pois novamente esquecera que no possua mais corpo. Apenas disse que sim com a cabea e as imagens na tela 
comearam a se movimentar. Renato respondeu:
- Marina, queria levar Juliana de volta  fazenda para que veja o que est acontecendo por l, mas no sei se terei permisso. E, mesmo que consiga, no poderemos 
ir sozinhos, precisaremos de companhia.
- Est bem, voc tem a permisso. Sei que far bem a Juliana. Pedirei que mais alguns amigos nos acompanhem e iremos todos juntos.
- Voc ir conosco?
- Claro que sim! No os deixaria em um momento importante como este. Enquanto isso devem fazer uma orao agradecendo Nosso Pai Divino por mais esta oportunidade.
- Sempre soube que nos ajudaria, mas nunca pensei que fosse dessa maneira. S posso lhe agradecer. Faremos, sim, uma orao. Tenho certeza de que esta viagem far 
muito bem a Juliana.
Com um sorriso, Marina saiu do quarto. Renato beijou Juliana, que se levantou. Estava vestida com uma camisola branca. Ele olhou para ela, dizendo:
- No pode fazer a viagem com essas roupas, Juliana.  preciso troc-las. Ali no armrio existem muitas outras.
Juliana admirou-se por tudo continuar como se ainda estivesse viva. Abriu o armrio e mais surpresa ficou.  
- Minhas roupas esto todas aqui? Como pode ser?
- Com o tempo, aprender a se vestir sozinha, com as roupas que quiser, mas por enquanto usar as suas prprias.
- Estranho. Nunca pensei que fosse assim. Sei que estou morta, mas sinto todos os desejos de antes. Estou agora precisando de um banho.
-  assim mesmo. Ainda est sentindo a sensao do corpo? No ouviu dizer que, quando algum tem um membro extirpado, por muito tempo ainda acredita possu-lo?  
isso que acontece com nosso corpo. Levar algum tempo para no o sentir mais. O banheiro  logo ali. Poder tomar o banho como se estivesse na Terra. Alis, bem 
melhor que l. - Renato disse, sorrindo.
Juliana seguiu com os olhos a direo que ele lhe apontava. Viu uma porta, abriu e entrou. L dentro, viu um banheiro completo. Havia uma pia, e um espelho, o vaso 
sanitrio e uma banheira como nunca havia visto antes. Viu uma torneira, no sabia para que servia, mas por curiosidade, a abriu e a gua jorrou com muita fora. 
Ela se assustou, mas, em seguida, comeou a rir. Na fazenda, a gua vinha de um poo e a banheira era cheia com gua aquecida no fogo a lenha. Por isso, nunca havia 
visto uma torneira. Do lado da banheira, ela viu um sabonete, que tambm no conhecia, mas, mesmo assim o pegou, cheirou e sentiu um suave perfume que a agradou 
muito. Feliz, pensou: No consigo acreditar que tudo isto esteja acontecendo. Como pode ser? Estou morta, mas sinto desejo de um banho. Sinto o perfume deste sabo... 
Como pode ser? Tomou um banho demorado. Vestiu-se e voltou para o quarto. Renato sorria, compreendendo seu espanto.
- Est admirada, no ?
- Estou. Nunca pude imaginar que aps a morte seria assim. Sempre acreditei que existisse um cu e um inferno, mas nunca isto que encontrei aqui...
- Vai se admirar muito mais. Aqui  o nosso verdadeiro lar. Renascemos em vrios lugares para nos aperfeioar e progredir no aprendizado da Lei maior. A cada renascimento, 
aprendemos mais e chegar um dia em que no precisaremos mais renascer. Mas isso, para ns, ainda vai demorar muito.
Ao ouvi-lo falando daquela maneira, percebeu o quanto o amara e amava ainda. Agora, tinha certeza que ele fora o nico amor de sua vida. Aproximou-se, segurou suas 
mos e disse:
- Renato, preciso lhe falar sobre Rogrio.
- No precisa falar nada. Sei de tudo. Sou eu quem tem de lhe falar a respeito. Cssio e Virgnia apenas adiantaram o tempo. Logo eu voltaria para c. Voc encontraria 
Rogrio, porque tem com ele, um compromisso de resgate. Infelizmente, no por sua culpa ou dele, isso ter de ser adiado.
- No estou entendendo. Est querendo dizer que ainda no era meu tempo para voltar? Est dizendo que deixei de cumprir algo? Por culpa daqueles dois?
- Isso mesmo. Mas no se preocupe, ter outras oportunidades.
- Agora que estou a seu lado novamente, sinto o quanto o amo e o quanto sempre o amei. O que senti por Rogrio foi algo totalmente diferente.
- Sei disso, meu amor. Tambm a amo e sinto que a amarei eternamente, mas temos ainda uma longa caminhada de aprendizado e resgates para que um dia possamos ficar 
juntos para sempre. Tenha certeza de que esse dia chegar, e ento seremos felizes eternamente. Termine de se aprontar. Logo nossos amigos chegaro.
Em poucos minutos, ela se aprontou. Vestiu uma roupa simples, daquelas que usava diariamente.
- Estou bem assim?
Renato olhou-a com muito amor e carinho.
- Claro que est. Voc sempre est bem.  a mulher a quem amo e sempre amarei. A viagem ser longa, mas no se preocupe com nada que acontecer durante o caminho. 
Estaremos muito bem acompanhados e no temos o que temer.
A porta se abriu novamente. Marina entrou por ela, sorridente.
- Esto prontos? Est na hora.
- Estamos, sim, embora Juliana ainda esteja muito admirada com tudo o que est vendo.
- Isso mesmo. A cada minuto me espanto mais. Que bom seria se as pessoas na Terra soubessem de tudo que acontece aps a morte. Com certeza, muitas coisas seriam 
evitadas.
- Tem razo, mas no seriam elas mesmas. Seriam como robs, apenas fazendo tudo certo, sem crescer realmente. No ouviu dizer que  errando que se aprende? Deus 
 sbio, d a todos ns o direito da escolha entre o bem e o mal. Apesar de todas as religies serem diferentes entre si, todas ensinam o caminho do bem, por isso, 
no ntimo, todos acreditamos que exista uma vida melhor aps a morte. S que, envolvidos com nossas prprias vidas, no damos muita ateno a isso, at que o dia 
finalmente chega e deparamos com a realidade, que, para alguns,  muito triste, mas j estamos atrasados. Vamos agora?
- Vamos, sim. Mas onde esto meu pai e Helena? No os vi mais.
- Seu pai faz parte de uma equipe que d assistncia queles que esto desencarnando. Ficou por aqui at saber que voc estava bem. Agora, ele est de volta  sua 
misso. Helena est na escola. No se preocupe com eles. Precisa somente entender, aceitar e perdoar os erros de seus irmos.
- Perdoar Cssio e Virgnia? Nunca! Nunca poderei.
- Nunca  muito tempo. Logo entender que Deus  sbio. Sabe que, por pior que pareamos ou tentemos ser, todos temos dentro de ns o amor sincero que um dia ser 
libertado. Ele no tem pressa, sabe tambm que todos, um dia, chegaremos at Ele. Por isso, todos aprendemos, atravs de muitas reencarnaes, que o nico caminho 
para chegar at Ele  pelo perdo. Isso tudo voc aprender, mas por enquanto vamos nos preocupar apenas com nossa viagem. Tudo vir a seu tempo.
Juliana colocou um leno na cabea para segurar seus longos cabelos. Saram. Assim que a porta se abriu, surgiu em sua frente um longo corredor com vrias portas. 
Novamente, falou admirada:
- Renato, isto aqui  um hospital?
- Pode-se dizer que sim. Quando as pessoas desencarnam, so trazidas para c. Quando acordam, pensam estar em um hospital, e aos poucos vo sendo inteiradas de sua 
verdadeira situao.
- Parece mesmo que aqui tudo  perfeito.
-  tudo muito bem organizado. Para que tudo caminhe bem, muitos trabalham.
- Trabalham? Quer dizer que aquilo que se diz na Terra, morrer para descansar, no existe?
- Como tudo aqui  perfeito, no se pode obrigar ningum a nada que no queira fazer. S trabalha quem quer. Aquele que no quiser, poder ficar sem fazer nada. 
Depende de cada um.
- Custa-me muito acreditar em tudo isso.
- Ter muitas outras coisas em que vai custar a acreditar; todavia, com o tempo, se acostumar.
Chegaram ao fim do corredor. Uma grande sala surgiu. Quatro rapazes sorriram quando eles apareceram. Marina foi ao encontro deles.
- Juliana, estes so Fernando, Joo, Paulo e Carlos. Eles nos acompanharo durante a viagem.
Fernando, o que parecia ser mais jovem, abriu ainda mais seu sorriso e estendeu a mo para Juliana.
- Muito prazer. Estamos prontos. Espero que goste da viagem. Faremos o possvel para que tudo d certo.
- Muito prazer. No preciso falar de meu espanto perante tudo o que est me acontecendo.
- No precisa mesmo. Sabemos muito bem, porque passamos por tudo isso tambm. Vamos?
Juntos se encaminharam para fora. Juliana ainda se admirava:
- No posso acreditar que esteja morta. No posso acreditar que no esteja em uma cidade da Terra.
Realmente, ao sair daquele edifcio, notou que havia ruas, casas e uma linda praa defronte ao hospital. Marina falou:  
-  exatamente do mesmo modo. As pessoas vivem em suas casas. S existe uma diferena em relao  Terra: aqui a lei que impera  a do amor. Quando voltarmos, voc 
ir para a casa onde vivem seu pai e Renato. Ali vivero juntos.
- Minha me, onde est?
- Ela voltou  Terra j h algum tempo.  agora uma linda menina. Voc encontrar ainda muitos amigos de outros tempos, dos quais no se lembra agora. Logo perceber 
que tudo continua como sempre. Ter a sensao de estar apenas vivendo em outro lugar, como se tivesse feito apenas uma viagem. Renato abrace-a e segure-a de um 
lado, eu farei o mesmo do outro. Juliana, agora vai se admirar novamente, no se assuste. Por enquanto ainda vai ter de ser ajudada, mas com o tempo aprender como 
se faz.
Renato abraou-a pela cintura, o mesmo fazendo Marina. Ela percebeu que seus ps aos poucos foram se levantando do cho. Em pouco tempo, se sentiu voando.
- No posso acreditar! Isto no est acontecendo. Devo estar sonhando. Estou voando?
Os companheiros, que tambm voavam, apenas sorriram.
Depois de algum tempo, ela no sabia precisar quanto, viu ao longe a fazenda que to bem conhecia. Chegaram e entraram no quarto onde Virgnia, feliz sobre a cama, 
olhava para os papis que davam a ela tudo que um dia pertencera a Juliana. Ao v-la feliz daquela forma, Juliana soltou-se dos braos de Marina e Renato e atirou-se 
sobre ela. Comeou a bater em seu rosto. Renato puxou-a para si, dizendo:
- No faa isso! Voc tem de se conter, seno teremos de lev-la embora.
Chorando, desesperada, Juliana gritava:
- Como no fazer isso? Olhe como est feliz, sem um pingo de remorso por ter matado voc, a mim e a Helena!
- Meu amor, o que est feito, est feito. Voc no pode e no deve fazer justia por si mesma. Tem de confiar na sabedoria e na justia de Deus.  para isso mesmo 
que estamos aqui.  
Chorando, ela se abraou a ele, dizendo:
- No consigo acreditar que sempre a considerei uma irm. Como poderei confiar novamente em outra pessoa? Como poderei ser a mesma Juliana de antes, ingnua e confiante? 
Como poderei perdoar tanta maldade? Sinto muito, meu amor, mas no conseguirei. Nunca, entendeu? Nunca!
Ele continuou abraando-a:
- Sei que  difcil, mas devemos confiar na bondade de Deus. Ele far brotar em seu corao o sentimento do perdo. Deus  soberano e pode tudo.
Nesse momento, a porta do quarto se abriu. Cssio, sorridente, entrou por ela. Mais uma vez, Juliana no se conteve e quis se atirar sobre ele. Mais uma vez, Renato 
segurou-a.
- No faa isso! Confie na justia de Deus.
- No consigo. Eles nos destruram! Acabaram com nossa famlia e nossa felicidade! Mataram Helena, ainda uma menina... no consigo, nem por um momento, pensar em 
perdoar...
Renato beijou seus cabelos. Virgnia e Cssio comearam a discutir sobre quem cuidaria do dinheiro. Juliana parou e ficou observando. Depois de discutirem e Cssio 
perceber que nunca tocaria em um centavo sequer, saiu do quarto e foi para a varanda. Juliana puxou Renato, e os dois foram atrs dele. L fora, Cssio, muito nervoso, 
olhando para a imensido de terras que via  sua frente, pensava: Sempre quis tudo isso. Para tanto, cometi trs crimes imperdoveis. O tempo est passando, tenho 
de conseguir o dinheiro para livrar minha fazenda da hipoteca. Mas como farei? Se Virgnia insistir em cuidar das finanas, como farei? No posso contar a ela sobre 
essa minha dvida. A, sim,  que no me dar um tosto. Tenho de pensar em um modo de convenc-la a deixar que eu cuide de tudo. Assim, poderei desviar o dinheiro 
sem que ela tome conhecimento. Mas como convenc-la? Como? Por que no confiei e aceitei a ajuda que Juliana me ofereceu? Por que me deixei envolver pelas palavras 
de Virgnia, que durante todo o tempo me envenenou contra ela? Juliana, abismada, olhou para Renato. 
- Que est acontecendo aqui? Esto se tornando inimigos?
- Parece que sim. No lhe disse que a justia de Deus  sbia e implacvel? Por isso no deve se preocupar. Acredito que, agora que viu como tudo est por aqui, 
podemos ir embora.
- Que faro para resolver essa situao? Como Cssio pagar suas dvidas e ter sua fazenda de volta?
- No sei. Os dois esto juntos no crime. Esto, agora, por suas prprias contas. Ningum poder interferir na deciso que tomarem. Tero de usar o livre-arbtrio 
que Deus d para todos.
Enquanto isso, Marina e os outros continuavam no quarto de Virgnia. Renato e Juliana voltaram para junto deles. Assim que Cssio saiu, Virgnia comeou a pensar: 
No posso confiar nele. No posso permitir que coloque a mo em meu dinheiro. Sei que  muito ganancioso e que far tudo para me roubar. Depois de tudo que fiz, 
no vou permitir que me tire um centavo sequer. Ao ouvir aquilo, Juliana olhou feliz para Marina.
- Marina, eles mesmos se destruiro?
- No sei. Mas agora tero de lutar contra seus prprios fantasmas. S Deus  quem sabe o que acontecer.
Enquanto Virgnia pensava, eles notaram que alguns vultos pretos se aproximaram dela. Um deles falava em seu ouvido:
- Isso mesmo! No pode confiar nele. No viu o que fez com Juliana, Renato e at com Helena? Pobre menina...
Virgnia, como se realmente ouvisse, comeou a pensar: No vou deixar nada com ele. Juntos, cometemos aqueles crimes. Quem me garante que no far o mesmo comigo?
Helena... s vezes penso que no precisava ter feito aquilo com ela tambm... eu a amava. Era como se fosse minha filha... poderia ter deixado que ela vivesse. Eu 
seria sua tutora, tomaria conta de todo o dinheiro. No! Se continuasse viva, seria a herdeira. Ela tambm precisava morrer. Outra vez, ao ouvir aquilo, Juliana 
no se conteve e tentou se atirar sobre ela. Dessa vez, quem a impediu foi Marina.  
 - No faa isso, Juliana! Procure encontrar dentro de voc o perdo. Deixe que Deus faa Sua justia. Virgnia agora tem companhia. Alis, essas companhias j esto 
a seu lado h muito tempo. Com sua ganncia, cime e dio, ela as atraiu. Nada mais temos para fazer aqui, podemos voltar.
Renato novamente abraou Juliana, falando:
- Marina tem razo, meu amor. Procure abater todo esse dio que est sentindo, para que no atraia figuras como essas que esto acompanhando Virgnia. Vamos embora, 
nada mais temos para fazer aqui.
- No, no vou embora! Quero ficar aqui e ver a destruio deles com meus prprios olhos! S descansarei em paz quando isso acontecer. At l, no poderei continuar 
vivendo como se nada houvesse acontecido!
Com expresso muito sria, Renato disse:
- Juliana, para seu prprio bem,  melhor que nos acompanhe. Vamos embora. Nada mais poder fazer a no ser se complicar e perder a oportunidade de continuar comigo 
e com Helena. Se insistir em ficar aqui, eu e nossos amigos teremos de ir embora e talvez voc nunca mais encontre o caminho de volta para estar conosco. Pense bem, 
meu amor. No posso interferir em sua deciso. Ela  s sua.
Juliana ficou pensando no que faria. A deciso era difcil. Seu corao estava dividido entre ir embora com Renato e permanecer ali para se vingar. Todos a olharam, 
esperando sua resposta. Pensou por alguns momentos, sorriu e disse:
- Renato, eu o amo e nunca mais quero me separar de voc ou de Helena. Por tudo que vi aqui, percebo que a Lei est seguindo seu curso. Vou confiar. Vamos embora. 
Estou pronta.
Farias nervoso, mais uma vez interrompeu a projeo:  
 - Damio, ela no pode fazer isso. Ela tem de continuar ali, como fiquei ao lado de Mrcia, para lev-los  loucura. Eles merecem. Ela no pode, simplesmente, desistir.
- Talvez tenha razo, meu irmo, mas essa deciso  s dela. Se optou por ficar ao lado daqueles que ama,  um direito dela, no podemos interferir. Vamos continuar 
assistindo?
Farias percebeu que havia falado em hora errada. Balanou a cabea, aceitando a sugesto de Damio. A tela voltou a se iluminar. A figura de Cssio apareceu novamente. 
Ele, agora, estava parado, montado em um cavalo. Sua cabea fervilhava em pensamentos desencontrados. Preciso encontrar um meio. O tempo est passando. J faz quase 
quatro meses desde a morte de Juliana. O dia de pagar a dvida est chegando. Virgnia deixou claro que no permitir que eu cuide de seu dinheiro. Como vou fazer? 
Preciso afast-la de meu caminho. Tenho de encontrar um meio para isso. Preciso fazer com que morra, mas como? Ela  esperta, no vai se deixar matar sem reagir. 
Precisa ser de um modo que no desperte suspeitas. Talvez eu devesse conversar com ela e contar tudo. Ela entender, sabe tudo que fiz para conseguir ficar com o 
dinheiro de Juliana. Colocou o cavalo em movimento e saiu cavalgando sem destino, percorrendo aquelas terras que haviam sido o motivo de seus crimes. Virgnia, em 
seu quarto, mais uma vez com os papis nas mos, ainda saboreava a felicidade de ter conseguido tudo que acreditava ser seu por direito. Finalmente! Embora esteja 
com estes papis em minhas mos, custa-me acreditar que tudo deu certo. Estou me lembrando agora de quando, ainda muito criana, cheguei a esta casa. A princpio, 
pensei ser tambm uma pessoa que pertencia  famlia. Minha me havia se casado com o pai de Juliana. Ela o conheceu na cidade, quando ele foi at l fazer compras. 
Ela trabalhava de balconista em uma loja. No sei os detalhes do que aconteceu, mas, depois de alguns dias, ela se aproximou me pegou no colo e disse:
- Filhinha, voc  ainda muito pequena, tem apenas seis anos, e sei que sofremos muito desde que papai foi para o cu, mas de agora em diante vai ser diferente: 
vou me casar e iremos viver em uma fazenda muito grande e bonita. Voc ter um novo pai e uma irm que vai lhe querer muito bem. Sinto que seremos felizes.
Em seguida, ele tambm se aproximou e me pegou no colo.
- Sua me tem razo. Iremos para minha casa. Tive at agora s uma filha, mas daqui para frente terei duas. Minha filha se chama Juliana, tem cinco anos. Ela ser 
sua amiga e viveremos felizes para sempre. As duas sero iguais para mim, amadas da mesma forma.
- Mentiroso! Mentiroso! Desde o dia em que aqui cheguei, senti a diferena que existia entre mim e Juliana! Mais nova que eu, ela estava sempre em seu colo, e ele 
a abraava com muito carinho. Comigo, falava somente o necessrio! Quando viajava, os melhores presentes que trazia eram sempre os dela. Nunca nos tratou da mesma 
forma! Nunca fui considerada uma filha. Mame dizia que ele era muito bom para ns duas, mas eu no sentia o mesmo. Nunca os vi brigando, mas, mesmo assim, eu era 
tratada com uma enorme diferena. J maiores, eu estava com doze anos quando conhecemos Cssio. Mais tarde, apaixonei-me por ele, mas nada! Ele tambm s tinha olhos 
para Juliana, a meiga! A bonita! Sempre estive em segundo lugar! Mais tarde, quando Renato chegou acompanhado por Cssio, novamente meu corao comeou a bater mais 
forte. Ele era bonito e agradvel, mas outra vez Juliana foi  notada. Eles se apaixonaram e se casaram. No dia do casamento, outra vez, tive que demonstrar uma 
felicidade que no sentia. Quando ela soube que esperava um filho, ficaram todos radiantes, e novamente tive de demonstrar uma felicidade inexistente. Helena nasceu, 
era uma criana linda. Eu no conseguia odi-la e como desejava que fosse minha...  Mas no... era de Juliana! Tudo era e sempre foi de Juliana! Eu sempre fui a 
inteligente, a bem organizada. Apenas isso. O testamento foi o que me tirou toda a esperana de um dia ter sido considerada como filha. Passei a odiar Juliana ainda 
mais! Foi nessa poca que comecei a elaborar um plano para faz-la sofrer! Finalmente, consegui! No s faz-la sofrer, mas tambm tir-la de meu caminho para sempre! 
Daqui para frente, vou usufruir de tudo de que por direito sempre foi meu! S preciso tomar cuidado com Cssio, ele  muito perigoso. Levantou-se da cama, na qual 
permanecia sentada, segurando os papis, e dirigiu-se at a uma cmoda que havia no canto do quarto. Abriu uma gaveta e guardou os documentos. Olhou para o espelho, 
pensando: Sou uma mulher muito bonita. Com todo esse dinheiro que possuo agora, finalmente poderei viver. Vou viajar conhecer o mundo e, talvez, encontrar um amor 
verdadeiro... Ela realmente era muito bonita. Embora seus cabelos fossem pretos, seus olhos eram claros. Em seu pescoo, havia um pequeno camafeu com o retrato de 
sua me. Ao v-lo, falou em voz alta:
- Est vendo, mame? Sua filha, agora sim, ser feliz! No dia em que me chamou para dizer que teria de partir para encontrar papai, pediu-me para proteger Juliana, 
porque ela era minha irm. Eu fiz o que me pediu, protegi-a tanto que hoje ela est, com certeza, no inferno!
Passou as mos pelos cabelos para coloc-los no lugar alguns fios que estavam soltos. Olhou mais uma vez para o retrato da me. Sorriu e saiu do quarto. No corredor, 
ouviu uma espcie de gemido no quarto de Juliana. Abriu a porta com violncia. L dentro, Elvira, sentada na cama, chorava copiosamente.
- Minha menina Juliana, no consigo acreditar que tenha feito aquilo. Voc estava muito feliz... disse-me que iria recomear sua vida... no consigo acreditar... 
no faria nenhum mal para Helena. No faria mesmo...
Ao ouvir aquilo, Virgnia ficou furiosa: 
- Que est fazendo aqui, Elvira?
- Desculpe menina, sabe o quanto amo vocs duas. Praticamente fui eu quem as criou. Sua me, logo aps o casamento, ficou doente e tinha dificuldades, por isso me 
confiou sua educao. Eu j cuidava de Juliana e fiquei muito feliz por poder cuidar de voc tambm. Cresceram a meu lado. Eu ficava cada vez mais apaixonada pelas 
duas. So para mim como se fossem duas filhas muito queridas. Conhecia muito bem Juliana. Sabia o que pensava a respeito da vida e da morte. Sei o que pensava a 
respeito do suicdio, o quanto era grave perante Deus. Por isso, no posso acreditar que tenha cometido um ato to condenvel por ela mesma. No suporto a idia 
de pensar em minha menina fazendo aquilo. Estou sentindo muita falta dela e da pequena Helena. Virgnia percebeu que ela representava um perigo. Se insistisse em 
falar aquilo, poderia ser ouvida e levantar alguma suspeita. Aproximou-se dela, abraou-a e disse:
- Sei o que est sentindo, porque sinto a mesma coisa.  difcil acreditar, mas aconteceu. Infelizmente, ela deve ter sido tomada por alguma coisa m que a levou 
a cometer aquela loucura, mas no adianta ficar chorando, vamos entregar esse caso nas mos de Deus. Sabe que precisamos continuar vivendo, no sabe? Sabe tambm 
que tanto eu quanto Cssio precisamos muito de voc.
- Sei menina. Sei que tudo que est dizendo  a verdade, mas no consigo me conformar. No acha que deveramos falar com o delegado para que investigasse mais a 
fundo? Quem sabe ele descobre alguma coisa?
- Sei o quanto gostou e gosta de mim. Tambm sinto a mesma coisa por voc. Sei que  difcil acreditar, mas realmente aconteceu. Tambm no consigo entender o motivo, 
mas aconteceu. Ela realmente fez aquilo. Nada mais podemos fazer. O delegado j encerrou as investigaes. No restou dvida alguma. 
- No entendo por que dormi aquela noite to profundamente. Tenho o sono muito leve, com qualquer rudo eu acordo. Levanto vrias vezes durante a noite, mas naquela 
noite dormi sem acordar uma vez sequer.  isso que me est deixando preocupada. Por que no acordei?
- Isso no posso responder, porque, como sabe, eu durmo muito bem, e tambm no acordei.
Cssio, como fazia ultimamente, depois de cavalgar muito, resolveu voltar para casa. Estava cada vez mais transtornado. No h outro meio, vou falar mais uma vez 
com Virgnia. Terei de contar toda a verdade sobre minha situao. Preciso ter o dinheiro para pagar a hipoteca, seno perderei minha fazenda. Entrou em casa e dirigiu-se 
para seu quarto, onde havia deixado Virgnia poucas horas atrs. Ao passar pelo corredor, ouviu vozes. Parou, percebeu que Elvira e Virgnia conversavam. Chegou 
at a porta, que estava aberta. Viu Virgnia abraada a Elvira, que chorava muito.
- Posso saber o que est acontecendo? 
As duas se voltaram, e Virgnia falou:
- Elvira est muito nervosa e com saudade de Juliana e Helena. Est preocupada porque naquela noite no acordou. Quer falar com o delegado para que ele investigue 
melhor o acontecido.
Cssio sentiu um frio correr pela sua espinha. Virgnia percebeu e continuou:
- Estou dizendo a ela que tambm sinto falta de Juliana e de Helena, mas que, infelizmente, tudo aconteceu mesmo. Agora ela j est mais calma.
Cssio, um pouco assustado, disse:
- Todos sentimos saudade. ramos muito amigos, mas, como voc diz, infelizmente aconteceu, no h mais nada que se possa fazer. Vou para o quarto.
Com as pernas ainda trmulas, saiu em direo ao quarto. Virgnia percebeu que ele estava muito nervoso e voltou-se para Elvira:
- Elvira, tambm estou triste e, vendo este quarto igual ao que era antes, acredito que a tristeza seja sempre maior. O melhor que temos para fazer  tirar tudo 
daqui e do quarto de Helena. Vamos dar os mveis para algum e colocar outra moblia. Podemos transformar esses quartos em salas de estar. Providencie isso.
- Menina! No posso fazer isso! Este quarto  a presena constante de Juliana nesta casa.
- Por isso mesmo precisa ser modificado. Ser melhor para voc e para ns todos. Juliana no est mais aqui. Voc precisa se conformar.
- No posso fazer isso...
Virgnia olhou para ela e, com firmeza, disse:
- No estou pedindo, Elvira. Estou ordenando!
Saiu do quarto, deixando Elvira chorando e olhando tudo. Virgnia notou que Cssio estava muito nervoso. Achou melhor ir falar com ele para descobrir o que estava 
acontecendo. Foi para seu quarto. Abriu a porta, e Cssio estava sentado com as costas apoiadas na cabeceira da cama. Ela percebeu, pela expresso de seu rosto, 
que ele estava realmente nervoso. Aproximou-se e sentou-se do lado da cama.
- Voc parece que est muito nervoso. Se for por causa de Elvira, no precisa se preocupar: sei como lidar com ela.
- Estou realmente muito preocupado. Com isso tambm. A qualquer momento ela poder falar demais e levantar suspeitas.
- No se preocupe. Ela gosta muito de ns dois. Sabe o quanto ramos amigos de Juliana, jamais suspeitar de qualquer coisa.
- Talvez tenha razo, mas no  s isso o que est me preocupando; estou com um problema muito grande.
- Problema? Voc com problemas? No consigo imaginar que problema poderia ter. Posso ajud-lo a resolver? Afinal de contas, embora no nos amemos, somos casados.
Cssio percebeu em sua voz uma maciez, uma ternura como nunca havia visto antes. Ela sorria ternamente. Ele ficou fitando-a profundamente para assegurar-se de que 
ela no estava mentindo. Depois de alguns segundos, disse:  
 - Conheo-a o suficiente para saber que  algum em quem no se pode confiar, mas voc  a nica pessoa que pode me ajudar neste momento. Estou precisando de dinheiro. 
Preciso pagar uma dvida e, se no o fizer, perderei minha fazenda.
- No estou entendendo. Como conseguiu fazer uma dvida to grande? Sim, porque deve ser grande para ter colocado sua fazenda em risco. Qual  a quantia?
- A quantia  muito grande. Eu me envolvi com ms companhias e perdi tudo no jogo. Em uma cartada final, no tendo mais dinheiro, dei a fazenda como garantia. Tenho 
agora s at a semana que vem para pagar. Se no conseguir, perderei a fazenda. Estou desesperado. Voc pode me ajudar. O dinheiro que recebeu de Juliana  muito 
mais do que preciso. Juliana descobriu tudo e se ofereceu para me ajudar.
- No posso acreditar que tenha cometido uma idiotice dessas. O dinheiro no  mais de Juliana. Agora  meu. No vou dar a voc para que perca tudo no jogo. Com 
ele vou viajar, conhecer o mundo e comprar tudo o que sempre quis. Sinto muito, mas no lhe darei dinheiro algum.
- Voc no pode fazer isso. Somos casados e cmplices, temos o mesmo direito.
- Somos casados, mas a herdeira sou eu. Enquanto viver, esse dinheiro ser s meu. No posso confiar em um jogador irresponsvel como voc!
Cssio ficou irritado. Atirou-se sobre ela, colocou as mos em seu pescoo, querendo enforc-la. Virgnia conseguiu se libertar. Empurrou-o e exigiu que sasse. 
Ele, transtornado pela atitude que havia tomado, saiu correndo. Foi para fora, montou em seu cavalo e saiu cavalgando em disparada. Elvira, que ainda estava no quarto 
de Juliana, percebeu que brigavam, mas no conseguiu entender por qu. Virgnia, diante de um espelho, colocava seus cabelos no lugar e ajeitava a roupa. Seu rosto 
estava enrubescido. Ele est completamente louco! No vou arriscar e dar meu dinheiro para que perca tudo no jogo! Por sua atitude de hoje, tenho de ficar atenta. 
Ele  perigoso e poder tentar tudo para conseguir o dinheiro. Na estrada, enquanto cavalgava, Cssio ia pensando: Deveria saber que ela no me daria o dinheiro. 
 gananciosa demais para isso. Preciso encontrar um modo. Ela no me considera seu marido. Pensa ser a nica herdeira. Espere herdeira! Se ela morrer, eu serei o 
herdeiro. Preciso pensar em um modo de mat-la sem levantar suspeitas. Ser a nica soluo. Ela no me deixou escolha. Tenho de pensar muito bem,  esperta e no 
se deixar matar. No  como Juliana, confiante e ingnua. Terei de planejar muito bem. Continuou cavalgando. Em dado momento, parou naquele mesmo lugar em que surgiu 
na tela no princpio. Dali podia ver a imensido de terra e a casa de Virgnia do outro lado do vale e sua prpria fazenda, que, embora fosse tambm grande, no 
tinha nem a metade do tamanho da de Virgnia. Ficou olhando, parado sobre o cavalo. O rosto de Juliana surgiu  sua frente. Ele a viu correndo para encontr-lo, 
como sempre fazia. Acompanhando-a, vinha Helena. De repente, Juliana transformava-se naquela mulher assustada que, chorando, pedia por sua vida e pela da filha. 
O pensamento foi to forte e real que ele quase caiu do cavalo. Sem saber por que, comeou a chorar. Farias, agora, interrompeu, mas com delicadeza:
- Damio, acredita que ele possa realmente estar arrependido? Acredita que ele possa ser perdoado? Embora ele esteja neste momento se deixando levar pelas emoes, 
no acredito que possa se arrepender realmente.
- Entendo o que est pensando, mas ainda no sei o que lhe responder. Meu irmo, a Lei  justa e  para todos. Imagine um pai da Terra, sendo um esprito imperfeito, 
quando descobre um erro de seu filho, ele fica bravo, d um castigo, mas em seguida perdoa, e, se o filho quiser, ele sempre lhe dar uma nova chance. Depois de 
imaginar isso, pense em Deus como o Pai supremo. Aquele Pai amoroso, carinhoso e justo, que quer s o bem para seus filhos. Ele poder at castigar, mas sempre dar 
uma nova chance. O Pai no nos abandona nunca. Um pai da Terra sempre visita seu filho, embora ele possa estar em uma priso. Deus, da mesma forma, est sempre ao 
nosso lado. Essa  a beleza da Lei. Por isso, temos de confiar sempre nela. Mas podemos continuar? Na tela, o cavalo recomeou a se movimentar. Cssio agora se dirigia 
de volta para casa. A imagem de Juliana no saa de sua cabea. No queria pensar nisso, mas era mais forte que ele. Enquanto cavalgava, agora mais devagar, ia pensando: 
Por que fiz aquilo? Se Juliana estivesse viva, com certeza me ajudaria. Ela era boa, entenderia minha situao. Virgnia, depois de se arrumar, saiu do quarto. No 
corredor, ao passar pelo quarto de Juliana, no olhou para seu interior. Continuou andando e chegou a frente ao quarto de Helena. A porta estava aberta. Ela parou, 
olhou para dentro e viu que a cama estava perfeitamente arrumada. Entrou. Os brinquedos de Helena estavam no mesmo lugar de sempre. O pequeno rosto da menina surgiu 
em seu pensamento. Quase chegou a sentir sua presena. Relembrou aquela noite em que a havia assassinado. No precisava fazer aquilo com ela. Eu a amava. Mas, se 
no o tivesse feito, hoje ela seria a herdeira, o dinheiro seria todo seu. A culpa no foi minha. Foi do pai de Juliana, que no foi justo na diviso. Agora, j 
est feito, no h como voltar atrs. Com a garganta embargada, saiu do quarto. Definitivamente, tenho de mandar tirar tudo daqui. Preciso afastar qualquer lembrana. 
Vou recomear a viver minha vida, usufruindo do dinheiro que por direito sempre foi meu. J era tarde da noite quando Cssio voltou. Ao entrar, Virgnia no se encontrava 
na sala. Ele estava com fome, pois passara a tarde toda sem se alimentar. Foi para a cozinha. Elvira estava terminando de lavar a loua do jantar. Era muito organizada, 
tinha por norma deixar a cozinha arrumada para a manh seguinte.
- Boa-noite, Elvira. Tem algo para eu comer?
- Boa-noite, menino. Tenho, sim. Mas por que no veio para o jantar?
- Tive alguns problemas para resolver, mas agora estou com muita fome.
- Quer que eu leve para a sala de jantar?
- No precisa, comerei aqui mesmo.
Cssio sentou-se. Enquanto preparava o jantar, Elvira disse:
- Por que voc e a menina Virgnia brigaram hoje?
- Tivemos uma pequena discusso, mas no foi grave, logo estar tudo bem.
- Prefiro ver vocs felizes. Sabe o quanto os amo. Ainda posso ver voc, Virgnia e Juliana correndo, brincando por esses campos. Nossa Juliana se foi, mas vocs 
esto aqui e desejo, do fundo do meu corao, que sejam muito felizes.
Colocou a comida sobre a mesa. Cssio, enquanto se servia, falou:
- No se preocupe Elvira, est tudo bem. O que viu hoje foi apenas uma pequena briga entre marido e mulher. Apesar de casados hoje, sempre fomos muito amigos.
Elvira sorriu. Aqueceu leite e colocou-o em um copo.
- Espero que seja assim mesmo. Enquanto janta, vou levar o leite para Virgnia.
Cssio apenas sorriu para ela que saiu levando em suas mos o copo. Ele ficou observando-a. Imediatamente uma idia surgiu em sua mente. Comeu um pouco, mas a idia 
no saa de sua cabea. Levantou-se e dirigiu-se para seu quarto. Virgnia tomava o leite, enquanto Elvira falava:
- Cssio est na cozinha comendo. Parece que est com algum problema, menina, no brigue com ele. Tenha pacincia.
- Terei, pode ficar tranqila. Tudo ficar bem.
Cssio entrou e, sorrindo, falou:
- Boa-noite, Virgnia. Estive conversando com Elvira. Ela est preocupada com a briga que tivemos esta tarde. Disse a ela que no foi briga, mas sim, apenas uma 
discusso. Aqui na frente dela, quero lhe pedir desculpas.
- Est bem. J esqueci, venha se deitar.
Cssio aproximou-se e beijou sua testa. Elvira, sorrindo, saiu do quarto, levando o copo. Cssio, tambm sorrindo, preparou-se para se deitar. Virgnia estranhou 
seu comportamento:
- Voc est calmo... resolveu seu problema?
- Resolvi. Consegui um parcelamento para a dvida. Vou esperar a colheita do caf e s ento darei uma parte do dinheiro.
- Melhor assim. Sabia que encontraria uma soluo. Vamos dormir?
Ele se deitou, deu outro beijo em sua testa, virou-se e fechou os olhos. Virgnia fez o mesmo. No dia seguinte, ele acordou cedo, tomou um rpido caf e saiu para 
percorrer as fazendas. Quando Virgnia se levantou, j fazia muito tempo que ele havia sado. Tomou seu caf e mandou chamar Andr. Ele chegou  seguida:
- A senhora mandou me chamar?
- Mandei, sim. Depois do almoo, quero ir at a cidade comprar algumas coisas. Preciso que prepare a charrete.
- Est bem, vou mandar preparar e depois do almoo estarei aqui na frente com tudo preparado. A senhora quer que eu v junto?
- No precisa Andr. Elvira ir comigo. S necessito mesmo da charrete.
Ele saiu. Virgnia foi at a cozinha falar com Elvira.
- Elvira, vou at a cidade e queria que fosse comigo. Preciso levar alguns documentos para o Dr. Antnio.
- Claro que vou, no deixaria a menina ir sozinha.
Algumas horas mais tarde, Cssio chegou para o almoo e parecia estar muito bem. Comeram com tranqilidade. Elvira sorria ao ver os dois bem novamente. Depois do 
almoo, Andr chegou com a charrete. Virgnia comunicou a Cssio sua necessidade de ir  cidade. Ele no perguntou e ela no disse o que iria fazer. Na cidade, Virgnia 
pediu a Elvira que fosse at o armazm comprar algumas coisas enquanto ela ia conversar com o advogado. Encontraram-se meia hora depois. Quando retornaram  fazenda, 
j comeava a escurecer. Cssio estava na varanda tomando um copo de caf. Ao ver Virgnia parando a charrete, ele desceu as escadas e ajudou-a a descer. Quem visse 
os dois no poderia imaginar, por um momento, que no dia anterior haviam tido uma discusso to violenta. Vibrando de felicidade, Elvira dirigiu-se para a cozinha, 
estava atrasada para preparar o jantar. Virgnia foi para seu quarto trocar de roupas, que estavam empoeiradas por causa da viagem. Cssio permaneceu na varanda, 
tomando seu caf. Quem visse, pensaria que, naquela casa, a paz era profunda.Elvira preparou um jantar rpido. Serviu a mesa, e os dois jantaram tranqilamente. 
Aps o jantar, conversaram um pouco na varanda. Como ocorria naquela estao do ano, a noite estava clara, iluminada pela lua e por muitas estrelas. Aps um bom 
tempo, Virgnia falou:
- Vou me deitar. Estou cansada, a viagem at a cidade foi muito cansativa.
Ele se levantou e beijou-a, dizendo:
- V. Vou ficar mais um pouco apreciando este luar.
Ela no respondeu, apenas sorriu e se retirou. Ele permaneceu ali, sentado, olhando a lua. Pelo barulho que vinha da cozinha, percebeu quando Elvira terminou de 
arrumar tudo. Foi at l. Chegou ao exato momento em que ela terminava de colocar o leite de Virgnia no copo. Aproximou-se, dizendo:
- Elvira, ser que aquelas laranjas que guardou l nos fundos j esto maduras?
- No sei, por qu?
- Est muito calor. Se elas estiverem maduras, gostaria de tomar um suco.
- Espere um pouco, vou at l ver.  
Ela saiu da cozinha. Ele, rapidamente, tirou do bolso um vidrinho, despejou o contedo no copo de leite de Virgnia, sentou-se em uma cadeira distante do copo e 
ficou aguardando a volta de Elvira. Aps alguns minutos, ela voltou, trazendo nas mos algumas laranjas maduras.
- Estas esto boas. Espere um momento. Vou levar o leite para Virgnia e virei em seguida preparar seu suco.
- No se preocupe, pode ir. Eu mesmo preparo o suco.
Como fazia todas as noites, Elvira pegou o copo de leite e dirigiu-se ao quarto de Virgnia. Cssio, com os olhos presos na porta em que Elvira saiu, pegou uma laranja 
e comeou a cort-la ao meio para preparar o suco. Quando Elvira voltou, ele j estava com todas cortadas. Elvira fez com que ele se sentasse e ela mesma continuou 
a tarefa.
- Vou lhe preparar um suco bem gostoso. A noite est realmente muito quente. Vou acompanh-lo. Sabe menino, Virgnia mandou que eu desmanchasse os quartos de Juliana 
e Helena. Disse que do modo que esto trazem muitas recordaes. Penso ao contrrio: deixando do modo que esto, tenho a impresso de que nada daquilo aconteceu 
e que a qualquer momento elas retornaro. Sinceramente, no queria mudar, mas tenho de cumprir ordens.
- No deve se preocupar com isso. Virgnia sentiu muito a perda das duas e a maneira como tudo aconteceu. Vou falar com ela e ver se a fao mudar de idia. Este 
suco, como tudo que faz, est uma delcia.
- Tente, por favor, fazer com que ela mude de idia.
- Pode deixar comigo. Agora vou dormir. Amanh, logo cedo, durante o caf, falarei com ela. Boa-noite, Elvira.
- Boa-noite, menino. Durma com os anjos e que Deus o abenoe.
Cssio sorriu e dirigiu-se a seu quarto. Ao entrar, percebeu que Virgnia dormia profundamente. Trocou de roupa, colocando um pijama, e deitou-se. Esperou um pouco, 
depois levantou-se e foi at a cozinha para ver se Elvira j havia ido se deitar. Ainda do corredor, viu que as velas que iluminavam a casa estavam todas apagadas, 
mas mesmo assim percorreu todo o lugar. O silncio era total, s se podia ouvir o som natural da noite. Voltou para seu quarto. Virgnia continuava dormindo profundamente. 
Reclinou-se sobre ela e chamou-a, mas nada. Ela tentou abrir os olhos, mas no conseguiu. Estava deitada sobre o brao esquerdo com o rosto virado para o centro 
da cama. Ele a descobriu e devagar a desvirou, fazendo com que o rosto ficasse virado para cima. Pegou seu travesseiro, colocou o sobre o rosto dela e ficou segurando 
firmemente. Ela se debateu por um segundo, mas no conseguiu tirar o travesseiro de cima de seu rosto. O sonfero que ela ingerira era muito forte, o mesmo que deram 
a Elvira naquela noite. Ele, com uma expresso de pedra no rosto, continuou apertando. Mesmo depois que ela parou de se debater, continuou por mais alguns minutos 
e, em seguida, retirou o travesseiro. Ela estava muito branca, como se no houvesse uma gota de sangue em seu corpo. Ele colocou a mo em sua garganta; depois, pegou 
um espelho e colocou-o sob seu nariz. Constatou que ela estava realmente morta. Seus olhos brilharam. Sorriu, no podendo esconder a enorme felicidade que sentia. 
Agora, sim: trabalho completo! Estou salvo. Tudo que pertencia a Juliana vir para mim. Poderei falar com aquele canalha e dizer que espere at que o testamento 
seja aberto. Estou salvo e meu segredo estar protegido para sempre. Essa megera dever ir direto para o inferno. Pegou o corpo de Virgnia e virou-o novamente, 
desta vez deitando-a sobre o lado direito, fazendo com que seu rosto ficasse para fora da cama. Apagou as velas, deitou-se e cobriu-se. Com os olhos abertos, comeou 
a pensar: Depois que tudo estiver terminado, depois que ela for enterrada ao lado de Juliana, Helena e Renato, falarei com ele. Pagarei e estarei livre para sempre. 
No conseguiu dormir a noite toda. Estava ansioso para que o sol raiasse e ele pudesse sair daquele quarto. Por vrias vezes colocou a mo sobre o rosto de Virgnia 
para ter certeza de que estava mesmo morta. Finalmente, percebeu, pela fresta da janela, que estava amanhecendo. Ouviu quando Elvira passou pelo corredor, dirigindo-se 
 cozinha. Esperou mais um pouco, levantou-se, trocou de roupa e saiu do quarto. Na cozinha, Elvira j havia terminado de passar o caf.
- Bom-dia, Elvira. O caf j est pronto?
- Bom-dia. Est quase pronto, j vou servir, pode ir para a mesa.
A rotina diria era sempre a mesma. Ele acordava, ia para a cozinha, cumprimentava Elvira e voltava para a sala. Em seguida, ela trazia o caf da manh. Virgnia 
quase nunca se levantava junto com ele. Por isso, naquela manh, Elvira no estranhou.
- Elvira, pedi a Juca que viesse at aqui para cortar o mato que est crescendo em volta da casa. Ele deve estar chegando. Sei que no preciso dizer isso, mas, assim 
que chegar, antes de comear a trabalhar, oferea-lhe um caf.
- Claro! Darei caf e algo para comer tambm.
Cssio tomou o caf, despediu-se e saiu para percorrer as fazendas. Embora por fora estivesse calmo, por dentro sentia o corao bater muito forte. Elvira recolheu 
a loua do caf e foi para a cozinha comear a preparar o almoo. Tudo normal, como sempre. Cssio calmamente montou no cavalo e saiu. J distante da casa, ele parou. 
Estava ansioso e com medo de que seu plano no funcionasse, embora tivesse certeza de ter feito tudo perfeitamente. Chegou  lavoura e comeou a falar com seus empregados, 
dando ordens, tudo como sempre fazia. A todo instante olhava em direo a casa, esperando que algum o viesse chamar. Para ele, parecia que o tempo havia parado. 
A ansiedade era cada vez maior. Olhava para l, mas nada acontecia. Montava e desmontava do cavalo, conversava com todos. Em determinado momento, Andr aproximou-se, 
nervoso:  
 - Senhor Cssio, o senhor precisa vir comigo at o cafezal. Parece que alguma praga est tomando conta dos ps.
- Praga? Que praga?
- No sei, nunca vi igual.
- Est bem, vamos at l.
Os dois montaram nos cavalos. Estavam se dirigindo  plantao quando ouviram algum chamando. Voltaram-se e viram Juca, que vinha em disparada montado em um cavalo. 
Chegou perto dos dois muito nervoso, quase sem flego, gritando:
- Senhor Cssio! Dona Virgnia! Dona Virgnia!
Cssio, embora soubesse o que ele iria dizer, mostrou-se assustado e gritou:
- Fique calmo. Que aconteceu? Que tem dona Virgnia?
- No sei. Elvira pediu para eu vir chamar o senhor, dizendo que dona Virgnia est muito mal.
- Que ela tem?
- No sei. Elvira me mandou cham-lo. Pediu para o senhor Andr ir tambm.
Cssio olhou para Andr, que, assustado, falou:
- Deve ter acontecido algo muito grave. Vamos at l.
Os trs saram em disparada. Os outros empregados ficaram assustados. Quando chegaram a casa, encontraram Elvira, que chorava sem parar:
- Menino! Ela est l no quarto. No sei o que aconteceu. Demorou muito para se levantar, fui at l e a encontrei daquele jeito.
Demonstrando um nervosismo que no sentia, ele disse:
- De que jeito, Elvira? Que aconteceu?
- Acho que ela est morta!
- Morta? Deve estar louca! Ela no pode ter morrido, ontem estava muito bem.
Entrou correndo na casa e, acompanhado por Andr, foi at o quarto. L dentro, Virgnia continuava na mesma posio que ele a havia deixado. Ele correu para ela 
e, chorando, comeou a mexer em seu rosto, dizendo:
- Virgnia, meu amor, acorde! Que aconteceu?
Andr, pela cor do rosto dela, percebeu que estava morta. Segurou Cssio pelos ombros, falando:  
 - Senhor Cssio, no adianta chamar. Ela est morta mesmo...
- No pode ser! No pode ser!
- Vamos l para fora, vou mandar algum chamar o mdico. Cssio, chorando desesperado, saiu do quarto apoiado em Andr, que refletia em seu rosto toda a dor que 
estava sentindo. Elvira continuava desesperada:
- Que maldade foi essa que se abateu sobre esta famlia? Todos esto partindo. Por que, meu Deus? Por qu?
Cssio mostrou-se impotente e pediu a Andr que fosse chamar o mdico. O doutor chegou e, aps um exame superficial, constatou que Virgnia havia morrido de um ataque 
do corao. Cssio, inconformado, chorava muito. Amigos e vizinhos consolaram-no o tempo todo. Durante o velrio, todos sentiam muita pena daquele homem que em to 
pouco tempo havia perdido o amigo, a esposa e filha deste, e agora a esposa. Todos transmitiam suas reais condolncias. A cada abrao, a cada aperto de mo, mais 
ele se desesperava e chorava. Sua barba por fazer e seu desespero convenceram a todos do quanto estava sofrendo. Como tantos outros, um homem se aproximou. Era um 
desconhecido, mas, no meio de tantos, no foi notado.
- Senhor Cssio, estou aqui para lhe desejar minhas sinceras condolncias, mas no posso deixar de lembrar-lhe que seu tempo est passando. Faltam apenas poucos 
dias.
Cssio olhou para aquele homem, estampando um profundo desespero:
- O senhor no precisa me lembrar. Sempre cumpri com minhas obrigaes e no pretendo que, agora, seja diferente. Talvez demore uns dias a mais, mas em breve tudo 
que devo ser pago. Por favor, espere um pouco mais e permita que hoje eu s chore a morte de uma pessoa que muito amei.
Com um sorriso, o homem cumprimentou-o com a cabea e afastou-se. O corpo de Virgnia foi enterrado ao lado do de Renato, Juliana e Helena. Depois disso, Cssio, 
para desespero de Elvira, trancou-se em seu quarto e por vrios dias no saiu. A muito custo ela conseguia fazer com que ele se alimentasse. A cada apario de Elvira, 
ele se punha a chorar desesperadamente.
- No sei o que vai ser de minha vida sem aqueles que tanto amei. No tenho mais vontade de viver. Quero morrer tambm.
Elvira tentava consol-lo.
- No fale assim, menino. Deus  bom e no vai abandon-lo. Voc  muito jovem. Tem a vida toda pela frente.
- Que vida? Como posso ter vida ou continuar vivendo sem as pessoas que amo? Deus no podia ter feito isso comigo. No devia. Quero que Deus me mande a morte. Tenho 
vontade de me matar e assim ficar ao lado deles.
- No diga isso, meu filho. Nunca devemos desacreditar da bondade e justia de Deus. Ele est sempre conosco, no nos abandona nunca.
- Ele me abandonou. No sei o que vou fazer.
- Por enquanto, nada deve fazer. Deus lhe mostrar o caminho que tem para seguir. Confie em Sua bondade infinita.
Cssio no disse mais nada, apenas chorava sem parar. Elvira, amargurada, desanimada e preocupada por ver seu menino to triste, saiu do quarto, pedindo a Deus que 
o protegesse. O tempo passou, fazia sete dias que Virgnia morrera. Uma missa foi encomendada na igreja matriz da cidade. A famlia de Juliana e a de Cssio eram 
conhecidas em toda parte. Vestido de preto e com a barba por fazer, Cssio compareceu com Elvira e outros empregados da fazenda. Quem visse aquele homem naquele 
estado no podia deixar de sentir pena. Ele sofria muito. Os comentrios foram muitos. Durante a missa, Cssio viu, no fundo da igreja, aquele homem que o olhava 
sem parar. Ficou preocupado e com medo de que ele, ali, no meio de todos, o cobrasse. Antes que a missa terminasse, ele comeou a chorar desolado. Chorou tanto que 
Elvira e alguns amigos o levaram para fora. Em frente  igreja, havia uma praa com vrios bancos, e em um deles ele se sentou. Elvira e os outros o consolavam da 
maneira que podiam. Ele, ainda chorando, abriu os olhos, olhou para a porta da igreja e viu que o homem estava ali, parado, observando-o  distncia. Voltou a fechar 
os olhos e, chorando, disse:
- Elvira, muito obrigada por tudo. Estou bem, pode voltar com os outros para dentro da igreja. No se preocupe comigo, irei em seguida.
Elvira quis resistir, mas ele insistiu. Ela e os outros acharam melhor atender a seu pedido. Entraram. Assim que desapareceram pela porta, Cssio viu que o homem 
se aproximava dele. Quando chegou a seu lado o homem falou:
- Sei que est sofrendo muito. Estou aqui para lhe dizer que, embora eu seja um homem de negcios, no sou insensvel a sua dor. Pode ficar tranqilo: vou esperar 
mais dois meses. Acredito ser o tempo necessrio para que consiga o dinheiro. Mas vou avis-lo de que, passado esse tempo, no esperarei nem mais um dia.
Cssio no acreditou no que estava ouvindo. S pde responder:
- No sei como agradecer. Pode ficar tranqilo, que antes desse dia eu o estarei procurando.
O homem sorriu e se afastou, no voltando  igreja. Depois de algum tempo, Cssio, com os olhos vermelhos, retornou para junto de seus amigos e assistiu  missa 
at o fim. Nas despedidas, todos o consolaram. Acompanhado por Elvira, voltou para casa. L, novamente, entrou no quarto e s saa alguns minutos por dias. Assim 
permaneceu por mais quinze dias. Em uma manh, chegou um mensageiro da cidade, com uma carta para Cssio. Elvira recebeu-a e bateu  porta do quarto dele.
- Menino, tenho aqui uma carta que chegou. Posso entrar?
Cssio, que lia um livro tranquilamente, escondeu-o, estampou no rosto novamente aquela expresso de dor e respondeu:
- Pode entrar.
Elvira entrou e no pde esconder a enorme preocupao que sentia ao ver Cssio naquele estado.
- Menino, voc no pode continuar assim. Tem de sair desse quarto e voltar a cuidar das fazendas. J faz quase um ms que a menina Virgnia foi para junto de Deus. 
Voc tem de reagir. O tempo  bom companheiro e o trabalho  o melhor remdio para tudo. Chegou esta carta. Parece ser do doutor Antnio.
Cssio sorriu, dizendo:
- J estou me sentindo melhor, no precisa se preocupar. Entendi que no adianta continuar aqui sofrendo. Amanh mesmo, voltarei ao meu trabalho, mas me d essa 
carta. Que ser que ele quer comigo?
- No sei, mas talvez seja a respeito do testamento.
- Pode ser. Obrigado. Se for isso, no quero nem saber. No me interesso por esse testamento. S queria ter todos comigo.
- Sei que no se importa com o dinheiro, mas no poder fugir disso. Se ele estiver chamando-o para tratar disso, tem de ir, no pode se furtar.
- Est bem, vou ver o que ele quer comigo.
Elvira ficou feliz por v-lo mais calmo e disposto a recomear a vida. Saiu do quarto aliviada. Assim que ela saiu, ele rapidamente abriu a carta. Era s um convite 
para que fosse at o escritrio do advogado tratar de assuntos de seu interesse. Ele, sorrindo, pensou: At que enfim vou tomar posse de tudo, pagar minha dvida 
e usufruir de todo o dinheiro. Virgnia me deu uma boa idia: vou viajar e conhecer o mundo. Naquele dia, ainda permaneceu no quarto, s saindo para as refeies. 
No dia seguinte, logo pela manh, entrou na cozinha com a barba feita e arrumado para sair:
- Bom-dia, Elvira. Atendendo a seu pedido, hoje me levantei disposto a retomar minha vida. Voc tem razo: no adianta ficar da maneira como eu estava. Deus sabe 
o que faz; se foi Sua vontade me deixar sozinho, que assim seja. Vou at a cidade conversar com o doutor Antnio, vou saber o que ele quer comigo.
- Menino, no sabe como estou feliz por v-lo bem novamente. Deus seja louvado. Sabe o quanto gosto de voc e no imagina como fiquei preocupada por v-lo sofrer 
daquela maneira. 
Cssio sorriu. Em seu pensamento, estava triunfante por tudo ter dado certo, exatamente como planejara. Preciso continuar com essa minha cara de tristeza por mais 
alguns dias, depois voltarei ao normal, receberei tudo a que tenho direito e comearei a viver realmente. Elvira, radiante, serviu o caf. Ele comeu como h muito 
tempo no fazia. Aps o caf, montou no cavalo e saiu para encontrar-se com seu destino. Na cidade, foi cumprimentado por muitas pessoas que compartilhavam sua dor. 
A todos recebia com um sorriso e agradecia. Depois de muito tempo cumprimentando as pessoas, conseguiu finalmente chegar ao escritrio do doutor Antnio. Este o 
recebeu com um largo sorriso:
- Senhor Cssio, fico feliz por v-lo to bem disposto.
- Estou um pouco melhor. E ansioso por saber o motivo de seu chamado.
- Como sabe o senhor agora  o nico herdeiro de todos os bens de sua falecida esposa. Tenho em minhas mos alguns documentos que precisa assinar.
- Estou  sua inteira disposio, embora no esteja ainda preocupado com isso. Sinto muita falta de Virgnia, mas, como diz Elvira, preciso continuar.
- Isso mesmo, ela tem razo. Mas sente-se e aguarde um momento; vou pegar as pastas.
O advogado saiu. Cssio teve de fazer um esforo tremendo para no demonstrar a alegria que estava sentindo. Pouco depois, o advogado voltou, trazendo em suas mos 
algumas pastas. Sentou-se em sua cadeira, que ficava do lado oposto  que Cssio se encontrava. Abriu uma pasta e de dentro dela retirou um papel que estava lacrado:
- Este  o testamento deixado pela senhora Virgnia.
Cssio se admirou:
- No sabia que ela havia feito um testamento.
- Fez, sim. Ela o fez na frente de um tabelio. Mas, antes de ir para o testamento, tenho instrues de ler esta carta.  
- Que carta  essa?
- No sei, ela apenas me disse que, em caso de sua morte, deveria ler esta carta na presena do delegado. Por isso ele j deve estar chegando.
- No estou entendendo. Por que faria isso?
- Tambm no entendi, mas preciso atender a um pedido de minha cliente.
Cssio comeou a suar frio. Pressentia que algo muito grave estava para acontecer, pensou um pouco e, com um esforo enorme, falou:
- O senhor tem razo. Devemos atender a um pedido de Virgnia. Logo veremos do que se trata.
Embora demonstrasse calma, sentia que estava perto de ver tudo com que sonhara perdido para sempre. Logo depois, o delegado chegou:
- Bom-dia, doutor.
- Bom-dia, delegado.
- Posso saber por que me mandou chamar?
- Sente-se, delegado. Preciso abrir um envelope que a senhora Virgnia deixou, mas tem de ser aberto na sua presena.
- Por que isso?
- No sei. Na tarde anterior ao dia em que morreu, ela esteve aqui e me deu estas instrues, que preciso cumprir  risca.
Cssio queria sair dali. Disfarando, pensava: No dia anterior? Foi na tarde em que saiu acompanhada por Elvira. Tenho certeza de que foi logo depois de saber de 
minha situao. O que ela ter planejado? O advogado abriu o envelope e comeou a ler: Prezado doutor Antnio, se estiver lendo esta carta,  porque estou morta. 
H alguns dias, tomei conhecimento da situao financeira de meu marido, por isso vou contar uma histria. Antes que o advogado terminasse de ler, Cssio levantou-se:
- O que tudo isso significa? O que o senhor est fazendo comigo?
- No sei, estou apenas seguindo instrues de minha cliente. Mas por que est to nervoso?
Antes que Cssio respondesse, o delegado falou:
- Senhor, acredito ser melhor que volte a se sentar e juntos veremos do que se trata.
No havendo alternativa, Cssio voltou a se sentar. O advogado continuou a ler a carta. Nela, Virgnia contava tudo o que, juntos, fizeram, desde a morte de Renato, 
depois a de Juliana e da pequena Helena. Cssio, enquanto ouvia o advogado, ficava cada vez mais nervoso. Olhou para o delegado e percebeu que ele estava com o rosto 
crivado e impassvel. Antes que o advogado terminasse de ler, Cssio levantou-se e, sem que o delegado pudesse impedir, saiu correndo do escritrio, montou no cavalo 
e foi embora em disparada. Aps o susto, o delegado saiu e foi em sua captura. Enquanto cavalgava, desesperado, Cssio ia falando em voz alta:
- Aquela miservel! Como pude acreditar que seria fcil me livrar dela? Como pude acreditar que ela, esperta como sempre foi se deixaria matar sem nada fazer?
Desesperado, chegou a casa, entrou correndo e passou por Elvira que, ao ouvir o tropel do cavalo, foi at a varanda esper-lo. Sem nada dizer, mas mostrando o quanto 
estava desesperado, gritou:
- Saia de minha frente, Elvira!
Ela ainda quis falar, mas ele no lhe deu tempo. Entrou correndo em seu quarto e fechou a porta. Ela ficou batendo, desesperada.
- Menino, abra essa porta. Que est acontecendo?
Ele no respondeu, e ela saiu para chamar algum para ajud-la. Viu que, ao longe, um cavaleiro chegava. Pressentia que algo muito grave estava acontecendo, mas 
no imaginava o que poderia ser. Ao chegar, o cavaleiro desmontou, falando muito nervoso:
- O Senhor Cssio est a?
Elvira reconheceu o delegado e ficou sem saber o que dizer. Ele percebeu seu nervosismo e falou:
- Sei que sabe onde ele est. Preciso encontr-lo e prende-lo. Ele matou muitas pessoas.
- No posso acreditar! O senhor est mentindo, ele jamais faria isso.
- Posso imaginar o que est sentindo, mas, infelizmente,  a verdade, ele matou seus patres e a menina Helena. Desconfio que tenha matado a senhora Virgnia tambm.
Elvira ficou paralisada. O que aquele homem estava falando no podia ser verdade, mas, pela expresso do rosto do delegado, percebeu que ele no estava mentindo. 
Um sbito dio tomou conta dela:
- Ele chegou correndo e trancou-se no quarto. Por favor, senhor, diga que no est falando a verdade...
O delegado, muito nervoso, disse:  
- Por favor, minha senhora... Estou dizendo a verdade. Onde  o quarto?
Elvira levou-o at a entrada do quarto de Cssio. Batendo  porta, o delegado gritou:
- Senhor Cssio, abra essa porta! No adianta ficar escondido a. Vai ter de enfrentar a situao.
Cssio no respondeu nem abriu a porta. Alguns empregados da fazenda, ao verem o modo como o patro havia chegado e logo em seguida o delegado, correram l para 
ver o que estava acontecendo. O delegado, vendo ser intil continuar chamando, resolveu sair da casa. Vendo os homens parados, pediu a alguns que o viessem ajudar. 
Entraram e, juntos, conseguiram abrir a porta. L dentro, Cssio estava deitado e, pela cor de sua pele, pde-se notar que ele estava morto. A seu lado, no cho, 
havia um vidrinho, que mais tarde se constatou ser um veneno muito poderoso, provavelmente o mesmo usado para matar Juliana e Helena. Novamente, a notcia correu 
por toda a cidade. As pessoas, agora, entendiam o motivo de toda a desgraa ocorrida com aquela famlia. Todos se condoam pelo destino que tiveram Renato, Juliana 
e Helena nas mos daqueles assassinos. No enterro de Cssio, os amigos no compareceram s alguns poucos empregados. Em seu testamento, Virgnia passou todos os 
seus bens para Elvira enquanto esta vivesse. Aps sua morte, tudo passaria para a igreja. Julgava que, assim fazendo, estaria comprando seu pedao no cu. 

A REAO DE FARIAS

Enquanto isso, Juliana, alheia a todos esses acontecimentos, continuava junto de Renato e Helena. Estava pensativa, quando Renato se aproximou.
- Ol, Renato, estava aqui pensando em Virgnia e Cssio. No os odeio mais, nem quero vingana, s sinto que eles destruram dentro de meu corao algo muito importante: 
a f, a confiana na amizade. Acredito que nunca mais poderei confiar em algum novamente. Eu os amei como irmos, confiava neles. Mesmo assim, foram capazes de 
tramar contra nossas vidas e a de nossa filha, que era ainda uma criana.
- De longe, percebi que nuvens negras passavam por sua cabea. Est relembrando?
- No posso evitar. Por mais que me esforce, as lembranas insistem em voltar. Tento esquecer, deixar de pensar e de sofrer pela atitude deles, mas no consigo. 
Hoje, devem estar felizes, usufruindo daquilo que foi meu. No consigo me conformar com tanta maldade.
- Sei e entendo o que est sentindo, mas sei tambm que voc, com o tempo, conseguir esquecer e perdoar.
- No sei h quanto tempo estou aqui, mas sinto que preciso fazer algo para preencher meu tempo. Vejo os outros indo e vindo, todos trabalhando em algo. Eu, pelo 
contrrio, fico aqui parada sem ter o que fazer, e isso faz com que eu tenha muitos pensamentos ruins.
- Gostaria de fazer algum tipo de trabalho?
- Claro que gostaria! Ser que poderia arrumar?
- Posso e vou providenciar. Vou falar com Marina. Ela, com certeza, encontrar algo em que possa trabalhar.
Antes que Juliana dissesse algo, como se os estivesse ouvindo Marina veio se aproximando deles. Quando chegou perto, com um largo sorriso, disse:
- Juliana, vejo que agora est muito bem. Isso s pode trazer felicidade ao corao de todos que esto aqui e a amam.
- Estou muito feliz tambm. Ai! Ai, que dor! Renato, que dor  esta? Rogrio... Estou pensando muito em Rogrio. Vejo seu rosto. Parece que est sofrendo.
Renato, muito assustado, abraou Juliana e, olhando para Marina, perguntou:
- O que est acontecendo? Por que ela est sentindo essa dor?
- Provavelmente, Rogrio est, neste momento, pensando nela, com muita dor e desespero. Seu pensamento a atingiu. Ela est sentindo o mesmo sofrimento que ele.
Juliana, ainda com muita dor, disse:
- Ento, ele deve estar sofrendo muito, porque a dor  imensa. O que poderemos fazer para ajud-lo?
- Vamos nos dar as mos, fechar os olhos e juntos pensarmos em Rogrio. Nosso pensamento nos levar at ele.
Renato e Juliana seguraram forte nas mos que Marina estendia. Fecharam os olhos. Ficaram assim com o pensamento forte, pensando naquele amigo muito querido. Quando 
abriram os olhos, estavam na casa de Rogrio em Portugal, no momento exato em que um senhor terminava de ler uma carta. Rogrio chorava desesperado:
- No acredito! Ela no faria isso. Amava-me, tenho certeza, amos nos casar, ela estava feliz. Meu pai, no pode ser verdade. Preciso voltar para l o mais rpido 
possvel. Preciso saber o que aconteceu realmente.
- Filho, posso imaginar o que est sentindo, mas infelizmente deve ser verdade. Seu primo no brincaria com um assunto como este. Voc conviveu com essa moa por 
poucos dias, no teve tempo de conhec-la realmente.
- No, meu pai! Conheci-a o suficiente para saber que ela no faria algo assim, muito menos com a filha. Ela amava aquela menina. Ela estava muito feliz a meu lado. 
No posso aceitar.
Ao v-lo naquele estado, Juliana ficou tambm com lgrimas nos olhos. Olhou para Renato, que, sorrindo, consentiu com a cabea. Juliana aproximou-se de Rogrio e 
abraou-o carinhosamente.
- Meu querido, sei a dor que est sentindo, mas no deve ficar assim. Estou muito bem. Realmente, no fiz aquilo. Foram eles que nos destruram. Eu os odeio! Voc 
deve ir at l, sim. Deve descobrir tudo e coloc-los na priso!
Novamente, voltara todo o dio que sentia por eles. Renato assustou-se por v-la to transtornada.
- Juliana, tente se controlar! Agindo assim, no vai ajud-lo. S vai fazer com que fique mais desesperado ainda. Lembre-se da Lei e do amor.
- Que Lei? Que amor? Rogrio est sofrendo, e a culpa  daqueles dois. Como posso no odi-los por isso?
- Neste momento, a nica coisa que pode fazer  deixar que o amor flua em seu corao. Envolva Rogrio com muito carinho e amor.  disso que ele precisa no de seu 
dio.
Juliana comeou a chorar.
- Sei que preciso me acalmar, mas  mais forte que eu. No consigo me controlar. Como demonstrar um sentimento que no sinto? Neste momento, estou sentindo um dio 
muito grande. O que quer que eu faa? Quer que eu minta?
Marina interrompeu-os:
- Entendemos o que est sentindo.  normal que isso acontea no se preocupe. Voc no est suportando ver mais uma pessoa que ama sofrendo por uma maldade de outros. 
Sente dio. Sente desejo de vingana. Sinta tudo isso, mas por pouco tempo. Depois, retorne para a Lei. Entenda que ela  sbia, que tudo v. E a tudo d a devida 
ateno. Confie nela. Acredite que tudo est certo.
Ao ouvi-la, Juliana sentiu um bem-estar enorme. Sentiu que todo aquele dio, como por encanto, havia passado.
- Obrigada, Marina, e perdoe-me por este momento. Durante todo este tempo, aprendi que a Lei  maior que tudo. Mas no consigo aceitar o que eles nos fizeram sofrer 
e que agora desfrutem de tudo, como se nada houvesse acontecido...
- Neste momento, no deve se preocupar com isso. Deve apenas ajudar Rogrio para que ele no sofra tanto.  
 Enquanto Marina conversava com Juliana, Renato estava perto de Rogrio e, com as mos, lanava sobre ele raios de luz. Ele ainda chorava, mas agora com mais tranqilidade. 
Seu pai, muito emocionado, tambm o abraava. Marina aproximou-se do velho senhor e colocou as mos em sua cabea, sobre a qual agora caam luzes coloridas. Ele 
comeou a dizer:
- Meu filho, este momento est sendo difcil, mas pense bem: o que adiantaria ir at l s para descobrir o que aconteceu realmente? Isso agora no tem mais importncia. 
Precisa continuar a vida. Deus  nosso pai. Ele  quem sabe de tudo. Confiemos em sua bondade.
Marina acompanhava, sorrindo, as palavras que ele dizia. Juliana percebeu que Rogrio, aos poucos, parava de chorar. Ela tambm se aproximou e o abraou com muito 
carinho. Ele, ao sentir aquele abrao, lembrou de seu rosto sorrindo e dizendo o quanto ele a havia feito feliz. Marina, sorrindo, disse:
- Juliana, percebeu o poder do amor? Se quiser ver Rogrio realmente bem, ter de fazer sempre isso: enviar-lhe pensamentos de amor e de carinho. Vocs tero outras 
chances de ficar juntos. Isso precisa acontecer, porque os dois tero de cumprir uma misso que agora foi interrompida. No esquea nunca que a Lei  sbia.
Renato abraou-a e deu-lhe um suave beijo. Ela correspondeu, sabendo agora que ele havia sido o verdadeiro amor de sua vida. Por Rogrio, sentia um profundo carinho, 
mas sabia que no era amor. Rogrio, com a voz mais calma, respondeu a seu pai:
- Talvez o senhor tenha razo, mas preciso voltar ir at seu tmulo, para poder, finalmente, aceitar que toda essa desgraa tenha se abatido sobre ns.  
- Se acredita que isso seja necessrio, ter todo o meu apoio. Sabe muito bem que a nica coisa que me importa nesta vida  ver voc e seus irmos bem.
- Obrigado, meu pai, por entender o que estou sentindo. Irei o mais cedo possvel.
Juliana sorriu ao ver a atitude que ele tomara. Olhou para Marina, perguntando:
- Que faremos agora?
- Voltaremos para nosso lugar. Ele agora est melhor e voc tambm. No esto mais sentindo aquela dor de antes.
-  mesmo. Havia me esquecido da dor. Como pode?
- Neste momento, ele est pensando em voc com carinho e amor, por isso as vibraes dele lhe chegam como um suave alento.
- Quer dizer que eu sentia a mesma dor que ele? Quer dizer que seu sofrimento tambm me fazia sofrer?
- Isso mesmo. Acontece sempre quando algum, na Terra, no se conforma com a partida de um ente querido. A dor de um se transforma na dor dos dois. E, ao contrrio, 
quando da Terra  enviado um pensamento de amor, carinho e saudade, isso faz bem aos dois. Podemos voltar agora?
- Mas e Rogrio? Ficar sozinho?
- Nunca estamos sozinhos, por piores que formos. Ele ter toda a ajuda necessria, s que no poder ser a sua. Voc ainda no est em condies de ajud-lo. Sua 
presena poder lhe causar muito mal, por isso ser melhor irmos embora.
- Se no h alternativa, s posso concordar, mas, antes, no podamos passar na fazenda? Gostaria de saber como tudo est caminhando por l.
- Se acredita que lhe far bem, podemos ir desde que prometa se comportar e no interferir no livre-arbtrio de Cssio ou de Virgnia.
- Farei o possvel, mas na realidade estou com muita saudade de Elvira. Ela deve estar sofrendo muito com nossa partida.
- Elvira  um esprito amigo que a acompanha j h muito tempo. Ela sofre muito, sim, mas tem muita proteo. Vamos at l, voc precisa saber o que est acontecendo.
Juliana deu um ltimo olhar para Rogrio, que agora, aps chorar e se desesperar, pensava nela com muito amor e carinho. Ela se aproximou e com um sorriso, beijou 
sua testa. Em seguida, dando-se as mos novamente, ela, Renato e Marina fecharam os olhos.
Chegaram  casa-grande da fazenda, exatamente no momento em que Cssio, desesperado, se preparava para morrer. Sem que Juliana conseguisse evitar, ao ver aquela 
cena, embora no quisesse, em seus olhos surgiu um brilho de felicidade. No sabia o que estava acontecendo, mas percebeu que deveria ser algo muito grave.
Marina tentou se aproximar de Cssio para evitar que ele tomasse aquela atitude drstica, mas Virgnia e alguns vultos negros estavam em volta dele e no permitiram.
Juliana gritou:
- Marina, perdoe-me, mas voc no pode fazer isso! Se eu no posso interferir no livre-arbtrio, voc tambm no pode! Ele tem de fazer isso. Precisa pagar por todo 
o mal que nos fez!
Marina, com lgrimas nos olhos, disse:
- Tem razo. Embora tenha vontade de ajud-lo, mesmo que quisesse no poderia. Ele est protegido por espritos que atraiu para si, nada poderei fazer. A Lei tem 
de ser cumprida. A Lei do livre-arbtrio  soberana.
Virgnia no podia ver os vultos negros. Ela envolvia o corpo de Cssio, dizendo:
- Voc tem de fazer isso. No h outra sada. Precisa vir para minha companhia. Estou esperando-o.
Farias, quando ouviu Juliana, falou:
- Damio, ela tem razo. Ele tem de concretizar o que est pensando. Ele tem de se matar. Precisa pagar por tudo o que fez. Tem de ir para o vale.
A tela novamente se congelou. Damio olhou para ele e, sorrindo, disse:
- Tem certeza de que isso  o que deve acontecer?
- Claro que tenho! Se a Lei existe, ela tem de ser cumprida. Ele merece todo o sofrimento do mundo.
- Se acredita nisso, vamos fazer com que se cumpra a Lei. Fez um sinal para Duarte. Na tela, estavam os rostos de Cssio, Virgnia e Juliana. Aos poucos, eles foram 
se transformando. Ao ver aquilo, Farias gritou:  
 - Que  isso? Que est acontecendo? No pode ser... No acredito!  uma Mentira!
Realmente, ele tinha de estar assustado. Os rostos na tela se transformaram. O de Virgnia transformou-se no rosto de Marlene. O de Juliana, no rosto de Mrcia, 
e o de Cssio, no rosto dele prprio. Farias, com os olhos arregalados, dizia:
- No pode ser! Eu no fiz todas essas maldades. Aquele no sou eu.
Damio colocou a mo em seu ombro, dizendo:
- Sim, meu irmo,  voc mesmo. Foi voc quem cometeu todo o mal na vida da Juliana de ontem, aquela mesma que hoje  Mrcia, a quem voc tanto odeia. A mesma contra 
quem exige que a Lei seja cumprida. Voc. S voc, por se julgar injustiado, poder dar a ela a sentena que julgar merecida.
Naquele instante, no pensamento de Juliana, surgiram os rostos de Helena e Rogrio. Apareceram por um instante e foram se transformando nos rostos de Lenita e Ronaldo.
Farias ficou mais desesperado ainda. Quis se levantar da poltrona para poder fugir, mas uma fora maior o prendeu. Olhava desesperado para a tela e para Damio. 
Este, com o rosto srio, disse:
- No adianta querer fugir, no vai conseguir. Estamos aqui por voc. Exigiu que a Lei fosse cumprida. Precisamos agora ir at o fim. Qual  a sentena? O que acredita 
que deve ser feito com Cssio?
Farias, agora, chorava muito:
- No sei. No sei. No sei...
- E com Mrcia? Qual deveria ser a sentena? O que acha que ela merece?
- No sei. No sei. No sei...
- Entendeu, agora, meu irmo, por que tantas vezes pedi a voc que deixasse a Lei maior ser cumprida, por meio do perdo e do amor?
No auge do desespero, Farias gritou:
- Damio, por favor, ajude Cssio! No permita que ele faa o que pretende!
- No posso. Ele teve ontem seu livre-arbtrio, como voc teve hoje o seu. Ontem, ele cometeu suicdio; hoje, como Farias voc tambm se suicidou.
Damio levantou-se e estendeu as mos sobre a cabea de Farias, que chorava muito. Aos poucos, ele foi se acalmando.  
- Sou obrigado a reconhecer que mereo tudo que me aconteceu, Damio. Fui um canalha. Mas como uma moa doce como Juliana pode ter se transformado em um monstro 
como Mrcia?
- A culpa tambm foi sua. Voc a traiu, enganou e mentiu. Nesta encarnao, ela veio prevenida contra tudo que passou na anterior. No quer saber o que aconteceu 
com Cssio e Virgnia?
- Quero claro que quero. Como Virgnia se transformou em Marlene, que vi cercada de tanta luz?
Continuemos assistindo.
A imagem na tela voltou a se movimentar. Juliana estava ali novamente, diante de seus inimigos e ao lado de Rogrio e Helena. Tentou conversar com eles, mas no 
conseguiu. Rogrio e Helena estavam com a imagem congelada. Pensou: Vendo Virgnia e Cssio em minha frente, no posso deixar de pensar que, por culpa deles, fui 
obrigada a me afastar de Rogrio, um homem to gentil e amvel Marina e Renato dizem que tenho de perdoar, mas como posso fazer isso? Eles foram maus e mesquinhos, 
no tiveram compaixo de mim, de Renato e, principalmente, de Helena. Sei que, um dia, talvez, eu os perdoe, mas por enquanto no pode ser. Ficou ali olhando Virgnia, 
que, pairando sobre Cssio, continuava dizendo:
- Voc no pode parar. Tem de ser agora. O delegado est chegando.
S naquele momento Juliana percebeu que Virgnia no estava mais viva.
- Renato, ela est morta? Ela morreu? Como aconteceu?
- Foi vtima de seus prprios atos. Durante toda a vida ela se cercou de companhias que a envolveram, lhe deram idias e a ajudaram a praticar todas aquelas maldades. 
Aps seu assassinato e o de Helena, ela se voltou contra Cssio e ele a matou.
Juliana comeou a rir.
- Est me dizendo que eles brigaram? Ele a matou?
- Sim, por isso ela est agora a seu lado, esperando que ele cometa esse ato, para poder lev-lo com ela. Mas voc no deveria ficar feliz. Cssio  um irmo que 
mais uma vez no conseguiu vencer e est prestes a cometer um erro novamente.
- Novamente? Ele j se suicidou antes?
- Sim, pelo mesmo motivo: covardia.
Farias agora estava quase deitado na poltrona, envergonhado, querendo se esconder. Damio apenas olhou, mas ficou calado. Na tela, finalmente Cssio tomou de uma 
s vez todo o veneno no prprio vidrinho. No mesmo instante, sentiu que era arrancado violentamente do corpo. Viu os vultos que o esperavam. Sentindo-se livre, quis 
fugir, mas no conseguiu. Saiu correndo e eles foram atrs. Desesperado e com muito medo, desmaiou. Marina, com os olhos tristes, disse:
- Vamos embora, nada mais temos para fazer aqui. Agora, ele est entregue  sua prpria sorte.
Juliana, apesar do dio que julgava sentir por eles, ficou horrorizada com tudo o que acabara de ver. Disse:
- Vamos embora, sim. Acredito que a Lei realmente existe. Vamos deixar que ela siga seu curso.
Foram embora, abraados. Assim que retornaram, Juliana correu para junto de Helena, que brincava com outras crianas. Aproximou-se, abraou-a e, com o rosto por 
trs dos cabelos da menina, chorou muito. No dizia o que estava pensando, apenas abraava a filha com muito carinho, enquanto seus pensamentos fervilhavam: Meu 
Deus, obrigada por ter me livrado de tudo aquilo que vi. Obrigada por ter permitido que, quando deixei a Terra, tivesse Renato e meu pai  minha espera. Perdo por 
todas as coisas que disse. Confio hoje na Lei. Sei que ela existe e que  implacvel. Beijou Helena, deixou-a brincando e foi procurar Renato. Quando o encontrou, 
ele estava conversando com outras pessoas. Discutiam sobre o que fariam  noite, quando teriam uma reunio. Ela se aproximou. Ao v-la, ele, sorrindo, perguntou:
- Como est, meu amor? Esteve com Helena?
- Estou bem. Sim, estive com ela, parece que est muito bem.
Preciso falar com voc a respeito do trabalho que Marina disse que encontraria para que eu fizesse.
- Vamos falar com ela?  
- Gostaria muito. Sinto que preciso fazer algo para preencher meu tempo.
Despediram-se das pessoas com quem Renato conversava e foram em busca de Marina. Ela os recebeu com um largo sorriso:
- Como esto? Que bom v-los juntos. Esto precisando de alguma coisa?
- Estou sim. Lembra-se do dia em que disse que iria arrumar algo para eu fazer? Queria saber se j pensou a respeito.
- Estou amadurecendo uma idia, Juliana. D-me mais alguns dias. Acredito que vai gostar muito, tenha s mais um pouco de pacincia.
Juliana sorriu e afastou-se, acompanhada por Renato. Ele disse:
- Tenho de continuar aquela conversa que estava tendo. Esta noite ser muito especial. Quer ficar junto?
- No. No entendo ainda desses assuntos e vou andar um pouco pelo jardim.
Ele a beijou e se afastou. Ela foi para o jardim. Andou um pouco, sentou-se em um banco e olhou  sua volta, pensando: Aqui tudo  to bonito... Respira-se muita 
paz. Todas as pessoas que aqui esto parecem muito felizes. Que bom seria se as pessoas na Terra soubessem como  a vida aps a morte. Talvez no sofressem tanto 
quando um ente querido partisse. Estava assim, presa em seus pensamentos, quando uma senhora se aproximou e se sentou a seu lado, dizendo:
- Tambm est esperando algum? Juliana olhou para ela e respondeu sorrindo:
- No. Estou apenas apreciando tudo.
- Estou j h muito tempo esperando um de meus filhos. Eles me colocaram aqui neste hospital e nunca mais vieram me visitar. No sei o que aconteceu. Em todos os 
outros hospitais em que estive eles sempre vinham, mas neste est sendo diferente.
Juliana percebeu que ela no sabia de sua condio. Notou que aquela senhora estava muito triste, mas no sabia o que falar para ajud-la. Tentou:
- A senhora no deve se preocupar com isso. Eles podem estar com algum problema, mas a senhora me parece muito bem, s est um pouco ansiosa. Precisa fazer algo 
para tomar seu tempo. J sei! Venha comigo.  
Levantou-se e levou a velha senhora at o pavilho onde se encontravam as crianas. Ali chegando, encaminhou-se em direo a uma moa que parecia ser a coordenadora 
do local:
- Ol, Paula, posso falar com voc?
- Ol, Juliana, claro que sim. Est precisando de alguma coisa?
- Estou. E acho que pode me ajudar. Esta senhora est esperando que os filhos a venham visitar. Disse a ela que eles devem estar muito ocupados, mas que ela precisava 
preencher seu tempo para no ficar to ansiosa. Poderia nos ajudar?
Paula entendeu o que Juliana queria fazer. Pensou por um instante e disse:
- Estou precisando exatamente de algum como  senhora. Algumas de nossas crianas esto muito tristes, talvez a senhora possa nos ajudar a fazer com que fiquem 
mais alegres.
- Eu? No sei como faria isso. J estou muito velha.
- Isso no importa. A senhora deve conhecer muitas histrias e brincadeiras de seu tempo. Poder contar histrias e ensinar as brincadeiras.
A mulher pensou por um minuto. Seus olhos brilharam.
- Sim, conheo muitas histrias e brincadeiras. Ser que as crianas gostariam mesmo?
Paula olhou para Juliana e, sorrindo, disse:
- Gostaro, sim, tenho certeza. Obrigada, Juliana, agora ela ficar bem.
Juliana saiu aliviada, deixando Paula acompanhar a mulher. Estava saindo, quando encontrou Marina, que vinha entrando. Ao ver Juliana, disse:
- Est gostando de seu trabalho?
- Trabalho? Que trabalho?
- Voc acabou de encontrar uma soluo para nossa irm Sara. Ela j est aqui h muito tempo, mas at hoje no conseguimos fazer com que realizasse algo. Era muito 
apegada aos filhos, exercia sobre eles total controle. Desde que aqui chegou, no aceita que eles no a venham visitar. Sofre muito por isso. O apego em demasia 
a qualquer coisa traz muito sofrimento. Hoje, voc conseguiu fazer com que ela se interessasse por algo. Parabns.
Juliana olhou para ela, tentando acompanhar o que dizia:
- Est dizendo que fiz um trabalho?
- Sim, e muito importante. Percebi que voc tem muito jeito com pessoas idosas. De hoje em diante, ficar responsvel por todas que aqui chegarem. Que acha?
Juliana lembrou-se de Elvira, de como era boa e carinhosa Respondeu:
- Ficarei muito feliz se conseguir ajudar.
Marina saiu, sorrindo. Juliana ficou olhando para Sara, que agora estava rodeada de crianas. Percebeu que ela falava com muito entusiasmo. No ouvia o que estava 
dizendo, mas, pela expresso das crianas, percebeu que a velha senhora havia encontrado um motivo para ser til, e ela tambm. Daquele dia em diante, ficou encarregada 
de dar boas-vindas a todos os recm-chegados. Aquele trabalho lhe fez muito bem. Enquanto isso, Cssio, que desmaiara de tanto horror, abriu os olhos, olhou  sua 
volta e viu Virgnia a seu lado, rindo, vitoriosa:
- Finalmente, voc acordou. Estive esperando-o neste lugar imundo por muito tempo. Sabia que chegaria a qualquer momento. Fiquei esperando ansiosa. Voc sempre foi 
um idiota! Acreditou que poderia me enganar? Acreditou ser mais esperto que eu? Pois no era e nunca foi! Estou aqui e ficarei para sempre a seu lado. Vou fazer 
voc pagar por ter tirado minha vida.
- No pode ser voc. Est morta!
- E voc tambm! Estamos os dois juntos na mesma jornada, somos cmplices dos mesmos crimes e, por isso, estaremos ligados por muito tempo.
Cssio no queria acreditar. Fechou e abriu os olhos, vrias vezes, para certificar-se de que no estava sonhando. Virgnia ria s gargalhadas, demonstrando, assim, 
sua situao quase de demncia:
- No adianta. Est mesmo morto e estarei a seu lado, atormentando-o para sempre. Juliana, Renato e Helena tambm esto aqui. Voc vai rev-los, a todo o momento, 
como acontece comigo desde que aqui cheguei. Eles no me deixam em paz...
Cssio olhou ao redor novamente e percebeu que o lugar era horrvel. Escuro e lamacento. Ouviu gritos de dor, mas no conseguia ver de onde vinham. Sentiu muito 
medo. 
- Que lugar  este? No quero ficar aqui. Preciso encontrar uma sada.
- No existem sadas. J procurei. Estamos presos aqui para todo o sempre, ou melhor, por toda a eternidade.
- Voc est mentindo! No estou morto. Apesar do veneno, continuo vivo e bem vivo!
- Tambm tive essa impresso quando aqui cheguei, mas aos poucos percebi que havia morrido mesmo. Olhe meu rosto.
Ela virou o rosto para uma pequena fresta de luz e aproximou-se de Cssio, que gritou horrorizado ao ver o rosto de Virgnia descarnado e apodrecido. Saiu correndo 
e gritando. Depois de ter dado alguns passos, tropeou e caiu.  sua frente, apareceram Renato, Juliana e Helena querendo peg-lo. Ele se levantou e continuou correndo, 
na esperana de fugir daquelas figuras que o faziam lembrar-se dos crimes que cometera.
Correu, correu muito. Enquanto corria, encontrava seres feios e horrendos que o queriam pegar tambm. Correu, gritou e tentou se esconder, mas no havia para onde 
ir. Virgnia seguia-o rindo de todo aquele desespero. Deixou que ele tentasse, at se cansar. Ela estava feliz: ele, tanto quanto ela merecia tudo o que estava passando. 
Depois de muito correr e perceber que no adiantava, ele se atirou ao cho e comeou a chorar sem parar. Seu estmago doa, no sabia se de fome ou por causa do 
veneno que havia tomado.
- No posso acreditar que esteja morto. Sinto tantas dores e tanta fome.
-  assim mesmo. Sentir que seu corpo precisa das mesmas coisas que antes, s que no ter como saci-lo. E isso durar por toda a eternidade.
- No! Voc est mentindo! No estou morto. Tudo isto  s um sonho!
Ouviram um estrondo, e uma fumaa espessa tomou conta dos dois. Do meio dela surgiu a imagem de suas vtimas, que se lanavam sobre eles com os rostos crispados 
de dio. Eles comearam novamente a correr para tentar se esconder, mas no conseguiam encontrar um lugar. O horror tomou conta dos dois. A fumaa desapareceu, e 
com ela as imagens. Apavorada, Virgnia chorava muito: 
- Durante o tempo em que estive sozinha, eles nunca apareceram dessa forma. Meu Deus, isso vai durar at quando?
Assustado, Cssio escondia os olhos com as mos.
- Deve existir uma sada. No posso agentar todo esse horror.
Aquele lugar era sempre escuro, por isso eles no viam o tempo passar, no sabiam se era dia ou noite.
Eles viam a todo instante a imagem de Juliana, que sempre surgia chorando e implorando por sua vida e a da filha. Eles escondiam o rosto, horrorizados. O remorso, 
aos poucos, foi tomando conta de seus pensamentos. Aquela imagem que, a princpio, fazia com que eles sentissem medo, agora os fazia sofrer ainda mais, por entenderem, 
finalmente, os crimes cometidos. Um acusava o outro.Por tudo. No conseguiam ficar separados. Quando tentavam se afastar, figuras horrendas apareciam, obrigando-os 
a ficar juntos. Sentiam fome, e se desesperavam ao ver os corpos se descarnando. Os gritos de agonia no paravam. Mais uma vez, as imagens apareceram. Juliana chorava:
- No faam isso! No quero morrer. Vou ser feliz novamente. Deixem minha filha em paz! Ela  s uma criana. Fao tudo o que quiserem. Dou tudo que  meu, mas no 
faam mal para minha filha!
Horrorizados, os cmplices se abraavam e choravam. Tentavam fugir, mas no adiantava: para onde iam, as imagens os perseguiam. Enquanto isso, na fazenda, Elvira 
agora era a dona de tudo. Desde que tomara conhecimento disso, ficou sem saber o que fazer. No entendia nada de lavoura. Sempre fora apenas uma empregada. Criara 
Juliana e Virgnia, apenas isso. Mandou chamar Andr, e ele prontamente atendeu seu pedido:
- A senhora me chamou?
- Sim. Preciso de sua ajuda. Sei que sempre foi o homem de confiana do pai de Juliana, de Renato e, por fim, de Cssio. Com a morte de todos, a fazenda ficou em 
meu nome. Sabe muito bem que no entendo nada do assunto, por isso preciso de sua ajuda.
- No se preocupe: farei o possvel para que nada mude. Pode confiar. Tudo dar certo.  
Realmente tudo deu certo. Ele continuou cuidando da fazenda com muita competncia, como sempre fizera. Elvira, porm, apesar de ser dona de tudo, vivia sempre muito 
triste. Enquanto eu viver, serei dona desta fazenda e de tudo o mais. O que adianta tudo isso? No tenho mais minhas crianas. Por causa disto tudo, crimes aconteceram. 
Para qu? Para qu? Estava assim na varanda pensando, quando viu uma carruagem na estrada de acesso  fazenda. Curiosa, ficou olhando. A carruagem se aproximou, 
parou em frente  escadaria e dela desceu Rogrio. Ao v-lo, ela deu um grito:
- Senhor Rogrio! Senhor Rogrio! Que bom que veio!
Ele, muito nervoso, subiu as escadas correndo e abraou Elvira, que agora chorava muito.
- Como estou feliz por v-lo aqui! Quanto pensei no senhor durante todo esse tempo.
- Vim assim que recebi a carta. No consigo acreditar que Juliana fez aquilo. Por favor, diga que ela no o fez. Onde esto Virgnia e meu primo?
Ela percebeu que ele no sabia o que havia acontecido.
- No, meu filho, ela no o fez. Ela o amava muito, estava feliz esperando sua volta. Assim como voc, nunca acreditei em seu suicdio. Vamos entrar, temos muito 
para conversar.
Ele, mais tranqilo por saber que Juliana no era culpada, acompanhou Elvira. Sentaram-se  mesa que havia na sala. Ela, chorando, contou tudo. Ele a ouvia sem acreditar. 
Seu primo sempre foi para ele um exemplo de bom carter. Por isso, ele o respeitava muito.
- Elvira, no pode ser. Cssio no faria isso. No consigo acreditar no que diz.
- Sei o quanto custa acreditar, mas, infelizmente, aconteceu tudo do modo como lhe contei. Ele e Virgnia tramaram contra a vida de Renato, de Juliana e de Helena, 
tudo por ganncia. De que adiantou? Eles foram embora e tudo continua aqui do mesmo modo.
Os sentimentos de Rogrio eram desencontrados. Ele sentia muito amor e saudade de Juliana; ao mesmo tempo, dio, desiluso e muita decepo em relao a seu primo. 
 - Elvira, diga-me que nada disso aconteceu. Por favor, faa isso. No quero que seja verdade.
Ela se levantou e o abraou. Ele chorava violentamente.
- Infelizmente, no posso fazer isso. Queria do fundo do meu corao, dizer o que me pede. Mas no posso. Aconteceu, realmente. Minhas crianas foram embora. Voltaram 
para Deus.
Ele continuou ali chorando por muito tempo. Depois se levantou e foi para o quarto de Juliana. Entrou. Olhou para tudo. Olhou para a cama, onde haviam sido to felizes. 
Deitou-se sobre ela e chorou, chorou por muito tempo. Novamente, Juliana se lembrou dele e sentiu aquela dor que j havia sentido uma vez. Correu para falar com 
Renato. Encontrou o e contou-lhe o que estava acontecendo. A dor no passava e ficava cada vez mais forte. Foram juntos falar com Marina. Ela ouviu o que Juliana 
tinha para contar. Depois, disse:
- Ele est novamente pensando em voc com muita dor. Precisamos ajud-lo, para que voc mesma no sofra. Vamos at ele. Dem-me suas mos, fechemos os olhos e faamos 
uma orao, pedindo ajuda.
Assim fizeram. Em poucos segundos, estavam na fazenda, dentro do quarto, onde Rogrio chorava. Juliana aproximou-se, colocou a mo no rosto dele e beijou sua testa. 
Marina e Renato colocaram as mos sobre a cabea dos dois. Uma luz branca saiu de suas mos e os envolveu. Juliana dizia:
- Rogrio, meu querido, no precisa sofrer assim. Estou muito bem. Voc tambm dever ficar. Somos filhos de um Deus maior que est sempre ao nosso lado, dando-nos 
todo o amor que tem e que  imenso. Continue sua vida. Voc  bom, por isso nada deve temer...
Ele, que chorava muito, deitado sobre a cama, aos poucos foi se acalmando. Via diante de si o rosto de Juliana sorrindo e falando da felicidade que sentia por t-lo 
encontrado. Sabia agora de toda a maldade que havia sofrido. Foi se acalmando, levantou-se e voltou para a sala acompanhado pelos trs amigos espirituais. Encontrou 
EIvira, que, ainda sentada  mesa, continuava chorando. Ao v-la, Juliana correu para ela e abraou-a com muito carinho.
- Querida EIvira, como estou feliz por rev-la. Voc foi  me que no tive. Criou-me e cuidou de mim sempre com tanto carinho. No chore. No sofra. Estamos, agora, 
eu e Helena muito bem. Ajude Rogrio. Ele, sim, precisa de suas palavras de consolo.
EIvira viu Rogrio se aproximando. Levantou-se e disse, sorrindo:
- Parece que, agora, est melhor, mais calmo. No sei meu filho, mas tenho a sensao de que Juliana e Helena esto muito bem e felizes. Precisamos nos lembrar delas 
com carinho, mas nunca com dor. Demorei muito para entender isso, mas agora, no sei por que, estou sentindo que deve ser assim.
- Eu amei e amo Juliana com todo o meu corao. Pela primeira vez em minha vida acreditei que seria feliz, mas nada disso aconteceu. Por maldade, estamos, hoje, 
separados e de uma maneira sem volta. Como posso aceitar sem me revoltar?
- Devemos confiar na vontade de Deus. Estou feliz que tenha voltado. Enquanto eu viver, serei a nica dona de tudo que pertenceu  menina Juliana. Depois, tudo passar 
para a igreja. Infelizmente, suas posses foram o motivo de tanta ganncia. No sei como cuidar disso. Andr est tomando conta, e muito bem, mas voc  a nica famlia 
de Cssio, por isso acredito que seja quem tem o direito de tomar conta de tudo. Estou velha e logo mais irei me encontrar com minhas crianas.
- No estou entendendo onde est querendo chegar.
- Estou pedindo que fique aqui conosco, que cuide de tudo. 
Rogrio no respondeu no mesmo instante. Saiu da sala, foi at a varanda. Em seu pensamento, a imagem de Juliana voltou a surgir. Reviu-a no dia em que chegou: ele 
embaixo, descendo da carruagem; ela no alto, naquele mesmo lugar em que ele estava agora. Quando a viu, sentiu que ela era a mulher de sua vida. Fechou os olhos. 
Marina, a seu lado, jogava sobre sua cabea luzes coloridas. Juliana ficou encantada com a beleza daquelas luzes. Com um sinal feito com as mos, Marina fez com 
que ela tambm estendesse as mos. Juliana obedeceu e, de suas mos, tambm comearam a sair luzes. Ela no acreditava e comeou a rir. Renato fez o mesmo gesto. 
Rogrio ficou totalmente envolvido por aquelas luzes. Sentindo um bem-estar profundo, voltou para a sala. Chegou junto de Elvira, que o olhava ansiosa para saber 
sua resposta. Ele se sentou em uma cadeira  sua frente e disse:
- Pensei bem, e estou sentindo como se Juliana estivesse aqui, agora, ao nosso lado. Sinto que ela quer que eu permanea aqui. Assim farei. Ficarei e no deixarei 
que nada se destrua. Continuarei vivendo com a certeza de que um dia estarei a seu lado.
- Obrigada, meu filho.  isso mesmo o que estou sentindo. Ela est aqui...
Juliana olhou para Marina, que sorriu e disse:
- Agora est tudo bem. A vida continuar para eles. Os problemas normais da vida surgiro, o que far com que aos poucos se envolvam com outros assuntos e lembrem-se 
cada vez menos de tudo que aconteceu, mas, quando se lembrarem, ser uma saudade boa.
Juliana, abraada a Elvira, disse:
- Como posso perdoar aqueles dois que, alm de fazerem tanto mal  minha famlia, atingiram tambm estes meus dois queridos? No precisavam estar sofrendo assim. 
Nunca poderei perdoar.
Marina apenas sorriu.
- Agora que tudo est bem por aqui, podemos voltar Temos muito trabalho. Vamos embora?
Abraaram-se e pouco depois estavam de volta a seu lar atual. O tempo passou. Juliana e Renato estavam cada vez mais juntos, porm Cssio e Virgnia continuavam 
vivendo o horror que eles mesmos haviam criado para si. Continuavam correndo, escondendo-se, sempre juntos, porque tinham medo de ficar sozinhos. Brigavam muito, 
trocando acusaes e responsabilizando-se um ao outro por toda aquela situao. Corriam de um lado para outro. Sentiam fome, frio. Aos poucos, foram entendendo por 
que estavam ali. Choravam muito e, nessas horas, se abraavam. Em determinado momento, Virgnia falou, quase gritando:
- Cssio, que foi que fizemos? Ns destrumos trs vidas... Por qu? Para qu?
Cssio a ouviu e tambm comeou a chorar, pois percebia agora a inutilidade de tudo.
- Tem razo. Nossa ganncia, nossa covardia nos conduziu at aqui. A fazenda, o dinheiro esto l, no mesmo lugar. Tem razo. O que fizemos? Para qu?
Mais uma vez os cmplices se uniram e se abraaram s que desta vez estavam unidos na dor e no arrependimento. Muito tempo se passou. Cssio e Virgnia no sabiam 
precisar quanto. Viviam escondidos e protegendo-se mutuamente. A inimizade que a princpio existia entre os dois foi se tornando, com o tempo, uma necessidade imperiosa 
de ficarem juntos. Desesperada, Virgnia disse:
- Cssio, deve existir um meio de repararmos todo o mal que fizemos. Minha me sempre dizia que h um Deus bom e generoso que nunca nos abandona e nos perdoa sempre. 
Se for verdade, ele deve estar nos vendo agora. Deve estar vendo o quanto me arrependo de todo o mal que fiz.

PERDIDOS NO VALE

Cssio estranhou as palavras de Virgnia. Sentia que ela estava diferente.
- O que est dizendo? Parece outra pessoa. Virgnia agora chorava desesperada:
- Talvez eu seja mesmo. Sinto muito arrependimento por tudo o que fiz. Se minha me tinha razo, deve existir um Deus. Meu Deus, perdo por todo o mal que pratiquei. 
Hoje, entendo a inutilidade de tudo. Juliana, onde voc est? Onde estiver, oua-me, por favor. Perdo... perdo!
Juliana, embora continuasse trabalhando, s vezes se lembrava dos dois traidores. Nesses momentos, fazia um esforo enorme para no sentir dio, mas, na maioria 
das vezes no conseguia. Naquele dia, conversava com Renato, quando a lembrana de Virgnia chegou com muita fora. Ficou refletindo por um instante e disse:
- Renato, estou pensando muito em Virgnia. Como ser que ela est?
Renato fechou os olhos. Aps alguns minutos, disse:
- No sei, mas se quiser poderemos tentar encontr-la. Voc quer?
- No sei por que, mas hoje estou pensando muito nela e em Cssio tambm. Acredita que possamos realmente ir at eles?
- Iremos descobrir agora mesmo. Venha.
Foram procurar Marina e a encontraram em sua sala, trabalhando, como sempre. Juliana contou a ela o que estava sentindo. Aps ouvi-los, falou calmamente:
- Est bem. Vou falar com alguns amigos e iremos procur-los. Com uma nica condio: no podemos interferir. Apenas veremos como esto. Est bem assim?
Concordaram e saram da sala. Juliana via diante de si Virgnia, no quela que lhe disse todas aquelas coisas horrveis na noite em que a assassinou, mas sim a 
do tempo em que eram crianas e ela estava sempre a seu lado, protegendo-a e ajudando-a.
Aps alguns dias, Marina chamou-os:
- Podemos ir agora, estamos prontos. Vocs tambm esto? Responderam juntos:
- Sim, quando iremos? 
- Agora mesmo. Alguns amigos nos acompanharo. Eles devem chegar dentro de alguns minutos.
Pouco depois, entraram na sala quatro pessoas. Marina os recebeu com um sorriso, dizendo:
- Sejam bem-vindos. Sabem que nossa jornada ser difcil, para isso temos de nos preparar. Vamos dar as mos e pedir ajuda a Deus nosso Pai.
Deram-se as mos, fecharam os olhos, e ela comeou a falar:
- Senhor, meu Pai. Estamos aqui, neste momento, iniciando uma viagem em busca de conhecimento e de nossos irmos, Virgnia e Cssio. Sabemos que ela  longa e perigosa. 
Colocamo-nos em Suas mos, sabendo que nos proteger de todo o mal. Permita Senhor, que, se for possvel, possamos trazer de volta aqueles seus filhos prdigos.
Saram e dirigiram-se ao vale. Quando chegaram, Virgnia e Cssio estavam abraados, ajoelhados. Virgnia dizia:
- Pai de infinita bondade, nunca acreditei muito em sua existncia, mas hoje acredito e sei que  o nico que poder nos perdoar e nos dar uma nova chance. Hoje, 
entendemos toda a extenso de nossos erros. Sabemos da inutilidade de todo o mal que praticamos. No sabemos se poderemos um dia corrigir tudo. Mas, Pai, a nica 
coisa que podemos fazer neste momento  do fundo de nosso corao, pedir perdo. Perdo e perdo. Juliana... Renato... sabemos, tambm, que devem estar em um lugar 
muito bom, pois foram apenas vtimas em nossas mos. Perdo... perdo... perdo...
Ao ouvir aquilo, Juliana gritou:
-  mentira! Ela como sempre, est mentindo! Nunca vou perdoar. Nunca. Nunca!
Marina a abraou:
- Entendo o que est sentindo, mas ela no est mentindo. Se assim fosse, no estaramos aqui com ela. Cristo, quando esteve na Terra, nos ensinou que devemos perdoar 
setenta vezes sete. Quando rezamos o pai-nosso, dizemos:  Perdoai nossas dvidas como perdoamos a nossos devedores . Pense bem. Em suas mos esto esses dois irmos 
que caram, mas que agora buscam, atravs de um arrependimento sincero, um modo de se redimir de todo o mal que praticaram.
Juliana chorava, abraada a Renato, que disse: 
-  isso mesmo, meu amor. Est em nossas mos. Apesar de tudo, hoje, somos felizes. Estamos juntos, trabalhando para nossa evoluo. Eles, ao contrrio, perderam 
uma chance imensa de aproveitar a vida que tiveram para aprender e crescer. Para que continuarmos odiando?
- No sei o que fazer Renato. Eles nos fizeram tanto mal. Mas acredito que tenha razo. Estamos juntos e felizes...
No instante em que Juliana se desarmou, uma luz os envolveu e todos ficaram visveis. Virgnia e Cssio, ao v-los, comearam a chorar, agora com muito mais fora.
- Juliana! Renato! Vocs esto aqui. Obrigada, meu Deus. Perdo... perdo... perdo...
Dessa vez, Juliana ficou realmente emocionada.  sua frente, estavam aqueles dois h quem um dia ela muito amou. No eram nem sombra do que haviam sido. Sujos e 
rasgados, com o rosto descarnado. Ela, por um momento, esqueceu o mal que lhe fizeram, lembrou-se apenas da grande amizade que os unia. Aproximou-se, os abraou 
e disse:
- Eu perdo, acredito que j tenham sofrido muito. Venham conosco, vamos tir-los deste lugar horrvel. Ficaro muito bem. Aprendi que tudo est sempre certo. Quem 
sou eu para julgar? Vamos embora.
Eles choravam muito. Juliana os levantou e olhou para Renato, que, juntamente com os outros, sorria. Uma imensa luz iluminou o caminho por onde todos regressaram.
Farias permanecia sentado, quase caindo da poltrona. Nesse instante, enquanto na tela Juliana levantava os dois, ele, baixinho, com a voz embargada e com lgrimas 
que insistiam em cair, disse:
- Damio, como ela conseguiu nos perdoar? Ns no merecamos perdo. O que fizemos foi terrvel.
Damio fez novamente com que a tela congelasse. Olhou para Farias, dizendo:
- Deus, nosso Pai,  justo e maravilhoso. Concede a todos, pecadores ou no, o direito ao perdo. Abenoa-nos sempre. Sua Lei  implacvel, mas tambm magnnima. 
Ele fica feliz quando v um filho retornando para o caminho do bem, Farias.
- Neste momento, s posso agradecer a Juliana, e muito, muito a Deus e  Sua Lei maravilhosa. 
Damio olhou para Duarte, que permanecia sentado ao lado. Os dois sorriram e a imagem na tela voltou a se movimentar. Cssio e Virgnia foram levados para o hospital. 
Estavam como que alucinados. Mesmo ali, naquele lugar acolhedor, por muitas vezes lembravam ou viam aquelas figuras horrendas que os perseguiram durante tanto tempo. 
Nesses momentos, gritavam e queriam fugir. Juliana, pacientemente, conversava e acalmava os dois. Nesse instante, a tela novamente parou, mas desta vez por ordem 
de Damio. Farias permanecia calado. Damio disse:
- Est tudo terminado, podemos voltar. Sei que agora voc est preparado para dar sua sentena. Aprendeu a usar a Lei. Ela est a para isso mesmo.
- Mas ainda no entendi como Juliana pde se transformar na Mrcia m e mesquinha de hoje. Nem como Virgnia se tornou aquela mulher iluminada.
- Se  assim que deseja, continuemos assistindo.
As imagens recomearam. Farias, agora, olhava tudo com mais ateno. Na tela, apareceu Juliana conversando com Virgnia e Cssio. Ela dizia:
- Estou muito feliz por ver que esto muito bem. Tudo aquilo terminou.
Cssio pegou sua mo e a beijou:
- Devemos tudo isso a seu perdo e amor. Sabemos, agora, que sempre nos amou. Esse amor foi mais forte que o dio, por isso conseguiu esquecer o que lhe fizemos 
e nos perdoou. Voc nunca mudaria. Sempre foi boa e generosa.
- Engana-se. Apesar do perdo que lhes dei, e foi sincero, sinto que nunca mais serei a mesma. Sinto que nunca mais poderei confiar em algum. Venham comigo.
Ela os levou at um grande ptio, onde Helena brincava com outras crianas. Ao v-la, Virgnia e Cssio pararam. No tiveram coragem de se aproximar. Juliana pegou-os 
pela mo e levou-os at ela. Ao v-los, Helena correu com os braos abertos:
- Tia Virgnia! Tio Cssio! Que bom que vieram! Estava com muita saudade.
Virgnia no suportou. Abraou-se  menina e, chorando, beijou-a com muito carinho, enquanto dizia:
- Minha menina! Como est bonita! Tambm pensei muito em voc. Tambm senti muita saudade. Perdo, minha querida... perdo...
- Perdo por qu? Juliana interferiu:
- Titia est pedindo perdo por causa do longo tempo que nos abandonou.
- Isso no faz mal. Agora ela est aqui. E no vai mais embora, no , Virgnia?
- Sim. Vou ficar aqui at quando for possvel.
Cssio tambm se abaixou e a beijou. No pediu perdo em voz alta, mas em pensamento: Perdo, minha querida, perdo.  s isso que posso dizer no momento.
Helena os apresentou s outras crianas que se aproximaram e dizia com orgulho:
- Estes so meus tios. Vieram me visitar.
Virgnia, em poucos minutos, estava contando histrias para as crianas. Juliana pegou na mo de Cssio e se afastaram. Ela disse:
- Agora, ela ficar melhor do que j estava. As crianas tm muito para nos ensinar.
- O que me deixa admirado  ver tantas crianas por aqui, Juliana. Sabemos que o esprito no tem idade, que todos estamos crescendo espiritualmente j h muito 
tempo. O certo seria que as crianas, assim que deixassem o corpo, voltassem a ser adultos.
- No sei responder a isso. Para ser sincera, nunca pensei a respeito. Estou feliz por Helena continuar sendo minha menina. Quando encontrar Marina, vou perguntar. 
Talvez ela possa nos esclarecer, mas isso no tem muita importncia.
Iam saindo, quando encontraram Renato:
- Estava procurando-os. Marina quer lhes falar. Cssio, voc est muito bem. Mas Virgnia, onde est?
Juliana, sorrindo, apontou para Virgnia ao lado de Helena e das outras crianas. Renato sorriu:
- Ela tambm parece que est muito bem.
- Est sim. Ter, agora, a oportunidade de ficar ao lado de Helena e recompensar com seu carinho todo o mal que lhe fez. 
- Fico feliz por isso, mas, agora, vamos conversar com Marina?
Foram at ela, que, como sempre, os recebeu, sorrindo:
- Que bom que vieram! Precisamos conversar a respeito de como esto se sentindo aqui. Juliana, j sei que est muito bem. Preciso saber de voc, Cssio. Como est 
se sentindo?
- Nem sei como dizer. Nunca estive to bem! Sei hoje todo o mal que fiz. Mas sei tambm que Deus  nosso Pai e que me dar uma chance de consertar todo o mal que 
pratiquei. Preciso compensar Juliana, Renato e Helena. S no sei como.
- No se preocupe com isso, tudo tem seu tempo, Cssio. Por enquanto, procure apenas aprender o mximo que puder sobre a Lei.
- Assim farei Marina...
Marina sorriu. Estava se despedindo, quando Juliana disse:
- Marina, antes de irmos embora, queria lhe fazer uma pergunta. Posso?
- Claro que sim. O que quer saber?
- Cssio chamou minha ateno para algo que nunca havia pensado antes. Se todos ns somos espritos antigos, seja renascemos muitas vezes, como podem existir tantas 
crianas aqui?
Com sua tranqilidade de sempre, Marina sorriu, respondendo:
- Tambm estranhei quando aqui cheguei, mas aprendi que a Lei  sbia. Imaginem se, ao acordar aqui, vocs olhassem para um espelho e fossem uma outra pessoa. O 
que sentiriam?
Juliana e Cssio se olharam.
- Muito medo - respondeu Juliana.
- Exatamente. Sentiriam muito medo e no aceitariam a realidade. Por isso, quando regressamos, mantemos sempre a mesma aparncia da ltima encarnao. Aps algum 
tempo, aps entendermos e at relembrarmos de existncias passadas, podemos apresentar a imagem que quisermos. Muitos usam as de outra encarnao, ou continuam com 
a ltima. Algumas das crianas que vieram, assim como Helena, so recm-chegadas. Outras preferiram continuar sendo crianas. Continuaro assim at que queiram mudar. 
A maioria diz que os pais que esto na Terra sempre se lembram delas como crianas, e assim elas recebem com mais facilidade os pensamentos de carinho que eles lhes 
mandam.
- Mas, dessa, maneira, elas tambm recebem com mais facilidade os pensamentos de dor e sofrimento.
- Sim, Juliana. Infelizmente, isso acontece muitas vezes, mas, com o tempo, esses pensamentos de dor e sofrimento vo ficando cada vez mais raros e se transformam 
em pensamentos de amor e saudade, o que faz muito bem a todos, mas, principalmente, s crianas.
- ... a Lei  realmente sbia... mas agora vamos deix-la, sabemos que tem muito trabalho. Vamos?
Despediram-se e saram felizes por mais aquele aprendizado. O tempo foi passando. Cada um comeou a trabalhar em algo que lhe agradava. Virgnia dividia seu tempo 
entre as crianas e os estudos. Ela se modificou completamente. Tinha conscincia do imenso mal que havia feito, sabia ter sido a responsvel pelas mortes de Renato, 
Juliana, Helena. Sabia que, por sua culpa, eles foram obrigados a interromper aquilo que estava programado. Sabia que eles teriam de recomear. A todo instante, 
pedia perdo a Deus e implorava por uma nova oportunidade. Cssio agora fazia parte de uma equipe de socorro para aqueles que regressavam aps terem cometido o suicdio 
e ficado muito tempo nos vales de sofrimentos. Juliana trabalhava no hospital, estando sempre ao lado de todos quando acordassem, dando a eles as primeiras palavras 
de amor e respondendo s muitas perguntas que eles faziam. Em uma manh, ela entrou em um quarto onde sabia que algum havia chegado durante a noite. Abriu a porta 
e entrou lentamente, para no acordar o paciente que ali estava. Assim que se aproximou, quase soltou um grito. Muito feliz, conteve-se. A senhora que ali estava 
aos poucos, foi abrindo os olhos e, assim que viu Juliana, gritou:
- Minha menina! Finalmente a reencontrei. Como estou feliz! Juliana a abraou e beijou seu rosto. Lgrimas corriam s que agora de felicidade.
- Querida Elvira! Tambm estou muito feliz por rev-la. Senti tanta saudade!
Ficaram assim abraadas por muito tempo. A porta se abriu e por ela entraram Renato e Helena. Ao v-los, Elvira correu para abra-los. O reencontro foi s de felicidade 
e muita saudade, pois, enfim, estavam juntos novamente. Para Elvira no foi difcil entender e aceitar sua nova situao, j que estava feliz por se ver novamente 
ao lado daqueles que amara. Aps alguns instantes, uma sombra passou por seus olhos:
- Menina Juliana, onde esto  menina Virgnia e o menino Cssio?
Antes que Juliana respondesse, da porta ouviu-se uma voz:
- Estamos aqui. Eu e Cssio, graas  bondade de nossas vtimas, estamos aqui e felizes por rev-la.
Elvira abriu os braos. Os dois correram para ela, que os abraou com muito carinho.
- Obrigada, meu Deus, por tanta felicidade. Obrigada por trazer meus meninos de volta para Sua companhia.
Agora, estavam todos juntos. Elvira contou a todos o que havia acontecido com a fazenda. Contou do sofrimento de Rogrio, e que agora ele estava bem: casara-se com 
uma boa moa e tinha trs filhos, que muito amava. Elvira foi sempre muito bem tratada por todos. Ficou doente por vrios anos, at que dormiu e, quando acordou, 
estava em frente  Juliana. O reencontro foi feliz para eles ao retornarem. Alguns com sua misso cumprida, como Renato e Elvira. Juliana e Helena deixaram de cumprir 
seu tempo previsto. Virgnia e Cssio fracassaram, mas teriam uma nova chance. Aps a felicidade do reencontro, todos voltaram para suas obrigaes. O trabalho continuou. 
Certo dia foram avisados que Rogrio estava prestes a retornar. E assim aconteceu. Ele voltou e foi recebido por todos. Ao ver Juliana, no suportou e comeou a 
chorar.
- Juliana, voc est viva? Como pode ser? Mas isso no importa, estou feliz por v-la.
- Estou viva, sim. E esperei-o durante todo esse tempo. Seja bem-vindo.
Novamente, a felicidade chegou queles coraes. Rogrio tomou conhecimento de tudo. Cssio aproximou-se: 
- Rogrio, meu primo, no sei como lhe pedir perdo. Entendo, hoje, a imensa responsabilidade que tenho, tanto para com voc quanto para com Juliana e Helena. Peo 
a Deus todos os dias a chance de me redimir desse erro.
Rogrio, a princpio, sentiu muito dio daquele que havia destrudo sua vida. Olhou para Juliana e Renato, e eles apenas sorriram. Ele entendeu.
- Est bem, meu primo. Todos somos passveis de erros. Se Juliana o perdoou, quem sou eu para ir contra sua vontade?
Agora, sim, todos haviam retornado da Terra. A vida continuou. Trabalhavam, estudavam e se preparavam para uma nova chance de aprendizado. Certo dia, Marina mandou 
chamar todos, inclusive Helena.
- J que todos esto aqui, preciso comunicar-lhes que uma nova chance ser dada a todos. Voltaro para a Terra e novamente se encontraro. Aqui, esto vivendo em 
um ambiente de amor, perdoaram-se entre si, mas l  diferente. Com o peso do corpo fsico, o esprito algumas vezes volta a ter sentimentos de vingana. Tero de 
conseguir se perdoar ali tambm. No ser uma tarefa fcil, mas tero todo o auxlio necessrio para que consigam.
Fez uma pequena pausa e continuou:
- Primeiro, ir Elvira. Ela tem ainda um acerto de contas com o passado, por isso ter marido e filhos. Ter a oportunidade de ajudar Juliana. Os prximos sero 
Virgnia e Cssio. Tero a oportunidade de ajudar, proteger e dar a Juliana a condio de perdoar-lhes. Cssio ter novamente de lutar contra o suicdio. Por vrias 
vezes fracassou, vamos torcer para que desta vez consiga. Virgnia ter uma vida difcil, bem diferente da que teve na ltima encarnao. Ter de proteger, amar 
e ajudar Juliana e Helena. Juliana e Rogrio se reencontraro e comearo do momento em que pararam. Helena voltar para Juliana, a quem amar muito. Entenderam? 
Alguma pergunta?
Juliana olhou para Renato e para Marina. Perguntou:
- E Renato? No voltar?  
- No. Ele tem um trabalho muito importante que no pode ser interrompido. Mas estar o tempo todo a seu lado. Sempre que precisar, estar ali.
- Renato, estou com medo. No quero me separar de voc novamente.  - Juliana disse suplicante.
- Sei meu amor, mas  preciso. Voc ter o livre-arbtrio para usar da maneira mais certa. Eu ficarei aqui, ajudando-a em tudo que puder. O trabalho que estou fazendo 
agora  muito importante para minha evoluo. Preciso ajudar um esprito amigo que, em uma de minhas encarnaes, foi minha me, h quem muito amo. No se preocupe, 
estou aqui e estarei a seu lado sempre. Eu a amo. Vamos pedir a Deus que voc consiga voltar vitoriosa e eu consiga ajudar minha me. Assim, seguiremos juntos por 
toda a eternidade.
Ela sabia que ele estava com a razo. Sabia que precisava voltar para encontrar Rogrio e Helena e da seguir ao lado deles para que o programado e interrompido 
fosse cumprido, mas sentia muito medo. Olhou suplicante para Marina.
- Preciso mesmo ir?
Marina sorriu.
- No se preocupe. Nunca estar sozinha. Tenho certeza de que voltar vitoriosa.
A tela ficou toda branca. A sala se iluminou. Damio olhou para Farias, dizendo:
- O resto voc j sabe, Farias. Agora est em suas mos  sentena que deve ser dada a Mrcia.

A SENTENA DE FARIAS

Mrcia continuava adormecida. Marlene ficou o tempo todo sentada em uma poltrona que havia perto da cama. Seguia todos os movimentos da filha. Percebendo que ela 
agora estava calma, saiu do quarto e foi para a sala conversar com Luciana e Marluce. Elas estavam caladas, abismadas e sem entender o que haviam presenciado, mas 
ansiosas para saberem o que estava acontecendo dentro daquele quarto. Assim que viram Marlene se aproximando, correram em sua direo.
- Marlene, como ela est? Que histria foi aquela de ela dizer que  sua filha?
Marlene sorriu.
- Dona Luciana, a senhora pode ficar tranqila: ela agora est muito bem. Est dormindo. Quanto quela histria, precisamos entender que ela estava sob efeito do 
lcool. Mas agora ela parece estar bem. Vocs podem ir embora. Ficarei aqui com ela e sei que, quando acordar, tudo j ter terminado. Confio em Deus. Ele  nosso 
Pai e nunca deixa sozinho, um filho Seu.
- Est bem. Estou percebendo que voc no quer falar sobre esse assunto. Eu respeito. Vou embora tranqila, porque sei que minha amiga est agora em boas mos. Se 
precisar de alguma coisa, basta telefonar e virei em seguida.
- Ela no est em minhas mos. Est nas mos de Deus nosso Pai, que nunca abandona a gente, pecadores ou no. Pode ir tranqila obrigada por tudo e, se precisar, 
eu telefono, sim. Voc tambm, Marluce, v  paz e obrigada por tudo que tem feito por ela at hoje.
Elas saram e Marlene voltou para o quarto. Mrcia continuava dormindo. A seu lado, Lenita estava deitada com os bracinhos sobre ela. Ao v-las daquela maneira, 
Marlene pensou: O que deve ter acontecido no passado com elas, para que hoje sintam uma pela outra tanto amor? Voltou a se sentar na poltrona. Durante o tempo todo, 
permaneceu em viglia. Percebeu que Farias e Gervsio no estavam mais ali. Olhava para a filha, que lhe parecia to frgil, e orava. Meu Deus, Pai supremo de bondade 
e amor. No sei por que tudo isso est acontecendo com minha filha. No sei por que tenho levado uma vida de tanta misria e sofrimento. S sei que  meu Pai muito 
amado e que nunca me abandonou. Permita meu Pai, que minha filha encontre o caminho da paz e da tranqilidade, nem que para isso eu precise continuar longe dela. 
Em Suas mos, entrego nossas vidas. Mrcia dormia tranqila. Ela se via novamente naquele lugar cheio de luz e felicidade. Sonhou com dona Leonor. Ao v-la, Mrcia 
correu para seus braos. Ela a recebeu e carinhosamente disse:
- Minha menina! Estou muito feliz por v-la agora protegida. Entendo que cometeu desatinos, mas sei que sempre foi muito boa e que essa bondade, com as graas de 
Deus, vai aflorar. A Lei  justa e soberana. Estou daqui torcendo para que consiga vencer. 
Marlene, que seguia todos os movimentos de Mrcia, olhava agora para aquele rosto bonito. Percebeu que ela sonhava e sorria. Teve a certeza de que Deus a estava 
protegendo. Mrcia abriu os olhos e viu a seu lado quela senhora envelhecida e humilde. Quis dizer algo, mas no conseguiu. Fraca, pois h muito no se alimentava, 
e por toda a bebida que havia ingerido, fechou os olhos novamente e voltou a dormir. Abraada a Mrcia, Lenita tambm dormia. As duas se encontraram em sonhos. Corriam 
uma para os braos da outra.  medida que se aproximavam, os rostos e as roupas iam se alternando. Viam ora Mrcia e Lenita, ora Juliana e Helena. No importava 
qual aparncia possuam, estavam muito felizes. Encontraram-se e o abrao foi imenso e carinhoso. Na sala de projeo, Farias chorava muito. O arrependimento que 
sentia por tudo o que havia feito como Cssio fazia com que sofresse muito. Damio e Duarte permaneceram calados, sabiam o que ele estava sentindo. Ele havia exigido 
o cumprimento da Lei e agora teria de dar a sentena. Esperaram calados, mas os dois pediam a Deus, com sinceridade, para que aquele irmo fosse iluminado com sua 
luz. Aps ter chorado muito, com lgrimas ainda correndo por seu rosto, Farias disse:
- Quando a conheci, gostei dela. Ensinei tudo o que sabia. Fiz com que se tornasse uma boa profissional. Fiz minha parte. Ela que no aceitou.
- Sabemos de tudo isso. Em relao a ela, voc fez realmente sua parte, mas e com voc mesmo? Fez o certo? Conseguiu fazer com que seu esprito reagisse contra a 
covardia de sempre? Conseguiu enfrentar o suicdio e se livrar dele? Aps assistir a esse filme, entendeu que, embora ela tenha sido um instrumento para lev-lo 
ao desespero, foi tambm o instrumento para que voc conseguisse se superar, buscar e encontrar Deus dentro de si mesmo, e assim vencer? Sentiu-se injustiado. Exigiu 
seu direito  justia da Lei. Exigiu um julgamento para que ela fosse condenada. E agora, o que me diz?
Farias olhava para Damio. Estava ali, diante daquele esprito superior que, exibindo o filme, deu a ele a oportunidade de refletir sobre tudo, muito mais sobre 
a justia daquela Lei que ele entendia agora ser realmente justa.
- Entendo agora por que me fez assistir a esse filme. Quis que eu aprendesse que nunca devemos julgar um irmo, seja em que circunstncia for.
-  isso mesmo. Nosso pior inimigo de hoje pode ter sido um dia nossa maior vtima. Mas agora no deve se preocupar com isso. Est pronto para julg-la. Por ela 
ter se desviado do caminho do bem, est com ela em suas mos. Ela est se destruindo. Cabe a voc deixar que ela continue assim ou tenha a chance de reencontrar 
Rogrio e Helena e recomear de onde parou. Est em suas mos.
- Que preciso fazer? Sinto que tenho para com ela dvidas e que preciso fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ajud-la. S no sei como.
Marlene continuava ali. Percebeu que o quarto se iluminara. Olhou ao redor e viu Damio entrando, acompanhado por Farias e Duarte. No conhecia nenhum deles, mas 
sabia que estavam ali para ajudar a ela e a Mrcia, por isso os recebeu com um sorriso. Damio deixou-se ver exatamente por isso, para que ela soubesse que suas 
preces haviam sido atendidas. Emocionada, Marlene disse:
- Obrigada, meu Deus, por esta viso maravilhosa. Sinto que agora tudo ficar bem.
Damio sorriu e olhou para Farias, que, naquele momento, via diante de si Virgnia. Aproximou-se e, sorrindo, estendeu as mos. Marlene no sabia quem ele era, mas 
sentia que o conhecia e que o amava. Tambm sorrindo, estendeu suas mos. Quando as mos se encontraram, ela sentiu um bem-estar muito grande. Teve a certeza de 
que ele era um amigo muito querido.
- Meu irmo, no sei quando e onde j nos encontramos, s sei que estou muito feliz por v-lo.
- Tambm estou feliz, muito mais por ver que conseguiu realmente vencer. Que Deus, nosso Pai, a proteja.
Marlene, emocionada, sorriu:
- Est aqui para ajudar minha filha? Ela est precisando muito.
- Sou apenas um aprendiz, no sei se poderei ou se saberei como, mas estou aqui para que a Lei e a Justia sejam cumpridas.
Marlene agradeceu. Farias olhou para Damio.
- Realmente, no sei o que fazer. A nica sentena que posso dar  meu pedido de perdo.
Damio olhou para ele e para Marlene, que tambm o olhava encantada.
- A deciso  sua, Farias. Voc tem todo o poder sobre ela. Faa o que seu corao sentir vontade.
Farias olhou para suas mos e percebeu que delas saam raios de luz coloridos. Encantado, olhou para Damio.
- Que  isso, Damio? Que luzes so essas?
- So suas armas para que possa fazer com que a Lei seja cumprida. Poder usar como quiser.
Farias olhava para as mos, para Marlene e ficou sem saber o que fazer. Estava encantado demais com o que via. Marlene sorria tambm encantada ao ver, pela primeira 
vez, em sua frente, um esprito recebendo luz. Sorrindo, disse:
- Que tal jogar essas luzes maravilhosas sobre minha filha, sobre Mrcia? Acredito que ela esteja precisando.
Ele voltou a olhar para Damio e Duarte, que nada disseram, apenas sorriram. Timidamente, bem devagar, ele estendeu as mos sobre a cabea, de Mrcia, que, embora 
estivesse dormindo, fez um leve; movimento e comeou a sorrir. Ele foi lanando luzes por todo o seu corpo. Percebeu que dela tambm saam luzes que iam ao encontro 
das dele. As luzes se misturavam e iam para o alto, envolvendo todo o quarto. As luzes subiam e desciam sobre todos. O espetculo era deslumbrante. Marlene acompanhava 
tudo chorando, mas, desta vez, era de muita emoo. J havia tido muitas vises durante toda a vida, mas nunca uma como aquela. As luzes se espalharam por todo o 
quarto e, aos poucos, foram desaparecendo. As mos de Farias tambm pararam de gerar luz. Ele olhou para Damio.
- Que aconteceu aqui?
- Voc desejou, do fundo do seu corao, um modo de ajud-la. Nesse momento, sem que percebesse, proferiu sua sentena. As luzes vieram do alto, numa clara demonstrao 
da aprovao do que havia decidido.
Marlene, ainda muito emocionada, disse:
- Obrigada, meu Pai, por mais essa graa. Sei que agora tudo vai ficar bem.
Damio olhou para ela, dizendo:
- Estou muito feliz porque, apesar de tudo que lhe acontece, continua ainda com tanta f. Deus a abenoe. Agora, tudo ficar bem. Farias que era o obsessor de Mrcia, 
de hoje em diante ser seu guia espiritual.
Farias retrucou:
- Eu? Como posso ser um guia espiritual? Sou imperfeito. Um suicida!  
- Voc  um esprito que aprendeu muito. Pode e deve ficar ao lado dela, mas desta vez s com a inteno de ajud-la. Acredita que possa fazer isso? Se assim o fizer, 
podero aprender muito um com o outro. S no pode interferir em seu livre-arbtrio.
Farias no sabia o que fazer. Nunca imaginou que um dia pudesse estar ali, ao lado de Mrcia, a quem havia durante tanto tempo odiado.
- No sei se poderei. No sei como fazer. Hoje, sei que tenho uma dvida muito grande para com ela, mas no sei como pagar.
- No se preocupe com isso. Tudo h seu tempo. Continue apenas com essa vontade firme de ajudar, somente isso. Continue ao lado dela, envolva-a sempre com essas 
luzes que sabe hoje possuir e permita que ela, seguindo seu livre-arbtrio e sem sua interferncia, consiga retomar a prpria vida em suas mos. O resto deixe por 
nossa conta.
- Confio em suas palavras. Permanecerei aqui, esperando as bnos do alto.
- Faa isso, meu irmo. Estar contribuindo para o bem estar de Mrcia e, principalmente, para o seu prprio. Agora, tenho de ir, estou a muitas horas fora de meu 
local de trabalho. Fiquem em paz e na confiana de que Deus  nosso Pai infinito. Faa sua parte, no se preocupando com nada mais.
- Ficarei aqui e farei o que souber e me for possvel. Obrigado por tirar a venda de meus olhos.
Damio sorriu e olhou para Marlene, que, encantada, observava tudo.
- Assim como eu, voc precisa voltar a seus afazeres, Marlene. Agora est tudo bem, no precisa se preocupar com nada mais.
- Estou muito emocionada para dizer algo. S posso agradecer em meu nome e no de minha filha. Que Deus continue aumentando sua luz.
Damio, sorrindo, foi desaparecendo, at sumir completamente. Marlene olhou para o lado em que Farias estava, porm no mais o conseguia ver, mas sabia que ele estava 
ali. Olhou tambm para Mrcia, que continuava dormindo ao lado de Lenita. O relgio em cima de um criado-mudo estava marcando onze e quinze. Marlene se acomodou 
melhor na poltrona e, ainda recordando os momentos maravilhosos que havia passado, adormeceu. Dormiu tranqila. Sonhou que estava em um campo muito verde e se via 
correndo, acompanhada por mais dois jovens. Estava muito feliz. Abriu os olhos e percebeu que j amanhecera. Voltou a olhar para o relgio: agora faltavam quinze 
para as sete da manh. Mrcia continuava dormindo ao lado de Lenita. Percebeu que ela permanecia na mesma posio em que estava no momento em que adormeceu. No cho, 
ao lado dos ps da cama, estavam as roupas sujas de bebida que Mrcia vestia quando ela chegou quele apartamento. Levantou-se da poltrona e pegou a sacola que trouxera 
por saber que teria de passar a noite na casa de outra pessoa. Encaminhou-se para o banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes. Voltou para o quarto, pegou as roupas 
de Mrcia, saiu do quarto, desceu a escada. No sabia onde ficava a cozinha e a lavanderia, por isso comeou a abrir as portas para descobrir. S ento pde perceber 
o enorme luxo que existia ali. Encantou-se com tudo, muito mais com a porta de vidro, o jardim e a piscina. Ela venceu realmente. Que ter acontecido para que ficasse 
nessa situao to deprimente? Encontrou, finalmente, a cozinha e, logo atrs, a lavanderia. Colocou as roupas sobre a mquina de lavar e voltou para a cozinha. 
Procurou e encontrou o p de caf e colocou gua para ferver. Em poucos minutos, estava sentada  mesa, tomando seu caf. Ser que tudo aquilo aconteceu realmente? 
Quanta beleza! A cada dia tenho mais certeza de que Deus existe e est ao nosso lado em todos os momentos. Terminou de tomar o caf, voltou para o quarto de Mrcia 
e chamou baixinho por Lenita. A menina abriu os olhos. Marlene fez um sinal com os dedos para que ela no falasse nada e no acordasse Mrcia. Lenita entendeu. Olhou 
para Mrcia, sorriu e se levantou. Marlene pegou em sua mo e a levou para fora do quarto. J l fora e sem que Mrcia as pudesse ouvir, disse:
- Precisamos ir embora. Vov tem de trabalhar e voc precisa ir para a escola  tarde. Lave o rosto e escove os dentes. Assim que Marluce chegar, iremos.
- Eu no queria ir embora. Queria ficar aqui com ela. Viu como  bonita, vov?
-  muito bonita, sim, mas no podemos ficar aqui. A vida dela  muito diferente da nossa.
Tristemente, a menina ouviu o que a av disse, lavou o rosto e escovou os dentes. As duas, em seguida, se dirigiram at a cozinha. Marlene abriu a geladeira, pegou 
leite e serviu para a menina com algumas bolachas. Estavam ali quando Marluce chegou.
- Bom-dia. A senhora est a? Como dona Mrcia est? Passou bem  noite?
- Bom-dia. Ela est muito bem e dormiu tranqilamente. Lenita est terminando de tomar o leite e a gente vai embora.
- Tem certeza de que ela est bem mesmo? Acha que vou poder ficar com ela sozinha? Estou com medo...
- No se preocupe, ela agora est bem e ficar ainda melhor. Talvez no se lembre do que aconteceu aqui, mas, se perguntar se havia algum com ela, diga que somente 
havia dona Luciana. No diga que estive aqui, isso no faria bem a ela.
- Tem certeza do que est dizendo?  mesmo me dela?
- Tenho certeza, sim, e no sou me dela. Ela estava embriagada e no sabia o que dizia. No ser bom para ela saber que mais algum a viu naquela situao. Ela 
precisa esquecer o que aconteceu e retomar sua vida. Por isso, no quero que saiba que uma pessoa estranha acompanhou tudo. S isso.  
- Est bem. Se achar que assim ser melhor, farei. Marlene sorriu. Lenita terminou de tomar o leite. Marlene pegou a menina pela mo e as duas saram.
J na rua, enquanto se dirigiam ao ponto de nibus, Marlene pensava: Permita meu Pai, que ela realmente encontre seu caminho de volta. Por tudo que presenciei, sei 
que ela est protegida.  s isso o que desejo. Vou continuar minha vida. No tenho riquezas na Terra, tenho at uma vida muito difcil, mas esses momentos de vises 
maravilhosas, como aquela que tive, fazem com que eu tenha foras para continuar. Sei que tudo que estou passando tem um motivo maior. Permita que eu continue aprendendo 
atravs da vida. Agora, vou telefonar para dona Luciana e pedir-lhe que no conte nada do que aconteceu. Mrcia no pode saber que estive em sua casa. Ela nunca 
ia me perdoar. Assim que Marlene saiu, Mrcia abriu os olhos. Sentia-se muito bem, como se houvesse dormido por muito tempo. Lembrava-se de alguma coisa a respeito 
do dia anterior. Lembrou-se de ter visto Luciana. Mas no havia s Luciana... minha me esteve aqui? Lenita tambm? Eu as vi, tenho certeza... Levantou-se e foi 
at o banheiro. Lembrou-se de Lenita: Ela  to linda! Sei que a vi. Ser que sonhei? Vou perguntar a Marluce. Colocou a banheira para encher. Precisava de um banho 
tranqilizante. Enquanto a banheira enchia, voltou para o quarto. Estava tudo em ordem, mas sabia que algo havia acontecido. Voltou a lembrar-se de Ronaldo: Onde 
ser que ele est? Sinto que o perdi para sempre. Como ser minha vida sem ele? Comeou a entrar em desespero novamente. Farias acompanhava todos os seus movimentos. 
Ao perceber que ela se descontrolava, timidamente estendeu sobre ela suas mos, as quais comearam a emitir luzes que envolviam Mrcia, fazendo-a, aos poucos, sentir-se 
muito bem. Farias muito mais que qualquer outra pessoa, encantava-se com suas mos. Sentiu uma felicidade indescritvel. Estas luzes esto saindo mesmo de minhas 
mos. Realmente, eu as ganhei. Obrigado, meu Pai. Vou ajudar Juliana. Ela vai conseguir vencer. Estarei aqui a seu lado, at que consiga reencontrar seu caminho. 
Mrcia voltou para o banheiro. A banheira j estava quase cheia. Pegou alguns sais e jogou dentro dela, apertou um boto e uma espuma comeou a se formar. Entrou, 
acomodou a cabea e fechou os olhos. A lembrana de Lenita voltou. Ela  to querida. Preciso encontrar um meio de ajud-la. Preciso voltar ao trabalho. J perdi 
muito tempo. Nunca mais colocarei uma bebida em minha boca. Tenho tentado me colocar como vtima, mas sei que tive inteno de prejudicar Osvaldo por simples orgulho 
ferido. Sei, tambm, que fui avisada para no tomar aquela atitude e que a cobrana viria. Preciso aceitar que perdi Ronaldo por minha prpria culpa. Preciso aceitar 
que o que desejei para Osvaldo e sua mulher voltou-se contra mim. Ficou l por muito tempo, at comear a sentir frio. Levantou-se, abriu o chuveiro e deixou a gua 
cair, sem fazer um movimento sequer. A gua caa por seu corpo e ela sentia que todos os pensamentos ruins estavam indo embora pelo ralo. Terminou de tomar banho 
e voltou para o quarto. Colocou uma cala e uma camiseta e foi em busca de Marluce. Sabia que ela tinha muita coisa para lhe contar. Ao passar pela sala, percebeu 
que tudo estava em ordem. S seu tapete no estava mais ali. Tentou lembrar o que havia acontecido, mas no conseguia. Lembrava-se vagamente de ter bebido, nada 
mais. Foi at a cozinha. Marluce estava na lavanderia, colocando algumas roupas para lavar. Ela se aproximou:
- Bom-dia, Marluce.
Marluce se voltou:
- Bom dia, dona Mrcia. A senhora est bem?
- Por que no estaria? Aconteceu alguma coisa?
- No. No aconteceu nada. S que a senhora ontem no estava muito bem.
- Muito bem como? Que aconteceu? Eu bebi muito, no foi?
- Foi. A senhora bebeu muito e eu fiquei assustada. Tem de me desculpar, mas, sem saber o que fazer, chamei dona Luciana.
- Luciana? Ento ela esteve mesmo aqui?
- Esteve, sim, e ajudou muito.
- Quem mais esteve aqui?
Marluce pensou nas palavras de Marlene e disse:
- Mais ningum. S dona Luciana.
- Tem certeza disso? No veio uma senhora e uma menina muito bonita?
- No, no veio mais ningum, s dona Luciana.
- Tem certeza?
- Tenho, sim. S dona Luciana.
- Est bem. Devo ter sonhado. Pode me servir o caf na sala. 
Saiu da cozinha e foi para a sala. A mesa do caf estava posta, com pes, doces e frutas. Enquanto esperava Marluce trazer o caf com o leite, ela comeou a comer 
um mamo e a pensar em sua vida: Sinto que no devo lutar mais para que Ronaldo volte. Tenho de me conformar com o fato de que o perdi. Se continuar insistindo, 
vou me destruir. Marluce entrou, trazendo o caf e o leite, e estava terminando de coloc-los na mesa quando o telefone tocou. Olhou para Mrcia, que disse:
- No estou para ningum. Se for Luciana, diga que estou tomando banho e que mais tarde eu telefono.
Marluce atendeu:
- Al. Quem ? Quem? Senhor Ronaldo?
Ao ouvir aquilo, Mrcia deixou a xcara cair. Seu corpo comeou a tremer. Ela, desesperada, levantou-se e tirou o telefone das mos de Marluce:
- Al. Al, Ronaldo!  voc mesmo?
- Sou eu, sim, Mrcia. Como voc est?
- Estou bem. Mas e voc, onde est?
- Estou aqui no Rio de Janeiro, e no suporto mais a saudade. No adianta, eu te amo. Vou voltar e iremos at um mdico descobrir o que foi que aconteceu. Se me 
aceitar novamente, hoje  noite estarei a e serei o homem mais feliz do mundo. Voc aceita?
- Claro que sim. Claro que sim! Eu te amo. Volte logo. Ele desligou, e ela continuou com o telefone na mo, no sabendo se ria ou chorava.
- Marluce, ele vai voltar. Vai voltar! Sou a mulher mais feliz deste mundo!
Marluce ria por ver Mrcia to feliz. Farias tambm estava ali e no conseguia acreditar que estava feliz por ver a felicidade dela. Mrcia saiu da sala sem terminar 
de tomar o caf. Foi para a porta de vidro, olhou para fora: o dia estava lindo. Abriu a porta e jogou-se na piscina com roupa e tudo. Ficou nadando por quase uma 
hora. Sentia-se outra pessoa, nada igual  que havia sido at agora. Saiu da piscina, sentou-se em uma cadeira e ficou olhando para as nuvens brancas que passavam 
e formavam imagens. H quanto tempo no olho para o cu? Acho que desde criana... mas agora estou muito feliz. Acredito at que aquele Deus, que minha me sempre 
disse existir, exista mesmo. Minha me? Por que me lembrar dela em um momento to importante em minha vida? Seu rosto crispou-se, e aquela luz de felicidade que 
fazia seus olhos brilharem desapareceu. Por que me lembrar dela agora? Ronaldo vai voltar. Tenho de ter meus pensamentos voltados s para ele. E se aquela coisa 
horrvel voltar a acontecer? Se ele for embora novamente? No suportarei. Farias percebeu que ela estava novamente sentindo muito medo. Mais uma vez olhou para suas 
mos e as colocou em direo  cabea de Mrcia. As luzes voltaram a envolv-la. Ela voltou a pensar em sua me e em Lenita. A simples lembrana da menina fazia 
com que ela ficasse mais calma. No posso pensar nelas agora. Ronaldo vai voltar hoje  noite, preciso me preparar para receb-lo. Se aquele cheiro horrvel voltar, 
iremos a um mdico. Ronaldo me ama, e isso  o que importa. Levantou-se da cadeira, e suas roupas ainda estavam molhadas. Correu para seu quarto, trocou-se e saiu 
para a rua. L fora, o sol brilhava, estava um dia quente. Foi at uma loja, precisava comprar um vestido novo. Queria estar linda naquela noite. Foi a um cabeleireiro. 
Eram seis horas quando retornou ao apartamento. Marluce j havia ido embora. Entrou e olhou tudo para ver se estava em ordem. Tudo perfeito. Hoje, voltarei a viver! 
Sobre a mesa do telefone havia um bilhete. Nele, Marluce dizia que Luciana havia telefonado e que ela lhe dissera que Mrcia estava muito bem. Carregando os pacotes, 
Mrcia foi para seu quarto. Arrumou-se e ficou esperando. Ronaldo no telefonou mais, mas ela sabia que ele viria. Recomeariam de onde pararam e seriam felizes 
para sempre. Ela olhava para o relgio. Parecia que o tempo havia parado os ponteiros no se movimentavam. s oito horas, o interfone tocou. Era o porteiro do prdio, 
avisando que Ronaldo estava ali. Mrcia, gaguejando, pediu-lhe que o mandasse subir. A campainha tocou. Ela, tremendo e muito emocionada, abriu a porta. Ele estava 
ali em sua frente. Os olhos se encontraram, os dois tremiam sem saber o que falar. Ficaram assim, por alguns segundos, apenas se olhando, sem nada dizer ou fazer. 
Ele abriu os braos, ela se aninhou, e chorando se abraaram e se beijaram com muito amor, carinho e saudade. Entraram abraados. Sentaram-se em um sof. Os dois, 
calados, apenas se olhavam. Queriam se amar, um desejava o outro desesperadamente, mas sentiam muito medo. Aquele momento estava sendo to mgico, tinham medo de 
que tudo terminasse. No havia cheiro algum, mas, mesmo assim, quase no falavam apenas se olhavam. Ronaldo tirou do bolso uma caixinha e deu a ela.
- Abra, espero que goste. 
Ela a abriu e ficou encantada, ao ver o lindo anel que havia dentro, de ouro branco com um brilhante muito grande.
-  lindo! Maravilhoso! Eu te amo muito.
Colocou o anel no dedo, estendeu o brao e ficou movimentando-o para ver o brilho. Seus olhos reluziam de felicidade. Sem saber por que, lembrou-se de sua me e 
de Lenita. Tentou espantar aquele pensamento, mas no conseguiu. Tomou coragem e disse:
- Meu amor, estou feliz por ter voltado. Sem voc, quase enlouqueci, mas todo o meu sofrimento me fez refletir sobre minha vida, sobre tudo o que fiz de certo e 
de errado. No podemos recomear se eu no for absolutamente sincera, sem que haja mentiras. Vou te contar uma histria, espero que tenha pacincia para ouvir. Aps 
saber toda a verdade, se ainda quiser, aceitarei este lindo anel e ficarei com voc para o resto de minha vida.
- Acredita mesmo ser necessrio?
- Sim. Se eu for recomear minha vida a seu lado, tem de ser com meu corao livre de todos os meus erros. S conseguirei viver feliz com voc aps ter lhe contado 
tudo. S assim poderemos ser felizes realmente.
Comeou a contar tudo, desde o incio, quando saiu de sua casa e foi morar com dona Leonor. Contou tudo, inclusive o que havia feito com Osvaldo. Ele ouviu sem deixar 
transparecer em seu rosto o que sentia. Embora estivesse com medo de sua reao, ela no parou de falar. Farias, ao lado, ouvia tudo. Em determinado momento, ela 
disse:
- Tive um amigo, seu nome era Farias. Ele me ensinou tudo sobre minha profisso, gostava de mim como se fosse uma filha. Eu, tomada pela inveja e pela ganncia, 
o chantageei e o levei ao suicdio. Hoje, aps tudo que passei, reconheo o mal que fiz. No sei o que acontece aps a morte, mas, se ele conseguir me ouvir, quero 
que receba meu pedido de perdo. Estou muito arrependida.
Dos olhos de Farias, lgrimas corriam. Uma luz invadiu a sala. Ele olhou para trs e l estava Damio.
- Chegou  hora, meu irmo. O que responde a ela? Farias estendeu as mos sobre a cabea de Mrcia e novamente as luzes apareceram. Chorando, disse:
- Querida Juliana, querida Mrcia... sou eu quem tem de pedir perdo. Naquilo que depender de mim, voc ser muito feliz. Que Deus nos abenoe.
Olhou para Damio, que tambm jogava luzes sobre o casal enquanto dizia para Mrcia:
- Meus parabns, meu amor. Voc conseguiu vencer seu orgulho e revolta. Seja feliz. Estarei esperando-a.
Para surpresa de Farias, ele foi se transformando e surgiu Renato.
- Damio... Renato... Damio, voc  Renato? O que est fazendo naquele vale horrvel?
- Sim, sou Renato. Quando soube que voc e Virgnia se encontravam no vale, pedi permisso e fui para l, juntamente com Juliana, Marina e outros amigos. Precisava 
ajudar de alguma maneira, os dois companheiros de jornada que haviam se perdido no caminho. Aps vocs regressarem como Farias e Marlene, pedi para ficar no vale, 
pois senti que l poderia ajudar muitos irmos. Fiquei l por todo o tempo em que estiveram na Terra. Para minha surpresa, voc voltou para o vale. Pedi a Gervsio 
que ficasse observando-o, at que percebesse ser a hora de traz-lo  minha presena.
- Est me dizendo que foi para l aquela vez apenas para nos ajudar, eu e Virgnia? Seus inimigos? Seus assassinos?
- No. Fui ajudar dois irmos. Jesus nos ensinou a perdoar sempre e a ajudar nossos inimigos, porque ajudar um amigo sempre  muito fcil. Estou feliz ao ver que 
todos ns, agora, estamos no caminho certo.
- Vai continuar no vale?
- Sim. Ali  meu lugar, at que Juliana volte.
- No entendo, mas posso lhe fazer um pedido?
- Claro. Estou aqui para ajudar.
- Agora que tudo parece estar bem com Juliana, Virgnia e a pequena Helena, acredito que no terei muito para fazer aqui. Posso ir com voc e trabalhar ao lado de 
Gervsio, ajudando os irmos que queiram encontrar a Lei?  
 - Voc quer ir viver ali? Logo voc, que tanto odiava aquele vale? No estou entendendo. Poder agora ser encaminhado para um lugar muito bom, onde viver feliz, 
aprendendo e preparando-se para uma nova encarnao.
- Talvez tenha razo, mas  meu desejo. Se voc foi viver l por minha culpa, por que no posso fazer o mesmo por desconhecidos?
- Claro que pode. O esprito  livre, pode fazer o que quiser. Garanto-lhe que ali existe muito trabalho. Aqui est tudo bem, podemos ir embora. Vamos?
Aps contar toda a sua vida a Ronaldo, Mrcia permaneceu em silncio, com a cabea baixa e chorando baixinho. Ronaldo ficou em silncio por alguns instantes. Levantou 
a cabea de Mrcia, olhou bem em seus olhos e disse:
- Entendo o quanto foi difcil para voc me contar tudo isso. No posso dizer que voc no errou, mas eu te amo o suficiente para esquecer essa Mrcia ruim e calculista. 
Pretendo amar, e muito, esta Mrcia que est aqui em minha frente. Eu te amo. Nosso amor ser mais forte que tudo. Juntos, venceremos qualquer obstculo.
Segurando seu queixo, Ronaldo, trouxe os lbios dela, para junto dos dele e beijou-a com muita paixo. Ela correspondeu quele beijo com todo o amor que sentia. 
Assim, abraados e aos beijos, foram para o quarto. Amaram-se com intensidade e nada de ruim aconteceu. Quando tudo terminou, ela, ainda deitada em seus braos, 
disse:
- Foi tudo perfeito. Embora no soubesse, acredito que, com minha confisso, todo o mal foi afastado.
- Sim, meu amor. Graas a sua confisso e nosso grande amor.
- Nunca mais vamos nos separar.
Naquela noite ele no foi embora. Ficaram juntos a noite toda. Sentiam medo de se afastar. Pela manh, ele se despediu. Havia ficado muitos dias longe de seu trabalho. 
Ela, feliz, continuou deitada. Mais tarde, levantou-se. Pegou o telefone e ligou para o escritrio. Falou com o doutor Fernando, dizendo que se sentia muito bem 
e que no dia seguinte voltaria ao trabalho. Ele, muito feliz, respondeu:  
- Espero que volte mesmo. Estamos sentindo muito sua falta. Isto aqui, desde que deixou de vir, virou uma baguna.
Ela desligou o telefone. Tinha conscincia da profissional que sempre fora. Isso, para ela, no tinha mais o menor valor. Sabia tambm que, sem o amor de Ronaldo, 
nada teria importncia em sua vida. Voltaria ao trabalho porque aquilo tambm era um pedao dela, mas no faria mais nada com o objetivo exclusivo de receber promoes. 
Simplesmente, continuaria dando tudo de si pela empresa, fazendo, assim, jus ao dinheiro que recebia. Foi at a piscina e sentou-se em uma cadeira. Depois, levantou-se 
e foi at a grade que rodeava a rea da piscina e, de onde podia ver toda a cidade do alto. Respirou fundo. Como esta cidade  linda! Vou sair e andar sem destino. 
Foi exatamente o que fez. Vestiu-se, pegou o carro e saiu dirigindo, sem destino. Lembrou-se do parque onde havia conhecido Ronaldo e foi para l. Estacionou e foi 
andando at o banco onde estava sentada no dia que ele passou correndo. Sorrindo, pensou: Naquele dia, minha vida comeou a mudar. Hoje sou a mulher mais feliz do 
mundo!

EPLOGO

Marlene trabalhou o dia inteiro na casa de dona Silvia. Estava feliz por saber que Clarice e Osvaldo viviam muito bem e que esperavam o terceiro filho. No nibus, 
voltando para casa, ia pensando: Como foi bom ter encontrado minha filha! No agentava a agonia de no saber por onde andava e o que tinha feito com sua vida. Hoje, 
sei que ela est no caminho e que conseguiu tudo o que quis na vida... que Deus a proteja... Chegou, finalmente, em casa. Desde que perdera o barraco no incndio, 
morava em um quartinho que havia nos fundos da casa de uma amiga. O quarto era pequeno, mas o aluguel tambm era barato, o que ela conseguia pagar. Entrou no quintal 
e foi at os fundos. A porta estava aberta, mas no se admirou, porque Lenita sempre a deixava assim, enquanto a av no chegasse. Chegou  porta. Parou, no conseguiu 
entrar.
- Entre, mame, estamos esperando pela senhora.
- Mrcia! Voc aqui? O que quer? Sei que gosta muito de Lenita. Veio tirar ela de mim?
- Se assim fosse, a senhora a daria para mim?
Ainda da porta, sem coragem de entrar, Marlene respondeu:
- Essa menina  tudo o que tenho na vida. Eu a amo de todo o meu corao, mas voc sabe como ela  doente. Precisa de tratamento e cuidados. Com muita dor em meu 
corao, digo: se quiser, pode levar ela com voc. Se ela continuar comigo, talvez morra antes do tempo. Sei que voc tem condies de dar tudo que ela precisa para 
ter uma vida feliz.
- Como sempre, a senhora tem razo e muita sabedoria. Amei essa menina desde a primeira vez que a vi. Posso, sim, dar a ela tudo o que precisa. A meu lado, ter 
um bom tratamento e uma boa alimentao, alm de estudo. Ter tudo isso, menos um amor igual ao seu. No foi para isso que vim at aqui.
- Ento, foi para qu?
Com lgrimas nos olhos, Mrcia abriu os braos:
- Vim aqui para lhe pedir perdo por tudo que a fiz sofrer.
Marlene continuava petrificada. Parada na entrada, ao ver sua filha estendendo-lhe os braos, tomada de muita emoo, abriu tambm os seus, deu dois passos e se 
encontraram em um abrao que j devia ter sido dado h muito tempo. Ficaram abraadas por um longo perodo. Lenita, que at aquele momento estivera no colo de Mrcia, 
sorria e pulava de felicidade. S quando se separaram foi que Marlene viu o belo rapaz que tambm estava ali. Mrcia se deu conta de que no o havia apresentado.
- Mame, este  Ronaldo. Vamos nos casar e queremos que v ao nosso casamento.
- No posso minha filha. Ele parece ser um moo muito fino e educado, de boa famlia. Eu sou humilde, quase sem educao. No posso aparecer em seu casamento. Estou 
contente por te ver feliz.
Ronaldo se aproximou, pegou suas mos e as beijou.
- Conheo muito pouco a seu respeito, mas j foi o suficiente para saber que  uma grande mulher. Vai, sim, ao nosso casamento, e ficar no altar com meus pais. 
Eles a recebero com muito carinho e respeito. E mais: a partir de hoje, agora mesmo, as duas iro conosco. Passaro a viver ao nosso lado.
Marlene no acreditava no que estava ouvindo.
- Fico muito feliz por ver que minha filha, alm de encontrar um homem muito bonito, encontrou tambm algum de bom corao. Obrigada por seu convite, mas no posso 
ir morar com vocs. Esto se casando agora e vo querer ter uma vida a dois.
- Realmente, a senhora tem razo. Vamos querer ficar juntos, mas ao lado do apartamento de Mrcia h um outro que est  venda. Ns o compraremos, e a senhora e 
esta menina bonita tero uma outra vida. S assim poderemos ser felizes.
Marlene olhou para os dois, que a olhavam ansiosos.
- Por favor, mame. Quero ficar ao lado de vocs. A senhora j trabalhou e sofreu muito nesta vida. Poder, agora, descansar.
- No posso parar de trabalhar. Como viverei sem trabalho? 
- No se preocupe com isso. Pretendo ter filhos, e quem vai me ajudar a cuidar deles? 
Marlene sorriu. Abraou e foi abraada. Renato, Elvira e Farias tambm estavam ali. Renato, sorrindo, disse: 
- Agora podemos ir embora. Esto no momento exato em que foram interrompidos. A Lei  assim: por mais voltas que d, sempre atinge seu objetivo. Pecamos a Deus que 
nos abenoe a todos.
- Damio... desculpe, mas prefiro te chamar assim... posso fazer uma ltima coisa antes de irmos embora? 
- Claro que pode. O que ? 
Farias estendeu as mos e sorriu enquanto via as luzes que saam delas sendo lanadas sobre todos os presentes. Aquele quarto humilde ficou todo iluminado. Marlene, 
ao ver a luz, disse:
- Obrigada, meus amigos, e que Deus os abenoe...



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